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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

"Chove"

João-Afonso Machado, 11.12.21

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A tarde espirrou sem limpar o nariz,

transida de frio, aborrecida, transporte

ido  num triz

 

e o salmodiar baixinho – leve-me o Pai, leve-me a morte –

a tarde a quebrar, o autocarro distraído,

outra vez o lenço de assoar,

céu, nariz, tudo a pingar…

 

Tudo entupido,

bueiros, calçadas, ribeiros,

a tarde prenha de maçadas

assim fossem castanhas assadas…

 

(Transida de frio, aborrecida,

para quando o transporte?)

 

Mas nem bicicleta ou nova camioneta,

sequer alguém, uma voz, não sabia quem

 

(levem-me rápido, dizia, à morte).

 

Hoje, dia da nossa Padroeira

João-Afonso Machado, 08.12.21

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Acabou de passar, atravessou a cidade, vinda de cima, da românica igreja de Antas. Assim há muitos anos, a solene procissão da Imaculada Conceição.

Antes do seu andor, que os bombeiros carregam, a história toda de Cristo, a Senhora das Dores sofrendo a sua morte com Ele entre os braços, o Crucificado, S. Tiago, S. José... Troam os foguetes, os escuteiros desfilam em toque marcial, ao longe o pálio com as dignidades da Igreja e o povo enchendo bermas e passeios. Nos quarteis dos "soldados da paz" é um infindo uivar de sirenes. E o cortejo abre com a resplandescente N. S. de Fátima.

Coisas - tradições, atavismos, - da Provincia, dirão. O Cardeal José Tolentino de Mendonça (in Uma Beleza que nos pertence) responderá - Não!; «porque a Fé quer-nos assim, o crente é assim: um peregrino com as mãos pobres e os olhos cheios».

Peregrinos na transitoriedade desta vida. Rumo ao Nada? Estaríamos condenados ao absoluto sem-sentido. Antes o mistério («os olhos cheios» dele), do qual é Mãe a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Sendo sempre de não esquecer, séculos antes da definição do dogma já a Coroa nacional ficara na sua imagem em Vila Viçosa, Rainha de Portugal, Padroeira dos portugueses. Salvé!

O mais seria absurdo: porque nada tão real como a emoção a erguer-se nos nossos corações à vista da Senhora da Conceição, mesmo pela maternidade que dela emana urbi et orbis. Porque, enfim, é a Mãe que jamais perderemos, a quem sempre recorremos em momentos de aflição verdadeira, quando cientes da justeza da prece e do mérito da finalidade. Assim me criei, assim a Senhora da Conceição está sempre no meu peito. De resto, assim os meus Pais me consagraram à Senhora nossa Padroeira, aos seus pés, no dia do meu baptizado, na capela da Casa - a Capela de Nossa Senhora da Conceição, necessariamente.

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 05.12.21

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Acabadinho de chegar de avião, numa dessas viagens em que se vê o mundo pelo canudo da máquina fotográfica. Mas recusando confessar as razões porque decidi aterrar na Portela de Sacavém... Mesmo muito cansado, dei comigo em Alfama, às voltas como os meus perdigueiros, de faro no ar. Ou melhor: de ouvido no zumbido da cidade. E tanto me ensinaram os cães, não demorou topar as eternas pulseiras, em toque de mágoa num laço onde Lisboa me estrangulava. - Olá! - Olá!!! Por cá?! - Pois, pela Capital, já nem recordava sob que pretexto... Isto tudo na Rua dos Remédios, com o Beco do Surra a descer de esguelha. Evidentemente, encontrara as coordenadas do nosso almoço, já ali, num tasco qualquer. E sentámo-nos à mesa, proclamando peixe fresco: robalo para os dois.

Nunca antes o frente-a-frente fora tão doloroso. É certo, a sua cabeleira permanecia dourada, brilhante. Mas o resto... Emagrecera em demasia e achei-a macilenta, triste, deslavada, com as pulseiras a dobrar a finados... E uma máscara a tomar-lhe a bonita, espevitada, expressão. - O covid veio para ficar, somos todos "cadáveres adiados" - definhava ela.

Desculpei-lhe o lugar-comum mensagista-sebastianista. Foi só falsa intuição minha, não se afogou em aguardente. Enfim, a usual arte dos ditos estafados. Com a escolha dos vinhos a meu cargo, chamei uma pinga alentejana de calibre 14º, e a minha querida amiga quase tomou conta da garrafa, como se de uma vacina anti-pandémica. Então palrou.

É óbvio, a conversa travou-se apenas entre nós. Esqueçam, por isso, a volúpia dos pormenores. Agora sei - adianto somente - muito da sua vida, mais da solidão e dos temores que a levaram a um recôndito estúdio sobre Santa Apolónia, em busca da paz, do Tejo-pai e da saúde.

- Mas está doente? - interroguei, alarmado. Não estava, mas podia vir a estar... - Ora, ora... -  Ora nada, o covid... Como se impunha, calei as minhas andanças por países dos milhares de novos casos diários. E o almoço foi isto.

Isto e a conta final, que a minha delícia insistiu a meias, "à moda do Porto". (Comigo, com um Senhor do Minho!...) Olhando o papelucho trazido à mesa, cresceu de indignidade - O robalo era só espinhas, refugo de anteontem, uma porcaria!... - A máscara dorida fugiu-lhe da cara e ainda cuspitou (cuspitaram-se, ela e a patroa, a D. Fulgência), ampla troca de mimos - Oh! filha, para a próxima vez escolhe o Tavares! - Escolho é a DECO! - Anda lá, paga, senão chamo a Polícia! - Vale dizer, uma prolongada troca de mimos e ripostarias, comigo sem voz a acenar o cartão Multibanco, como o simbólico trapo branco dos vencidos.

Afinal despedimo-nos afectuosamente. Percebi, regressava a casa, o seu esconderijo, o sossego da sua quarentena, com mais um teste na primeira farmácia do percurso. Esse mesmo propósito me ocorreu, não fosse a dita chuvada de perdigotos inflamar o Norte inteiro. Mas, verifico tantos dias volvidos, teria sido um desperdício! 

 

Pacotinhos de ruído

João-Afonso Machado, 03.12.21

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«Por cima as gaivotas grasnavam impropérios contra o cagaçal dos homens» assim escreveu José Manuel Palma no seu romance histórico Balada do Remexido, tocada esta nos idos da Guerra Civil, e nos prédios da gente de agora também. Foi o que me ocorreu, na minha predilecção por estas aves que são apenas o que são, cada vez mais intemeratas a distanciarem-se do Litoral. Cá para as minhas bandas, as gaivotas trazem sempre consigo o tumulto inquietante das ondas na invernia.

Gosto do seu voo. As lixeiras onde vão almoçar, quem lhes põe a mesa somos nós. De resto, as gaivotas são pontos esbranquiçados flanando o azul, ou estonteantes velocidades na cinzenta ventania tempestuosa. Dizem coisas roucas na borda dos lagos dos jardins públicos. Correm esticadinhas a bicar as pombas que lhes disputam as migalhas mas, como vizinhas, já conheci muito maior sopeiragem. Essa mesma, a do «cagaçal dos homens». O sururu no verde da praceta, ou as teorias da paz depenadas em práticas de beligerância. Tudo é causalidade e a agitação das gaivotas advém sempre do nosso desconcerto. Sejamos, ao menos, conscientes...

Passa um chá de caridade pelo ar/a ver que asilo há-de ajudar/e a D. Pepa espanhola quase nua/que não passa de moda mas muda de rua.

Passa D. Alda de Carvalho e Castro/Tudela da Fonseca (ó respiração!)/Lopes e Silva e ainda Bastos/entre-parênteses Bramão.

Passa depressa ó João»  - Cortejo, de Alexandre O'Neill).

 

Pelos canais de Bruges

João-Afonso Machado, 01.12.21

Assim cada embarcadiço fosse um medievo saco farto de cereal... Mesmo aquele fantástico par azul de olhos ferozes, a cada vez que me levantava para fotografar. (E eu repimpado neles, nos sacos, dono do mundo o trajecto inteiro.) Conduzia a lancha a ganância do ganho, bancos repletos, e uma vozinha fanhosa que o ruído do motor abafava. Restava-me a percepção daqueles meandros, os remos da minha imaginação.

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O canal sobejamente labiríntico. De águas escuras sem remédio, impenetráveis. Agora talvez por efeitos dos óleos, e antes em resultado do que vinha das janelas aos baldes. Buracos negros, como escotilhas rentes à maré, indicavam o refúgio e a idade pétrea dos monstros.

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Corremos os intestinos de Brugge. Por vezes rasando as cabeças no vão das muitas pontes onde expressões vazias nos observavam, como quem olha fardos de farinha vindos da moenda.

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Quase sempre navegámos as traseiras da cidade. Sucediam-se os palácios, forças inquebrantáveis a obrigarem o canal a curvar submisso.

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Quando não, mais floreados, não esqueciam a janela da princesa, curiosa e sempre melancólica.

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(E a jurar a si mesma, certamente, aquele cisne é o seu embruxado cavaleiro a rondar-lhe o pátio, sapateando como um cavalo ferrado o silêncio das maldades mais atrozes.)

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Por isso as tílias, os carvalhos, as heras lançadas dos terraços às águas: amarras, escadas, lianas em selva burguesa, sem bússola nem cronómetro.

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Mas os dias amarelecem outonalmente e o mirante transborda lágrimas tão verdadeiras quão a elegância das suas formas.

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Na margem oposta, o são gargalhar da moçoila visitada pelo aprendiz, vindo na bateira com a encomenda para o senhor paizinho. Só mesmo se ela o desprezasse alguém toparia ali qualquer muralha...

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Enfim, rezam todos pardas orações rogando não desembarquem os piratas, ávidos de riquezas acumuladas. Brugge fecha as janelas e espreita frinchas ao mais pequeno alarme,

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ou envia archeiros dissimulados na frondosidade das amuradas,

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levando sempre as mãos aos céus, tentando erguê-las acima do pináculo da igreja de Notre Dame

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nesta, como em outras histórias, omnipresente, abençoando com as vestes da sua sombra o burgo, nos muitos séculos de vivência levados.

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Se tudo isto é uma peça mal encenada? Reparo agora - não! Mal contada será, mas o que se trata é apenas a realidade mais vera,  essa que se acumula sob águas mortas-vivas, entaipadas como padecentes de outrora, vista cansada da grandiosidade que jamais abdica de si mesma.

 

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