O livro que a Fátima Bento me ofereceu
Foi em pleno confinamento, num desafio lançado pelo blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/) da Fátima Bento, que me calhou esse livro, recebido pelo correio e lido com toda a merecida atenção. Trata-se do Explicação dos Pássaros, e o seu autor, António Lobo Antunes, não é de leitura fácil.
Dele sempre dei primazia às Crónicas, com as quais creio muito ter aprendido. E ainda agora procuro, na complexidade dos seus romances, os vestígios desses olhares cirurgicamente lançados sobre as pessoas, os lugares e as épocas - encontrando-os sempre entre enredos mirabolantes de ironia, dramatismo ou crueza e ternura, de tudo o que, afinal, faz parte a nossa vida.
No Explicação dos Pássaros é o que sucede. Conforme Lobo Antunes prefere, o recital é tocado a várias mãos e cantado em coro. Calcando voluntariamente a disciplina das narrações, conduzindo-nos sem piedade à decifração do quebra-cabeças. Parágrafo a parágrafo.
Mas os personagens estão lá, vivíssimos, iguais a todos nós, com os mesmos defeitos e as mesmas virtudes, idênticas experiências. Procurando algo, numa interrogação constante, como as pequenas aves empoleiradas nos ramos - alerta, quando não namorando.
Os dias de um homem, a montante e a jusante dos seus instantes de solidão, quando lançados de rojo pensamentos, memórias, sentimentos, hão, em síntese, de significar a escolha do título deste livro, dada a sua semelhança com o voo dos pássaros - inconstante, levado pelo clima para mais longe e regressando entretanto, vítima de fatalidades, sempre imprevisível entre a beleza das suas cores e dos seus trinados, infinitamente gracioso, resistentemente frágil.
Assim é também a nossa existência. Muito obrigado, Fátima!