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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio Arte e inspiração|O céu campesino

João-Afonso Machado, 22.09.21

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Anoitecia e o céu preparava-se para um serão na aldeia perdida para lá dos montes. Rodeada de muitos quilómetros de ninguém senão dos ceifeiros, no tempo deles, e das lebres e perdizes que, nas manhãs, os caçadores tentavam surpreender.

Era uma terra às escuras, a aldeia fechava para dormir e nem mesmo a sua praça maior, a igreja ao centro de campanário altivo, quase a picar as alturas, nem mesmo esse areópago, a tasquita ainda aberta, alguma luz produzia. Apenas o firmamento, no seu vagar, se engalanava para essas horas de sol fugidio.Azulava-se de cerimónia e não esquecia o vago cinzento das nebulosas. Mas, sobretudo, sendo-lhe propícia a maré, gostava de cintilar, possuía não sei que truque faiscante; e a bola lunar quase passava despercebida, tantas eram as estrelas a piscarem no céu.

Já a cidade, fumadora inveterada, não as vê, tal a nuvem de fuma que levanta como um tecto a cobri-la. É, a quem na cidade lembraria espreitar uma noite estrelada?

Pois esse jantar quase no fim do mundo soube-nos muito bem. Setembro, um mês ponderado, nem braseiro, nem os tremelicos do frio, chamou-nos então para o terraço. Ficaramos à mesa até tarde, e agora eram os grilos em sinfonia nas vinhas, o consolado lamúrio das corujas e uma discussão animada das rãs a coaxar na charca. E uma imensa abóbada muda, soberba, pintalgada de ouro que brilhava - as estrelas, as nossas esquecidas estrelas!

Ali ficamos, de boca aberta com se as quisessemos abocanhar, trazê-las connosco. E, volta e meia, alguma tropeçava e caía do céu, num trambolhão aceleradíssimo a empurrá-las sempre para longe. Estrelas cadentes!, - segredavam-nos os anos antigos - formula um desejo! Que viessem como um jacto supersónico até ali ao nosso mirante e descansassem, bebessem um chá... A alvorada seria muito cedo: mas a noite estrelada pregara-nos às cadeiras. Porquê um quarto para dormir? Porque não o céu por cobertor?

Eu não sei se Vincent Van Gogh também andava às perdizes. Sei que, no seu tempo, escassos eram os fumadores e nenhuns os tubos de escape. Nada se interpunha entre ele e o firmamento e os seus mistérios e belezas.

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Tais foram elas, de tal modo o artista se empolgou, que carregou, ainda deu mais expressão a essa celestial visão. E deixou para a História - seguramente na aldeia de Van Gogh não há distinção entre dia e noite! - o seu Stary Night, não sei porquê uma escolha neste desafio que intuio da Cristina Aveiro. Oxalá alguma estrela cadente caia por aí e me ajude no palpite.

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

 

Desafio Arte e inspiração| Águas revoltas

João-Afonso Machado, 15.09.21

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Nesse dia as águas disseram não. Não seriam elas o lado serviçal, submisso, azul ao gosto de toda a gente. Furiosamente, revoltosamente, as águas queriam o seu descanso, queriam descontracção. E porque o Homem nada ligasse aos seus desejos, as águas soltaram, enfim, um enorme rugido. Seria seu, o circo. No céu cinzento de cumplicidade, jorrando sobre elas o reforço das chuvas e o uivo dos ventos, ouviu-se o estalo rasgado do chicote e foi o domador Homem a agachar-se no fundo da jaula.

Muitas e muitas horas o chicote se ouviu, quase um eco só, num gesto encharcado de onde a espuma se desprendia e as águas bradavam haviam de amestrar o Homem, ai dele se por então decidisse enfrentá-las! Assim centenas, milhares, de ondas, como cilindros que esmagam, cresceram também, esbofetiaram os construções do pretenso domador, e foi todo esse tumulto o grande grito de liberdade das águas, o seu repouso solitário, por tantas vezes sonhado.

E o Homem resignou-se. Rendeu-se. No tempo todo em que os areais ficaram desertos, os barcos em terra, assustadíssimos, de cócoras atrás do Homem. Mesmo as gaivotas desistiram da fúria dos ares e aquietaram-se nas estátuas dos jardins públicos.

Talvez amanhã as águas já não andem enfurecidas. Porém, doravante, o domador Homem ganhará consciência da força da Natureza e trata-la-á com a devida deferência. Tendo sempre a alertá-lo, não vá distraír-se, a pintura "A grande onda" de Katsuchika Hokusi,

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onde tão nitidamente a garra afiada das águas revoltosas de pronto sulcaria a prosápia humana.

Quem se lembraria de tal? É difícil... Mas, dos participantes no desafio sempre apostarei no nome da Concha, tão silenciosa e capaz de sobreviver a estes momentos de fúria.

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

 

Desafio Trinta Dias de Escrita|Ora pro nobis

João-Afonso Machado, 14.09.21

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Os seus dias eram de vagabundagem. Sobretudo no asfalto junto à fronteira, onde o filão de migalhas deixadas pelos viajantes parecia sem fim. E, se assolada por algum intruso, saltitava a pés juntos e, quando tal, abria as asas e levantava voo. Nunca esquecendo palavras de incentivo aos pobres, a aconselhá-los, se lhes topava na expressão a ignorância desse longínquo lugar. - Cuidado, cuidado, por aqui, cuidado, toda a atenção é pouca...

Compadecia-se sobretudo dos desgraçados da "boleia", uns miseráveis de dedo esticado na berma da estrada em que circulavam carros luxuosos, repletos de famílias na ânsia de concluirem a viagem.

Assim as horas famintas criavam amizades e diálogo. - Atenção, atenção a essa máfia, eles exigem, atenção, eles coartam mesmo...

Porque, sobre o tempo e o cansaço fronteiriço, de barato se falava em autocarros a preço zero, transportando vítimas até à cidade mais próxima. Era recorrente: depois de dúzias e dúzias de automóveis a transbordar de passageiros, de muitos adeuses mais ou menos trocistas, os pobres coitados, mais ou menos sedentos e esfaimados, sustinham o espírito nos horários dessas miríficas camionetas benemerentes. Até que uma chegou e eles, no maior alívio, entraram e partiram rumo a um almejado merecido almoço.

- Cuidado, cuidado! Atenção, atenção!...

Assim ela avisava. Dois peregrinos cara a cara com o condutor e o seu auxiliar. Ninguém mais... - Euros, euros? - Mas quais euros?! Isto é transporte gratuito!

- Euros, euros... - E, em folha de caderno quadriculado, os meliantes rabiscaram um número exorbitante.

Azeda troca de palavras. - Give me a ticket, my ticket, please! - Não, não havia tickets, somente havia uma tentativa de extorsão. E um punho já fechado avançando para os burlões foi travado pelo bom senso do saltimbanco mais jovem. Conforme entraram, saíram. - Pois, pois, eu não vos dizia, pois, máfia, máfia...

Tudo terminou em trajecto num taxi honesto. O dia continha ainda  muitos quilómetros a digerir, e tal episódio a esquecer. Dele ficou apenas a gratidão pela companhia, a memória da amiga gralha-cinzenta sérvia.

(Se é que estes bonitos e espertos alados têm nacionalidade.)

 

(Publicado no Desafio 30 Dias de escrita - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/desafio30diasdeescrita)

 

 

Desafio Trinta Dias de Escrita|"Cem palavras de poema"

João-Afonso Machado, 07.09.21

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E nem mais um ai! – eu pobre poema

espartilhado entre cem palavras cumpridas a rigor

reprimido ou alargado o tema, botão colarinho dor.

 

Adjectivo – sai, frase vã sai também

eu sou tão cativo como ninguém.

 

Com o mundo privo pelo postigo da cela,

asfixiante visão, mar e planície, azul e trigo,

triste ilusão, o vento embalando uma vela…

 

Onde iria, onde meu espírito vai além

das cem palavras e nem um ai,

alguém imaginará?

 

(Mãos às grades torcendo dias de asas que não há,

horas jamais a esvoaçar

e a maré a secar

em cem palavras sem mais um ai.)

 

 

(Publicado no Desafio 30 Dias de escrita - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/desafio30diasdeescrita)

 

 

 

Vida

João-Afonso Machado, 21.08.21

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Só o nome – endoscopia – já assustava. Era a primeira vez, precedida da papelada bastante para generalizar o alarme, com a vida assim colocada em tão pouco tranquilizante visão. Sobretudo nestas alturas, o Passado regressa à tona e a vida olha-se como foi, medita, fará mesmo promessas em troca da sua sobrevivência no Presente.

A vida está embatucada. Muito ciente da sua carreira, do seu currículo, e já perdeu a conta aos anos que demorou a erigi-los. Somente… não dá a obra por terminada. A vida reclama mais tempo e a endoscopia responde-lhe com pontos de interrogação, reticências.

Furiosa, a vida folheia capítulos da sua adolescência e da juventude; e lança àquelas ameaçadoras tubagens fascículos inteiros da sua maturidade e do seu labor. Anos e anos a dar no duro, engolindo azares, provações, contrariedades, os seus momentos de felicidade são agora um inoportuno argumento, é o Presente exigindo, aos murros na mesa, o tempo do Futuro, uma prorrogação do prazo, faltam pedras nas paredes da torre e o telhado está por cobrir.

Exasperante endoscopia! Já deslizando garganta abaixo, já cheiricando o abdómen e suas adjacências. Escorregadia como o silêncio de uma cobra matreira, de olhar fixo, quase inexpressivo de tão parado. E desprovida de palavras, a provocar engasgamentos, o médico que a coordena somente recomendando sossego – Está quase, está quase!

Vale à vida a enfermeira, com os dedos no cabelo da padecente, cabelos brancos que a senhora alisa, acaricia. Parecendo querer tranquilizar, há vida para além da endoscopia… E talvez haja mesmo, tão personalizada se assumiu a vida, rejeitando a sedação, querendo-se vida vivida, acordada, consciente, senhora de si até para passar um mau bocado. Um Presente que deseja rapidamente Passado; rumo ao Futuro, ainda que assustada, ardendo de impaciência para também o guardar – quando outro Futuro substituir esse já velho Futuro - num arquivo qualquer, dos muitos em que deixa esquecidos os seus lances mais estúpidos.

A vida não é masoquista, dá-se mal com certas expectativas, alturas há em que quer-se a correr desabridamente, em total desprezo pelos excessos de velocidade, pelos minutos, pelas horas em que será penalizada.

O suplício da endoscopia, a espera do seu resultado, com certeza constituem um desses momentos de desenfreada aceleração. A vida quer o Céu, recusa o Inferno, mas não se vai dando mal na Terra, toda material. Tais as ideias que lhe ocorrem, ainda por força da maldita endoscopia. Deitada de lado na maca da clínica, a vida, percebendo que não é senhora de si mesmo, tudo promete: comer e beber moderadamente, caminhar todos os dias, olhar para um lado e para o outro ao atravessar as ruas. A vida é tenaz, combativa, orgulhosa e – aqui entre nós – um pouco vaidosa também.

 

(participação no desafio da Célia - "Vida" - no seu blog Raios de Sol - raiosechuvas.blogs.sapo.pt)

 

Desafio lápis de cor| O papel branco

João-Afonso Machado, 14.04.21

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A história tem, necessariamente, um fundo de verdade porque está contada no In Illo Tempore, de Trindade Coelho, e nas Memórias do Mata-Carochas, de Antão de Vasconcelos, embora com algumas nuances. Indo ao importante, tudo decorre na academia da Lusa Atenas e o seu personagem central é o poeta algarvio João de Deus, em simultâneo um taciturno, metido consigo mesmo, e um boémio de primeira água. Consoante lhe dava na tineta... A segunda interveniente era a belíssima Raquel, uma coimbrã amada por todos quantos fossem estudantes, a quem, aliás, o próprio João de Deus já dedicara alguns versos:

«Despe o luto da tua soledade/E vem junto de mim, lírio esquecido/Do orvalho do céu!/Tens nos meus olhos pranto de piedade,/E se és, mulher, irmã dos que hão sofrido,/Mulher, sou irmão teu».

Em Coimbra era assim. Afora as tainas na tasca das Tias Camelas, as tricanas e outras ainda, de calibre mais foleiro...

Sucede que a maravilhosa Raquel, ou um tal Sanches da Gama, estudante que a queria impressionar, deram em massacrar João de Deus para uns dizeres, um esboço qualquer, num album da menina. E insistiam, insistiam, insistiam, pela obra-prima.

João de Deus detestava pressas. Mas lá foi desenhando a carvão, para a Raquelinha, um Cristo crucificado.

E era tal o seu vagar que um dia, já em desespero, ou a musa estudantil, ou o Gama, indo a casa de João de Deus, e vendo o trabalho quase concluído, pegaram nele e foram andando.

O Poeta chamou o apressadinho personagem: que queria dar o retoque final... E, com uma borracha, apagou completamente o desenho, deixando a folha em branco, apenas com estes dizeres escritos:

Resurrexit non est hic

Pois se a Páscoa passara, Cristo já não estava na cruz! E essa foi a oferta do Poeta para a Raquelinha.

Digo eu (não Trindade Coelho, nem Antão de Vasconcelos) juraria que, nessa vitoriosa viagem do ressuscitado, algum dia vi Cristo à boleia de uma gaivota de papo alvíssimo...

 

(Desafio da Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/branco-hors-concours-498322)

 

 

Desafio cartas no correio| Carta ao meu Filho

João-Afonso Machado, 11.04.21

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Meu querido Filho:

As saudades fazem-me a alma um reles músculo muito dorido. Há quanto tempo, meu Filho! Recuso as contas porque elas esbarrariam nas da minha idade, que ainda marcha bem ao som da mochila, mas já baqueia na traficância dos aeroportos.

O meu Filho permanece averso ao nosso Portugal: ao nosso Minho, à nossa Casa, aos nossos. E este pai, a quem tanto custa a falta dos Avós, idos um logo a seguir ao outro (oh! meu querido Filho, faz hoje três anos partiu o meu Pai, que desgosto!), em boa verdade vive com um buraco no coração que o Filho calcetaria, agora homem feito, aventureiro e destemido, o personagem de uma história de lés-a-lés, de ponta a ponta à boleia na Sibéria. Com a literatura de cada um (o classissismo versus o modernismo) posta em cima da mesa da varanda, e as ideias fluindo, fluindo, o jardim nesta altura primaveril, tudo num requebro de palavras as mais repousantes.

Por tudo, a minha imensa vontade de abraçar o meu querido Filho. E acabei resignado: se Maomet não vem à montanha, vai a montanha a Maomet. Esta montanha já gasta, de sedimentos que os anos erodem, é só fósseis de moluscos e plantas espalhados por aí. Tudo lápides de emoções que fraquejam, e de flores que se perderam. Assim Maomet, na sua puerilidade geológica, montasse o alvo corcel árabe e investisse Andaluzia acima, até terras de cá...

Mas ponto final em lamúrias e vamos a coisas práticas: a Sérvia. Andei bisbilhotando a Net e voos possíveis daqui só para Belgrado. (A Bulgária seria uma experiência interessantíssima, mas como tudo está actualmente, um senhor lusitano não se vai sujeitar aos caprichos desses bárbaros...). Portanto, Belgrado. E de Belgrado para Nis?

Deve haver avião. Mas a montanha nunca desgosta do seu sopé. Um ou dois dias em Belgrado, a travessia do país em comboio, a satisfação da minha imparável máquina fotográfica... Sobra o entendimento com essas misteriosas tribos balcânicas...

Meu querido Filho, envio este caligrafado para a última morada conhecida, na expectativa de que os os hunos não tenham chegado aí, nem o carteiro haja perecido congelado numa curva do trajecto mais íngreme. (E esteja lá, carregado de chapas ilegíveis.) Diga-lhe, ande o homem de saúde, venha voando com notícias do meu Filho. Elas urgem, que eu ainda passarei pelo quartel militar para uma breve reciclagem.

Assim o meu Filho venha ter comigo a Belgrado e ciceroneie a passeata!

Entretanto, para o meu querido Filho, um grande abraço, um beijo enorme e sempre a benção do 
Pai

 

(Desafio da Célia - https://raiosechuvas.blogs.sapo.pt/desafio-cartas-de-correio-quem-ja-238180)

 

 

Desafio lápis de cor| O castanho animal

João-Afonso Machado, 07.04.21

Vi e ouvi hoje dois galarós altercados. Eram castanhos. Da janela olhei os campos lavrados, aptos à semeadura. Eram castanhos, também. E, nos prados, reparei no resultado de breves instantes intestinais dos bovinos. Igualmente castanhos.

Assim resolvi, aqui da ruralidade, trazer ao mundo ainda mais castanhos, escamosos, espinhosos ou escorregadios. Lembrando passeios com a minha velha Tareja, de saudosa memória.

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Tocando a Primavera, assim ela, entre as pedras, desse com uma cobra! Estacavam as duas, ambas com medo, no fundo. Era o tempo de segurar a cabeça da bicha e apanhá-la pela pontinha da cauda. Por mais que tentasse, nunca os seus dentes, a sua ferradela, me atingiriam. Sendo esta espécie, a cobra-rateira (porque a base da sua alimentação é a rataria), das maiores - podendo atingir os dois metros - e das mais agressivas (outras há que, apanhadas juvenis, até são domesticáveis...).

Porquê capturar a cobra? Apenas porque é um animal biblicamente amaldiçoado, ainda hoje capaz de aterrorizar as gentes, e nada como combater atavios - prendendo-as e restituindo-as à liberdade depois.

Além do mais, importando também tomar nota da estranha sensação das suas articulações, a sua estrutura óssea, as suas cartilagens, - tudo aquilo rangendo. E do seu olhar frio, fixo, quase diabólico.

Já não para os meus pobres canídeos, o mais simpático e inofensivo animalzinho das hortas: o ouriço-cacheiro. Não foge, não morde, somente se enrola dentro dos seus espinhos, ao lado dos quais um cacto é brinquedo. Essa a sua eficientíssima defesa e assim me achei grego para os apanhar - cuidando sempre de não envolver o focinho dos pobres cães na questão.

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Deu-se o caso, topei um no Parque da Cidade. Mas como lhe deitar a mão , se os picos se encravam e doem a sério? Pois com a ajuda de um saco de plástico, o ouriço em cima, transportado pelas avenidas como num tabuleiro, e, na minha varanda, submetido a uma breve sessão fotográfica.

Depois foi o tempo de o levar a um excelente reino de alfaces e cebolo, aqui em frente, onde decerto se banqueteou.

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Lesmas, caracois... toda a parasitagem das hortaliças por conta dele. Talvez ainda por lá ande. Não nos voltámos a encontrar, mas nisso creio piamente. Assim prossiga o bródio...

 

Desafio lápis de cor| O encarnado moliceiro

João-Afonso Machado, 31.03.21

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Foi o caso, a tia velhota morreu, solteira, com uma corrida de sobrinhos. Visitava-a de quando a quando, nunca supôs: a casa da Costa Nova seria dele. Muito escangalhada, a precisar de arranjo urgente.

Jeitoso como era, ele próprio se dispôs ao serviço. Comprou os apetrechos. Sendo do Porto, adivinham-se as cores escolhidas... Organizou-se, escadote incluído, e marcou dia: aí vai de obra por si, mais a filharada.

Ia nestes preparos quando a trincha lhe segredou - Ó homem, deixa lá o azul, que o encarnado é que fica bem...

Embasbacou. O encarnado? O vermelho?

A trincha, vinda da loja de ferragens de lá, muito conhecedora, prosseguiu - É  a cor do vizinho. Deixa lá o resto... Olha adiante.

Ele olhou. De olhos postos na Ria. Nos iates, na surdez de quem não ouve as motos de água, tal a elegância de tantos barcos sempre velejando. E na plenitude daquele lago disputado. Sabia dos moliceiros de outrora, não esquecera as cores de então. Foi em época menor, a marina apagada, uma xata ou outra, quase à deriva. Tudo vagarosamente. Mas sempre o garrido das embarcações ao vento, num tempo não fantástico, somente o quotidiano.

Percebeu tudo. Leu as proas dos moliceiros e uma vida que gostava para si, já nas fronteiras da reforma. Pontapeou essa lata de tinta e achegou-se à trincha. Ela falara. O riscado sairia vermelho-branco, o futebol era ao domingo e a sua casa olhava de igual para igual com a do vizinho. 

E as cores da Ria gozariam o contraste, esse pijama feito de sol e de luar.

 

Desafio lápis de cor| O verde batráquio

João-Afonso Machado, 24.03.21

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Foi uma das primeiras a acordar do longo sono do inverno. Ainda na alvorada, um sol tímido (mas que se adivinhava senhor para o céu inteiro), nascendo por trás dos cedros e dos pinhais, já a lançar os seus raios pelas frinchas do arvoredo.

Espreguiçou-se, rodejou bem o olhar e arejou o verde da sua derme, bastante embolorada por tantos meses de hibernação.

A Primavera estava aí. Não ainda no calendário mas já nos andamentos do clima... O charco enverdecia a condizer com os tons da sua roupagem - e o charco reclamava agora a sua veterania, a sua guarda. Perdera a conta aos anos corridos desde que fora promovida de girino a rã. Épica metamorfose, a terçar armas contra tudo e contra todos - as cobras traiçoeiras, de olhos gelados, as sombras agoirentas das asas dos milhafres, as crianças traquinas e os seus frascos de vidro, largadas à solta nos lamaçais, a caçar a bicheza... e o Zecaré, o tremendo Zecaré...

Escapara sempre. Era a mais velha e, por isso, uma autoridade no charco. No qual, chegando a maré, depositaria milhares de ovos, perdendo depois a conta aos insucessos, tantos eram eles, da sua vastíssima prole.

Assim agilizada entrou de cabeça e se ginasticou, com vigorosas braçadas, naquelas suas águas. Depois emergiu entre a vegetação de superfície e guardou uns minutos de silêncio observador. Estática, os olhos semicerrados. Mas não, não andava ali a grande garça, nem aves de bico perfurante... nem mesmo o maçador Zecaré. Padeceria agora de reumatismo?

Encheu então o fole, e lançou o seu primeiro brado. Escutou atenta: não era o eco, uns metros adiante; também acobertada numa moita de ervas, uma sua comadre entrara com ela a coaxar. E mais além outra e outra e outra... O charco transformou-se num parlatório infrene, o resultado de quase meio ano de silêncio. Mesmo dormindo, mesmo não se alimentando, os batráquios esverdecem de novidades e dessa tagarelice em que, entre machos e fémeas, há muito bailarico e corações gémeos e prolíferos.

Será assim meses a fio, manhás, tardes e noites, pontualmente desassossegadas pelo alerta - Vem aí o Zecaré!!! -

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- afinal, somente, o cão da vizinhança, que gosta de cortar a direito nas águas verdes do charco, onde as rãs se mimetizam e, é claro!, não possui a destreza bastante para concretizar o seu velho sonho de abocanhar uma delas.

Nem as rãs imaginam o perigo maior que as ameaça: na casa acima, em noites de serão e calor, ouvi-las coaxar invoca ideias sinistras, como a desse pitéu francês, les cuisse de grenouille... E aquela gente, metendo-se-lhe uma na cabeça...

 

(Desafio da Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/olho-verdagua-486001)