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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio lápis de cor| De casaca na noite de Matosinhos

João-Afonso Machado, 03.02.21

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Não valerá a pena referir há quanto tempo... Éramos estudantes universitários, um coeso grupo de amigos provenientes de Faculdades diversas e, quase todos, ávidos leitores de Eça. Conhecedores de passagens e episódios inteiros, deliciados com as ceias no Bragança, as idas a Sintra, o frou-frou das saias das senhoras, as suas «carnações ebúrneas» e a sua atracção pelos amores ilícitos... E pelos calafrios causados na sociedade da época por João da Ega, ou mesmo por Tomás d'Alencar.

Foi nessa altura, já quase todos finalistas, um de nós, o mais velho, resolveu... casar! Havia que planear essa primeira despedida daquele grupo de estarolas. E a coisa não seria feita por menos.

Estávamos num Fevereiro escuro e frio, como então os Fevereiros eram, regularmente. Seria à noite, no Fagundes, um velho restaurante de Matosinhos que pereceu incendiado. Com um gabinete todo por nossa conta e um belo bife no prato. Traje obrigatório: a casaca.

Já não recordo onde as desencantámos. Negras, até ao joelho, a calça no mesmo tecido. A contrastar, apenas a alvura dos coletes e das camisa de colarinhos erguidos, bem engomados. Assim entrámos, em fila indiana no Fagundes, ante a admiração e o silêncio gerais.

Mas não era tudo. O nosso amigo casadoiro dispensava o bailarico em lugares menos narráveis. Daí as duas ou três garrafas de espumante, as flutes, e já não sei quantos galfarros, passava da meia-noite, encarrapitados nas rochas do mar de Leça da Palmeira, fazendo saúdes à rainha-Lua, essa noite a meio-pano. Muitos os braços erguidos, a berraria intensa e a apreciável colecção de blasfémias proferidas.

O breu nocturno ainda nos presentearia com uma cena final. Há retratos dessa «pilhéria», já não sei quem os guarda. Mas trazíamos um fotógrafo profissional, primo de alguém, para registar a ocorrência. Qual fosse ela, postarmo-nos no mercado de Matosinhos, aguardando a partida do derradeiro 19 (eléctrico) para o Porto - aí desataríamos a correr atrás dele, a bengala (cada qual arranjara a sua) na mão, gesticulando, «ainda o apanhamos!, ainda o apanhamos!» O mestre da fotografia se encarregaria de eternizar esse remake queirosiano, na negritude dessa hora última.

Foi complicado. O guarda-freio, coitado, cheio de boa vontade, compadecido daquele grupo de rapazes sem outro transporte para o Porto, parava o eléctrico e ficava a aguardar. Ele não sabia quem era Eça de Queiroz nem alcançava o sentido da nossa encenação...

 

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