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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

A minha esposa

João-Afonso Machado, 27.03.21

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Eu conto quando a vi e como fui à fala com ela. A minha esposa. No fim de tantos anos que antecederam a compra do nosso Uno das idas ao mar, farnel na mala, no Verão, com os cachopos e as duas moças.

Pelos meus 17 anos, tudo era pedir licença ao Senhor meu Pai - Vossemecê consente, hoje é domingo, arraial lá para Barcelos, caminheta certa, andei juntando para a festa...

E, não chovendo, nem a horta ardesse ao sol, lá vinha um benigno sim, louvado seja Nosso Senhor.

O mais eram os tamancos e as madrugadas entre o gado, no vale, e o carreiro um nada acima. Foi quando a topei nele, de bicicleta, entre tantos ciclistas, gente das fábricas, com horas para chegar e horas para sair.

Ela contente como um cuco, sorria, assobiava, aligeirava-se e pedalava sem peso, ali firme, corpo de mulher nova, desembaraçada... linda como só ela, e com todos os ares de boa mãe, capaz de pôr um filho cá fora como a galinha deita o ovo. Encantei-me com o diacho da rapariga. Até dei conta da sua maleta, coisa fina, de senhora rica, mais para mim o quê?

Fui à oficina do Rebelo e comprei uma ginga em segunda mão, dinheiros da madrinha. Tinha guarda-lamas, tinha espelho e campaínha e o andor da bagagem atrás, mas não tinha mudanças. Pelas minhas contas foram quinze tombos de enfiada antes das dez pedaladas seguidas, muito a tremer, normais em quem nunca trepara para cima de uma bicicleta. Os meus Pais botavam as mãos à cabeça e diziam que o moço andava maluco... Mas eu deixava correr e - cego fique! - não tardou, entrava de gás colado no terreiro da casa, fazia a minha derrapagem, e depois segurava-a com o pedal na pedraria das escadas e subia afoito e sem mazelas. Já a a ginga para mim não tinha segredos.

Assim continuei com o gado nos lameiros, como quem espera a Santinha de Balazar.

Foi o caso de a rever. Por essa hora, à manhã seguinte, escapando ao mungir das vacas, sai-lhe ao caminho, de chapéu na mão - Ora muitos bons dias a quem é uma flor!

Ouvi um sorriso fugido de uma boca tão galante, nessas fauces claras, sossegadas, sem carnes nas bochechas, e sempre fui dizendo - amanhã também eu partia para os lados onde o sol morre, às tantas ainda nos encontrávamos... Que sim, era sempre benvinda uma companhia nestas andanças, nunca se sabe o que nos espera... Como cantares de uma cara levezinha, a modos que envergonhada, mas a pedir, a pedir, não vás embora...

E pronto, foi assim. O pior estava nas subidas, quando eu bem queria ir ao chão, levar a bicicleta pela mão e respirar fundo, e a moça, rabo levantado do assento, dava aos pedais e seguia... Que jeito, senão suar atrás dela?

Trabalhava no mercado peixeiro da Póvoa. Até ao dia no miradouro depois das Fontaínhas, já a senti-la segura, arranjava de enviesar para a Junqueira: andava lá a fazer umas terras... junto ás moendas do rio... Mentia-lhe eu... Até esse dia que em que me declarei, queria falar pra ela, queria namoro, casamento, - e que ela deixasse o emprego na Póvoa, os meus pais eram já velhos de idade e as terras a minha herança...

Vão lá... mas tão mais de uma vintena de anos! Pois se a nossa cachopa mais velha anda agora que não se cala com a boda dela! Há-de tê-la, é claro. Para isso nos privámos, foi muito caldo e broa só, eu e a minha esposa, e comprámos o nosso Uno, esfolámo-nos todos de volta da lavoura. Contudo a minha esposa continua linda, linda, assim sequinha, ridente e bem disposta, os olhos da Virgem, com enfeites de madame e carta de condução também... que, depois de gasto o farnel, melhor será ela conduzir o nosso Uno no regresso a casa.

 

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