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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Impressões de um termalista

João-Afonso Machado, 15.09.22

TERMALISTA.jpg

O átrio, os corredores, os balneários, tudo são lages pétreas regredindo às sandálias romanas. O termalista, ainda um pouco confuso, despeja os seus pertences num cacifo, enfia o calção de banho e o roupão, as xanatas compradas nos chineses, e inquire pela sala das lamas. Um termalista experiente saberá que não vai ser besuntado de cima a baixo, como um aborígene qualquer.

A sala das lamas tem toda a aparência de uma enfermaria superlotada. O termalista recebe ordens para aguardar, enquanto um avantajado funcionário espanca com violência duas almofadas fumegantes sobre as quais o termalista deitará a sua timidez. São elas o invólucro das lamas ferventes, o roupão do termalista serve-lhe de almofada, e mãos - vá lá... - femininas atapetam-lhe o corpo com mantas hibernais e lençois atados à altura do peito e dos braços, não seja o caso de o termalista intentar fugir.

É-lhe apontado o relógio, adorno único da granítica parede, e o processo transmitido em escassas palavras - Vinte minutos!

Tanto durará a mumificação do termalista. Como os seus congéneres cozendo em cima de lamas certamente vulcânicas.

O termalista tem então oportunidade de verificar que nem as lavas do inferno, aquela fornalha em que se derrete, bastam para calar as termalistas minhotas. Pormenorizando muito as suas maleitas terrenas, costas adiante até ao pernil, percebe-se que são termalistas veteranas, já sofrendo com toda a naturalidade a sua mumificação.

Enfim, vencidos os programados vinte minutos (e umas tantas inconfidências das termalistas minhotas), as múmias desparalisam, desenfaixam-se e partem para o capítulo seguinte.

Qual seja, o da piscina. Uma colecção imaginativa de jactos de água e repuxos, um calorzinho amazónico lá dentro. O termalista ensaia umas braçadas mas não tem muito onde se expandir. Devido até ao risco de colidir com alguma termalista bem defendida por inabaláveis pára-choques. Brinca ainda um pouco nas pocinhas, o termalista, mas já não vai ao jacuzzi. Segue directo para a etapa final, a massagem.

A etapa-rainha! Logo à chegada o termalista quase esbarra numa massagista trajando fato de banho negro com um aventalzinho branco sobre ele. E um devasso pensamento das humidades de Banguecoque perpassa-lhe o espírito. A massagista manda-o estender de barriga para baixo num estrado onde pingam várias goteiras de água quente. O gabinete é mínimo, muito íntimo, e a massagista começa amaciando com unguentos os pés do termalista. Depois vai por ali a riba.

A certa altura o termalista está de rabo quase ao léu e impedido de se voltar. O que irá suceder? A massagista, afinal com pés de cabra, atacá-lo-á com uma seringa? A expectativa é grande...

Nada de especial acontece, porém. A massagista prossegue o seu percurso ao longo das costas do termalista, sempre a esfregá-lo em óleos e empenhando-se a torcer-lhe com força os ombros e o pescoço. O termalista está encantado com tanta energia, daria tudo por uma eternidade massajada, mas uma voz seca e autoritária, num dito só, comunica-lhe que é findo o bem-bom.

Restará apenas, porque a classe dos termalistas honra os seus compromissos, o breve instante de se selfizar, assim deixando à posteridade evidências desses enebriantes minutos de prazer.

 

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