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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio 52 semanas -19|Carta ao Nando Virtual

João-Afonso Machado, 09.05.22

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Meu velho Amigo!

Escrevo a saber que é feito de ti, há tantos meses sem dares notícias, sem uma palavra, um comentário. Passei pelo teu blogue e confirmei a tua repetida ausência neste nosso café computadorizado - ausência, como digo longa, a avaliar pela triste desacomulação de correio na tua caixa, eco do inexistir, da fuga, do esquecimento, da volatização de uma vida afinal a modos que apenas radiofónica.

E é pena. Bem apreciava as tuas crónicas. Tinham oportunidade, humor e faziam crer que tu, Nando Virtual, eras mesmo o Nando Virtual alentejano ou ribatejano, benfiquista ou sportinguista (já me baralho), antigo forcado amador, o genuíno Nando Virtual e não a medida tomada por tu mesmo. Não serias uma Fernandinha qualquer, feita espertalhona, a espraiar a sua capacidade criativa, Ofélia perfumada no improviso de um personagem. Ou a rir-se à custa da rapaziada.

De resto, caro e ignoto Amigo, também as senhoras apreciavam, e muito, a tua prosa, as tuas façanhas, a avaliar pelos ais! que lançavam na nossa mesa teclada em que às vezes talvez exagerasses no consumo do pirulito, quando repetias até à exaustão - Merda!, sou lúcido!

Por isso, prezado Nando Virtual, faço votos reapareças breve e te manifestes do Alentejo ou do Ribatejo, ou mesmo do outro lado aqui da minha rua.  

Dá-nos esse gosto e recebe um enorme e cego e tacteante abraço deste teu admirador

J-AM (que, juro pela minha saúde, sou eu mesmo sem heterónimos nem pseudónimos).

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Pacotinhos comemorativos

João-Afonso Machado, 08.05.22

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Folheio a agenda já estonteado. Os dias sairam do anonimato e exibem agora nomes próprios e apelidos sonantes até. Vêm à televisão comemorar-se, exigem a atenção do público, dão o seu espectáculo com timbre muito nouveau riche, como dizia uma certa velhota, ela mesmo posta toda gaiteira pour épater le bourgeois. Infeliz, inoportuna, sequer se apercebendo da gente à volta a rir, carago!

Pois também os dias olham por cima, sobranceiramente, das semanas e dos meses. Invocam genealogias antigas, bíblicas, com lugar de destaque na História. São deles a Liberdade, os Trabalhadores, o Pai e a Mãe, a Mulher! Mesmo os mais modestos não se coibiram de deitar a unha ao Livro, à Árvore, ao Cão ou ao Gato...

Em boa verdade, os dias cairam na rede espertalhona do comércio que os descobriu com S. Valentim, o Halloween, a facturar carnavalescamente. Depois foram também adoptados pela apagada imaginação dos senhores da "Cultura", muito ligeiros a lavar as mãos após terem posto as criancinhas a plantar uma árvore antecipadamente condenada ao esquecimento; ou a ler um livro com o pensar transportado para o recreio, os ciberjogos... Esta faceta de sensibilização, então, toca as raias da tolice e deixa bem à vista que há coisas cuja importância só se afere uma vez por ano. (Sendo que "é Natal todos os dias", se tal não fosse uma colossal mentira.)

Deixemos, por isso, o postiço. Devolvamos os dias às semanas e aos meses. Não compliquemos o ano e gozemos por todo ele a liberdade, o cão e o gato e não a árvore mas o bosque. Enquanto este não arder de um momento para o outro... 

 

Sábado

João-Afonso Machado, 07.05.22

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Mais hora, menos hora, aí está sábado a abrir os olhos ao dia. Conforme o hábito que vem fazendo seu, espreguiçar-se-á na cama e ficará a pensar neste Maio que, meio tonto, já anda aí.

Precavidamente o sábado matinal não ligará a televisão onde se ouvem apenas os canhões da moda primaveril das 24 horas sob fogo de guerra no leste europeu. (Essa moda global que triunfou em pleno, e reduziu a cinzas o monopólio noticioso da antecessora, a pandémica.)

E o inverno sem chuva, o Março um pouco mais choroso, a compensar, e esta meteorologia nem para trás, nem para a frente?

Sábado dará outra volta na cama sem descobrir respostas. Desapetecer-lhe-á a praia, talvez já no seu corridinho burguês, e sentirá nos ares o cheiro do estrume, o campo vai para as sementeiras. Maio. Mas um Maio invulgarmente triste e desamparado. Fátima? Mas Maio e Fátima são a multidão e o sábado prefere um meditar recolhido...

Dar-se-á conta sábado que é o primogénito deste Maio. O mais velho da série e talvez os sequentes tenham melhor sorte, se poupem à poeira na faina rural ou ainda viajem por lugares de dignidade e novidade. Quanto a ele, velhote pioneiro, restará a leitura, uma ida ao parque, que se o movimento for pouco ainda lhe cairá na câmara algum passarito ou a elegância em passos de ginástica... Ah! - e um futebolzito importante ao fim da tarde.

Sábado coça a barriga e ir-se-á então convencendo a levantar.

 

Souselas

João-Afonso Machado, 04.05.22

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A menina Delgado, descendo a rampa da estação, atravessava o Largo da Igreja e percorria a rua principal até sua casa, no outro extremo da aldeia. Vinha do emprego em Coimbra, irradiando as suas hot pants muito no cimo das longas e bem lançadas pernas, sempre em ligeirinho andar. Souselas espreitava-a, algo sedenta, por trás das cortinas silenciosas. Ainda não eram as vésperas da Revolução de Abril.

O Centro Desportivo Recreativo Popular de Souselas militava na II Divisão do distrito conimbricense e equipava à Sporting. O seu ponta-de-lança, alto e desenvolto, de vasta cabeleira, era o Mário, irmão da menina Delgado. O Yazalde, mas com o inoportuno senão de não acertar uma, nem uma, bola.

Jogava-se muito os matraquihos e exagerava-se nos cálices de ginginha, a crua realidade dos canivetes e das telefonias prometidos nos mostruários dos "furos". Aos fins de semana havia teatro ou cinema ou mesmo baile no Grupo Desportivo Recreativo Popular de Souselas. Os galãs locais aperaltavam-se: o Raul evidenciava os bíceps; o Heitor enfiava a calça de bombazine castanha, o pull over amarelo e as meias a condizer, mais o pente no bolso traseiro, sempre com a poupa em manutenção. Para os netos do Senhor Eng. - para nós - a entrada era gratuita.

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Mas as pequenas do nosso patamar etário dançavam entre si, à mingua de licença paternal para contracenar com os moços. E o conjunto tocava suspeitíssimas versões do Souvenir of London dos Procol Harum, além do romântico nacional da época. O Mário Delgado, o Raul, o Heitor e os outros fartavam-se de namorar. Connosco não havia o perigo de noitadas exageradas, até porque para amanhã ficara já apalavrada uma incursão no carro de bois do Sr. António até Brasfemes.

Eram assim os Setembros da II República. Assim e com o rio Botão ainda limpinho, cheio de peixe.

 

Desafio 52 semanas -18|Um diário a não ler

João-Afonso Machado, 02.05.22

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Já não recordo a que horas adormeci, intervalando a leitura com lascas televisivas. Agora a manhã vai adiantada, eu ainda na cama a esfregar gelo no joelho, encarando de mau humor as tarefas gigantescas que tenho pela frente: tomar banho, o pequeno-almoço... Entretanto, toca a campainha da rua, é a minha cuidadora - Dona Mécia, a parceira de um dia inteiro enfiado na toca.

(Recordo aviões e navios, planos frustrados de baleias açoreanas, o queijo das ilhas e a minha máquina fotográfica sob o véu inapetecido das teias de aranha...)

Assim decorrerão as horas todas. As canadianas emprestadas substituiram com vantagem a bengala e sobra tempo para uns trabalhos escritos encomendados e, por vezes, maçadores. O sol é uma bola lá fora e o meu intimo encolhe mais negro do que a mais feia invernia.

Evito pensar no que se seguirá. O telefone toca com frequência, os amigos apercebem-se do tremendo significado da reclusão. Dona Mécia, indo a tarde para a noite, despede-se e sai manifestamente contrariada. Uma bucha ligeira e o repouso estendido na cama, a desbobinar memórias. Em frente ao meu refúgio há uma horta e eu agradeço aos melros a serenata que, do alto do seu diospireiro, me dedicam...

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

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