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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio Arte e inspiração| O filho do almocreve

João-Afonso Machado, 29.09.21

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Uma noite desassossegada, tudo por atacado, encomendas de urgência. Duas levas para destinos opostos e o moedame oferecido que era um consolo, mas o prazo ficava na entrega amanhã cedo. O Fortunato almocreve absorveu-se em pensares, queria os dois pássaros na mão. E, posto a cear, deu por certo, o seu filho havia de ser homem do ofício. Ele e a mula correriam a noite através dos montes; o moço, no burrico, iria sem outra, à vilória do fundo do vale entregar as amêndoas.

O moço, aspirante aos estudos, já lido na Bíblia e em autores contemporâneos, não teve mais remedeio... - Pois sim, meu Pai...

Por tais jeitos o Zeferino, ainda quente do caldo, emborcou um pedacito de aguardente, e outro que o Fortunato lhe deu de prémio. Alabardou o jerico e partiu nessa noite de breu. Uma milha andada, pingava da cabeça aos pés. A chuva não perdoava e voltar atrás seria, pobre Zeferino, aquentar o lombo com a correia do pai, antes o padecer até ao destino.

Chegou ao povoado. Havia que passar a ponte e o obediente burro não atrapalhou. Mas, a meio, a escuridão só lhe dava olhos para o tropel das águas crescidas na tempestade que tudo inundava. Sentiu-a rondar o tabuleiro dessa ponte, lembrou a desgraçada Maria Moisés, camiliana afogada nas poldras de uma noite assim, levada numa torrente de força igual.

Foi a angústia. O momento psicológico em que a cabeça, cheia de nada, se enche de pensamentos maus, desencaminhados, perversos e desvairados, assassinos. O moço Zeferino anteviu a morte eminente. Largou a arreata da besta, deitou as mãos aos ouvidos escusando-se à realidade que congeminara, sentiu o persistente propósito de se lançar ponte abaixo... - e gritou, gritou, sem intentos de se mexer. Tudo uma vertigem. Estava na borda do abismo, no adoidado perigo de se não opor à irrazoabilidade, ir de cangalhas no medo.

Já nao era ele; somente o que algum benquisto salvador quisesse fazer dos seus restos mentais. - Socorro, socorro, aqui d'El-Rei, que eu morro!... Porque quem hesita entre a vida e o fim sempre clama por alguém.

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Assim Edvard Munch captou o desespero e pintou o seu "Grito". O inconsciente das gentes, as suas desordenadas locubruções, o terror da dualidade que é a atracção pelo abismo... O José da Xã, caro amigo e homem de aldeias e tempestades, digo eu, -  sempre haverá presente este momento alucinante. E por isso o terá trazido à ribalta.

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

 

 

O mandarim "futebolês"

João-Afonso Machado, 27.09.21

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Um destes últimos sábados fui à bola. Jogava o glorioso F. C. Famalicão contra o Marítimo, e não estava no meu espírito o "nulo" resultado final. Santa paciência, valeu a pena, ainda assim, - bancadas a menos de meio pano (multidões não, obrigado), um belo assento em cadeira e o tempo muito dócil. E a máquina fotográfica com que registei o penalty evidente a favor do Famalicão. Negado, o árbitro deixou-o passar em claro.

Veio tudo abaixo. Silvaram os assobios, urrou-se e a assistência em meu redor, em redor do meu silêncio atento, irrompeu no futebolês mais puro e facilmente cognoscível.

Traduz-se então, nesse dialecto, um "filhodaputa" é o árbitro, quem quer ele seja. Outrossim, em entoação menos raivosa, "filhosdaputa" são os jogadores da equipa contrária. Frequentemente, sobre os "filhosdaputa" de apito na boca pesam acusações tremendas de práticas venais.

Tudo o mais é o termo plúrimo "putaquepariu". Dito com rancor, a comentar qualquer atitude dos "filhosdaputa"; em extase, sendo a jogada de fino recorte, esperta, habilidosa, fenomenal; desanimadamente, se os "filhosdaputa" ou os nossos se perdem em rodriguinhos; e há sempre um "putaquepariufodasse" emocionado, aliviado, talvez mesmo choroso, para os benquistos golos a decidir a vitória cá da gente.

Não muito frequentador da bola, vou aprendendo este umbricado dialecto mandarim, tão mais difícil de captar quanto é certo a minha visão do prélio poder não se identificar com a dos vizinhos na bancada.

Mas lá que o penalty nos foi roubado, isso foi. Portanto, o "filhodaputa" só podia ter ouvido um colérico "putaquepariu".

 

Desafio Trinta Dias de Escrita|O Danúbio

João-Afonso Machado, 24.09.21

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Nasce na Alemanha e atravessa a Europa a caminho do Oriente, até que na Roménia se despeja no Mar Negro. Mas não estamos numa aula de Geografia, nem mesmo nos píncaros de algum baile vienense, rodopiando ao som do Danúbio Azul. Foi antes a espantosa visão, a colossal massa de água, as muitas pontes, a fortaleza e Belgrado e uma vida quase toda para conhecer, enfim, o rio magnífico.

A meus pés, a confluência do Sava com o Danúbio. E um entrelaçado de braços em volta de uma monumental ilha, afora as ilhotas, como a mais impenetrável floresta. Velejava-se ali tal qual num desabrigado oceano. E eram muitas as lanchas, as embarcações de turismo. Num bar palafítico, sentei na esplanada, refastelei-me na cadeira e fui navegando sonhos.

A vastidão do Danúbio, o mistério das suas margens, mereciam mais do que recreio. Não deveria dispensar a pirataria, a subtil canhoneira a bordo da qual seguia uma mescla de foragidos do mundo inteiro. Uns mais sanguinários, outros nem tanto. A comandá-los, um cavalheiro português que a atracção pelos casinos arruinara. Mas sempre um elegante: não havia mão de senhora despojada dos seus aneis que não fosse beijada seguidamente. Não digo andasse esse malandrim de chapéu emplumado. Talvez somente com uma boina basca, o bastante, ainda assim, para uma grande mesura às suas vítimas.

E o rio era dele, a Europa Central dele era também, e, tão vasto o seu domínio era, que vez alguma a guarda fluvial lograra deitar a mão a esse romântico, um Zorro aquático roubando aos ricos para dar aos pobres.

De um outro ângulo, o Danúbio desenhava-se no vaivém de toda uma vida de transportes. Animais, produtos agrícolas, gente do seu mundo - eslovacos, húngaros, sérvios... - tudo cabia no porão ou no convés do pequeno cargueiro de chaminé e ponte e uma sineta que dava ordens. Num sulcar de águas pachola e bem conversado, noite a bordo e serenatas a acompanhar qualquer petisco sem fronteiras. Assim ronceiramente eu percorria não sei quantos países, sentado junto à amurada da velha embarcação, pensando, memoriando, dilatando a alma com toda a emoção que senti ao vislumbrar o Danúbio.

 

(Publicado no Desafio 30 Dias de escrita - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/desafio30diasdeescrita)

 

 

 

Desafio Arte e inspiração|O céu campesino

João-Afonso Machado, 22.09.21

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Anoitecia e o céu preparava-se para um serão na aldeia perdida para lá dos montes. Rodeada de muitos quilómetros de ninguém senão dos ceifeiros, no tempo deles, e das lebres e perdizes que, nas manhãs, os caçadores tentavam surpreender.

Era uma terra às escuras, a aldeia fechava para dormir e nem mesmo a sua praça maior, a igreja ao centro de campanário altivo, quase a picar as alturas, nem mesmo esse areópago, a tasquita ainda aberta, alguma luz produzia. Apenas o firmamento, no seu vagar, se engalanava para essas horas de sol fugidio.Azulava-se de cerimónia e não esquecia o vago cinzento das nebulosas. Mas, sobretudo, sendo-lhe propícia a maré, gostava de cintilar, possuía não sei que truque faiscante; e a bola lunar quase passava despercebida, tantas eram as estrelas a piscarem no céu.

Já a cidade, fumadora inveterada, não as vê, tal a nuvem de fuma que levanta como um tecto a cobri-la. É, a quem na cidade lembraria espreitar uma noite estrelada?

Pois esse jantar quase no fim do mundo soube-nos muito bem. Setembro, um mês ponderado, nem braseiro, nem os tremelicos do frio, chamou-nos então para o terraço. Ficaramos à mesa até tarde, e agora eram os grilos em sinfonia nas vinhas, o consolado lamúrio das corujas e uma discussão animada das rãs a coaxar na charca. E uma imensa abóbada muda, soberba, pintalgada de ouro que brilhava - as estrelas, as nossas esquecidas estrelas!

Ali ficamos, de boca aberta com se as quisessemos abocanhar, trazê-las connosco. E, volta e meia, alguma tropeçava e caía do céu, num trambolhão aceleradíssimo a empurrá-las sempre para longe. Estrelas cadentes!, - segredavam-nos os anos antigos - formula um desejo! Que viessem como um jacto supersónico até ali ao nosso mirante e descansassem, bebessem um chá... A alvorada seria muito cedo: mas a noite estrelada pregara-nos às cadeiras. Porquê um quarto para dormir? Porque não o céu por cobertor?

Eu não sei se Vincent Van Gogh também andava às perdizes. Sei que, no seu tempo, escassos eram os fumadores e nenhuns os tubos de escape. Nada se interpunha entre ele e o firmamento e os seus mistérios e belezas.

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Tais foram elas, de tal modo o artista se empolgou, que carregou, ainda deu mais expressão a essa celestial visão. E deixou para a História - seguramente na aldeia de Van Gogh não há distinção entre dia e noite! - o seu Stary Night, não sei porquê uma escolha neste desafio que intuio da Cristina Aveiro. Oxalá alguma estrela cadente caia por aí e me ajude no palpite.

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

 

Kalna, na Sérvia

João-Afonso Machado, 21.09.21

Partimos, finalmente, em direcção às altitudes balcanicas. Num Toyota, decerto por milagre, safo das inquietações bélicas do passado recente, mas não ileso...; carregado de sacos de cimento e, no banco de trás, transportando um verdadeiro tesouro - dois portugueses de gema, eu e o meu filho. O resto eram curvas sobre curvas e o curioso costume sérvio de comer pizza e beber coca-cola enquanto se maneja o volante. Umas dezenas de quilómetros assim.

E depois o súbito desvio, junto a uma povoação, para um trilho serrano. O casario cada vez mais esparso, a sensação do abandono, a florestação total... - tinhamos chegado!

Aonde? Ao nosso destino, evidentemente. E o nosso destino consistia numa aldeia esquecida dos pastores, construções de rastos que um grupo de gente nova sérvia, ainda cheia de força, tenta recuperar. Por isso o cimento na mala do estenuado Toyota.

Ali se vive, se criam galinhas e se trata das hortas. Ali se filosofa e sonha, pacificamente, com a "revolução". E ali proliferam cães e gatos, às ninhadas inteiras, na maior anarquia. Como quer que seja, ali gosta de estar o meu filho, e tão amavelmente receberam o seu pai, monárquico e anárquico, mas sempre clássico.

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Ao dia seguinte, dormidas umas horas, tomei um pequeno-almoço de água dos Balcãs, enchi-me dela, e parti em exploração, monte abaixo, cercado de carvalhos, abetos e outras frondosidades.

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À medida que ia caminhando, a vida humana ia despontando em jeito mais organizado.

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Habitações realmente habitáveis; os palheiros feitos de ripas de madeira, melhor ou pior conservados; os canídeos, sempre hospitaleiros; mulheres fumando, de unhas pintadas e forquilha nas mãos, tentando com gestos e monossílabos explicar o percurso para a vilória; surreais aparições, como os restos mortais de uma camioneta dos Fifties, entre o matagal;

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e os inevitáveis rebanhos de cabras e ovelhas.

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Eu estava em Starakalna, traduzindo, qualquer coisa como Kalna-a-Velha. E, no termo de alguns três quartos de hora a pé, avistei a estrada, o desvio do dia anterior, e a beatitude de Kalna, onde se estabelecera o grosso da população.

Tem um posto da Polícia, esta Kalna,

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e tem um hotel que, segundo apurei, se mantem fechado porque falta ao dono pachorra para aturar os hóspedes, algo que o transformou no meu heroi local, a força capaz de enfrentar e vencer os chatos.

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Kalna tem duas fieiras de prédios com três andares e muitas pilhas de lenha encostadas às paredes, para obstar aos rigores da invernia. Mais um esquecido posto de turismo de montanha, fechado a sete chaves, e um - ou uma? - veterinarska, o primordial termo sérvio da minha aprendizagem.

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Conquanto o mutismo do consultório não indiciasse o seu estonteante sucesso...

Por fim, os restaurantes, com as suas esplanadas, e as mercearias de caras viradas para a rodovia. Numa daquelas assentei, almocei e gozei a tarde.

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O repasto consistiu numa excelente, tenrinha, carne de porco com batatas assadas. E cerveja (leve, de baixo teor alcoólico, como a venho bebendo por toda esta região), a bastante. O sol refulgia, o ruído automóvel rareava. Os cães de Kalna vinham até nós, por um pedacito de comida, e voltavam à estrada, onde se estendiam como se na praia fosse.

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Eis, então, surgiu o meu filho, já preocupado, não fosse eu me perder nos altos e dar de caras com algum urso. Sentou-se, conversámos, manifestei-lhe quanto me aprazia um vagar assim. Ao longe, um malhar de motores que me era familiar, os cães enfastiados a erguerem-se,

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e a circulação de algo que já não via desde os meus 18 anos, talvez. Um tractor, um Massey Ferguson, o primeiro que o meu Pai comprou, a viatura de urgência nas minhas escapadelas de juventude. Louvado seja Nosso Senhor, que tanta foi a asneira e nenhuma desgraça brotou, a colorir as páginas dos semanários famalicenses da época!...

Mas na Sérvia, confirmei depois, ainda não há outros modelos disponíveis. Apenas esse Massey Ferguson que eu tanto gostava de ver curvar em três rodas... - Filho, vamos subindo que se faz tarde... - disse, num assomo de saudade.

 

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 19.09.21

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Lisboa está diferente. Entre ruas ou avenidas e os passeios tem umas vias estreitas com muitos desenhos de velocípedes. E centenas de bicicletas e trotinetas presas como vacas leiteiras, propriedade da Câmara Municipal, à disposição dos transeuntes. Abismei! Sempre com a noção de que, depois de Cristo ter dado a vida por nós, nada é oferecido, tudo se paga. Mas eu não sabia como era, nem me apetecia pedalar. Assim fui indo, atento às novidades, movido pelas pernas desde o Saldanha até Santa Apolónia. Confesso - tão cedo não tenciono voltar à Capital.

O trânsito automóvel é o mesmo. Raríssimos os ciclistas. Restavam as trotinetas que eu vi a curvarem como o Miguel Oliveira, o joelho dos condutores a rasar o pavimento. E havia também uns trotinetões, tamanho FPB (família pequeno-burguesa), sem embargo do consequente aspecto achinesado da sede do Império, algo a que os cristãos-velhos portucalenses torcem desagradados o nariz.

Depois, as trotinetas, velocíssimas, silenciosas quais raposas, assemelharam-se-me o perigo maior. Deixei as cautelas com os autocarros e os táxis e centrei-me, obsessivamente num hipotético título da primeira página do CM - "Nortenho vem a Lisboa e morre trucidado por uma trotineta"... (Subtítulo - "O óbito foi declarado no local"...)

Não, todo o cuidado era pouco. E tão prevenido seguia, nem dei conta da minha amiga (não fora o tilintar das suas pulseiras) ali pelo Rossio, a calça de ganga elástica, a perna... a perna, meu Deus, iam-me saltando pensamentos que eu enxotava com a mão, como se varejeiras fossem... - Olá!!! - Olá!!! Por aqui???

Por ali, pois, a caminho do comboio. - Mas assim? Porque não de bicicleta? - Em boa verdade, tive vergonha de lhe dizer, ignorava como desencabrestar as máquinas. E alvitrei com a necessidade, esta mania de andar... em último recurso, o táxi...

Tomou-se de fúrias. Foi longa a prelecção sobre o dióxido de carbono e todos os modernos ditames acerca da vida saudável. Tudo ouvi na maior humildade, espreitando de través o relógio. Já só podia apaziguar a sua exaltação prometendo apanhar a primeira trotineta que encontrasse, encostada a uma esquina qualquer. A minha amiga deve-se ter dado por satisfeita, sentou-se no banco de um triciclo e deu as suas ordens. Partiu. Atrás dela, ao volante, esgatanhando-se a pedalar, um asiático baixinho, já a suar em bica. Santo Deus, a minha tilintante amiga, loirissima, combatia o dióxido de carbono a bordo de um riquexó!

 

O compincha de Pirot

João-Afonso Machado, 18.09.21

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Mal tirei as medidas a essa cidade, ou cidadezita, não sei. Tinhamos ponto de encontro marcado com os amigos sérvios que nos conduziriam à aldeia na montanha, e um nico de tempo para gozar o animadíssimo mercado.

Tudo eram vegetais aparentando o melhor pedigree. Fruta, hortaliça, flores... E uma ensurdecedora algaraviada, algo deslustrando essa amena tarde de Piotr.

À passagem por um guarda-sol, reparei, nele se albergavam duas mulherzinhas e o seu negócio, pimentos e malaguetas, mais um punhado de garridas cores. Logo lhes pedi autorização para uma fotografia - dado o bonito cenário, entenda-se, não propriamente os seus sombrios semblantes.

Que não, abanaram a cabeça. Aquilo, com uns dinars a empurrar, chegava lá rápido. Mas optei por prosseguir e assentar num banco, observando e escrevinhando os meus apontamentos.

Num instante se abeirou um colosso de farto bigode, eu juraria que me perguntou se era português. À cautela fui respondendo sim, ocorrendo-me talvez tivesse andado por cá, trazido na vaga de migrantes de Leste em busca de sobrevivência, umas décadas atrás. E, com um sorriso de orelha a orelha, demonstrou querer ajudar-me. Gesticulando muito, colocou-se ao lado do arraial das vendedeiras - e, enquanto pedia para ele uma fotografia, lançava esgares, piscava o olho e fazia trejeitos com o queixo na direcção delas. Entendi... Apontei a máquina. Fiz-lhe sinal cúmplice, alcançara o objectivo. E ele sempre galhofeiro, num inglês bastante arranhado, inquiriu - Are you an artist?

Se eu era um artista? Porque não? É, sou um artista, um artista português com palco algures em qualquer banda. Serei, talvez, um artista da "cassete pirata". Mas muito obrigado pela sua dedicação à arte, anónimo amigo sérvio desse instante! Assim o Destino me leve de novo ao mercado de Pirot, e havemos de nos reencontrar para uma cerveja, paga este afamado artista.

 

Desafio Arte e inspiração| Águas revoltas

João-Afonso Machado, 15.09.21

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Nesse dia as águas disseram não. Não seriam elas o lado serviçal, submisso, azul ao gosto de toda a gente. Furiosamente, revoltosamente, as águas queriam o seu descanso, queriam descontracção. E porque o Homem nada ligasse aos seus desejos, as águas soltaram, enfim, um enorme rugido. Seria seu, o circo. No céu cinzento de cumplicidade, jorrando sobre elas o reforço das chuvas e o uivo dos ventos, ouviu-se o estalo rasgado do chicote e foi o domador Homem a agachar-se no fundo da jaula.

Muitas e muitas horas o chicote se ouviu, quase um eco só, num gesto encharcado de onde a espuma se desprendia e as águas bradavam haviam de amestrar o Homem, ai dele se por então decidisse enfrentá-las! Assim centenas, milhares, de ondas, como cilindros que esmagam, cresceram também, esbofetiaram os construções do pretenso domador, e foi todo esse tumulto o grande grito de liberdade das águas, o seu repouso solitário, por tantas vezes sonhado.

E o Homem resignou-se. Rendeu-se. No tempo todo em que os areais ficaram desertos, os barcos em terra, assustadíssimos, de cócoras atrás do Homem. Mesmo as gaivotas desistiram da fúria dos ares e aquietaram-se nas estátuas dos jardins públicos.

Talvez amanhã as águas já não andem enfurecidas. Porém, doravante, o domador Homem ganhará consciência da força da Natureza e trata-la-á com a devida deferência. Tendo sempre a alertá-lo, não vá distraír-se, a pintura "A grande onda" de Katsuchika Hokusi,

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onde tão nitidamente a garra afiada das águas revoltosas de pronto sulcaria a prosápia humana.

Quem se lembraria de tal? É difícil... Mas, dos participantes no desafio sempre apostarei no nome da Concha, tão silenciosa e capaz de sobreviver a estes momentos de fúria.

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

 

Desafio Trinta Dias de Escrita|Ora pro nobis

João-Afonso Machado, 14.09.21

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Os seus dias eram de vagabundagem. Sobretudo no asfalto junto à fronteira, onde o filão de migalhas deixadas pelos viajantes parecia sem fim. E, se assolada por algum intruso, saltitava a pés juntos e, quando tal, abria as asas e levantava voo. Nunca esquecendo palavras de incentivo aos pobres, a aconselhá-los, se lhes topava na expressão a ignorância desse longínquo lugar. - Cuidado, cuidado, por aqui, cuidado, toda a atenção é pouca...

Compadecia-se sobretudo dos desgraçados da "boleia", uns miseráveis de dedo esticado na berma da estrada em que circulavam carros luxuosos, repletos de famílias na ânsia de concluirem a viagem.

Assim as horas famintas criavam amizades e diálogo. - Atenção, atenção a essa máfia, eles exigem, atenção, eles coartam mesmo...

Porque, sobre o tempo e o cansaço fronteiriço, de barato se falava em autocarros a preço zero, transportando vítimas até à cidade mais próxima. Era recorrente: depois de dúzias e dúzias de automóveis a transbordar de passageiros, de muitos adeuses mais ou menos trocistas, os pobres coitados, mais ou menos sedentos e esfaimados, sustinham o espírito nos horários dessas miríficas camionetas benemerentes. Até que uma chegou e eles, no maior alívio, entraram e partiram rumo a um almejado merecido almoço.

- Cuidado, cuidado! Atenção, atenção!...

Assim ela avisava. Dois peregrinos cara a cara com o condutor e o seu auxiliar. Ninguém mais... - Euros, euros? - Mas quais euros?! Isto é transporte gratuito!

- Euros, euros... - E, em folha de caderno quadriculado, os meliantes rabiscaram um número exorbitante.

Azeda troca de palavras. - Give me a ticket, my ticket, please! - Não, não havia tickets, somente havia uma tentativa de extorsão. E um punho já fechado avançando para os burlões foi travado pelo bom senso do saltimbanco mais jovem. Conforme entraram, saíram. - Pois, pois, eu não vos dizia, pois, máfia, máfia...

Tudo terminou em trajecto num taxi honesto. O dia continha ainda  muitos quilómetros a digerir, e tal episódio a esquecer. Dele ficou apenas a gratidão pela companhia, a memória da amiga gralha-cinzenta sérvia.

(Se é que estes bonitos e espertos alados têm nacionalidade.)

 

(Publicado no Desafio 30 Dias de escrita - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/desafio30diasdeescrita)

 

 

Passeata em Sófia

João-Afonso Machado, 13.09.21

As suas raizes são antiquíssimas, mesmo a avaliar pela bem apresentada estação arqueológica, às voltas com os vestígios de uma cidade trácia. E depois Sófia andou de mão em mão, passou pelos romanos, pelos hunos, pelos turcos, até à definição do reino da Bulgária, pelo meado do século XIX. Enfim, deixando de lado as décadas da sua obediente parceria com a URSS, estamos já na actualidade. Mais precisamente, no seu gerador comercial e turístico, a longa e pedonal Praça Vitosha (frente à montanha identicamente chamada - 1700 metros de altitude!).

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Aqui, de algum modo, poisaram as marcas mundiais de maior relevo e exigência financeira, e a companhia dos pombos também.

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Mas tudo seria mais fácil, não fosse o temível alfabeto cirílico nas placas das ruas, nos dizeres das lojas. É o demónio a gente saber onde está e do que se trata. E muito há de lindíssimo nas redondezas da Praça Vitosha. Vamos abrindo os olhos, então, apontando-os aos múltiplos jardins,

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às venerandas Termas Centrais, no presente o Museu da História,

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ao Teatro Nacional Ivan Vazov

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ou à estátua da mártir Santa Sofia (obrigada a assistir ao assassinato das suas próprias três filhas), a padroeira da cidade.

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Nas costas deste referido monumento, ergue-se a maior igreja católica romana da capital búlgara. Acabamos de penetrar um louvável perímetro ecuménico, porque a sinagoga anda ali perto, bem como a mesquita Banya Bashia.

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Ouve-se então um som lamuriento, prolongado, mesmo insistente. Cântico? Música? Não, somente o modo habitual de o templo islamita, de três em três horas, chamar os seus fieis à oração.

A maioria dos búlgaros, no entanto, é - pelo menos de tradição - ortodoxa. E o culto, no tocante a baptizados e casamentos, acelera muito aos domingos:

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O local previlegiado, a igreja de Saint George, a decana do catolicismo do rito ortodoxo grego,

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tão rica por dentro quão singela no exterior, onde fazem fila, ou se fotografam, os intervenientes e os respectivos convidados. Todos num certo jeito eslavo de caberem mal nos fatos e nos vestidos, decerto ansiosos pela mesa posta, a manga arregaçada e a cerveja pelo gargalo, o fatal bailarico.

Assim não seria nos severos tempos da Praça Nezavisimost, feita de edifícios do Partido Comunista de então.

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Simplesmente, tropeçando o regime nos escombros do Muro de Berlim, os ditos "centros de trabalho" transitaram para outros ofícios, seja o caso de o edifício do Governo ou de museus. Vejam lá o que nunca nos foi contado durante tanto tempo!

 

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