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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Coelhos dominicais

João-Afonso Machado, 17.01.21

Contava ela, a empregada Rosa, muito escandalizada, - Saiu cedo com a espingarda velha, essa que era do Bisavô, Deus o tenha, o Senhor. E foi numa volta por aí. Chegou a casa com dois coelhos ao dependuro... - Tome lá, esfole-os. - E que mais?

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- E que mais? São coelhos do monte, dos que você gosta, ou não passa a vida a queixar-se das porcarias do supermercado?

Parece que houve bulha. Uma coisa é estufar, outra esfolar... - É, então não passe a vida a choramingar, tire-lhes a pele, descamise-os, que o pitéu também chega para si.

- Só os caça com o diabo da espingarda antiga! - exclamava, furiosa. - Aquelas das duas ferramentas de puxar para trás e os canos compridos como uma regueiro: diz que é como o falecido Brandão ensinava, «apontar-lhes às orelhas entre os cães», seja lá o que isso for. E todos os domingos é isto!

Assim mesmo. Os perdigueiros ficavam no canil, consigo ia a Cadelota - não é a Carlota, é a Cadelota - um misto de ovelha pastorenta e de cão podengo, desses que não se picam no mato e se desbundam em ladridos ao cheiro dos coelhos.

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Alma danada, a Cadelota! Encapotada contra silvados e cardos, só saía do monte assim os marotos fossem à sua frente. E eles eram muitos, junto à vinha, roendo os cavalos e o mais (os cavalos, não saberão os citadinos, são o pé de vide onde os homens gastam horas a enxertar as castas para fugir à filoxera...), a precisar de controle, como a gente de carne para comer.

A Rosa, pelos tiros que ouvia ecoar, ia fazendo contas. Depois, profissionalmente, rezingava. Pela tardinha gabava-se com os caseiros do manjar - que eles, sem arma, só provariam por generosidade da Casa...

Respondeu-lhe o Se'Manel, não se acalorasse: quase sempre o patrão, no regresso, ali passava e deixava um láparo e os votos de um bom domingo... E, sem mais ligar a diatribes, regressava ao relato radiofónico do futebol. Assim a Rosa se roía toda de incompreensão antes de, na hora do jantar, agradecer o petisco que era da sua mão hábil de cozinheira como da velha espingarda do finado Senhor, ainda do seu tempo.

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(- Que aquilo sim, caçavam a sério, tantos cavalheiros, todos convidados, dava gosto. E matavam essas tais lebres, com os cães do Senhor, grandes, bem corridos, chamavam-lhes os «gáurgos».)

 

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