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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Pânico na capoeira

João-Afonso Machado, 28.12.21

CAPOEIRA.jpg

Correram bastante os meus vagares de catraio entre o jardim e a capoeira, o espaço de eleição da minha Avó sempre que se achava prescindível na cozinha e no seu fogão a lenha. A mais meiga Senhora campesina (a Avó) que me foi dado conhecer, uma vida de dificuldades e a autora dos melhores pudins e rabanadas do velho Império português de então.

Estava tudo muito ligado e o Luís, felizmente, sabia de roseiras e de cameleiras, porque os cozinhados eram uma responsabilidade que dificilmente a Avó delegava no seu categorizado pelotão de funcionárias, não obstante a tormentosa prévia recruta. Mas isto dos refogados jamais dispensava o comando em chefe e, por isso, sobrava para a octogenária Maria segar as couves e ralar o milho das galinhas, e para mim caçar os caracois e insectos, seus aliados, - os inimigos dos canteiros - e andar de olho nos patos, nas poedeiras, nos perus, nas coelheiras. Vigilantemente, de espada e escudo de madeira, às vezes cavalgando em brados de vitória o desgraçado pavão apanhado pela cauda, outras repelindo os ferozes ataques dos gansos, traiçoeiros como cascaveis.

E comigo sempre uma escolta: dois fox terriers, o Bi (meu, só meu, até no LOP era meu, como o meu Pai o inscreveu) e a Bisca, e a Fara, a caniche da Avó, que a tosquiava assiduamente e com o seu pêlo negro, depois de bem lavado, enchia almofadas. Não podia ser de outro modo, porque o jardim era viveiro de gatos como o jangal dos seus primos igualmente perigosos, os tigres. Isto para não falar nos sardões, nas lagartixas, em quanta mais bicharada tão frequente nessa Antiguidade em que nós, homens, combatíamos em calções e sandálias. Ora, a minha matilha pautava-se pela sanguinolência, pela impiedade, pela avidez do saque. Quando não, sem que o general, aqui, conseguisse suster os seus ímpetos. (- Veja lá menino, olhe que o diacho dos cães dão cabo da galinha e depois a Avózinha diz-lhas - avisava a prudente e sábia Maria, no regresso com o alguidar das couves e do milho...)

É que entrando no casinhoto onde elas se abrigavam, os ovos eram às dúzias diárias. Alguns já arrefecidos na palha do ninho, outros ainda debaixo da que os pôs e refilava muito ameaçadora, nada disposta a erguer-se. E com as patas a mesma coisa, reinava a insubordinação na capoeira. E como repor a minha autoridade, sim, como lhes fazer ver, os meus calções eram, ainda assim, mais do que a tanga espartana? Manifestamente, açulando ordens de massacre ao Bi e à Bisca, à Fara. - Css, css! - Os livros contam o que são as hordas inebriadas pelo sangue... A matança prosseguia, incontrolável e dificilmente explicável à minha Avó.

Enfim o grande cabo de guerra, aqui, valia-se, então, de um ar compungido, do cestinho bem composto de ovos, a espada e o escudo esquecidos atrás da buganvília e os joelhos todos sujos, arranhados, - Oh Avó fartei-me de apanhar caracóis... - boas-novas recebidas na metrópole que era o coração da minha Avó com um sorriso de ternura e uma enorme beijoca neste seu neto, o mais velho e o seu afilhado.

 

5 comentários

  • Obrigado. Um bom Ano Novo também.
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    Anónimo 28.12.2021

    Igualmente! Mesmo! (Ressalva ao comentário escrito de rajada: "Casa de Pindela vs. 'Margaride' "). Bom Ano Novo! Renascer! Nascer dse Novo. Sempre
  • Em Margaride, a capoeira era ainda mais variada. De lá veio o meu primeiro casal de chinos, a origem do meu incomparável rebanho deles.
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    Anónimo 28.12.2021

    Imagino! Pelas descrições! Que giro! Ou que original", nem sei, qual a palavra. (Os n/ chinos, em Arazede, num anos - Verão quente 75, 3 irmãs Forgªl, as mais velhas, c/ os seus filhos e as pratas - os Senhores, e a Tia maia velha, matriarca, e Mãe, mantiveram-se em casa, por ocasião dos comícios c/ o Sr. Dr. Mário Soares, por detrás da casa, no campo da Feira, interrogando-se ele, donde vinha "esta gente" (as crianças/ jovens", nós, os da casa e uma das tias mais bonitas! Lindíssima! O que não lhe passou despercebido, como é bom de se imaginar! Mas que lá foi!, c/ bandeiras do PS! Yes!, feitas em casa (pois urgia não deixar entrar o Comunismo, menos ainda, para ficar. A Tia Matriarca, do CDS, e os Senhores mantiveram-.se em casa!); isto em Agosto e não Setembro/vindimas, fizemos "um Jardim Zoológico": cada primo tinha seu animal. Os do n/ primo Luis Filipe (faz daqui a 2 dias, 30 Dez., um ano que partiu, no Porto), eram chinos, como os da sua irmã mais velha. Gaffe (?), lapso, erro, a gaiola onde estavam, foi colocada dentro dum tanque/pia, não original da quinta, mas trazido pelo n/ avô E. Formgªl, para lá. Um desastre. A torneira do motor da água para uma nora, ficou aberta toda a noite, e encheu ese tanque. Morreram. Um desastre. Em contrapartida os patos do primo Fgªl Mrão mais velho, e meus medraram! ... Mas depois, ainda o Alfredo e a Carolina (os caseiros, vindos da casa da avó D. "n/ avó emprestada", Mãe das tias mais novas, 2º casamento do avô, por viuvez, trazidos pelo avô da Costilha/Penafiel) cozinharam-nos. Eles medraram a olhos visto, num mês. Os patos crescem num instante. Tnhamo-los comprado na feira. Não podiamos vir embora para as cidades, recomeçar o ano, e deixá-los lá s/ ninguém par cuidar deles. Outros tiveram coelhos, nesse ano, que se aguentaram,. na capoeira do lado dos caseiros. Junto ou próximo das galinhas, precisamente. Os chinos, que tanto encanto fizeram, é que, mal honrosamente, por esas circunstâncias, eram uns 5 ou 6, se foram. Os primeiros a ir, desse "Jardim Zoológico".
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