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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Nem recensão nem funeral

João-Afonso Machado, 16.08.21

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No meu mundo faz todo o sentido ocupar um naco de Agosto relendo um autor que parece desesperar precisamente por não encontrar um caminho que lhe explique a existência. Porque Agosto há de ser o silêncio; e o silêncio, o breu, integram muito o conjunto de terrores espelhados no Húmus de Raúl Brandão. A vida, a morte, o sonho, a alma, o nada, talvez alguma esperança... Tudo pincelado em tons pardos, esquivos, de personagens «da vila» enganando-se a si mesmas e ele, Raúl Brandão, já se dando por contente com a realidade do Inferno - «sinto o desespero de não haver dor eterna. A dor pela eternidade das eternidades era ainda viver. Sofrer sempre com a consciência do sofrimento é viver sempre. Antes o Inferno! Antes o Inferno! O Inferno em lugar do Nada. O Inferno era ainda o Céu». E tal é o horror à finitude - «a morte não existe, Deus não existe, a vida eterna não existe. Uma luzinha e depois a escuridão!». E tal é o contrassenso, invectiva Deus, acusando-o de o deixar «sozinho com este peso em cima, com a ideia da vida e a ideia da morte».

Assim diz se refugiar no sonho porque «a realidade é uma figura de dor». Até o xaile de uma das suas personagens estava «encharcado de sonho».

Em síntese, Raúl Brandão escreveu Húmus sofrendo o terror do vácuo, do prazo da existência, da claustrofobia que lhe causavam os enterramentos - «não quero morrer de vez. Não quero perder a consciência do Universo nem a sensibilidade do Universo».

Ser-lhe-ia salutar ouvir a D. Leocádia, outra velhota da sua lavra, - «sem crer não sou nada - sem crer não existo - sem crer não compreendo a vida. Preciso de caminhar para um destino. Crer é uma necessidade absoluta, um sentimento primário, a própria vida, sua razão e seu fim».

Agosto, comportadíssimo, nada dado a excessos térmicos, ameno e convidativo. Verdadeiramente, um intervalo aberto na sageza da D. Leocádia. Resta agora, então, encher a mochila e partir a entender o mundo dos outros, descobrir, ler nos lugares o sentido da vida que todos deixam transparecer. Só não crê quem não quer e trocou o instinto por uma atitude insensível. Traga a máquina fotográfica do melhor ao pior da visão alcançada, e escolha depois a caneta as palavras que mais definirão as vivências e assegurarão a sua perpetuidade.