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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Bares (A Coruña)

João-Afonso Machado, 03.09.22

Foram cerca de 50 quilómetros desde o Ferrol até este marco inesquecível da Península Ibérica, o seu extremo setentrional. Para nós, minhotos e galegos, uma referência. Qual seja ela, o fim do nosso mundo, o início da outra Europa.

Neste correcto modo de falar, se a Punta de Estaca de Bares não ficou para trás é porque não negligenciei o início geográfico de todo o meu ser: Mesmo a começar no embrião. Ora não há espeto mais profundo nas nossas águas marinhas que não seja ela, a Punta de Estaca de Bares. É ir o mapa e tirar as medidas à nossa Peninsula!

Essa a realidade que eu queria sentir. Ver... - e sentir. Espreitando a norte, onde o sol não nasce e se adivinha um oceano solitário, temeroso desfecho, encerrado em si mesmo.

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É a terra de Bares, no concelho de Meñón, Corunha. A mais caprichosa costa marítima, entre recortes de mulher fatal, latina de faca na liga. Mas a gente chega lá...

E, chegando, dá com essa lâmina afiada a furar mais longe o oceano. No ponto geográfico onde os mapas dizem o fim do Atlântico e o princípio do Mar Cantábrico - uivante evocação dos idos da gesta romana! Tal a solenidade dessa falésia.

Para o lado oposto, a poente, outro aguilhão, quase tão afiado, a esburacar também fundo as águas - o Cabo Ortegal, já nos domínios concelhios de Cariño.

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Chegar ao destino foi, por fim, um repouso. A Punta de Estaca de Bares tem beleza sem par, cresce alta e povoada de ecos e rebanhos.

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Fez-se Reserva Natural e dispõe de um tosco farol que passa ao lado das intenções do visitante. É um dos ambientes de maior pluviosidade na Península - comprovadamente neste final de Agosto - sempre condizente com a fauna que vai e vem (quantas espécies ornitológicas!) ou permanece. Num instante ganhei as graças de um cartacho do norte, variedade só destas lonjuras,

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feliz e despreocupado, amigo e fotogénico, revelando quanto não é perseguido...

Havia muito ainda entre aqueles promontórios de ondas insonoras. A Punta de Estaca de Bares podia ser um dia inteiro ou uma vida toda.

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Mas quem vai de viagem segue nesse sofrimento de conhecer à superfície e adiante. O pasto bravio é grande e, após o cabo, descendo íngreme fica um arremedo de baía pedregosa.

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Tornando atrás - seguindo a indicação de "praia e porto" - almocei e gozei a amenidade da pequena enseada e das embarcações nela fundeadas.

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Nesse exíguo povoado com todas as casas de comer que não vislumbrei em mais lado algum desprezei o marisco e, inusitadamente, comi carne. Diante mim, o ilhéu misterioso, sem nome por que respondesse

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e a praia, bem areada vilegiatura de alguns espartanos, dos que dormem no gelo, se forçoso for.

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Estávamos no início da Ria de Barquero. Com sintomas de protecção proto-histórica contra os efeitos das marés e afiançadas manifestações de ocupação fenícia. (Isto de a gente andar com os olhos no relógio...) Vim para cima. E somente à despedida, depois de uma repousada cerveja, conheci o centro do pueblo.

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Bebi-a, a cerveja, no único estabelecimento dessa Bares de velhos e bengalas, de total mudez. Onde será falacioso referir arruamentos além do principal, para o qual dá a pequena ermida de Santa Maria de Vadres...

 

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