Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Outra partida

João-Afonso Machado, 11.03.21

S. SEBASTIÃO.JPG

Gostei do burriquito e da sua tranquila atitude de cadeira na esplanada. Gostei das bilhas de leite, mesmo em alumínio, como tantas que me passaram pelas mãos. Não é que estivesse perto de casa, mas ambos falávamos português e o meu interlocutor, se não era o próprio, aparentava-se muito com o Ti Manel Porreiraço. Na verdade, já não consigo separar as águas, entre tantas cornucópias de dizeres.

Foi há tempos, essa conversa bem disposta e deixada em suspenso. - S. Sebastião! Você está em S. Sebastião, amigo! - proclamava o patriarcal Porreiraço.

Existem imensos altares com os seus S. Sebastiões. Este talvez, não obstante o flagelo dos virotões, um bom nadador. Um leiteiro-pescador, quiçá.

E eu parto a retomar a cavaqueira. Terei até já entrado no avião, nesse infernal charuto. Que o trajecto me seja leve. Não sendo, sempre o suplício virá retratado no Fugas do Meu Tinteiro, em aterrorizante caminhada para o fim.

Entretanto, um grande abraço, amigos!

 

Desafio lápis de cor| O rododendro

João-Afonso Machado, 10.03.21

IMG_3993.JPG

Desta feita, descobri-me a pensar na Pantera Cor de Rosa, do Friz Freleng, ou em sonhos que já rareiam, os sonhos da meninice... Talvez em alguma sobrinha minha, ainda bebé de berço... Tudo coisas muito do interior (mais não seja, do velho aparelho televisivo), e a vida faz-se de olhos cá fora, como a escrita só excepcionalmente há de ser confessional.

(O tema musical da Pink Panther era hipnotizante...)

Estavam as coisas neste pé, eu em agradável conversa com uma amiga, por acaso concentrados no azul celeste fim-de-semanal, com este rosáceo problema em suspensão, - estava tudo assim embrulhado quando, atentei finalmente, diante de mim, o rododendro!

O rododendro é uma árvore prestabilíssima. Ainda os jardins se pintam de nada, ainda as cameleiras, sonolentas, semi-abrem os olhos e a grande nogueira é um tronco com a barba por desfazer, ainda o inverno vai a meio e já o rododendro floresce de rosa. Tentando cantar ao desafio com o sempre reservado granito, a puxar pela vizinhança, que a hibernação caminha para o fim.

O óbvio, quantas vezes!, passa-nos estupidamente ao lado. O redodendro nunca saiu dali, ao que ele assistiu não assistimos nós, mas nele há ecos de dedicação e meiguice, de chefia e de maternidade. Há ciclos sobre ciclos, uma colecção inteira de décadas vindas de tão longe! Há muitas histórias de dor e saudade. Mas na cinzenta, musguenta, humidade dos invernos, o redodendro é sempre presente. A querer chamar o sol, quaisquer raiozitos de alegria que nos aqueçam a alma.

 

(Respondendo ao desafio da Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/tag/desafio+caixa+de+l%C3%A1pis+de+cor)

 

 

A Coruna

João-Afonso Machado, 08.03.21

CORUNHA.jpg

Foi num Verão, há uns anos. Rapidamente combinado, de Pontevedra um salto até à Corunha. Uma visita relâmpago. O bastante para gozar o mar, a praia, todo o envolvimento da baía.

Não chegou. A magna cidade da ponta mais a Norte da Península é imensa, bate-se, de igual para igual, com as nossas maiores portuguesas. Nada menos do que a rainha da Galiza, tão irmã do Minho.

Ficaram cegas as ruas menores, a vida dos de lá, toda a minúncia que vai além da exaltação balnear. Ficou a pesca local, o quotidiano, a gente autóctone, um pulsar que não é o do turismo.

E ficou um azul inesquecível. Decerto pintado em águas geladas do mar. Ainda assim azulíssimo, a convidar, muito prestável, para outro encontro mais distante dos cais, da maresia, da agitação. Em caminhadas sãs ao longo dos arruamentos, "galegando", galgando, conhecendo. 

 

O fim de um monólogo caminhado

João-Afonso Machado, 06.03.21

MERENDA.JPG

Esses anos todos de cidade são a dor do fim ignoto de tantos personagens desaparecidos no lambuzar do Tempo. A sua visão, uma constante geralmente terminando de modo abrupto, mas tão clara, tão presente, irmanada a uma interrogação que não se apaga - quem eram, para além do seu anonimato, em que desconhecido lugar foram depositar os derradeiros vestígios da sua identidade?!

Talvez um dia guarde um capítulo todo para cada um dessa multidão de mão estendida a esmolar. Gente por cuja perpetuação nos devemos bater.

Como a tal solitária, alta e magra, todo o seu património enfiado em inseparável sacola. Vagueando, de ponta a ponta, a grande cidade, eu recordo-a nos lugares mais inesperados. A indumentária, sempre a mesma. E, também, aquele modo de, permanentemente, andar falando consigo mesma, em voz alta.

Entrava nos cafés e nas petisqueiras, por mais um copo, um gesto de piedade, mas do lado de lá do balcão, dedos imperativos apontavam-lhe a rua, a sua residência. Em boa verdade, tresandava sempre a álcool.

De onde viera, o que fora a sua vida? Não havia quem fornecesse respostas. Estas talvez se encontrassem somente no seu falar desconexo, se devidamente interpretado.

Mas ali na zona da Boavista, uma semana de ausência sua causava apreensão. Comerciantes e moradores interrogavam-se, comentavam, receavam o pior desfecho.

Ela, entretanto, reaparecia. E era como se a rotação do planeta não sofresse, então, qualquer sobresssalto: estavam vivas as suas lamúrias, as suas imprecauções, o contínuo resmonear. Ao jeito de, vendo-a ao longe, as pessoas se interrogarem: o que lhe irá na cabeça hoje?

No presente, é certa a seu irrecuperável falta. No fundo, a cronologia tem regras fatais, inescapáveis, dessas que não consentem qualquer surpresa. Dez anos depois, bem pode acontecer, um lápis, apenas, recorde a sua estadia diária na vida de tanta gente...

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 04.03.21

046.JPG

Porque eu posso - porque eu ainda posso - escolhi o mundo para vadiar um pouco por aí. Um mundo que começa à porta de minha casa e acabará (quem sabe?) no último dos meus dias. Entretanto, como se trouxesse uma ratoeira escondida, vou-o encaixotando na minha máquina fotográfica, por vezes em francês ou inglês muito frouxos, que eu nasci cego de línguas estrangeiras.

Mas lá tenho podido ir. Mochila às costas, uma ou outra noite dormida nos bancos de um aeroporto, em geral deslocando-me - havendo companhia - no conforto do automóvel. Porquê? Creio porque a vida se inventou para ser compreendida: trazida de fora para dentro, meditada e escrita. Talvez eu ainda possa um dia descobrir as palavras ideais para a sentir e descrever e explicar.

 

(Um desafio de Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/porque-eu-posso-3-texto-do-471689 - Obrigado, Fátima, pela sua simpatia e amizade!)

 

 

Desafios lápis de cor|o azul pool

João-Afonso Machado, 03.03.21

MERGULHO.JPG

O feitio rezingão do Minho é por demais evidente ao longo do ano. Sobretudo para quem olha o céu: carregado, a faiscar dos olhos e fazendo ecoar as suas crises de fúria; silvando nas árvores, chorando convulsivamente no meio de tantos brados e cores do seu bem-estar. Mas tem dias em que acorda entusiasmado e, todo ele, abóboda celeste, é azul, azul e azul, como Portugal nasceu sobre a beatitude do branco imaculado.

Então o Minho espevita, acalora-se e desafia as longitudes magrebianas. Estamos no Verão, e os minhotos sentem-se ressequir.

Sempre foi isto. Os mais jovens buscavam a sua salvação nos rios e ribeiros, nas poças e nos lagos e tanques. Depois, em menos de um fósforo, as boas cores celestiais viram-se espelhadas no solo. Era a nova vaga das piscinas.

Porque não há cereal que valha uma farta estadia de turistas, carregados de libras, coroas, ou mesmo vergados ao peso dos muitos euros que cá podem descarregar.

Assim nasceu o turismo rural. Nunca prescindindo das piscinas de fundo bem azul, límpido como o céu que os turistas buscam neste paraíso, a quererem, também, um pouco para si.

Mais a mais, se alguma cobra distraída - uma dessas enormes rateiras - nas suas deambulações nocturnas escorrega e cai lá dentro, não tem por onde se esconder. Tudo estará em colocar a botija de oxigénio, empunhar o arpão e mergulhar, como se de uma reles moreia se tratasse...

E com os cães? Assunto por estudar. A Ciência não diz ainda porque há-os que só aceitam o verde vegetal, nas águas paradas das poças (voltamos nós ao lápis que se segue...), e os há, também, exímios no mergulho e natação nas piscinas. Falo de perdigueiros e da minha Dona Mécia, por exemplo, sempre a par comigo, bracejando, bracejando, aí de mim não fosse mais extenso de corpo! A subir depois as escadinhas, sem auxílio, gozando burguesmente o azul-claro da piscina onde entrou de cabeça, e vindo para a minha toalha - blue forever - a secar-se, talvez na indecência de uma nudez que aconselharia o maillot... azul-menina.

 

(Um desafio da Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/olho-azul-claro-465161)

 

 

Da arte xávega

João-Afonso Machado, 01.03.21

022.JPG

PRELÚDIO - Passei, na minha adolescência, alguns verões de praia na Leirosa, Figueira da Foz. Tempos inesquecíveis em que pesquei muitos peixes-aranha e, entre outros, um dos ainda agora meus melhores amigos. Foi também na Leirosa que convivi, diariamente, com aquela estranha forma de arrasto, praticada em mar e areais onde nos tirava o sossego de banhistas, como nunca antes vira pelas praias minhas conhecidas

Era tudo muito simples: a embarcação, pela força braçal, ia empurrada para a rebentação das ondas vencida pelo remar da tripulação. Momento quantas vezes assustador, assim o mar andasse mais picado. A proa levantava, levantava, subia a pique, o mulherio, em terra, berrava, apelava a Nossa Senhora e arrepanhava o cabelo, entre o negro trajar de tantas viúvas...

Ao largo, a "canoa" lançava as redes e regressava. O mais era com as parelhas de bois, horas a fio puxando por elas à força de paulada. Décadas volvidas, já homem feito, cheio de saudades, regressei a esses poisos - a Leirosa, a Costa de Lavos, a Tocha. Muito era diferente, tudo mais prático. Como todas as outras, a minha máquina fotográfica só soube captar a actualidade.

002.JPG

A FAINA - Atente-se nas formas dos barcos, e como elas se dispõem a vencer o primeiro e grande obstáculo: a rebentação das ondas, sempre muito forte nestas praias sem rochas e de águas traiçoeiras. É assistir ao seu descer do areal, prontos a furá-las.

019.JPG

Já o disse, a umas centenas de metros da costa, ainda à vista da praia, as redes são lançadas. Vai começar o arrasto. As embarcações, agora já equipadas com motor, a tripulação mais escassa, regressam a terra.

XÁVEGA.JPG

Vêm à boleia das ondas e os tractores rebocam-nas para lugar seguro. Serão também eles a puxar as redes. 

CHEGADA.JPG

Onde ontem a máquina eram os bovídeos, e o combustivel a porrada, andam hoje os motores e o gasóleo. Tudo é muito mais rápido.

018.JPG

Ainda assim, a mão humana não é dispensável, para o necessário jeito de que as redes não prescindem.

017.JPG

O CLAMOR - O bolo aproxima-se. Feito de quê? - sardinha?, cavala?, carapau?, robalo? com algum brinde especial? Há um agigantar de vozes à medida que se vai percebendo, já nas imediações da rebentação, o produto da faina. A companha está em picos...

035.JPG

Há dias magros... e há dias de abastança. Sintomaticamente, estes cada vez menos do que aqueles. Mas, enfim, em essas tardes, uma sempre rendeu uma corvina de 20 quilos...

ABERTURA REDES (2).JPG

Parecia uma baleia, já não havia memória de tal, aquilo, ós pois, foi decerto noite muito embagaçada e embaciada...

CORVINA.JPG

EPÍLOGO - Segue-se de imediato a lota. O peixe é colocado em cabazes e leiloado. Na minha juventude, o carapau chegava a casa ainda vivo, direitinho para o escabeche. Mas, afora casos assim, de pequenas quantidades, os senhores da manobra são sempre os big bosses dos mercados das cidades próximas.

Nunca será modo de enriquecer. A xávega só é praticável nos meses de verão, mas aqueles extensos areais, de Cortegaça ao Pedrógão Grande, em tempo não, revelavam-se o ideal para o contrabando do tabaco, vai lá quase meio século... Depois vieram as fábricas (a celusose...), outros ofícios, e eu de hoje não falo do que não sei.

Mas era e, em muito, continua a ser assim mesmo.

 

"Ave do rio"

João-Afonso Machado, 28.02.21

IMG_3229.JPG

Foi muito além.

Num voo inesperado ergueu-se a ave

e debandou e planou,

riu chorou piou

mas já não vem.

 

Disseram-ma ingrata.

Talvez.

A ave voou, riu e chorou piou,

assim se fez e foi na cata

de outro poiso em que poisou.

 

Vai então ave, te oiçam as gentes e digam

- riu e chorou piou,

enfim acalmou

 

que alguém na outra margem,

já finda a viagem,

lhe deu a comer o gosto de ficar e viver.

 

 

 

Desafio lápis de cor|Os citrinos

João-Afonso Machado, 24.02.21

LARANJAS.JPG

Em tempos que (há muito) já lá vão, as nossas caçadas às perdizes eram em Carrazeda de Ansiães, Trás-os-Montes, nos socalcos sobre o rio Douro. Jornadas dificílimas, iniciadas no alvor do dia e concluindo em almoços tardios em que toda a magresa ganha era compensada por uma feijoada de arromba e uns quilos mais... Anos e anos assim, um percurso de fome já sobejamente conhecido e, a páginas tantas, o lugar almejado de uma laranjeira quase estéril, às vezes oferecendo uma, duas, laranjas. Em bulha repartidas pelo grupo... A seu lado, uma poça de água onde cães e caçadores - estes de mãos em concha - sorviam ávidamente a pouca água para tantos sedentos.

(Lembro, uma vez, quase ter bebido uma rã; mas isso ficará para o episódio dos lápis verde-claros...)

Era assim a vida nesses lugares quentes de fruta doce.

Já no meu Minho, húmido, frio, sempre verde, as modas eram outras. Árvores citrinas não faltavam. Infelizmente, acrescento, porque a laranja, na sua época, era sobremesa das perigosas - a laranja, quem não a saiba lidar, expele um líquido venenosíssimo que (por exemplo) atingindo um olho, pode provocar a cegueira. Além disso, defende-se numa casca inexpugnável, mais a sua sobrepele, e uns gomos ácidos, corrosivos... Quando tal, até tem umbigo! Uma trabalheira que não paga o efeito. Sabedora desses meus temores, a minha querida Avó transformava as laranjas numa compota agridoce - aquilo ia casca, ia tudo, - no Inverno, em torradas com manteiga, o primor dos requintes. Mas isso era a Avó para o seu neto e afilhado. Antes de uma terrível revolução, o depois de a Avó me ter faltado, em que as laranjas se alaranjavam às refeições e a diplomacia aconselhava pretextos - a Mãe dá licença, ai, ai, ai? (as mãos aflitas, agarradas ao ventre...) -  para me levantar mais cedo, assim dispensando a sobremesa...

Ainda na mesma coloração, as tangerinas, outra música. De casca leve, pesando, e vergando ao seu peso, as tangerineiras, doces, sempre doces, bolinhas doces que iam de um trago só, sumarentas, sem peles, sem espicharem..

(Santo Deus, quando a laranja da sobremesa dava para ser seca, iliquida!!!)

E finalmente as toranjas. Enormes, quase melões em tamanho. A gente nova do campo contorcia-se filosofando sobre para que serviam as intragáveis toranjas. E foi uma tia de tanta saudade, alemã de nascimento (suprema gente germânica!) que, então, explicou: a toranja, cortada a meio, embebida em vinho do Porto, devidamente açucarada e comida com colher de chá, até raspar a casca, era um manjar. E era! O meio termo entre a acidez e o doce, vitamina C com força,  e as outras vitaminas todas, nem sei quais, assaz mais saudáveis, contidas na sacarose.

Depois... Uma égua engasgou-se com uma laranja abocanhada na laranjeira, Ia asfixiando. Veio o veterinário que somente sabia de vacas, porcos e vacinas dos cães... Foi o cabo dos trabalhos! Valeu a árvore ir rente, e ainda bem - a Avó há já tanto tempo não fazia a sua compota, e aquelas laranjas eram uma ameaça constante de semanas e semanas de mais do mesmo...

 

(Um desafio da Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/olha-cor-da-semana-459998)

 

 

As estradas sem fim de um Mercedes

João-Afonso Machado, 23.02.21

AGO.019 - XINOCA.JPG

Era de herança, o monumental Mercedes 300, e o Tio, não alto, magrinho, às vezes irritava-se... Guiava com umas luvas que nunca mais acabavam, indo só até ao nó dos dedos. A viagem levar-nos-ia da Casa da nossa gente, perto de Coimbra, até às delícias balneares da Ericeira.

Contas feitas, o Mercedes carregava onze pessoas: O Tio e a Tia, as duas criadas e sete crianças (eu, sobrinho, era o sétimo). Durante umas tantas horas de um percurso que infelizmente esqueci. Somente lembro o arejo da chegada, esse alívio, e alguns momentos de transe rodoviário em que o Tio, - homem dos toiros e dos fados - furioso com a manobra de alguém, abria a sua janela e explodia: - Ó coiro, vai para a recauchutagem!!!

De pronto a Tia lhe pedia calma. Que não esquecesse os miúdos... Lá atrás, as criadas caladas como ratos; nós - os miúdos - maravilhados.

As férias que se seguiam são volumes de recordações. Salta-me à cabeça aquela vez em que dei cabo de um joelho ao cair da bicicleta: horas a fio de espera pelo médico, para me suturar, rótula à vista... Já cheio de dores, muito puto, os Pais longe... Mas tinha ao meu lado o meu querido Tio, orgulhoso - é que estava mesmo! - por eu não chorar, e um Diário de Notícias, para entreter, que, pelo meio, me foi comprar ao Jogo da Bola!

(Os meus onze anos, onde eles vão!... De então para cá, fui cosido do cimo da cabeça aos pés e, felizmente, nunca dei parte de fraco...)

Décadas depois, parte substancial da tripulação do Mercedes já também debandou. Vive a sua vida eterna e os outros vivem-na cá em baixo com eles. Com as suas memórias. Também por isso escrevo: porque quero que os netos dos netos dos meus filhos, quando forem esquiar para Marte, se lembrem dos meus queridos Tios e do seu Mercedes, aliás interplanetário. Do mesmíssimo modo em que os tenho presentes, especialmente nesta altura, como o Tio bem saberá...