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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

A caneta na canícula

João-Afonso Machado, 14.08.21

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Dia de sol sobreexcitado. A caneta azulou-se clara e deslizou silenciosamente no papel, num rasto solitário de trancas à porta e janelas cerradas. A defender-se do calor, do barulho de quem demanda as areias e os mares.

Não lhe restará companhia, sabe-o bem. A não ser, talvez, ela própria, o traço em que tece o passeio das horas, como um ribeiro furando o leito pedregoso na montanha.

Houvera de empunhar a faca de cortar papel e a sua escrita ecoaria de cipó em cipó, ninguém lhe espreitando a nua visão das feras e de outras armadilhas; ou a sua escusa em companhia...

Mas o intuito é outro. Do lado de fora da fornalha, fica esse azul que não seca e cintila como o dorso dos peixes farejando os fundos aquáticos. A cor vagarosa do que lhe vai no espírito e na ausência das palavras ditas. A caneta prossegue, é todo um frondoso vale de ideias por desbastar, e as tais chamas do inferno ardem por onde vagueie a multidão; no seu luzidío curvetear, a caneta escreve também, decerto chora, a desdita desses que não lêem os seus escritos.

 

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