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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

A praga da primavera

João-Afonso Machado, 12.03.22

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Há de chegar sumarenta, que são muitas as gargantas ressequidas. Connosco à varanda a dar-lhe as boas-vindas, a essa Primavera de cores e do fim dos desamores.

Dará roupagem às despidas ramagens, cantará e dançará à vista das flores e do embrião dos frutos. A Primavera passeia de bicicleta no jardim e faz ninho em qualquer silvado. Desperta os sardões e alarga os dias, arregaça as mangas para as culturas.

E talvez seja humana, entorpecentemente capaz de influir nas vontades mais ácidas. Como um praga bondosa, dizimando os bandos dizimadores que pululam por toda a parte. Não é de hoje tal esperança...

 

O "crânio"

João-Afonso Machado, 10.03.22

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Sorte minha, a autoridade cá da terra é o meu primo Vladimiro. Ele e a sua farda, a gravata negra sobre a alva camisa e, à cintura, o bastão e a pistola que lhe foi distribuída... Assim não há quem o desafie!

O Vladimiro é do mais finório que temos na família. Cumprido o serviço militar, o Vladimiro veio com a cinzenta paixão das armas. Dera parte, na guerra, dos insurrectos, ajudava a castigá-los, esses infames traidores. Batia-lhes com afinco. E, posto na reserva, propôs-se à Guarda, foi aceite com as divisas de cabo e colocaram-no na esquadra onde se mexia como o galo da capoeira.

A freguesia é sossegada, porém. O telefone da sua secretária é raro tocar, os dias são monótonos e o Vladimiro enche-se de tédio. Sentiu-se rebaixado com a bicicleta que lhe foi atribuída, o povo destas bandas já é muito de motorizadas. Por tanto ele resmungou,  andavam a inferiorizá-lo e, nos seus vagares, deu-se com firmeza e amor à cachaça as tardes todas. É como vai escoando o seu pré mais o que não tem, e depois se socorre dos familiares e amigos. Ao que acresce a moça nas redondezas, já não é segredo, que por uns favores o deixa sugado, sem cheta. E tudo amenizam, felizmente, as multas deixadas esquecidas a troco de qualquer coisita...

O Vladimiro aguarda agora a sua promoção a sargento. E um jipe para o posto, para justificar a sua previsivel obesidade, as botas de montar onde estala o pingalim que antes estalava nas costas dos militares insurgentes. Anda já a treinar poses e, por dá cá aquela palha, leva a mão ao coldre, fala como na caserna, e ameaça. Ultimamente descobriu, a esquadra vizinha compunha-se de um ninho de bandidos conspiradores e apelou ao Distrito - com ele no comando conjunto seria a ordem e o fim dos desmandos. Ao que se diz, o assunto está bem encaminhado, a contento das ideias deste meu  digno primo.

Pois é, nada há que ele não consiga, o danado do primo Vladimiro. É um ás, o espertalhão! Um "crânio", como lhe chamou o Sr. Abade o outro dia.

 

Desafio 52 semanas -1O| Estilo: stiletto?

João-Afonso Machado, 07.03.22

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Declaro de começo a minha prazenteira escrita sobre o inexistente substancial. Pela dominante razão da minha ausência, e total descrença, de estilo. Seja no vestir, seja no penteado, seja mesmo no tipo de vida.

O estilo... - Uma forma de vida? Uma posse precedida de um pronome possessivo? Então, consequentemente, algo mutável, hoje assim, amanhã assado. Algo não da essência, em suma. E perigosamente inimigo da personalidade. Quiçá o maior...

Dá-se o caso de evoluirmos e, felizmente, a idade a tanto ajuda. É o carreiro para constatarmos, ´"estilo" e a "moda" confundem-se.

Ora eu nasci, cresci e vivo sempre entre os mesmos parâmetros. Por mero acaso e por força da genética, curioso e instável, dentro da estabilidade do meu ser: Ávido de sentimentos e sensações, apostado em saber expressá-los. É, - nessa tremenda ansiedade. Com os anos que se acumulam cada vez mais complacente com atitudes contrárias, que é o caminho da universal harmonia.

(Envergando roupagem com décadas de uso, das quais me despeço apenas quando já não caibo nelas ou não há quem as remende. E no mesmo corte de cabelo e barba que nunca abandonei.)

É um estilo? Não é. É o entendimento da vida bem plasmado em anos de trabalho insano e organizado rumo à independência, que a liberdade nasci com ela. Assim hoje posso correr e discorrer sobre o mundo. Porque de Fernando Pessoa li um dia - «Deus é o existir, mas isso não é tudo».

Ficou-me! Há muito mais, há o movimento das frases, a melodia dos dizeres, o encadear das ideias. E sem estas...

Para mim digo - assim é viver, nunca estilizar. Outros argumentarão o contrário e os registos suceder-se-ão no catálogo das filosofias.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Sou pelo Mafra!

João-Afonso Machado, 05.03.22

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Dei por isso ontem, na primeira rodada das meias-finais da Taça. Dois gigantes numa luta que ditará a morte de um deles; e um duelozinho mais modesto, cujo ganhador enfrentará no Jamor a dita fera sobrevivente. É neste ponto da história que entra o Mafra.

Para quem os tem em salas sobre salas, de que serve outro galardão? Aquilo há de os enjoar até, enquanto o Mafra, da II Liga, anda falho de "canecos" importantes, nunca os houve senão os dos torneios de matraquilhos.

A vida dorme por lá, em Mafra, sequer a acordam os carrilhões do convento e os esforços e pompas d'El-Rei D. João V. Por vezes, dá uma volta na cama, espreguiça-se e mordisca uns tremoços na esplanada, saboreia a sua imperial. Em dias especiais soltará mesmo um ou outro comentário futebolístico.

Mas sonha. Mafra sonha sentada, sonha alto, sonha acordada. Amarela e verde de um entusiasmo repentino, lá longe a remota hipótese da Taça de Portugal... Um sonho colectivo, aliás.

Estou com o Mafra. De café em café, agitando os estados de maior algidez, sentado no jardim público a espreitar a sueca dos velhotes, trocando cartas por cromos antigos dos craques da bola.

E quantificando romarias ao bom peixe da Ericeira, as ginginhas de passagem no José Franco que Deus tem. Uma colecção de dez quilómetros para lá, outros tantos para cá, na sofreguidão das sextas à noite dos antigos cadetes da Escola Prática. Faça-se o Verão em Mafra, cubra-se de glória a região saloia, tragam essa Taça do Jamor. E atrás dela a Europa, tocando burriquitos na berma das estradas de regresso a Lisboa, carregada de frutas e legumes, de roupa lavada na "água fria da ribeira".

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 04.03.22

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A torre e o seu pináculo revelaram bem a noite. Agradeci-lhes voltando as costas aos ruídos insurrectos dos meninos pequenos tão já prepotentes. E busquei momentos menos sombrios.

Sem retorno! - frisei com toda a convicção que hoje mantenho. Que espantosos lugares de abrigo, as catedrais!

 

À boleia

João-Afonso Machado, 01.03.22

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É uma névoa longa pairando sobre essa quase cinquentenária viagem. Uma fotografia amarelecida que traz ao presente um objectivo distante, a Ílhavo agora tão à mão. Férias! O rapazote, capaz de todos os encolhos sem enjoar, estendeu o dedo sem crença mas o desportivo, aparentemente cheio, parou e o passageiro abriu a porta.

Formas abauladas de um Porsche 356 já então demodé. Porém, um Porsche para todos os efeitos, um bicho raro nessa comedida época... Com um mini-banco traseiro, quase o buraco de bagagem que o rapazote - por acaso eu próprio - usualmente ocupava no carocha do Pai, tamanha era prole familiar... Pois assim seguíssemos ao fim do mundo.

No retorno à estrada, o barulho de "malhadeira", como diziamos então, abafava a conversa. Percebi, o ocupante, de transistor no ouvido, seguia apaixonado o relato futebolístico e era do Benfica. Mal dele que não me afectava, entretido com a alta rotação do Porsche (neblina que se aclara e dispersa num voo rente ao asfalto) de súbito sustida pelos percalços do trânsito na EN14. De joelhos encolhidos, a mochila agarrada como quem defende um coração amado e o percurso a correr, a penumbra que, assim vou escrevendo, assim se vai dissipando.

E, nessa clareza de agora, recordo o tablier, a sua complexidade, a dócil caixa de velocidades, os arranques, todo o trabalhar dos 1600 cc postos naquele motor. - Goooolooo! - exclamou a páginas tantas o senhor do lado. Pois sim... Outros mais o Benfica marcasse - que os marcasse até ao infinito, não fosse a boleia terminar no Porto, felizmente não longe da ponte da Arrábida. Meio trajecto estava completado. De Porsche, postal destoado que sempre guardarei neste ficheiro chamado memória...

 

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