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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

À boleia

João-Afonso Machado, 19.12.21

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Ir a Guimarães era aventura de peso! Algo que não se explica, mas a EN206 preguiçava mais do que as vizinhas, e o braço quase se cansava, acima e abaixo, no convencional pedido de uma "carona", termo que a gente lia nos Patos Donald.

Certa vez, depois de muita espera, a máquina luxuosa surgiu de lá e eu estiquei um dedo incrédulo, rotinado como qualquer funcionário público. Espanto dos espantos, o Jaguar MKII parou adiante um pouco. Corri - Para Guimarães... - Sim, entra, anda lá! - E assim obedeci, "andei lá" e entrei.

Já em marcha, dei mais atenção ao condutor e reconheci-o: o senhor mais rico da terra. Muito bem posto num casaco de tweed, camisa aos quadradinhos, a gravata a condizer. (Tudo a bater certo, britanicamente, o cavalheiro e o automóvel, conforme retirei das revistas que lia.) A minha modesta pessoa, calçada numas Levi's, muito puídas e multiplamente remendadas... - ou duas gerações em conflito, assim concluiria hoje, sem pôr na balança os porta-moedas. Mas havia uma explicação para essa trégua de idades - o dito magnata era amigo da minha família, coitada, tão pobrezinha.

Não chegou a estabelecer-se um diálogo, apenas breves trocas de palavras, em que o condutor, sem tirar os olhos da estrada, me inquiriu sobre coisas vagas e maçadoras, vale dizer, principalmente, como iam os estudos, a nossa lavoura. Que iam, necessariamente, mal. Mas sem outros quaisquer comentários do foro doméstico.

Nem por acaso! Assim pude gozar a madeira de nogueira do tablier, tão em contraste com o plástico da Mazda nossa, a parafernália de indicadores - o velocímetro, o conta-rotações, o cronómetro e os restantes, que me eram estranhos. Dentro da cabine, por toda ela, Beethoven - isso consegui distinguir - e uma chauffage au point. Naqueles estofos acomodantes, em genuína pele animal, a viagem, apesar de tudo, pareceu rápida e só por acaso não adormeci antes de entrarmos na cidade, na Av. Conde de Margaride. Por ali me ficaria...

- Muito obrigado! - agradeci ao fechar a porta. - Adeus rapaz, os meus cumprimentos, um abraço, aos teus Pais...

 

2 comentários

  • Olá Luísa.
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