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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Da arte xávega

João-Afonso Machado, 01.03.21

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PRELÚDIO - Passei, na minha adolescência, alguns verões de praia na Leirosa, Figueira da Foz. Tempos inesquecíveis em que pesquei muitos peixes-aranha e, entre outros, um dos ainda agora meus melhores amigos. Foi também na Leirosa que convivi, diariamente, com aquela estranha forma de arrasto, praticada em mar e areais onde nos tirava o sossego de banhistas, como nunca antes vira pelas praias minhas conhecidas

Era tudo muito simples: a embarcação, pela força braçal, ia empurrada para a rebentação das ondas vencida pelo remar da tripulação. Momento quantas vezes assustador, assim o mar andasse mais picado. A proa levantava, levantava, subia a pique, o mulherio, em terra, berrava, apelava a Nossa Senhora e arrepanhava o cabelo, entre o negro trajar de tantas viúvas...

Ao largo, a "canoa" lançava as redes e regressava. O mais era com as parelhas de bois, horas a fio puxando por elas à força de paulada. Décadas volvidas, já homem feito, cheio de saudades, regressei a esses poisos - a Leirosa, a Costa de Lavos, a Tocha. Muito era diferente, tudo mais prático. Como todas as outras, a minha máquina fotográfica só soube captar a actualidade.

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A FAINA - Atente-se nas formas dos barcos, e como elas se dispõem a vencer o primeiro e grande obstáculo: a rebentação das ondas, sempre muito forte nestas praias sem rochas e de águas traiçoeiras. É assistir ao seu descer do areal, prontos a furá-las.

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Já o disse, a umas centenas de metros da costa, ainda à vista da praia, as redes são lançadas. Vai começar o arrasto. As embarcações, agora já equipadas com motor, a tripulação mais escassa, regressam a terra.

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Vêm à boleia das ondas e os tractores rebocam-nas para lugar seguro. Serão também eles a puxar as redes. 

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Onde ontem a máquina eram os bovídeos, e o combustivel a porrada, andam hoje os motores e o gasóleo. Tudo é muito mais rápido.

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Ainda assim, a mão humana não é dispensável, para o necessário jeito de que as redes não prescindem.

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O CLAMOR - O bolo aproxima-se. Feito de quê? - sardinha?, cavala?, carapau?, robalo? com algum brinde especial? Há um agigantar de vozes à medida que se vai percebendo, já nas imediações da rebentação, o produto da faina. A companha está em picos...

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Há dias magros... e há dias de abastança. Sintomaticamente, estes cada vez menos do que aqueles. Mas, enfim, em essas tardes, uma sempre rendeu uma corvina de 20 quilos...

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Parecia uma baleia, já não havia memória de tal, aquilo, ós pois, foi decerto noite muito embagaçada e embaciada...

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EPÍLOGO - Segue-se de imediato a lota. O peixe é colocado em cabazes e leiloado. Na minha juventude, o carapau chegava a casa ainda vivo, direitinho para o escabeche. Mas, afora casos assim, de pequenas quantidades, os senhores da manobra são sempre os big bosses dos mercados das cidades próximas.

Nunca será modo de enriquecer. A xávega só é praticável nos meses de verão, mas aqueles extensos areais, de Cortegaça ao Pedrógão Grande, em tempo não, revelavam-se o ideal para o contrabando do tabaco, vai lá quase meio século... Depois vieram as fábricas (a celusose...), outros ofícios, e eu de hoje não falo do que não sei.

Mas era e, em muito, continua a ser assim mesmo.

 

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