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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio 52 semanas -21|O conselho

João-Afonso Machado, 23.05.22

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Era uma boa amiga, desinteressadamente amiga, um nada mais nova, cheia de vida e pessoa sensivel, observadora. Uma bela companhia que, às vezes, se espraiava em excesso na fala - comigo, a soturnidade em pessoa. Por isso um dia a aconselhei:

- Nunca aconselhes!

E privei-me de explicar porquê, ela que descobrisse, se quisesse, o desagradável doutoral e a riqueza da mais calada sabedoria. Que se revoltasse contra a evangelização intromissa, zelasse pelo seu mundo e respeitasse o dos outros. Sempre em conversa consigo mesma, eventualmente escrevendo, escrevendo, assim discorrendo em silêncio de voz altíssima apenas ouvida por quem lhe apetecer ler. Ou então, a persistir no conselhos, fosse inscrever-se num partido político e vestisse definitivamente a roupagem das araras.

Deste jeito penso, no meu mundo "onde há menos gente". E se calhar de um modo não sovina, porque uma opinião a gente sempre dá, a troco de nada, prazenteiramente, - quando alguém a pede, é claro.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

"O conto"

João-Afonso Machado, 22.05.22

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Vai em lágrimas neste ideário

algemado o biltre sob custódia

firme da lei por um lado,

 

no outro seu dicionário

aberto em par de paródia.

 

Triste maestro apeado de batuta partida,

outra vez o dito por não dito, instante rapsódia,

diária luta, aflito calvário…

 

- E agora vamos embora!,

(algemado o biltre sob custódia)

findo é o conto do vigário!

 

A preto e branco

João-Afonso Machado, 19.05.22

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A passagem-de-nível era o derradeiro momento animado da avenida que se estendia sozinha até perder de vista. Tinham levantado as barreiras, o comboio já na estação, e a locomotiva resfolegava, enchia o ar de fumo quente e fogueteava apitadelas anunciando o rumo do norte.

Aliviou o pescoço com um abanão da gravata às cornucópias e atirou o chapéu um pouco para a nuca. Diante de si quase apenas o domingo esbraseado, a marcha solitária avenida fora.

Era pouco mais do que um descampado, davam os primeiros passos algumas moradias caladas dessas abastadas famílias de verão nas praias, por isso de janelas cerradas numa triste novidade de jazigo. Ainda sequer houvera tempo do arvoredo nas bermas do passeio crescer e criar sombra. Mais além, o "espada" estacionado, em sentido, muito negro, como se também participando no velório.

Decidiu-se: o casaco às costas, pendurado no dedo, e os suspensórios bem à vista. Num esforço enorme para esquecer os pés apertados nos sapatos de atacadores.

E foi a avenida toda, só ele, parecia o dono do domingo inteiro, nem uma bicicleta em trânsito. Por fim, talvez, os ecos de algum eléctrico ronceiro lá para as bandas do Carvalhido. Caramba! Quarenta anos de vida para cultivar um próspero abdómen, nada mais, e a paixão pelo futebol. Puxou do lenço, limpou a testa e mediu os passos restantes do calvário, Constituição a riba até ao campo do Lima. Ainda compraria uma bandeirinha azul-branca e uma fita a enfiar na palha do chapéu. Arre pernas!, mexei-vos e eu pago-vos uma cerveja antes do jogo...

 

Desafio 52 semanas -20|A minha imagem

João-Afonso Machado, 16.05.22

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Confesso, sei utilizar o meu telemóvel para quase nada. Não evolui, nem quis, continuei agarrado à minha máquina fotográfica, se é que de fotografias falamos neste desafio. A 11ª imagem do meu telemóvel... se existe alguém, não eu, se existe, outrém a deixou lá, não consigo descobrir quem. E assim para dar à caneta fui buscar a 11ª fotografia da minha última série, ainda no cartão da Canon. 

A nada responderei senão na presença do meu advogado, eu próprio que me autorizo invocar gerações mais velhas que conheci - a dos meus Avós e dos meus Pais, já desaparecidas, - e as mais novas, as dos meus filhos e sobrinhos e sobrinhos-netos. Nessa tarde da outra semana, agora que as rosas dão cor ao jardim com toda a pujança.

E mais não presenciei, embora possa acrescentar a convicção num granito tão longo quanto o sangue ontem, hoje e amanhã. Neste recanto de vida de onde se parte à descoberta do mundo, e de nós próprios, e ao qual se regressa como crianças em busca do colo materno.

«E mais não disse», dactilografou o escrivão a fechar o auto de declarações.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Para quê?

João-Afonso Machado, 15.05.22

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Saibam todos, eu estaria mudo e quedo não fora essa escorregadela de olhar pel'O Enforcado de O'Neill - «Um gesto suspensivo de um sobreiro,/o enforcado./ Badalo que ninguém ouve,/espantalho que ninguém vê,/suas botas recusam o chão que o rejeitou./Dele sobrou o cajado.».

Era toda a crueza posta em destaque e não há nomes nem identidades, como determina o respeito pelos que padeceram. Há somente a perplexidade ante o fenómeno Patino ou Quinta da Marinha e o gigantismo de fortunas suspeitas que jamais irão connosco na viagem final.

São milhões de "porquês" num insolucionável engarrafamento de pontos de interrogação. Sobretudo quando a outra face de nós, gente, nem sequer goza o beijo da praxe e pede vida, oferece generosidade entre o ladrar dos cachorros e o salutar ruído das carripanas a subir a ladeira.

Um sobreiro nos confins do outro hemisfério porquê? Onde ficou o cajado?

 

Caravanserai

João-Afonso Machado, 14.05.22

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São as mil e uma noites no andar navegado e resignado dos dromedários no deserto. Um oriente de sons que Carlos Santana trouxe dos domínios dos emires com os seus quarenta ladrões da grande acústica.

Caravanserai, o álbum de 1973, perdido e recuperado pelo meu filho num velho mercador tessalonicense. Ligou-me e contou - Pai descobri o CD do Caravanserai; o pai quer que lho leve?

Claro que quero. Trouxe, ofereceu-mo, estou a ouvi-lo tantas tempestades de areia depois. Agora é noite entre as dunas, uma especial percussão de mistério, em breve o Song of de wind, Santana já não toca guitarra, dedilha a sua cimitarra.

Congas e timbales. Será o início do repasto e dos umbigos femininos voando sobre as almofadas. Cada vez mais frenéticos, o batimento aumenta. O abrigo torna-se populoso, expectante. Véus, albornozes, as estrelas cintilando no céu, vozes audíveis finalmente. Magnífico keyboard! Sempre a percursão e os lânguidos corpos das bailarinas, day by day terá dito algum britânico infiltrado, escondido na sua Stone Flower. Mais descontraídos os latinos, à La Fuente del Ritmo.

Contam-se longos, milhentos, passos do percurso. Enfim o descanso e os ecos neste abrigo das memórias de há tantos anos, no regresso do deserto com Carlos Santana.

 

No peitoril da janela

João-Afonso Machado, 12.05.22

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Estava fechada mas dei-lhe ar novo em tempo das andorinhas, cumprindo a vontade dela e minha de encorpar o mundo, onde o mundo ainda tem respiro. E rendi-me ao seu parapeito numa tontice de bifocalidade.

Ora para dentro, ora para o exterior.

E dessa janela, uma perna cá, outra lá, fui lendo a vida desde a secularidade convergida até ao ponto negro da ignorância e dos ecos entre paredes, num rápido trejeito contraluz; e visualizando o infinito dos amanhãs ao sol que se escapuliam no acaso dos ventos contraditórios.

Afinal não desacertara. O Passado tem escoras; o devir, pontos de interrogação e o atemorizante horizonte. O que foi, foi; o que será não espera por nós. Apenas é - e é uma forma perigosa do verbo ser, tão vastamente quanto todas as aberturas das janelas, impossíveis de cerrar, mesmo se aparentemente fechadas na pequena terreóla onde esbarram nas vizinhas.

Assim apreendi Rainer Maria Rilke - «Não és tu uma nossa geometria/janela, tão simples forma/que sem esforço circunscreves/a nossa vida enorme?», - enfim alguém soube traduzir sentimentos por mim carregados no respeito de um antes e na fé do depois a eternizar-nos a alma. Bifocalmente, claro, insisto eu, - no rio das gerações que, se secassem, secariam os oceanos também, como um silêncio lunar.  

 

Desafio 52 semanas -19|Carta ao Nando Virtual

João-Afonso Machado, 09.05.22

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Meu velho Amigo!

Escrevo a saber que é feito de ti, há tantos meses sem dares notícias, sem uma palavra, um comentário. Passei pelo teu blogue e confirmei a tua repetida ausência neste nosso café computadorizado - ausência, como digo longa, a avaliar pela triste desacomulação de correio na tua caixa, eco do inexistir, da fuga, do esquecimento, da volatização de uma vida afinal a modos que apenas radiofónica.

E é pena. Bem apreciava as tuas crónicas. Tinham oportunidade, humor e faziam crer que tu, Nando Virtual, eras mesmo o Nando Virtual alentejano ou ribatejano, benfiquista ou sportinguista (já me baralho), antigo forcado amador, o genuíno Nando Virtual e não a medida tomada por tu mesmo. Não serias uma Fernandinha qualquer, feita espertalhona, a espraiar a sua capacidade criativa, Ofélia perfumada no improviso de um personagem. Ou a rir-se à custa da rapaziada.

De resto, caro e ignoto Amigo, também as senhoras apreciavam, e muito, a tua prosa, as tuas façanhas, a avaliar pelos ais! que lançavam na nossa mesa teclada em que às vezes talvez exagerasses no consumo do pirulito, quando repetias até à exaustão - Merda!, sou lúcido!

Por isso, prezado Nando Virtual, faço votos reapareças breve e te manifestes do Alentejo ou do Ribatejo, ou mesmo do outro lado aqui da minha rua.  

Dá-nos esse gosto e recebe um enorme e cego e tacteante abraço deste teu admirador

J-AM (que, juro pela minha saúde, sou eu mesmo sem heterónimos nem pseudónimos).

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Pacotinhos comemorativos

João-Afonso Machado, 08.05.22

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Folheio a agenda já estonteado. Os dias sairam do anonimato e exibem agora nomes próprios e apelidos sonantes até. Vêm à televisão comemorar-se, exigem a atenção do público, dão o seu espectáculo com timbre muito nouveau riche, como dizia uma certa velhota, ela mesmo posta toda gaiteira pour épater le bourgeois. Infeliz, inoportuna, sequer se apercebendo da gente à volta a rir, carago!

Pois também os dias olham por cima, sobranceiramente, das semanas e dos meses. Invocam genealogias antigas, bíblicas, com lugar de destaque na História. São deles a Liberdade, os Trabalhadores, o Pai e a Mãe, a Mulher! Mesmo os mais modestos não se coibiram de deitar a unha ao Livro, à Árvore, ao Cão ou ao Gato...

Em boa verdade, os dias cairam na rede espertalhona do comércio que os descobriu com S. Valentim, o Halloween, a facturar carnavalescamente. Depois foram também adoptados pela apagada imaginação dos senhores da "Cultura", muito ligeiros a lavar as mãos após terem posto as criancinhas a plantar uma árvore antecipadamente condenada ao esquecimento; ou a ler um livro com o pensar transportado para o recreio, os ciberjogos... Esta faceta de sensibilização, então, toca as raias da tolice e deixa bem à vista que há coisas cuja importância só se afere uma vez por ano. (Sendo que "é Natal todos os dias", se tal não fosse uma colossal mentira.)

Deixemos, por isso, o postiço. Devolvamos os dias às semanas e aos meses. Não compliquemos o ano e gozemos por todo ele a liberdade, o cão e o gato e não a árvore mas o bosque. Enquanto este não arder de um momento para o outro... 

 

Sábado

João-Afonso Machado, 07.05.22

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Mais hora, menos hora, aí está sábado a abrir os olhos ao dia. Conforme o hábito que vem fazendo seu, espreguiçar-se-á na cama e ficará a pensar neste Maio que, meio tonto, já anda aí.

Precavidamente o sábado matinal não ligará a televisão onde se ouvem apenas os canhões da moda primaveril das 24 horas sob fogo de guerra no leste europeu. (Essa moda global que triunfou em pleno, e reduziu a cinzas o monopólio noticioso da antecessora, a pandémica.)

E o inverno sem chuva, o Março um pouco mais choroso, a compensar, e esta meteorologia nem para trás, nem para a frente?

Sábado dará outra volta na cama sem descobrir respostas. Desapetecer-lhe-á a praia, talvez já no seu corridinho burguês, e sentirá nos ares o cheiro do estrume, o campo vai para as sementeiras. Maio. Mas um Maio invulgarmente triste e desamparado. Fátima? Mas Maio e Fátima são a multidão e o sábado prefere um meditar recolhido...

Dar-se-á conta sábado que é o primogénito deste Maio. O mais velho da série e talvez os sequentes tenham melhor sorte, se poupem à poeira na faina rural ou ainda viajem por lugares de dignidade e novidade. Quanto a ele, velhote pioneiro, restará a leitura, uma ida ao parque, que se o movimento for pouco ainda lhe cairá na câmara algum passarito ou a elegância em passos de ginástica... Ah! - e um futebolzito importante ao fim da tarde.

Sábado coça a barriga e ir-se-á então convencendo a levantar.