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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio lápis de cor| O encarnado moliceiro

João-Afonso Machado, 31.03.21

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Foi o caso, a tia velhota morreu, solteira, com uma corrida de sobrinhos. Visitava-a de quando a quando, nunca supôs: a casa da Costa Nova seria dele. Muito escangalhada, a precisar de arranjo urgente.

Jeitoso como era, ele próprio se dispôs ao serviço. Comprou os apetrechos. Sendo do Porto, adivinham-se as cores escolhidas... Organizou-se, escadote incluído, e marcou dia: aí vai de obra por si, mais a filharada.

Ia nestes preparos quando a trincha lhe segredou - Ó homem, deixa lá o azul, que o encarnado é que fica bem...

Embasbacou. O encarnado? O vermelho?

A trincha, vinda da loja de ferragens de lá, muito conhecedora, prosseguiu - É  a cor do vizinho. Deixa lá o resto... Olha adiante.

Ele olhou. De olhos postos na Ria. Nos iates, na surdez de quem não ouve as motos de água, tal a elegância de tantos barcos sempre velejando. E na plenitude daquele lago disputado. Sabia dos moliceiros de outrora, não esquecera as cores de então. Foi em época menor, a marina apagada, uma xata ou outra, quase à deriva. Tudo vagarosamente. Mas sempre o garrido das embarcações ao vento, num tempo não fantástico, somente o quotidiano.

Percebeu tudo. Leu as proas dos moliceiros e uma vida que gostava para si, já nas fronteiras da reforma. Pontapeou essa lata de tinta e achegou-se à trincha. Ela falara. O riscado sairia vermelho-branco, o futebol era ao domingo e a sua casa olhava de igual para igual com a do vizinho. 

E as cores da Ria gozariam o contraste, esse pijama feito de sol e de luar.

 

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