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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio 52 semanas -6|O poder da música

João-Afonso Machado, 07.02.22

CARLOS SANTANA (HYDE PARK).jpg

Tempos estranhíssimos de cabeleiras masculinas escorrendo costas abaixo e calças ditas de boca-de-sino, capazes de esconder homens calçados em tacões com o calado de uma traineira. Os colarinhos voavam, as camisolas mostravam os umbigos e o baile no liceu ia começar.

Não encarrilava nessas modas. Não prescindia das suas botas, das Lois estreitinhas e de um ar despenteado mas não lambido. Franzino, pequenote, entrara pelo postigo do laboratório para não pagar o seu costumeiro e monumental "banho de assento".

As míudas votavam-no ao desprezo, sempre na ânsia dos mais velhos, já barbados, patilhudos e motorizados. E a animação ia em crescendo - Rock the Boat, Rock your Baby, Sugar Baby Love - para depois amainar em Isaac Hayes, Percy Sledge, Wilson Pickett, no Angie dos Rolling Stones...

Navegava, no entanto, outras águas musicais em que pescava Eric Clapton, Santana, Leonard Cohen e, essencialmente, The Doors. Foi então, nesse exacto momento, a surpresa das surpresas - os evidentes primeiros acordes de When the Music's Over, lacinante slow de onze minutos!

E vindo de lá, do miolo do romantismo próprio do adiantado da hora, a sua favorita, o seu secretíssimo amor, empoleirada nuns saltos de cortiça que pareciam andas. Mas não vacilou, foi em frente e pediu-lhe a honra daquela dança.

Ela acedeu. E todos aqueles onze minutos de Jim Morrison rodopiou com a testa a bater no queixo da pequena, o pescoço sentindo a generosidade do seu colo, um pensamento fixo - depois disto posso morrer, já tudo vivi.

Mas não sucedeu assim. É certo, cada um seguiria o percurso respectivo, passaram ambos as suas agruras e as suas alegrias. Somente, quase quarenta anos após, reencontraram-se, ela igual, ele já homem capaz de dizer como era. Tudo aconteceu na maior rapidez e foram os dois muito felizes até ao fim.

Rock the Boat, Rock your Baby, Sugar Baby Love, toda a colecção soul, integraram então o seu cardápio musical. Nem mesmo Barry White ficou de fora!

Porque a força da música está na sua qualidade e nas preferências dos melómanos. Mas está sobretudo na intensidade das emoções, no seu poder de esfolar a memória, deixando-a em carne viva.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

À boleia

João-Afonso Machado, 05.02.22

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Foi numa dessas estradas secundárias minhotas, pelo meio da tarde. Eu bem poderia contar os quilómetros nas pernas e assim ir andando... Mas, volta mais volta, um automóvel de passagem e o dedo esticado a reclamar ajuda...

Eis então, depois da curva, um ruído diferente, não seria tractor, menos um motor moderno. Estaquei, curioso, e, de caras comigo, uma aparição dos Anos 30 - quase uma centúria! - do pretérito século. Elegantíssimo, a brilhar dos cromados, um Ford V8. Ao meu sinal parando, marcha-à-ré, resfolegante da subida, a acenar sim ao meu pedido de boleia.

Escusado será dizer, agradeci e embarquei entusiasmado. Em tempo de ouvir o quente trautear do seu escape, algo a lembrar-me a primeira viatura do cangalheiro da terra, defuntas levas e despedidas chorosas, o motor expedindo trons compassados com todas as flores que se lhe acrescentavam. Sim, recordo bem essa fumarada de adeus lacrimoso, havia bombeiros, confrarias, e um ar quente que nos gelava o coração no derradeiro instante da mortalha oculta. O percurso seguinte era a pé, subindo, subindo, ante o tossicar do motor que parava e esperava por nós, pedestres.

Mais de branco pintado, o carro do tio, o tablier resumido e o Ford V8 galgando estradas rumo à praia, destinos de felicidade... Em toda a viagem a memória incontrolável calou vozes, deu-se a todo o conforto, pacificou o passado e forneceu o crédito bastante para chegar a horas a casa. Com três velocidades para a frente, manípulo junto ao volante, a amizade do condutor e uma conversa parecendo um lavatório de coisas feias.

A grelha frontal, os faróis, todo o composto...  - A este velhote só faltou ir para o campo com a charrua atrelada... - Nada retorqui, importante era que chegasse agora ao meu destino... E para quê as comodidades de hoje? Mais hora, menos hora, o ponto final da viagem é o mesmo, e só não ficará o recorte da epopeia, porque as epopeias já lá vão, demonstravelmente por estas máquinas que persistem em (desprovidas de malabarismos técnicos), deambular, quilometrar e dar-nos o gozo enorme que as modernas não dão.

 

Desafio Arte e inspiração| O sem fim

João-Afonso Machado, 02.02.22

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Essa série televisiva Espaço 1999 transportava-nos para um futuro impensável que hoje é um passado infantil e pintado a preto e branco. Nada, então, de muito empolgante, acrescento. Salvo no facto de episódio sobre episódio a nave, tripulada por gente plurirracial, enfentando seres e perigos sinistros, jamais acertar com o caminho para casa. Querem angústia maior? O que sentiriam, perdidos no Cosmos, sem jamais redescobrirem o planeta do berço, a sua Famalicão?

Talvez o Espaço 1999, sem índios nem cowboys, tenha sido uma primeira noção nossa do infinito. Porque tal como a nave perdida também a nossa inteligência não alcança o além do além do Além. Como se desenharia o fim do Universo, acreditando que o Universo tem fim? Quantas as gerações necessárias para rematar uma viagem até ao Nada?

E se o Universo fosse uma bola circundável? Eis uma interrogação esbarrando nessa outra - e para lá da bola? Mais bolas? Uma sucessão de bolas? Seria o Universo o conjunto de todas as bolas? Quantas eram elas então?

E a catraiada deitava-se perplexa e assustada com tão inquietantes questões e um certo peso misericordioso pelos humanos perdidos sem bússola entre tantas esferas e as correlativas ameaças de formigões gigantes, faladores e ameaçadores.

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Kandinsky, premonitoriamente, desenhou um buraco no firmamento por onde se escoam os planetas e as estrelas e os anos-luz, decerto devolvidos ao Espaço e ao Tempo por outra cloaca similar. E assim mais conformada, a nossa eterna condição de catraios dorme mais tranquila afinal. Recordando, saudosa, os astronautas do Espaço 1999, que todos morreram lá muito longe, sem atinarem com o rumo para a sua Famalicão.

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

 

O meu "Povo das Neblinas"

João-Afonso Machado, 01.02.22

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Todas as manhãs, chovendo ou azulando o céu, saímos. Pela vetusta calçada quase à moda dos romanos e no tempo das imensas florestas de uns segundos sob o arvoredo. Dona Mécia à frente, de uma coscuvilhice de nariz que a impede de apreciar esse instante amazónico e os dramas pressentidos entre as impenetráveis ramagens. Sobreiros anciãos, principalmente. E uma actividade infrene que se ouve e rasteia em muito vagos agitares das folhas.

(Dona Mécia, parada adiante, trata da sua higiene intestinal...)

Será o Povo das Neblinas de A Cidade dos Deuses Selvagens de Isabel Allende? Esses índios que conseguiam colocar-se no «estado mental de invisibilidade», «puros espíritos transparentes»?

(Dona Mécia permanece indiferente a este dito instante amazónico e fuça agora o plástico de um iogurte esquecido por ali; é difícil simultaneamente controlar a asneira e decifrar os mistérios das frondosidades...)

Decorrem minutos complicados. Um olho no solo, tentando menos escavações nas folhas secas dos carvalhos, e o outro na densidade dos sobreiros, em busca de alguma raridade, dos seus segredos piados baixinho. Pipilados.

Assim todas as manhãs. E alguns vislumbres aqui e acolá. Ainda hoje uma estrelinha, de cabeça para baixo mesmo sobre mim, debicando micro-insectos entre a vegetação. Há já algum tempo um chapim-preto, um pouco menos minúsculo do que a estrelinha, devidamente capturado e trazido como troféu.

(Dona Mécia, impaciente, querendo subir as escadarias que levam às divindades do asfalto e à cãozoada da vizinhança.)

E deste modo a expedição regressa do tal mundo do fugaz tempo debaixo das copas de três sobreiros inexpugnáveis. Com provas evidentes da existência do Povo das Neblinas de Isabel Allende.

 

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