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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

No rio Vizela aos barbos (com batata frita)

João-Afonso Machado, 23.09.22

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É uma prática habitual, chegando a águas fluviais desconhecidas, uma mirada (- Boas tardes, então isso sai?... -) nos pescadores locais e deles a colheita dos apontamentos próprios sobre as especificidades do rio,  só para não ter de inventar.

Em Vizela, por exemplo, os barbos - e há-os grandalhões! - gostam de batata frita. Claro, não da batata frita de pacote. Antes da batata frita em palitos, aquela que usualmente acompanha o bife e o ovo respectivo a cavalo.

Confrontado com tal realidade, saudoso de pescarias e dos barbos, urgia recorrer à cozinha do hotel e humildemente esmolar um punhadinho de batatas fritas. Logo o atenciosíssimo pessoal de serviço (um deles andara no alto mar à pesca) prometeu para o dia seguinte frescas, cheirosas e... crocantes batatas fritas, para melhor se segurarem no anzol.

Assim foi e, pelo meio da tarde seguinte, não sem uma pontinha de emoção e as batatinhas num saco (acomodadas em guardanapo de papel), a cana telescópica truteira (4 metros) tornou à luz do dia, atrelou o Mitchell - o  rei dos carretos, uma maravilha, - uma boiazita pequena e um anzol mínimo e lançou-se nas águas corredouras do Vizela. Com uma lasquinha de batata frita no pico afiado onde o peixe se perde quando abre a boca.

O curso aquático estreitava entre duas pedras grandes, o caudal acelerava e precipitava-se, a profundidade era pouca. Mas, afiançavam os nativos, os barbos andavam ali.

Uma insistente ruptura dos ligamentos no pé direito ajudou muito pouco. O trambolhão na margem esteve iminente, não fora o tronco de árvore e o braço esquerdo agarrado a ele com desespero. Sucederam-se os lançamentos, a boia em rafting alucinante nos rápidos ribeirinhos, sossegando depois, já na zona onde o peixe era espectável. E quando ela afundou, parecia um torpedo, nada a enganar: o esticão, o nylon tenso, o peixe a rabiar já preso ao anzol escondido na batata frita. Era uma boga de dimensões consideráveis.

O mal estava todo no pé cansado e já dorido. A perturbar a pontaria nos lançamentos e o vaivém à saquinha das batatas fritas quando o peixe, mais lesto, roubava o isco sem se ferrar. Ainda assim não demorou outra boga, esta mais pequenota.

Por fim, o pedaço feliz da abençoada batata frita. Bem cravada no anzol e a linha no sítio ideal do troço de rio, já o sol fugia a escurecer as águas. O toque na boia foi firme. O esticão também. Havia força do lado de lá, num instante a cana dobrou a ponteira e o peixe circuitou contra a corrente procurando refúgio na margem. Trabalhou a manivela do Mitchell e o bicho veio a riba. Era um benquisto barbo, ainda jovenzito.

Retrato tirado, foi devolvido à vida. O pé direito doía que se fartava. Assim sendo... ficou o registo e o desejo enorme da próxima Primavera.

 

Desafio Arte e inspiração|Uma Mãe

João-Afonso Machado, 21.09.22

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Ser mãe é dar o peito. Dar a vida que escorre de si. E ser avó também. Ser mulher completa, enfim. Com a descendência em seu redor.

Isto me disseram tantas idosas, por aldeias mil que percorri. Num tal equilíbrio  de que saí convencido. Muito antes e além da arte pictórica e de um modo que já não volta atrás.

Foi quando esbarrei nas feições de Mary Cassat posta nos antípodas dessa crença.

Nada tinha a ver com a minha Mãe. A minha jovem mãe oscilante era mentira e não tratava das unhas quando os filhos se encostavam ao seu colo. Felizmente, a minha Mãe, ainda jovem, separava as águas e a sua prole, que foi muita, tinha o momento maior, as unhas da Mãe o remanescente. A Mãe jamais oscilou.

O expressionismo é a expressão dos sentimentos. Daqui à Moral é um passada miníma. E eu não diatribo sobre moralidade. Resta-me a manifestação de um quadro tão bonito quão triste, que felizmente não vivi. Mary Cassatt, onde estiver, saberá da sua vida. Ocupo-me mais reflectindo a vida da Mãe. Dela resultou um bonito retrato posto em destaque na nossa sala; e o seu ombro, o seu ombro querido no qual adormeci tantos serões antes de ir para a cama - esse ombro era só nosso, então, não da costura ou de outros afazeres.

Nem mesmo o palco de olhares no vácuo...

Tudo dito, Mary Cassatt, a Jovem Mãe Oscilante,  é dotada da arte da pintura. Mas será, sobretudo, uma curiosa referência psicanalítica. E isso resulta dela própria, do seu quadro guardado na História.

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(https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/o-quadro-desta-semana-e-558018)

 

Desafio 52 semanas - 38|A verdadeira trilogia

João-Afonso Machado, 19.09.22

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Algo correu mal, sem dúvida alguma, foi aselhice minha. O completo fracasso comunicativo! Eu só queria para os meus filhos a liberdade, a independência e a coerência. O mais pertence ao domínio da Moral, que me parece prudente seja nas suas relações com os outros que vão descobrindo. Mas as bases da personalidade - estruturada ou vilã - fundam-se totalmente nessa sagrada trilogia - liberdade, independência, coerência.

E a minha aflição - ele há salpicos de sangue fatais... - era já a desoriginal mania da originalidade, a pacóvia vontade de ser diferente, isto é copiar os tais "diferentes", - ditos "alternativos" - essa escravidão.

Essa perda de liberdade, essa incoerência de vida feita de uma monumental tolice de pretensas bizarrias. Quando basta sermos nós próprios para sermos diferentes.

Como referi, não fui ouvido. E assim o diário de bordo de cada um narrará o restante...

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Nova edição do "Casas Nobres Famalicenses"

João-Afonso Machado, 17.09.22

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Em boa verdade, é já a 3ª edição. Mas foi a primeira, confiada ao meu editor, de escassa tiragem porque limitada apenas a uma lista de subscritores. Depois a Câmara Municipal de V. N. de Famalicão interessou-se pelo livro, cujos textos são da minha autoria e a ilustração do Amigo e conterrâneo David Vieira de Castro, e cedemos-lhe os nossos direitos. Esgotados todos os exemplares nessa outra edição, eis que uma nova saiu do prelo e está aí.

Para quem não se lembra, foi um interessante trabalho de campo e de pesquisa documental, do qual resultou a inventariação de 42 casas solarengas espalhadas pelo Concelho e em melhor ou pior estado, ainda vividas ou já caindo no esquecimento, não fora este apontamento histórico.

As Casas Nobres Famalicenses (ou o que delas restam) podem ser encontradas na livraria municipal, ao Parque da Devesa, ou através de contacto com os autores. Pela parte que me toca, via Facebook, telefone (quem o tiver) ou do endereço electrónico machado.ja@sapo.pt.

 

Impressões de um termalista

João-Afonso Machado, 15.09.22

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O átrio, os corredores, os balneários, tudo são lages pétreas regredindo às sandálias romanas. O termalista, ainda um pouco confuso, despeja os seus pertences num cacifo, enfia o calção de banho e o roupão, as xanatas compradas nos chineses, e inquire pela sala das lamas. Um termalista experiente saberá que não vai ser besuntado de cima a baixo, como um aborígene qualquer.

A sala das lamas tem toda a aparência de uma enfermaria superlotada. O termalista recebe ordens para aguardar, enquanto um avantajado funcionário espanca com violência duas almofadas fumegantes sobre as quais o termalista deitará a sua timidez. São elas o invólucro das lamas ferventes, o roupão do termalista serve-lhe de almofada, e mãos - vá lá... - femininas atapetam-lhe o corpo com mantas hibernais e lençois atados à altura do peito e dos braços, não seja o caso de o termalista intentar fugir.

É-lhe apontado o relógio, adorno único da granítica parede, e o processo transmitido em escassas palavras - Vinte minutos!

Tanto durará a mumificação do termalista. Como os seus congéneres cozendo em cima de lamas certamente vulcânicas.

O termalista tem então oportunidade de verificar que nem as lavas do inferno, aquela fornalha em que se derrete, bastam para calar as termalistas minhotas. Pormenorizando muito as suas maleitas terrenas, costas adiante até ao pernil, percebe-se que são termalistas veteranas, já sofrendo com toda a naturalidade a sua mumificação.

Enfim, vencidos os programados vinte minutos (e umas tantas inconfidências das termalistas minhotas), as múmias desparalisam, desenfaixam-se e partem para o capítulo seguinte.

Qual seja, o da piscina. Uma colecção imaginativa de jactos de água e repuxos, um calorzinho amazónico lá dentro. O termalista ensaia umas braçadas mas não tem muito onde se expandir. Devido até ao risco de colidir com alguma termalista bem defendida por inabaláveis pára-choques. Brinca ainda um pouco nas pocinhas, o termalista, mas já não vai ao jacuzzi. Segue directo para a etapa final, a massagem.

A etapa-rainha! Logo à chegada o termalista quase esbarra numa massagista trajando fato de banho negro com um aventalzinho branco sobre ele. E um devasso pensamento das humidades de Banguecoque perpassa-lhe o espírito. A massagista manda-o estender de barriga para baixo num estrado onde pingam várias goteiras de água quente. O gabinete é mínimo, muito íntimo, e a massagista começa amaciando com unguentos os pés do termalista. Depois vai por ali a riba.

A certa altura o termalista está de rabo quase ao léu e impedido de se voltar. O que irá suceder? A massagista, afinal com pés de cabra, atacá-lo-á com uma seringa? A expectativa é grande...

Nada de especial acontece, porém. A massagista prossegue o seu percurso ao longo das costas do termalista, sempre a esfregá-lo em óleos e empenhando-se a torcer-lhe com força os ombros e o pescoço. O termalista está encantado com tanta energia, daria tudo por uma eternidade massajada, mas uma voz seca e autoritária, num dito só, comunica-lhe que é findo o bem-bom.

Restará apenas, porque a classe dos termalistas honra os seus compromissos, o breve instante de se selfizar, assim deixando à posteridade evidências desses enebriantes minutos de prazer.

 

Desafio Arte e Inspiração|"Cronos"

João-Afonso Machado, 14.09.22

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O Tempo um mestre o quis parar,

Cronos desculparás esses relógios derretidos,

amolecidos pendurados

 

e não cortarás

(Cronos ri alvar)

outros pescoços nem as árvores secarás,

a natureza, o mar, toda a pureza do horizonte.

 

Cronos haverás de enverdecer o monte

que o artista queimou ansiando a loucura

de semear secura quando proclamou

 

Cronos não perdura, o Tempo parou.

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(https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/desafio-arte-e-inspiracao-v2-0-semana-1-554432)

 

Desafio 52 semanas - 37|Pacotinhos zodiacais

João-Afonso Machado, 12.09.22

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Esse seria, no meu querer, o primeiro de muitos jantares com aquela carinha laroca que  conhecera já não sei onde. Tudo prometia correr bem, de astros nada entendo mas a comida escoava razoavelmente para o buraco negro do universo. Aproximava-se o momento mais sobremesa das afinidades existentes entre nós...

Foi quando ela me perguntou a data e a hora de nascimento e exclamou o meu signo, o qual, aliás, eu já sabia.

(Leio sempre o horóscopo nos jornais, não exactamente o parágrafo do dinheiro antes os do amor, que sigo com o maior rigor, e da saúde, em que nunca topei sintomas alarmantes. Somente não alcanço as previsões da Maya, tão complexas agora que se tornou uma senhora chique.)

Mas foi o meu azar. Noite aziaga de baixo astral! A pequena sai-se a dissertar sobre a influência da lua - para mim apenas o luar e as marés vivas - e de (mas que termo terá utilizado?) as minhas aptidões ou conexões com virgens e aquários... Virgens e aquários??? - Que estupidez - ia eu dizer, se ela me desse tempo, nessa exortação inteira sobre quase todo o sistema solar e cavalgares de leões, carneiros e sagitários.

Se estava a querer dizer que a coisa não faiscaria bem entre nós, podia trilhar caminhos menos ínvios e mais acessíveis. Ainda sobraria qualquer simpático momento para umas graçolas, umas trivialidades. Mas porque ela não se calasse ou deixasse de girar a roda do zodíaco, acabei desligando o som e abusando um bocado do tintol. A findar com uma palração a descair para o inconveniente... - Foi Neptuno, filha, foi Neptuno e o seu tridente a confundirem-te com Vénus recauchutada...

Os nossos destinos não se encontravam - feliz e realmente - na rota cósmica um do outro. Tudo fora apenas uma estrela cadente. Será assim o meu verdadeiro signo?

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Rainha morta, Rei posto - eis a questão que os mói

João-Afonso Machado, 10.09.22

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É evidente, em República um Chefe do Estado em funções durante sete décadas só poderá personalizar uma ditadura e das mais ferozes; na férrea mão que aos 90 anos de idade ainda a consiga manter - a mão férrea, a autocracia.

Ao invés, em Monarquia, igual duração de um reinado (ou de chefia do Estado-Nação) sempre consolidará a relação entre o rei e o seu povo (senão seria a resignação ao trono, como sucedeu em Espanha), assim garantindo e fomentando o andamento das instituições democráticas. É o exemplo que colhemos de Isabel II, a grande Senhora que ainda não era rainha e já servia os britânicos, conduzindo camiões na Guerra Mundial.

Decerto contrariados (ou levados pelo "politicamente correcto"), os republicanos esmeraram-se no enaltecimento das virtudes da Rainha morta, nas peripécias do seu longo reinado ora findo. - Com ela acabou o século XX! - acrescentam ainda, a enfiá-la à pressa nas gavetas de um Passado sem continuidade.

A rápida e serena substituição de Isabel II com a entronização do seu filho, o Rei Carlos III, - no Reino Unido, aqui a dois passos da atenção dos portugueses, - é algo que aterroriza a República e já pôs a sua imprensa a ganir disparates.

Coleccionam-se fraquezas do novo Rei, Diana foi exumada, Camilla enterrada com o pescoço de fora, lançam-se suspeições e boatos tablóides. A confundir Portugal, dando da notável Rainha a ideia de uma ilha perdida no oceano...

Mas no Reino Unido a Monarquia é firme e Isabel II viveu o bastante para a firmar ainda mais. Os britânicos choram-na quanto já dão vivas a Carlos III.

Essa ópera bufa e peçonhenta fechou a minha televisão. Assisti ao bastante. Quem puder, dê um salto à Grã-Bretanha e constate, aprecie, tire conclusões.

 

A preto e branco

João-Afonso Machado, 09.09.22

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As manhãs acordam cedo no Agosto balnear, ainda grande parte dos veraneantes dorme. Mas aos de sono mais leve não escaparão os tropeções dos carroços dos varredores nem as imprecauções das peixeiras tocando às portas suas conhecidas. Ainda a praia é um deserto acizentado e húmido que anseia pelo meio-dia redentor.

A Olívia, um dos vultos mais antigos, bigodenta sem pudor, vem descalça e coberta de sete negras saias, como a faixa que as cinge à cinta e o lenço da cabeça, a rosca de trapos em que equilibra o seu tabuleiro. Não é sardinheira, a Olívia, porque a clientela é forasteira e abonada, gulosa dos seus gorazes, capatões e robalos; da delícia dos frequentes linguados e rodovalhos... E a porta que se avizinha, de uma senhora já idosa e freguesa de uma vida toda, - a Olívia sabe, abrir-lhe-á o palco de um espectáculo sempre aplaudido, tenaz mas proveitoso.

O batente soa a ferro antigo, de boa fundição. E a criada, já muito dentro dos seus horários, não demora a esclarecer - Vou chamar a Senhora...

Há um custoso descer das escadas e o canapé onde a Avó se senta. Os netos, ainda em pijama, tomam os seus lugares nos degraus. Atentíssimos.

- Bom dia, minha Senhora! - Bom dia, Olívia! Então o que traz hoje?

Logo a Olívia, o tabuleiro poisado na pedra do chão, remove os trapos com que resguarda o pescado. De um em um enumera as suas qualidades, «vivinho, acabadinho de sair do mar».

A Avó, essa manhã, deu-lhe na tineta um ruivo tamanhudo a avermelhar o mostruário da Olívia. Sempre é preciso variar... - Oh mulher!, e o ruivo, quanto quer por ele? - Cinco escudos, minha Senhora, cinco escudinhos por este rico peixinho que ainda parece respirar... - Cinco escudos? Eu compro igual no mercado por dez tostões!...

É já a véspera do clímax. A Olívia insurge-se, vá lá a Senhora comparar o mercado com o peixe saido agora da traineira... - Valha-nos Nosso Senhor Jesus Cristo e a Santa Madre das Areias!!!

- Vinte e cinco tostões, Olívia! Vinte e cinco tostões senão por hoje nada mais... - Quatro m'reis, minha Senhora! - Três, pronto!

Três e quinhentos Senhora! - riposta a furibunda Olívia já com o ruivo pendurado pela guelra no seu dedo. - Três e quinhentos que pela alma do falecido que Deus tem já fico a perder. - Não, não quero! - Quer quer, minha Senhora! Pela saúde do meu moço que anda no arrasto, quer e não se arrepende!

Eis finalmente o almejado clímax. A Olívia conhece de gingeira os corredores da casa e, de faca em riste, o ruivo na outra mão, só pára na banca da cozinha. - Mas, mas... - a Avó ainda tenta recalcitrar, já a Olívia esventrou, escamou e amanhou o ruivo. Os netos batem palmas, que grande exibição! - Consumatum est! - sentenciou o Pai, um desses dias em que se levantou mais cedo. A Conceição, a velha criada, ri até às lágrimas. E a Avó acaba sorrindo, feliz com o belo almoço e o entusiasmo dos seus queridos meninos. A manhã, encoberta embora, começava bem...

 

In memoriam do after shave

João-Afonso Machado, 06.09.22

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O Sr. Pinto morreu o mês passado, já centenário. Foi quase uma romagem à sua Drogaria Pinto, algo depois, o negócio agora a cargo do seu filho, o Sr. Pinto Júnior. Não que não tivessemos sido contemporâneos nos estudos, mas o tempo faz coisas destas, cria distâncias e cerimónias e clientela grisalha. Srs. isto e Srs. aquilo. Embora as drogarias carreguem consigo o saudável paladar da imutabilidade, por mais modernizações interiores de que sejam capazes. 

Não resisti à sua montra nem à colecção de antigos after shaves nela expostos. Denim! (passe a publicidade), quase cinquenta anos num instante recuados, os anos em que a lâmina de barbear corria a cara intentando puxar uns pelos de barba à superfície dérmica, adubagem depois ardida na frascaria do Pai, que fazia de conta e sorria condescendente.

É o que uso somente e vou descobrindo a preços módicos em estabelecimentos similares Portugal adiante. Com a saudade presa a tão remotas épocas dos primeiros sonhos com patilhas e bigode.

Mais a mais reforçada, essa nostalgia, com a escolha aconselhada junto à vitrine onde o produto se preserva e a perguntinha sibilada ao balcão, enquanto o embrulho é cuidadosamente feito, - Então e que mais há de ser?

E a gente olha em redor, passa além dos pesticidas e das vassouras, mas acaba sempre tentado por um alicate ou um canivete... E isso foi o que houve de ser.