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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Pacotinhos de voluntarismo

João-Afonso Machado, 20.07.22

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Era mesmo o derradeiro adeus - lenta e arrepiantemente o caixão chumbado e as portas do jazigo abertas, um silêncio sinistro que tomou conta de todos. Os pais da jovem defunta amparavam-se um ao outro vergados ao peso da dor, mas terminantemente resolvidos a suportarem o calvário. Os dois, só eles, como se em roda houvesse ninguém.

Até que essa exaltada quis brilhar. E, aos berros, vai de chamar a irmã para buscarem um carro e, contra as normas expressas do respeito devido ao local e às circunstâncias, avançarem até ali para uma boleia de regresso dos desditosos e exaustos Pais.

Queriam estes somente o recíproco apoio e estarem sós ou na companhia dos demais filhos, que nenhum faltara às exéquias da irmã.

Mas o voluntarismo, além de altifalante, é omnipotente. Os velhinhos foram enfiados à força na viatura e nem a sua descendência ousou opor-se à profissional voluntária.

(«... E as carpideiras chegam... vêm esbeltas,/Com lágrimas e luxo. Ó carne morta/erguendo mãos diáfanas de celtas!» - in Clima de Pedro Homem de Melo.)

Pois que saibam: quando chegar a minha vez ai do voluntarioso que se lembre de perturbar! Ai dele!, levará com o meu espírito a atazanar-lhe a vida até ao fim dos seus dias.

Os especialistas do voluntariado!... Como se todos não tivessemos o direito de querer sim ou querer não. Ou até de não querer dizer que queremos sim. Sem alguma obrigação de satisfazer caprichos disfarçados de boa vontade, protagonismos hipócritas e gestos pretensamente nobres desses que, em casa própria, geralmente não se levantam antes do meio-dia.

Voluntários de ofício, jamais por vocação.