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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

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Desafio Trinta Dias de Escrita|O Danúbio

João-Afonso Machado, 24.09.21

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Nasce na Alemanha e atravessa a Europa a caminho do Oriente, até que na Roménia se despeja no Mar Negro. Mas não estamos numa aula de Geografia, nem mesmo nos píncaros de algum baile vienense, rodopiando ao som do Danúbio Azul. Foi antes a espantosa visão, a colossal massa de água, as muitas pontes, a fortaleza e Belgrado e uma vida quase toda para conhecer, enfim, o rio magnífico.

A meus pés, a confluência do Sava com o Danúbio. E um entrelaçado de braços em volta de uma monumental ilha, afora as ilhotas, como a mais impenetrável floresta. Velejava-se ali tal qual num desabrigado oceano. E eram muitas as lanchas, as embarcações de turismo. Num bar palafítico, sentei na esplanada, refastelei-me na cadeira e fui navegando sonhos.

A vastidão do Danúbio, o mistério das suas margens, mereciam mais do que recreio. Não deveria dispensar a pirataria, a subtil canhoneira a bordo da qual seguia uma mescla de foragidos do mundo inteiro. Uns mais sanguinários, outros nem tanto. A comandá-los, um cavalheiro português que a atracção pelos casinos arruinara. Mas sempre um elegante: não havia mão de senhora despojada dos seus aneis que não fosse beijada seguidamente. Não digo andasse esse malandrim de chapéu emplumado. Talvez somente com uma boina basca, o bastante, ainda assim, para uma grande mesura às suas vítimas.

E o rio era dele, a Europa Central dele era também, e, tão vasto o seu domínio era, que vez alguma a guarda fluvial lograra deitar a mão a esse romântico, um Zorro aquático roubando aos ricos para dar aos pobres.

De um outro ângulo, o Danúbio desenhava-se no vaivém de toda uma vida de transportes. Animais, produtos agrícolas, gente do seu mundo - eslovacos, húngaros, sérvios... - tudo cabia no porão ou no convés do pequeno cargueiro de chaminé e ponte e uma sineta que dava ordens. Num sulcar de águas pachola e bem conversado, noite a bordo e serenatas a acompanhar qualquer petisco sem fronteiras. Assim ronceiramente eu percorria não sei quantos países, sentado junto à amurada da velha embarcação, pensando, memoriando, dilatando a alma com toda a emoção que senti ao vislumbrar o Danúbio.

 

(Publicado no Desafio 30 Dias de escrita - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/desafio30diasdeescrita)

 

 

 

3 comentários

  • Bom dia Ana! Sem aneis não a posso roubar, logo apenas lhe agradeço e envio um beijinho.
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    Ana de Deus 24.09.2021

    ah eu tinha anéis!! só que roubaram-nos
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