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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio Arte e inspiração| A cor faltosa

João-Afonso Machado, 12.10.22

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A época dos tapetes, como ele lhe chamava, era particularmente agradável. Pelas suas formas e combinações de cores, pela amenidade do tempo e mesmo por toda a agitação que avassalava e rejuvenescia a vida. E não será dificil compreender o entusiasmo do rapazito pastor ao ver ficarem para trás as chuvas do inverno sem ainda estiolar sob o sol ardente de Julho ou Agosto.

O rebanho era o seu ofício. Em maré de cabritos, mais de cem cabeças a seu cargo e do cajado e do canito refilão. Mas a primavera trazia o pasto verde, viçoso. repolhudo. Os animais fixavam-se aos prados, serenavam, não era aquela correria entre a lama e as águas empoçadas. Sobrava-lhe tempo para se esticar no tapete, se lhe aprouvesse, jamais conseguira entender essa história dos ácaros e dos pólens. Não raro ali mesmo tirava uma pestana, que para qualquer imprevisto logo estaria o latir do parceiro.

Ganhara o jeito de andar descalço então. E formigas, saltões, aranhas, abelhas, lagartixas, qualquer cobrita, faziam-lhe impressão nenhuma. Os meandros do seu tapete eram uma metrópole imensa e agitadísssima dessa bicharada.

De papo para o ar, mordiscava um talo de erva e somava as tépidas cores da tarde: o azul do céu, o verde dos pastos e o dos arvoredos pintalgado do branco das flores novas; como as do solo, amarelas, arroxeadas, bravias, a sua santa cama do instante. O quadro era lindíssimo e apenas deu pela falta do vermelho vivo daquela pintura que topara na última ida à feira. Com uns mocitos cheios de roupa (por certo a suarem em bica...) e umas senhora arrastando os vestidos pelo chão pintalgado dessas tais papoilas, como lhe tinham dito chamar-se a flor.

Sabia bem das camélias, das roseiras, até dos arrebenta-bois felizmente escassos, só nas cercanias do ribeiro. E lembrava-se vagamente, a caminho do S. Bento da Porta Aberta, desses copos encarnados soltos ao vento na berma da estrada. Mas nunca em semelhante quantidade.

Era uma falta de peso nos seus quarteis. Iria um dia pelas papoilas e plantá-las-ia entre as cores todas do pasto. Assim se coloriu a tarde inteira. Mal às cabras não fariam essas papoilas, isso estava assente.

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(https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/e-nesta-semana-562205)