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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio Arte e inspiração|A torre mágica

João-Afonso Machado, 27.10.21

EM 22.FEV.2017.JPG

O mundo anda complicado, meio torto, sem a noção do equilíbrio. Pode dar para deixar cair aos retalhos uma boa casa capaz de albergar umas poucas de famílias necessitadas; ou pode pegar nessas, e em muitas mais famílias, e encaixotá-las num tipo de construções Lego, umas coladas às outras, quase sem respiro.

Por isso a arte de recurso, os desenhos a colorirem as portas e janelas entaipadas, ou no exterior das muitas camadas de Lego que impelem ao céu essas torres verticalíssimas.

Assim as pessoas se movimentam na cidade, já muito alheadas destas contradições. Mais as chamam os cantares do mar, mais as atraem a falésia, o fundo imenso no bordo no qual alguém plantou o derradeiro edifício.

É este sobejamente alto, esguio, de estranhos contornos humanos. Está ali há décadas e foram aos milhares os que vaticinaram a catástrofe, o seu mergulho iminente nas rochas e na braveza das ondas que se chocavam e ecoavam. Mas não, aquele volume descomunal, a dobrar-se sobre si, parece preso por raízes ao centro da terra. E os mais atentos, que são os mais noctívagos, juram essa torre tem vida própria, a de um casal eterno, sempre enamorado, ela de pés firmados no precipício, ele abraçando-a com tentáculos de polvo escapulindo-se pelas aberturas da construção - num beijo infinito (frisam), resistente aos ventos, às chuvas, a todos os caprichos da erosão.

O BEIJO.png

Tal beijo simbolizaria o compromisso de duas vidas, por assaz dificeis fossem os seus trilhos. Nunca a plasticina quebraria uma extensão, ténue que fosse, para desmembrar um amor verdadeiro e sem medo de se mostrar. Um amor tão rijo quão versátil que um dia (ou uma noite...) terá apanhado em pleno Gustave Klimt, e o levou a desenhar O beijo a cimentá-lo. Hei-de ir em romagem a essa magia, se não me falha a memória assim entusiasticamente apresentada pela Olga Cardoso Pinto.

Não será mais um desenho colorido: serão antes os momentos de dor, formas nunca rígidas, do melhor humanamente alcançável, a perenitude, um cântico que só o luar repercute.

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

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