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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio Arte e inspiração|Um estranho encontro no Tempo

João-Afonso Machado, 06.10.21

CAMILO E OS SEUS.JPG

Suponho tenha sido mesmo uma viagem no tempo. Porque mais do que um sonho foi, houve contacto, todo o nexo de uma conversa solidária, houve aromas e olhares e, acima de tudo, a memória lucidíssima desses instantes. Sim, posso afirmá-lo, passeei pelos finais do século XIX, já o frio atacava com brios.

Não vou entrar na descrição da inimaginável cidade povoada do tropel dos cavalos, ou do chiar das tranquitanas na calçada, ou da vozearia dos cocheiros. Nem de modas, já disse o frio apertava, mas com mil diabos! tais felpos, tais veludos, tanta rigidez dos colarinhos, tudo parecia a fogueira inquisitorial, a corda da forca em imparável actividade.

E, assim atarantado, senti necessidade de respirar fundo, organizar as ideias, interpelar alguém que cismei estar ali no botequim onde entrei - Ó da casa, ó da casa! - mas qual quê!, respondeu-me o silêncio.

Impaciente e nervoso, subi umas escadas bati a esta e a aqueloutra porta e ao desprezo permaneci votado. Enfim esbraseado, rodei uma maçaneta e precipitei-me de roldão, quase tropeçando numa cama. Do lado de lá, assentada no chão, serena ou tristíssima, - não alcancei - ela somente acompanhada do seu corpo. Mais o livro que folheava em volta de odores vagamente florais. Olhou-me bem nos olhos mas rapidamente. E nem se mexeu. O seu cabelo fora levado por tesouradas selvagens, ali havia castigo feroz, o desterro num quarto averso ao ruído do exterior. Novamente me olhou e eu aproximei-me, devo confessar, ansiando saber se aquela carne era igual à nossa. Toquei-lhe, encolheu-se, pareceu menos roliça, não me agradou retraí-la, nesses marmóreos anos da gordura que era formosura. Agora ardia eu de espanto face à sua convincente, genuína, descontracção que mantinha mansamente em carinhos com o seu livro.

FÁTIMA.jpeg

Assim as questões ligadas à fisionomia e à anatomia da senhora - aos meus olhos, uma quarentona - se me varreram do espírito. E sobre ela lancei uma espreitadela à misteriosa encadernação, intuindo Dickens, talvez Victor Hugo... Quem quer, conhecedor dos males do século... E porque parecesse, de súbito, falar consigo mesma, calei, fui ouvindo frases soltas em francês, com alusões frequentes às pontes do Sena - Mas quem é, como se chama? - eu já não suportando mais o suplício do desconhecimento, ela olhando, balbuciando algo, juraria - Jean Valjean. - Claro, o seu protector!

Retrocedi. Qualquer insistência minha acarretaria medo, algum mal-entendido. Contas feitas, Victor Hugo, trasmitira uma ideia errónea de sa petite Cosette... Cosette não era frágil.

Ou sufragaria ela a memória do seu velho salvador, de alma já com o Criador?

Porventura engano-me. Hei-de saber quem foi Fátima Mano para tirar tudo a limpo. Ou então falo com a Fátima Bento, que isto deve ser escolha dela.

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

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