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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Rainha morta, Rei posto - eis a questão que os mói

João-Afonso Machado, 10.09.22

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É evidente, em República um Chefe do Estado em funções durante sete décadas só poderá personalizar uma ditadura e das mais ferozes; na férrea mão que aos 90 anos de idade ainda a consiga manter - a mão férrea, a autocracia.

Ao invés, em Monarquia, igual duração de um reinado (ou de chefia do Estado-Nação) sempre consolidará a relação entre o rei e o seu povo (senão seria a resignação ao trono, como sucedeu em Espanha), assim garantindo e fomentando o andamento das instituições democráticas. É o exemplo que colhemos de Isabel II, a grande Senhora que ainda não era rainha e já servia os britânicos, conduzindo camiões na Guerra Mundial.

Decerto contrariados (ou levados pelo "politicamente correcto"), os republicanos esmeraram-se no enaltecimento das virtudes da Rainha morta, nas peripécias do seu longo reinado ora findo. - Com ela acabou o século XX! - acrescentam ainda, a enfiá-la à pressa nas gavetas de um Passado sem continuidade.

A rápida e serena substituição de Isabel II com a entronização do seu filho, o Rei Carlos III, - no Reino Unido, aqui a dois passos da atenção dos portugueses, - é algo que aterroriza a República e já pôs a sua imprensa a ganir disparates.

Coleccionam-se fraquezas do novo Rei, Diana foi exumada, Camilla enterrada com o pescoço de fora, lançam-se suspeições e boatos tablóides. A confundir Portugal, dando da notável Rainha a ideia de uma ilha perdida no oceano...

Mas no Reino Unido a Monarquia é firme e Isabel II viveu o bastante para a firmar ainda mais. Os britânicos choram-na quanto já dão vivas a Carlos III.

Essa ópera bufa e peçonhenta fechou a minha televisão. Assisti ao bastante. Quem puder, dê um salto à Grã-Bretanha e constate, aprecie, tire conclusões.

 

A preto e branco

João-Afonso Machado, 09.09.22

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As manhãs acordam cedo no Agosto balnear, ainda grande parte dos veraneantes dorme. Mas aos de sono mais leve não escaparão os tropeções dos carroços dos varredores nem as imprecauções das peixeiras tocando às portas suas conhecidas. Ainda a praia é um deserto acizentado e húmido que anseia pelo meio-dia redentor.

A Olívia, um dos vultos mais antigos, bigodenta sem pudor, vem descalça e coberta de sete negras saias, como a faixa que as cinge à cinta e o lenço da cabeça, a rosca de trapos em que equilibra o seu tabuleiro. Não é sardinheira, a Olívia, porque a clientela é forasteira e abonada, gulosa dos seus gorazes, capatões e robalos; da delícia dos frequentes linguados e rodovalhos... E a porta que se avizinha, de uma senhora já idosa e freguesa de uma vida toda, - a Olívia sabe, abrir-lhe-á o palco de um espectáculo sempre aplaudido, tenaz mas proveitoso.

O batente soa a ferro antigo, de boa fundição. E a criada, já muito dentro dos seus horários, não demora a esclarecer - Vou chamar a Senhora...

Há um custoso descer das escadas e o canapé onde a Avó se senta. Os netos, ainda em pijama, tomam os seus lugares nos degraus. Atentíssimos.

- Bom dia, minha Senhora! - Bom dia, Olívia! Então o que traz hoje?

Logo a Olívia, o tabuleiro poisado na pedra do chão, remove os trapos com que resguarda o pescado. De um em um enumera as suas qualidades, «vivinho, acabadinho de sair do mar».

A Avó, essa manhã, deu-lhe na tineta um ruivo tamanhudo a avermelhar o mostruário da Olívia. Sempre é preciso variar... - Oh mulher!, e o ruivo, quanto quer por ele? - Cinco escudos, minha Senhora, cinco escudinhos por este rico peixinho que ainda parece respirar... - Cinco escudos? Eu compro igual no mercado por dez tostões!...

É já a véspera do clímax. A Olívia insurge-se, vá lá a Senhora comparar o mercado com o peixe saido agora da traineira... - Valha-nos Nosso Senhor Jesus Cristo e a Santa Madre das Areias!!!

- Vinte e cinco tostões, Olívia! Vinte e cinco tostões senão por hoje nada mais... - Quatro m'reis, minha Senhora! - Três, pronto!

Três e quinhentos Senhora! - riposta a furibunda Olívia já com o ruivo pendurado pela guelra no seu dedo. - Três e quinhentos que pela alma do falecido que Deus tem já fico a perder. - Não, não quero! - Quer quer, minha Senhora! Pela saúde do meu moço que anda no arrasto, quer e não se arrepende!

Eis finalmente o almejado clímax. A Olívia conhece de gingeira os corredores da casa e, de faca em riste, o ruivo na outra mão, só pára na banca da cozinha. - Mas, mas... - a Avó ainda tenta recalcitrar, já a Olívia esventrou, escamou e amanhou o ruivo. Os netos batem palmas, que grande exibição! - Consumatum est! - sentenciou o Pai, um desses dias em que se levantou mais cedo. A Conceição, a velha criada, ri até às lágrimas. E a Avó acaba sorrindo, feliz com o belo almoço e o entusiasmo dos seus queridos meninos. A manhã, encoberta embora, começava bem...

 

In memoriam do after shave

João-Afonso Machado, 06.09.22

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O Sr. Pinto morreu o mês passado, já centenário. Foi quase uma romagem à sua Drogaria Pinto, algo depois, o negócio agora a cargo do seu filho, o Sr. Pinto Júnior. Não que não tivessemos sido contemporâneos nos estudos, mas o tempo faz coisas destas, cria distâncias e cerimónias e clientela grisalha. Srs. isto e Srs. aquilo. Embora as drogarias carreguem consigo o saudável paladar da imutabilidade, por mais modernizações interiores de que sejam capazes. 

Não resisti à sua montra nem à colecção de antigos after shaves nela expostos. Denim! (passe a publicidade), quase cinquenta anos num instante recuados, os anos em que a lâmina de barbear corria a cara intentando puxar uns pelos de barba à superfície dérmica, adubagem depois ardida na frascaria do Pai, que fazia de conta e sorria condescendente.

É o que uso somente e vou descobrindo a preços módicos em estabelecimentos similares Portugal adiante. Com a saudade presa a tão remotas épocas dos primeiros sonhos com patilhas e bigode.

Mais a mais reforçada, essa nostalgia, com a escolha aconselhada junto à vitrine onde o produto se preserva e a perguntinha sibilada ao balcão, enquanto o embrulho é cuidadosamente feito, - Então e que mais há de ser?

E a gente olha em redor, passa além dos pesticidas e das vassouras, mas acaba sempre tentado por um alicate ou um canivete... E isso foi o que houve de ser.

 

Desafio 52 semanas - 36|Dias termais

João-Afonso Machado, 05.09.22

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É um plano de execução para breve: a estadia numa estância termal, dessas velhinhas, quase destelhadas, sem dinheiro para substituir as vidraças partidas. Rodeado de gente do tempo das cartolas e dos vestidos a arrastarem-se na poeira entre os canteiros.

(Já o ano passado o tentei. Três dias em umas renomadas caldas. Mas a fila na porta do balneário era tal que me achei no metro de Lisboa - e mandei os banhos e as massagens às malvas e zarpei para aldeias xistosas próximas, sem vivalma salvo o ladrar dos cães e uma cobrita na ribeira à chegada.)

É, tem de ser um lugar decadente com luzes amareladas e telefones rabiscados nas paredes; cheirando intensamente a formol mas possuído de projectos novos e fantásticos, porque é de esperança que vivemos; não quero saber  nem de algas nem de godos quentes e a massagista pode ser carrancuda como as enfermeiras de antigamente - e se se pautar pela juventude e beleza, saia-se faladora e com vontade de furar a dieta.

Bastam-me os plátanos das alamedas, o jardineiro da idade destas e o horror dos personagens presentes ante as minhas mangas arregaçadas. A piscina para uns mergulhos e umas braçadas e um refeitório com flores murchas, em vez do restaurante. E em tal ausência de movimento melhor lerei os meus livros e atentarei no passado e no futuro da vida: o presente é geralmente isso.

Umas quantas caretas ao beber águas intragáveis, duas freirinhas e igual quantidade de viúvas, de preferência com acompanhantes maçadíssimas e compatíveis. Nas redondezas, a eterna presença de um rio eternamente remexido, já agora com alguma ninfa nos penedos das suas margens, ninguém mais. 

Tenho procurado e julgo que encontrei o sítio ideal, a preencher todos os requisitos. Darei notícias depois. Com o maior entusiasmo!...

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Uma visita nocturna

João-Afonso Machado, 04.09.22

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Fora já o luso fusco e a surpresa entrara pela chaminé e esperava-me no meu quarto. Um jovem mocho galego, ainda mal calhado nas artes de voar. Trouxe-o comigo à cozinha e ofereci-lhe um pedaço de carne de porco à alentejana, mas recusou. Notava-se, estava aterrado, o olhar escancarado e as garras de volta dos meus dedos. Sem quaisquer intenções de bico... Temendo pela sua sobrevivência propus à horda de sobrinhos uma caixa de sapatos, alimento, tempo para crescer - tal qual criei tantas corujinhas caídas do ninho. Mas o protesto foi geral - liberdade, liberdade! - e eu cedi ao poder das massas. Já lá vão esquecidos na História os morgados de outrora, respeitáveis chefes de clã. O mochinho, a voar assim, ainda regalará algum gato bravo.

E El-Rei que tanto tarda em voltar!

 

Bares (A Coruña)

João-Afonso Machado, 03.09.22

Foram cerca de 50 quilómetros desde o Ferrol até este marco inesquecível da Península Ibérica, o seu extremo setentrional. Para nós, minhotos e galegos, uma referência. Qual seja ela, o fim do nosso mundo, o início da outra Europa.

Neste correcto modo de falar, se a Punta de Estaca de Bares não ficou para trás é porque não negligenciei o início geográfico de todo o meu ser: Mesmo a começar no embrião. Ora não há espeto mais profundo nas nossas águas marinhas que não seja ela, a Punta de Estaca de Bares. É ir o mapa e tirar as medidas à nossa Peninsula!

Essa a realidade que eu queria sentir. Ver... - e sentir. Espreitando a norte, onde o sol não nasce e se adivinha um oceano solitário, temeroso desfecho, encerrado em si mesmo.

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É a terra de Bares, no concelho de Meñón, Corunha. A mais caprichosa costa marítima, entre recortes de mulher fatal, latina de faca na liga. Mas a gente chega lá...

E, chegando, dá com essa lâmina afiada a furar mais longe o oceano. No ponto geográfico onde os mapas dizem o fim do Atlântico e o princípio do Mar Cantábrico - uivante evocação dos idos da gesta romana! Tal a solenidade dessa falésia.

Para o lado oposto, a poente, outro aguilhão, quase tão afiado, a esburacar também fundo as águas - o Cabo Ortegal, já nos domínios concelhios de Cariño.

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Chegar ao destino foi, por fim, um repouso. A Punta de Estaca de Bares tem beleza sem par, cresce alta e povoada de ecos e rebanhos.

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Fez-se Reserva Natural e dispõe de um tosco farol que passa ao lado das intenções do visitante. É um dos ambientes de maior pluviosidade na Península - comprovadamente neste final de Agosto - sempre condizente com a fauna que vai e vem (quantas espécies ornitológicas!) ou permanece. Num instante ganhei as graças de um cartacho do norte, variedade só destas lonjuras,

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feliz e despreocupado, amigo e fotogénico, revelando quanto não é perseguido...

Havia muito ainda entre aqueles promontórios de ondas insonoras. A Punta de Estaca de Bares podia ser um dia inteiro ou uma vida toda.

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Mas quem vai de viagem segue nesse sofrimento de conhecer à superfície e adiante. O pasto bravio é grande e, após o cabo, descendo íngreme fica um arremedo de baía pedregosa.

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Tornando atrás - seguindo a indicação de "praia e porto" - almocei e gozei a amenidade da pequena enseada e das embarcações nela fundeadas.

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Nesse exíguo povoado com todas as casas de comer que não vislumbrei em mais lado algum desprezei o marisco e, inusitadamente, comi carne. Diante mim, o ilhéu misterioso, sem nome por que respondesse

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e a praia, bem areada vilegiatura de alguns espartanos, dos que dormem no gelo, se forçoso for.

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Estávamos no início da Ria de Barquero. Com sintomas de protecção proto-histórica contra os efeitos das marés e afiançadas manifestações de ocupação fenícia. (Isto de a gente andar com os olhos no relógio...) Vim para cima. E somente à despedida, depois de uma repousada cerveja, conheci o centro do pueblo.

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Bebi-a, a cerveja, no único estabelecimento dessa Bares de velhos e bengalas, de total mudez. Onde será falacioso referir arruamentos além do principal, para o qual dá a pequena ermida de Santa Maria de Vadres...

 

No Ferrol (A Coruña)

João-Afonso Machado, 01.09.22

Posta no pico da Galiza, nas margens da Ria com o seu nome entrando muito desembaraçada terra adentro, ficava a ideia de uma cidade marítima vivendo ao ritmo das marés no trautear das embarcações piscatórias.

Assim o Ferrol me pregou a maior surpresa, não tanto pelas suas dilatadas dimensões quanto pela habilidade com que se esconde e tapa os olhares à Ria.

Mesmo porque o Hotel Silva (eu li "irmão" em "Silva"...) ficava num alto incaracteristico, feito de sucessivas encruzilhadas de ruas todas iguais e distantes da zona ribeirinha. Esta adivinhava-se pelos pescoços monstruosos dos guindastes, mas foi um tormento alcançá-la enfim.

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Muito por causa da Marinha, como se a guerra permanecesse no Ferrol.

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Os portões às catadupas; o muro da fortaleza quase a muralha da China. A parte histórica da cidade pertence ao Arsenal Militar

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e à Navantia, uma sociedade que administra os estaleiros e as poucas migalhas de vistas para as águas.

Só chegando, sem mapa, ao Paseo da Marina pude assentar numa esplanada frente ao Peirão de Curuxeiras e gozar finalmente duas canecas de Estrella Galicia e uma dose compacta de veleiros, lanchas e botes.

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Aí consegui tirar umas fotografias no intervalo de uma diplomática e inacabável conversação com duas galegas manas, ambas de dentes muito amarelos do tabaco e de uma amabilidade que me conduziu, no carro delas, de regresso ao Hotel Silva.

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Bem hajam as duas senhoras, ferozes castigadoras da memória do Caudillo e espíritos fieis à de D. Juan de Borbón. Eu creio que uma delas apreciava o tinto espanhol, no qual me aventuro pouco... Ainda assim acabei sabendo que, por trás de nós, ficava a Madalena, o que restava do burgo antigo, ainda e sempre escondido por muralhas.

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Pois o dia seguinte usei-o a explorar a Madalena, um xadrês de ruas pedonais com artérias de um só sentido automóvel. Complicado... Estimei o Paradoro do Ferrol e o seu mirante e estranhei o pouco comércio, o alheamento que ia pelas ruas pejadas das costumeiras varandas espanholas

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e com um ou outro edifício mais pitoresco.

No Ferrol, até ao ano 14, vivemos numa casa da Rua do Hospital» - escreveu Gonzalo Torrente Ballester, que daqui era natural, em O Sangue, o Vento, a Guerra e Outras Histórias. Mas não dei com ela, com a Rua do Hospital, somente com o Centro Torrente Ballester que, de resto, não visitei, conquanto aprecie imenso o escritor.)

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Nada que não se visse de uma penada só, e apenas uma loja de velharias e de livros em segunda mão, com uma montra convidativa, me podia impedir de corresponder a um chamamento vindo quase do Além: era o Castelo de San Felipe.

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Até lá, praias minusculas e o palco de mergulhos gelados de heroicos galaicos

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bem como a intensíssima percepção de os montes que se erguiam e estreitavam no desembocar da Ria do Ferrol em águas atlânticas.

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A modos de dois marinheiros do Arsenal, o castelo de San Felipe, do lado de cá, e o de A Palma, no de lá, vigiavam muitos séculos de movimentação marítima.

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Mas daí, graças aos Céus, vinham imagens mais cheias da Ria,

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dos navios de grande calado atracados, dos gestos portuários que a animavam.

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Do Ferrol me bastava. Voltei ao hotel, não sem antes jantar em O Pazo - vinos y tapas, já vizinho, a dona já conhecida também,

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afora o seu jamais proclamado nome, substituído pela sua fantástica ronha. («... uma criada nossa que cantava uma canção galega carregada de malícia que a mim, na altura, me passava despercebida»... - Torrente Balester, obra cit.)

 

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