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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Mogadouro

João-Afonso Machado, 02.06.21

Vila pequena, no Interior nordestino, já a dois passos da fronteira. Mogadouro é sede de concelho e o berço de um escritor que aprecio particularmente: Trindade Coelho.

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Terra de dias simples, oscilando entre a torreira do sol e os gelos do Inverno no planalto. É no cimo, no seu castelo, meditando nestas fatalidades climáticas, que vamos dando conta de cães e gatos e alguns idosos, afora os turistas da vizinha Espanha.

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Aliás, uma fortificação a impor respeito. Junto a si, mais recente, a "torre do relógio", - desses sempre pontuais, os do sol, - e a Matriz, um nada abaixo. Aqui, na parte antiga do Mogadouro, urgia almoçarmos, num domingo de quase ninguém. Valeu-nos o tasquinho da Sílvia, algo em vias de se tornar inovador, entre as refeições que ainda não serve e os produtos artesanais que já vende. Assim, às costumeiras sandes preferimos uma lata de feijão-frade e uma salada que a Sílvia de pronto preparou. Depois sentou-se connosco à mesa e foi contando da vida. O meu filho declarou-se interessado no dialecto mirandês e ela, num assomo de severidade, logo corrigiu - Não é dialecto, é língua!

- Filho, a Sílvia é de Miranda... - rosnou este velhote. E era. Mas fora para Oxford - Os ingleses de lá? Uns enfatuados!... - (Os londrinos nem tanto...) Sim, a Sílvia não se vestia exactamente à transmontana. Tinha uns bonitos olhos muito azuis e umas feições a adivinharem-se interessantes, por trás da máscara. Conversámos bastante. Explicou os seus planos neste negócio nascido há quinze dias: ia remodelar todo aquele antigo paradouro dos anciães locais, em busca de um copito de vinho... E, a finalizar, quis tirar uma fotografia comigo. - Uma selfie, Sílvia? Mas eu sou monárquico, não posso, isso é para os presidentes da República... - Tudo se resolveu com os préstimos de uma simpática senhora de passagem por ali. E ficamos os dois muito bem. Na despedida, uma oferta sua, as amêndoas da região, às mãos cheias.

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Os fontenários ainda cumprem o seu serviço no Mogadouro. O pelourinho (deverá datar do reinado de D. Afonso III, quem concedeu foral à terra) alberga conversas vagarosas no sotaque melodioso das gentes daqui, já na idade disso mesmo -  de darem uso ao verbo, por todas as benditas horas.

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E mais no fundo, a Praça Trindade Coelho, com uma amplitude digna deste filho do Mogadouro. Arejada, ostentando o bronze da estátua do literato, e a casa onde nasceu, naturalmente hoje um museu.

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São tudo razões para voltar ao Mogadouro: uma visita à Sílvia (como, de resto, recomendaria Trindade Coelho) e outra ao dito museu. A seguir o rasto desse transmontano que foi para Coimbra, casou ainda estudante, teve um filho e muitas, muitas, dificuldades financeiras, foi jornalista, bacharelou-se em Direito, advogou, mudou para a magistratura, não quis ser deputado (!!!), e acabou tragicamente os seus dias.

Os Meus Amores e In Illo Tempore, as suas obras fundamentais. Esta última, memorial da vida académica coimbrã, começa assim: «No tempo em que eu andava em Coimbra, andava lá também a estudar Direito um rapaz chamado Pássaro. Ele não se chamava Pássaro. Pássaro pusemos-lhe nós porque, além de ser alegre como um pintassilgo e vivo como um pardal, usava o cabelo não sei de que modo, que parecia que lhe punha duas asas atrás das orelhas, e que a cabeça lhe ia a voar!».

Escrita despretenciosa, pitoresca, observadora... Uma delícia!

 

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