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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Um ontem comigo

João-Afonso Machado, 12.07.21

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Posto embevecidamente diante dos elementos, sempre hei de confessar alguma perturbação do silêncio das palavras, aquando do levante do palrador bando de todos os papagaios e de todas as catatuas deste mundo. Nem vislumbro como o pressenti, mas partiam para o outro, dou-o por certo, partiam para o das almas penadas.

Ficou o absoluto sossego naquela encruzilhada de cores. Atapetando as dunas, a arte relvada dos senhores do golfe, por essa pele de pêssego pacificamente circuitando.

(Nunca joguei golfe, nem alcanço o seu sentido desportivo. Tanto faz: não seria agora que as minhas costas o consentiriam...)

Além, os jacintos e os cardos, outra vegetação de mais alto pé. Depois o mar, como uma flauta tocada do norte, e as areias dançando, a ondulação espumando no roldão das vagas.

Poderia ter sido a tarde toda, numa vontade teimosa de ordenar sensações e descobrir frases. Num crescer da maré que findaria em sageza, talvez em novos coloridos celestiais. Assim a sineta não se agitasse toda, a chamar para as lulas no prato.

Só do mutismo ninguém conseguiu trazer-me à superfície. Havia também sopa de peixe e eu, ainda agora deslumbrado, juraria embarcações ao largo, redes lançadas e vidraças inúteis, a mesa do almoço também ultrapassara o areal e navegava.

 

"Getsmani"

João-Afonso Machado, 09.07.21

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Durou tão pouco a ensolarada visão

subida a serrania, tão pouco durou

o sorrir da fantasia.

 

Logo foi partir. Logo foi

o brado da corda, o alçapão

derradeiro estremecer do olhar

na hora do vazio.

 

Demora no frio desse altar

(subida a serrania)

um adeus sem horizonte nem sorte

gemido a sós

(o brado da corda)

 

e ao cimo do monte a incerta voz

de um dia a morte.

 

 

Lugo (Galicia)

João-Afonso Machado, 08.07.21

A maior referência celta na Galiza, eis o que Lugo é. E a sua imensa muralha romana, recomposta e imperial, invoca os idos de Lucus Augusti, nos primórdios da primeira centúria pós Cristo, e os cenários das chamadas Guerras Cantábricas.

Com toda a veneração pela História, a minha atenção, centrou-se todavia, de início, num horizonte de actualidade azul e branca, convidativo e cheio de alegria.

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As cores galegas, as da nossa bandeira de sempre e da ansiosa espera de Vicente, o meu primogénito, após mais de um ano sobre o nosso último encontro! Pregado al suelo no parque da estacion de autobuses, sofri esses instantes, que pareciam não findar, e antecederam o enorme abraço trocado com este recém-chegado da Sérvia e da Bretanha, e não sei de onde mais. Num ápice, a sua tralha no hotel, uma espreitadela na Lugo elegante e actual, com meneios engraçados dos passados Anos Quarenta, tudo num saudável equilíbrio,

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e ala, portugueses, à conquista da muralha. Vencemos-la através da puerta de San Pedro o Toledano, uma das onze em que, ao longo das eras, o baluarte se foi abrindo aos de fora.

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E, logo aí, iamos lendo os recortes do adarve, as suas pedras solidamente assentes, a muralha a prolongar-se por um perímetro de mais de dois quilómetros.

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Um adarve largo onde, se os automóveis subissem escadarias, facilmente circulariam. Fazem-no centenas de peões, turistas ou locais em passeio, num alto que os eleva ao topo das maiores construções luguenses.

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Tudo ante o olhar meditativo, cansado do dia, já pousando no sorver do ocaso à varanda dos residentes no interior da muralha. Afinal, nivelados com os passantes...

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E, no miolo da urbe, a catedral. Imensa, grandiosa. Merecendo destaque em cada pormenor das suas alas, das suas entradas laterais, até mais do que da sua fachada. Lugo, uma das quatro grandes cidades da Região da Galiza, orgulhar-se-á, decerto, deste seu templo, um imediato assessor de Compostela.

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Será dispiciendo mencionar a animação de gentes e comércio na cidade dentro da muralha... Ou a multiplicidade dos seus temas de estudo, da estranha coexistência entre o sobrevivo e a ruína, dos sinais dos séculos que ainda se mantém intactos entre madeiros carcomidos...

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Em boa verdade, tal incompletude transmite bem a mensagem de um caminho sempre a correr, de uma realidade que jamais será perfeita. Lugo milenar, fruto generoso de engenharias sucessivas, é o coração de uma cidade grande e de um sem-número de viagens, consultas, estudos e sonhos... e orgulho de galegos e minhotos, dois em um, por serem as histórias destes povos tão irmãs.

 

Pacotinhos de psicologia

João-Afonso Machado, 07.07.21

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Foi tarde fustigada por fortíssimas bátegas de asneira. Tal o negro nublado, um livro de nascença americana imbuído de filosofia oriental. Na sua enésima edição... E tal o vento, deixando nas suas páginas a preguiçosa ideia do «sucesso» alcançado sem esforço, apenas pela «aplicação das leis naturais que regem o universo». Só, mais nada.

Ganha-se sempre com estas leituras: a lição de que qualquer um pode mastigar a primeira patranha que lhe vier à ideia, há sempre a quem aproveite; e o real poder imaginativo destes pregadores outrora combustivel inquisitorial. Pois sempre fiquei sabendo que Kafka foi um enorme «filósofo e poeta»; e que o «Eu» é mais do que o «Ego», este reduzido à mesquinha dimensão da «nossa máscara social» («o campo da potencialidade pura é o nosso próprio Eu. E quanto mais possuirmos a experiência da nossa verdadeira natureza, mais próximos nos encontramos do campo a potencialidade pura» - algo decerto evidente...).

Abismado de tanta ignorância, a minha, aprendi outrossim que a «prosperidade provém da afluência, palavra cuja raíz significa "fluir para". O termo "afluência" significa "fluir com abundância"» - para algum lado, provavelmente.

Com os habituais «karmas» e outras leis cósmicas, a parlenga «fluiu» para o dinheiro (recordemos, o guru é americano, professor na California...). Não admira, a sua douta teorização sobre os meios de obter riqueza, ou outros anseios, seguindo à risca as «sete leis especiais do sucesso». Sendo a arguta obra, afinal, o seu enunciado.

Que mais dizer? O dinheiro, a felicidade, a «vida nova», são neste manual devotamente espalhados para milhões de carentes. Mas, por amor de Deus (a entidade criadora do «plexo solar»...), o «imenso campo quântico - o universo -» não «constitui uma extensão do nosso corpo». Não, isso não, eu quero caber nas minhas camisas!

Porque, em suma, o tal livro é somente um universo imaginativo de ideias desencontradas e sequências inconsequentes. Uma marotice. Um direito também, sem dúvida, mas com lugar reservado em prateleira própria e o devido rotuluzinho: Tontices.... Há gente que ainda se deixa enganar, que acredita e depois desespera, que sofre a sério e é permeável à banha-da-cobra..

E nesses deviam atentar a Ética, a Moral, a defesa dos consumidores e a Direcção-Geral de Saúde, vacinando-os. Já nós outros, bem podemos com esses mananciais de espertalhonice, picando em cada parágrafo as incongruências com seus antecedentes.

 

O Portugal...

João-Afonso Machado, 04.07.21

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Chego de longe, dos sons bravios dos touros à solta. Trago comigo as histórias todas, uma audição inteira dos dias ribatejanos. Ainda me coube no espírito o calor, a meteorologia com patas de arganaz no meu pescoço engravatado. Foi sofrer, mais foi uma disciplina. O sol, receptivo, lá ia perdendo o fulgor...

Noites de arrozais e folia. Na mão um copo, nos ombros um abraço. No tempo, todas as décadas de uma colecção que já é um museu. E, como sempre, gente oriunda de um rectângulo inteiro chamado Portugal.

Quis o Destino, os minhotos ficassem em maioria. E cantaram e dançaram. E recordaram as suas espingardas. Mais gozaram o amplo espaço que lhes era oferecido em tonalidades rosadas de pedras que não são as nossas. Na planura despida em que o mundo ali vai caminhando para o Tejo. 

No fim, as tribos conversaram e lançaram pacíficos desafios de acolhimento. À margem da estupidez e dos preconceitos. Havemos de ser a diferença entre uns e os mais, e a justeza de uma identidade inteira que outros nos querem matar.

Se nos restam apenas as espingardas? Nem por sombras! Restamos nós, o nosso modus vivendi, e uma geração que já casou e vai tendo muitos filhos. Não são as meras atoardas que destroem esta milenar conjugação ontológica. O Portugal de sempre está para ficar sobre as résteas dos cornos de betão.

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 03.07.21

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Mesmo nas costas do mundo, entre verdes, as intemporais arestas do granito. Como se penduradas nos cedros, em pináculo silencioso a somar o umbricado equilibrio dos séculos. As telhas colados no musgo, elas próprias já viram nascer e morrer muita gente que a cruz da cumeada a todos deitou a sua benção.

E o mutismo prossegue. O arvoredo também, volta e meia visitado por qualquer passarito, por uma brisa. Nada mais. Há ornamentos apenas da alma, não será na velocidade dos olhares que se lhes chega. As heras, como abraços, protegem-nos.

 

Do meu querido Pai, dos meus cães

João-Afonso Machado, 01.07.21

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Gosto da velhice. E dos animais também. Gosto dos meus perdigueiros e das minhas saudades.  Gosto de caçar, na plena consciência dos anos que o meu querido Pai caçou e se aposenteu da lide. Como ele, o meu querido Pai, sempre olhámos com desprezo essa tropa que agora pugna pelo fim da caça. O parágrafo segue adiante.

O querido Pai teve os seus cães. Eu, os meus. Toda a vida discutimos quais os melhores... Querido Pai, nunca fui atirador que se lhe possa comparar. O Pai era enorme, eu acertava às vezes. E faço questão de o proclamar. O querido Pai marcou uma época e eu, diria, envergonhei-o.

O tempo não se moveu. Meu querido Pai, ainda ando por cá. Longe da sua pontaria. Mas gozando o panorama. Com esta ressalva: o querido Pai era tão melhor, quanto melhores eram os perdigueiros que criei. Ora o querido Pai, nesta nota, não tem argumentos...

Não tem porque não os criou. Nem precisava deles, nessa época. O querido Pai nunca sentiu a frustação de um trabalho bem feito por um perdigueiro, e o tiro falhado, aquele olhar de incompreensão do artista.

O querido Pai deixou de caçar aos cinquenta. Eu, com sessenta e um, sigo esse caminho, já me pesam as pernas. Meu querido Pai, também deixo a caça, nobre prática de sempre. Mas é o que é! É a vez de passar o testemunho aos seus netos.

Hei de escrever sobre as batidas às raposas para levantar o querido Pai ao seu lugar de merecimento. Para já um beijo enorme. E uma (repetida) picardia - os meus perdigueiros são melhores do que os do querido Pai.

Mas sobreleva a destreza (que eu não deixo esquecer, que saudades...) do meu querido Pai. Que grande espingarda!

(A bica não pára, continua fresca, o ponto exacto do regresso, sempre musical. A memória do meu Pai também.)

 

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