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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Quem foi Bento de Freitas, vilacondenses?

João-Afonso Machado, 08.11.21

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Se há cinquenta anos - ou mesmo há uns quarenta... - me perguntassem quem foi Bento de Freitas, a resposta seria pronta - Foi, e é, o nome da minha rua em Vila do Conde. - Que mais poderia ser, assim comprida, desde o hospital, junto à igreja da Misericórdia e à antiga alfaiataria do Sr. Pascoal, até à mortífera nortada da Marginal? Amplos territórios percorridos de bicicleta nos passeios, o sargento e os soldados da GNR fazendo vista grossa, no posto, a praia toda por nossa conta e as manhãs carregadas de nevoeiro e de peixeiras a trupar às portas de canastra à cabeça.

Não me admiraria, ainda se me perguntassem agora, à queima-roupa, quem foi Bento de Freitas, falariam as saudades, - Foi a rua da minha infância, dos Setembros da minha adolescência.

Necessariamente, antes de ser rua, Bento de Freitas foi um homem. Bento de Freitas Soares (1822-1887), vilacondense de berço, estudante em Coimbra, médico e político do Partido Regenerador. Um dos grandes impulsionadores da criação do então chamado "Bairro Balnear", todo um deserto selvagem entre a Vila e as dunas e o mar, arruado agora e vivido o Verão de umas tantas gerações.

Por isso o nome da "minha" (e de tantos de nós) rua, a homenageá-lo, - a Avenida Bento de Freitas. 

Descobri, há dias, entre velhos papeis familiares, uma fotografia deste Presidente da Câmara, deputado, governador civil do Porto, jornalista e sei lá mais o quê.

Abolicionista? Com certeza, não fosse a escravatura já finda. Mas ficou a Bento de Freitas algo de um correcto senador da União, desses que vemos nas séries televisivas sobre a Guerra da Secessão americana.

Tem um bom punhado de anos a fotografia. Ainda se deslocaria de tipoia e, à velocidade do mundo actual, a desabar inteiro nos areais de Vila do Conde, tenham-me - a mim mesmo - mais ao jeito de Bento de Freitas, careca, patilhudo e barrigudo. De sobrecasaca e colarinhos engomados. Bem almoçado. E a pedalar a minha bicicleta pelos passeios, com a GNR a deixar andar... Façam V. Ex.cias a fineza...

 

"Dia Primeiro" - o livro que segue

João-Afonso Machado, 06.11.21

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Estou na revisão das últimas provas, o livro não há de tardar. Dia Primeiro, depois de meses vazios, talvez, guardados cá dentro e só explicáveis pelo método infalível da poesia. Será que há interessados, será tudo isto apenas fantasia, o poeta não existe, afinal?

É o que tentarei apurar pelas reacções a mais este livro. O poldrinho da capa acabara de nascer, em boa verdade ignoro o seu destino: perdeu-se nas brumas, a ver vamos se há sol para além delas.

Oportunamente, com o livro já pronto, entraremos em pormenores...

 

Desafio Arte e inspiração|Ma belle époque

João-Afonso Machado, 03.11.21

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Sou malquistamente do Porto, confesso. Dos quatro costados portuense, mas nunca cidadão da capital portuguesa de la bourgeoisie. E sou muito rico, podre de rico, não porque haja mercanciado (uma sardinha que fosse...), simplesmente porque herdei. Assim a tripeira Invicta me enfada e me obriga a viajar, um acto, para mim, tão elementar quanto o da respiração. Além do mais, adquiri gostos caros, luxuosos, e foi em Paris que topei o meu Talbot - confesso já não sei exactamente quando; lembro, somente, regressei com ele e com Madame Bovary, que eu conhecera, entretanto, no Cafe de la Paix, aux Boulevard des Capucines,  em tarde quase outonal, com muitos predicados literários.

(Porque, é lógico, nas artes das Letras, e outras, é Paris, jamais o Porto...)

Ela, encantadora. Très insinuant. La Guerre etait fini, alors c'etait la diversion... Tocavam-se ritmos ainda desconhecidos nesta nossa Republicazinha, era o charlston, et Madame (ou Mademoiselle...) Bovary, de cabelo à garçonne, saia subida, saltaricando, rodopiando os colares ao pescoço, de uma energia que não se compadecia com tardes ao piano... Ajeitei a fatiota, compús o laço do colarinho e o chapéu que se colava à brilhantina, e investi que nem Nun'Álvres, esse desperdiçador. Eu não era peco em tais torneios... Fui-me chegando, - Ça va bien?, c'est mon plaisir... - Madame Bovary (assim se apresentou, entrementes), inspirou a boquilha, e, mais dolente, dirigiu o seu requebro para mim...

Safei-me como soube. Aliás, sobremaneira menti. Dei-me como refugiado au Portugal, ressonei o estrondo dos canhões, os horrores das trincheiras nas Flandres e... trouxe-a comigo.

Julgo, na realidade era casada. Mas sobre isso nunca falámos.

O Porto burguês recebeu-nos mal. As portas conhecidas fecharam-se-nos. E a humidade era imensa. Madame resguardou-se, envergou o vison et son chapeau. Eu, mais aclimatado, somente lhe oferecia o braço. Et cigarrettes, très dificilles cigarrettes, celles-la que ma chérie aimait, seulement achetés en Lisbonne... Vivemos na nossa "Toca", a Nevogilde, um bom par de anos. Um quotidiano modernista que, de surpresa, o meu amigo Almada Negreiros, parceiro de infindos serões de Arte, apanhou em flagrante.

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Ainda hei de lhe perguntar com autorização de quem. E quem lhe permitiu ilustrar a minha vida de então. É que, sinceramente, não me recordo!

E num atavio tripeiro, tomando conta desta publicidade, expandi-me verbalmente - coza-se, carago!!!

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

 

O dia dos Nossos

João-Afonso Machado, 01.11.21

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Mesmo em terras caiadas, das mais quedas no silêncio, eu creio ser dia de todos os portugueses em romagem. É a data dos Fieis Defuntos, melhor diria dos fieis aos defuntos - nós, ainda vestidos pelo nosso corpo, lembrando os que já o deixaram e jazem descansando.

Vamos dos granitos para os calcários e os mármores, País fora, neste momento de colorir a Morte, ou de transformar as flores em ofertas à Eternidade. Se a Fé não chegar mais longe, aqueles de quem temos saudade sabem - já entre nós o sabiam - hoje estão em festa, a família acende-lhes as velas e engole cânticos do coração.

Somos assim. Podemos até ser, em tais sinais, de manifesto primarismo. Mas, em vez das lágrimas, rosas e enfeites; em vez da pedra fria, a companhia das vozes conformadas.

E em vez do terror, a perene sensação de presença.

 

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