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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

"Penitente"

João-Afonso Machado, 23.01.21

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Ajoelhou as ideias na clausura ao centro

e chorou bagos de água dura,

 de si as trazia dentro.

 

Acreditara em um dia enfim

a levara nem sabendo quem era

- apenas não mais sofrendo assim

a grilheta que arrastava,

bola preta, dentes a ferrá-lo de espera.

 

Mas tudo foi nada, uma miragem somente,

mar mudo, águas sem margem,

e lodo lodo, mágoas de lodo,

tão porca imagem demente

por ele todo.

 

 

Paisagem quase lunar

João-Afonso Machado, 20.01.21

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Lá longe, num fundo, o lugar estranho de quase um cárcere gigantesco. Um ghetto - pensei - aparentemente sem voltas de arame farpado, nem holofotes ou vigias de soldados armados. Como também não ouvi o latir dos cães-polícia, - avanço ou não avanço? E a interrogação demorou-se-me largos minutos, até que me levantei e segui em frente. Afinal, eu era um veterano de Moscavide...

Foi o tempo de descer o vale - agora prevenido com um cantil - e esquecer o calor que se sobrepunha, indiferente, ao negrume das nuvens. E, dando entrada naquela conventualidade, engoliram-me as ruas e avenidas multiplicando-se entre edificações mais altas ou mais baixas. Por paradoxo, todas diferentes e todas iguais, uma mescla de roupas a secar nas varandas e antenas parabólicas - satélites prestes a serem fogueteados para o cosmos, pensei.

Estranha gente! Ninguém conhecendo alguém, estabelecimentos comerciais obedientes ao verbo aviar, e o que fosse vizinhança um significado impróprio. Deprimente sensação! Era o normativo das gaiolas, os transeuntes canários de folga oferecida por gatos inexistentes... E mais os atropelos do que as palavras. Mas anotei transportes públicos, topei o silêncio do passe social exibido. Sobre o todo, o cheiro intenso do anonimato. Morbidamente imaginei o que seria - como seria - morrer nestas andanças.

Cidade? Vila? Urbe sem nome? Nem cheguei a apurar, tal a percepção de que qualquer averiguação seria em resposta grunhida imperceptivelmente. 

Nem mesmo a velhinha disposta a atravessar a passadeira aceitou o meu auxílio... Enfim descobrira o mundo do cada um por si. Carnalmente, espiritualmente... Escusado seria perguntar onde tocaria o sino da igreja - igrejas havia-as muitas, com nomes imaginativos de seitas várias, nos rés-do-chão dos prédios.

Por tudo, debandei. Para sul, só por curiosidade, para lugares meus conhecidos de gente de vilórias, localidades onde todos sabem quem são todos.

Ali... foi uma experiência. Um homem há de ir do alto das serras ao baixo da desumanidade, circulando etereamente entre os autómatos. E depois vir e contar ao que assistiu.

 

Portela (Santa Marinha)

João-Afonso Machado, 18.01.21

Com Portugal sob ordem de prisão domiciliária, lá me aventurei até à Portela, a última freguesia famalicense a norte, antes do concelho de Braga. Terras elevadas, povoadas de pedreiras entre eucaliptais, e, na fronteira com Escudeiros, já da cidade do Senhor Arcebispo Primaz, dois canhões, um voltado contra o outro, e a respectiva tropa de Artilharia, fardada de cinzento com capacetes metálicos, os muares de puxar as peças atados ao arvoredo, tudo como no tempo da influenza... Evitei o confronto iminente, e fui subindo para o altar do granito, onde até poderia assistir ao voo destemido de Santa Marinha, lançando-se nos ares de espada na mão.

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Sai dali muita pedra! Muito ali se serra a pedra! E as pedreiras, assim batendo no chão estéril, logo deixadas ao abandono como lagos em crateras já sem fumo.

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Conquanto ainda carregadas de pó do mineral serrado. Pobres calças, desgraçadas botas! As folhas secas dos eucaliptos descarregaram nelas a sanha de anos e anos de esterco vindo no vento.

Camiões é o que aquelas curvas de mau parecer mostram aos olhos do passante. Pesados, atulhados, prontos a esmigalhar. A Portela não tem par aqui na nossa terra. Fui descendo, já cansado, mas um pouco de olho no que ainda falta derribar.

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A freguesia vem serra abaixo. A meio pano, o seu centro. Comércio, indústria? - não há. Serviços? - também não, exceptuando o cangalheiro, um ou dois cafés e um restaurante cheio de nome, desses onde se paga muitíssimo e come pouquíssimo, apenas desenhos caprichados no fundo dos pratos, e florzinhas de permeio. Mas a igreja paroquial é simpática, acolhedora,

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e esplêndidas as suas vistas sobre o vale que se estende até aos limites da cidade, sede do concelho.

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Um vale enganador, mais adiante uma república fabriqueira. Sem prejudicar, todavia, esta pacata localidade em cujos cimos o mundo vai ruindo e, nos fundos, se mantem uma actividade inocente, cavadora ou pastorenta.

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Para estas bandas, a ter de mudar o ninho, eu pousaria aqui. Longe dos topos serranos, mais pela alma da freguesia, descaindo, descaindo, até me chegar ao ribeiro (digo, à nascente do rio Pelhe, o Tagus famalicense), e aos prados. Isto hoje, que amanhã nem Deus sabe...

 

Coelhos dominicais

João-Afonso Machado, 17.01.21

Contava ela, a empregada Rosa, muito escandalizada, - Saiu cedo com a espingarda velha, essa que era do Bisavô, Deus o tenha, o Senhor. E foi numa volta por aí. Chegou a casa com dois coelhos ao dependuro... - Tome lá, esfole-os. - E que mais?

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- E que mais? São coelhos do monte, dos que você gosta, ou não passa a vida a queixar-se das porcarias do supermercado?

Parece que houve bulha. Uma coisa é estufar, outra esfolar... - É, então não passe a vida a choramingar, tire-lhes a pele, descamise-os, que o pitéu também chega para si.

- Só os caça com o diabo da espingarda antiga! - exclamava, furiosa. - Aquelas das duas ferramentas de puxar para trás e os canos compridos como uma regueiro: diz que é como o falecido Brandão ensinava, «apontar-lhes às orelhas entre os cães», seja lá o que isso for. E todos os domingos é isto!

Assim mesmo. Os perdigueiros ficavam no canil, consigo ia a Cadelota - não é a Carlota, é a Cadelota - um misto de ovelha pastorenta e de cão podengo, desses que não se picam no mato e se desbundam em ladridos ao cheiro dos coelhos.

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Alma danada, a Cadelota! Encapotada contra silvados e cardos, só saía do monte assim os marotos fossem à sua frente. E eles eram muitos, junto à vinha, roendo os cavalos e o mais (os cavalos, não saberão os citadinos, são o pé de vide onde os homens gastam horas a enxertar as castas para fugir à filoxera...), a precisar de controle, como a gente de carne para comer.

A Rosa, pelos tiros que ouvia ecoar, ia fazendo contas. Depois, profissionalmente, rezingava. Pela tardinha gabava-se com os caseiros do manjar - que eles, sem arma, só provariam por generosidade da Casa...

Respondeu-lhe o Se'Manel, não se acalorasse: quase sempre o patrão, no regresso, ali passava e deixava um láparo e os votos de um bom domingo... E, sem mais ligar a diatribes, regressava ao relato radiofónico do futebol. Assim a Rosa se roía toda de incompreensão antes de, na hora do jantar, agradecer o petisco que era da sua mão hábil de cozinheira como da velha espingarda do finado Senhor, ainda do seu tempo.

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(- Que aquilo sim, caçavam a sério, tantos cavalheiros, todos convidados, dava gosto. E matavam essas tais lebres, com os cães do Senhor, grandes, bem corridos, chamavam-lhes os «gáurgos».)

 

Tudo porque não trouxe bússola

João-Afonso Machado, 13.01.21

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A esplanada amarelecia no entardecer, de resto um tanto irritada pela fome. Mal-encarada, entregue à minha caneta, à sua ironia permanente, porque eu, movido a cerveja e amendoins, não iria longe, nem com todas as velas a soprarem em redor. Foi onde? Já não sei, lembro apenas a travessia, o charme da proa lavrando águas e, até, um breve instante da euforia de quem dá à costa. E o desembarque, o cais, a avassaladora precisão de comer.

Depois o homem gordo, o tabuleiro nas suas mãos. - Diga lá, amigo: pipis?, caracóis?, couratos? - E o meu espanto, o meu pasmo, a ineptidão de um desconhecedor de línguas estrangeiras... Um gesto, outro gesto, lá me expliquei: viesse uma caneca bem tirada, e pevides descascáveis como para os macacos. Com a caneta sempre a meter o bedelho, a apontar para o lado oposto do cais, a repetir-se como um disco riscado - És tu! És tu!

Eu! Eu era a carcassa da velha embarcação ainda com os ossos de fora no lodo da maré vazia. Posta à minha frente, diabo de vómito. Sem "pipis, caracóis ou couratos", ouvi apelos de alma defunta. Confesso, não desprendi a minha, quase amortalhada, caneta. Dei-lhe um nada de atenção. Chamei outra cerveja pelas espumas idas, e sempre fui pensando - Pois, talvez seja assim mesmo! - Mais um cigarro apagado e uma ideia a crescer. Enormemente! Eu, do mundo da Reconquista, eu minhoto, longe dos meus, aqui mendigo a lavar os dentes na escova em que limpo os sapatos - eu cavaleiro, de parcos haveres, - mas sempre amochilado com as armas do Reino - eu hei de chegar lá! 

Onde?

Onde os limos não putrefactam. Onde a minha caneta vá no meu mando. Ela que chie, esbraceje ou deslize. De resto, preparando-se para esses despistes, pus-lhe mão firme nos pinotes, encurtei-lhe a rédea, e ela a rilhar o bridão, a escorregar, a escorregar, tantos ângulos comprometedores, tantos piões provocadores - consoantes e vogais - a relinchar insubmissa, de crina eriçada. Só por mor do que depois vi riscado, que era nome de mulher, -  compreendi o alarde e jurei-lhe não o revelar.

Então aceitei outra caneca que ela (caneta) me ofereceu, apaziguadora. No horizonte, qualquer coisa negra remexia ao cinzento do rio sem água. O sol ia-se, a deixar ficar a angústia desses filamentos, seriam aves, seriam homens simplesmente sobrevivendo. Tal como eu já só queria um poiso, porque - sobrevivendo também - amanhã será muito betão para trepar. Dos mais altos picos do mundo desconhecido da margem de lá. Erodidos das cores que a intempérie comeu, escondendo-se da fornalha solar atrás de persianas, centenas e centenas delas, e afiando as garras nas antenas dos telhados. 

Ah!, caneta! Se alcanço esses pirinéus todos, serás escrava minha, cronista sem paga, pingalim em punho, a tua existência para sempre submetida aos meus feitos e às minhas glórias!

 

Viajando a lápis de carvão

João-Afonso Machado, 10.01.21

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Foi cisma minha, não quis nem aglomerados de gente nem motores. Nem pressas, nem pontes. Queria a ondulação do rio, aquele soluçar sempre cortado pela metade, e a minha lapiseira que me desenhasse também um arrais engarruçado e descalço, castanho do sol nos braços em que brilhassem as escamas do peixe, ou branqueasse a farinha dos moínhos de maré. No restante... Ou bote, ou catraio, ou canoa... É claro, tivesse a lapiseira artes para isso, preferiria uma falua, de velame amplo e soprado, o nome - falua! - soa-me onomatopaicamente e vai bem com o marulhar das águas.

Apareceu-me com um varino. Pois sim... Embora excessivamente festivo, todo engalanado de fitinhas e galhardetes e, à ré, uma suspeitíssima bandeira. O rio não estava para grandes brincadeiras, longe de qualquer amena expressão, as nuvens ensombravam todo o sul e não havia necessidade de perdermos mais tempo. A lapiseira encheu de vento o fole de Éolo e pintou uma boca silvadora ao arrais; eu arregacei-lhe as calças até aos joelhos , de propósito não eliminei a bandeira maldita, porque entendi seria uma travessia clandestina, não desprovida de perigos. E, em mais dois ou três traços meus, navegámos.

Senhor da embarcação, assim, dei-lhe todo o vagar da manobra para definir onde queria ir, o que eu ainda não sabia. Somente, de certo, o nosso destino ficava na outra banda. Algures onde inexistissem castelos ou penedias a trepar. Somente estranhos e numerosos povos, dialectos desconhecidos. Aliás, a minha lapiseira, enamorada como o dono, multiplicava palavras de encanto, vozes de bondade e sofrimento, Éolo ouvia e compadecia-se, e os beijos - dezenas deles - trocavam-se mutuamente entre a minha alma e os elementos.

 

Madame javalina

João-Afonso Machado, 09.01.21

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Com os dias deste tamanhinho, onde quer que a gente chegue já é noite. E vinhamos com a recomendação de fechar os portões da propriedade, função que cumpri, não sendo o condutor, como o alívio de uma bela lufada de ar gelado, puríssimo. Depois, estradão fora, umas dezenas de metros adiante, o bicho atravessou-se à frente do carro. Soaram as campaínhas todas, de um salto voltava ao frio, ciente de que nunca disporia de tempo para armar a espingarda. Mas corri, talvez o "apanhasse" à mão... Coisas de bárbaro...

Também Egas, o Terrível, se lançou do drakkar e embrenhou na escuridão, nem por isso muito convicto... Foi quando reparei que o javali apenas trotava, bem fornecido de carnes, pouco cerdoso, não grunhindo nem urrando. Era de estimação. Fui buscar a máquina fotográfica na certeza de que ele esperaria por mim.

Tratava-se de uma porca híbrida, o fruto dos amores ilícitos da pécora, senhora sua mãe, com algum macho selvagem e aventureiro. E, depois do jantar, mais perto de casa se passeou, foçando deliciada nas ervas do terreiro. Talvez sonhando com alguma oferta gentilíssima, um bouquet da mais repolhuda couve... Mas escasseavam por ali as "lojas de conveniência"... Mesmo os cães, sentindo-a mansa, nem ensaiaram a serenata. O nosso respiro solidificava, nem os muitos sóis no firmamento nos valiam. Mais um copito para aquecer... Amanhã seria dia de saltar cedo da cama.

A quantos quilómetros estaríamos da cidade mais próxima? Lá muito ao fundo, as luzes diziam que de Penha Garcia. Deixá-lo. O importante era estarmos bem e em boa companhia. Sem multidões, nem covids nem a necessidade de trincheiras anti-covid.

 

"Xadrez"

João-Afonso Machado, 06.01.21

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Eu joguei com o melro xadrez em manhã de geada

e ele saltitava perdido a cada vez

em que jogava.

 

Não sabia das peças, dessas mais valiosas,

o bispo, a torre, o cavalo,

a Rainha, Senhora minha.

 

O melro desconhecia meças,

ou quem morre, quem levá-lo,

jogadas morosas ficam-lhe além

 

porque o melro não sabe antever o sol

e por isso, sem cores,

deu o Rei a perder

rendido a amores,

 

alma mole sem compromisso,

sempre saltitante

o melro pintado das dores

de um amante.

 

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 04.01.21

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Herdei esta vadiagem de quem antes escrevinhava os meus blocos de notas. Pesado encargo, o diabo que o carregue! É andar e andar a esmolar imagens para o adubo de um qualquer caldinho de ideias, vida de pobre.

E nesse modo, partindo pelo mundo, chego à neve. A um mar imaculado com a neblina das sereias. Está frio e a fome abre a boca...

Ao longe a noção do precipício. Da queda fatal. A neve é um oceano onde todas as naus se perdem. Um inferno que não cheira a enxofre - apenas à humidade do granito, com os corpos escorregando, e os gritos ecoando dentro do abismo.

O canto chamativo das sereias e a queda feliz para o fim...

 

Longe, muito longe

João-Afonso Machado, 02.01.21

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Salvaterra do Extremo sem quaisquer considerações históricas. Apenas o nome lindíssimo, quase o eco de um grito por socorro, na fascinante emboscada dos seus mistérios.

Um apelo vindo da perigosa vizinhança espanhola. De longe, muito longe. De onde as estradas modernas ainda nos tiram umas horitas para lá chegarmos. Noite feita, já barbuda, semicega, para caçarmos a manhã seguinte.

Fora um intervalo de mais de uma década. Houve emoção ao reconhecer, recordar, os lugares de então, os altos e baixos de uma área espessa em perdizes. Em cima das pernas, uns portentosos quilitos a mais, nas mãos a espingarda que há muito dormia, calada, esquecida, já desabituada da luz do dia.

E, nesta época, águas abundantes por todo o terreno gelado. Nunca a temperatura subiu além dos 8ºC, e isto já no pino do sol... Águas que não havia como evitar, botas velhas que as bebiam avidamente. Pés, dedos dos pés, como se enfiados na neve. Os cães felizes e tanto tiro desperdiçado!

Mas foi uma manhã como as dos idos longínquos dos quarentões. Bem disposta, melhor andada. Com as pernas resistindo às partidas dos calhaus, do acidentado piso e dos buracos escondidos sob a vegetação. Ainda pulando uma ou outra vala, ou esgueirando-se entre os aramados.

Somente o cinto podia ter chegado ao fim um pouco mais enfeitado... Mas a perfeição absoluta inexiste, salvo no divino cabrito da hora do almoço. Pouco faltava já para o último suspiro de 2020.