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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Para início de Setembro

João-Afonso Machado, 01.09.21

Eu tinha sete anos e estava em Lisboa. Lembro vagamente, um tio foi buscar outro familiar a Santa Apolónia e, no regresso, informou já só conseguira passar «por um triz».

Agora, mais localizado no tempo, preciso esse início de noite a 25 de Novembro de 1967. Foi talvez o mais mortífero cataclismo natural que se abateu sobre o que comunmemte hoje se denomina o Vale do Tejo. 

Vai lá pouco tempo, estanciei em Alenquer, onde os efeitos da catástrofe também se fizeram sentir. E ainda então, conversando com os locais, - alguns de uma geração abaixo e meio século volvido - o desastre era tema: a propósito de coisa alguma, sempre se referenciavam as chuvas de 1967, o seu efeito desvastador, a destruição e as muitas dezenas de mortes na baixa da vila, engolida pelas vagas pluviais dessa noite funesta.

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O que sucedera?

Simplesmente a hecatombe. Numa madrugada, apenas, caiu tanta chuva como o habitual num mês inteiro. Em Lisboa, já ninguém sabia onde acabava a cidade e começava o Tejo. Mas isso foi o menos. Em Algés, Oeiras, sobretudo nas áreas de Loures, Odivelas, Amadora, Vila Franca de Xira, as ribeiras subiram o leito uns vastos metros, eivaram-se da terra circundante e, de roldão, uma imensa vaga assassina varreu povoações e as tantas construções que as marginavam. Recorde-se, era a "época de ouro" dos "bairros de lata", da miséria de centenas de famílias oriundas de longe à procura de melhor vida na Capital. Encontraram foi a morte que, mais ou menos, a todas atingiu.

Porque, fechando os olhos as entidades governamentais, armavam as suas barracas junto desses pequenos cursos de água, assim possibilitando ainda a horta, a capoeira, ajudas de vulto à sua subsistência. Madeira, zinco, lusalite, uns tijolos... Naquela noite, o arrastão das águas sublevadas sequer se confrontou com alicerces, e o resultado traduziu-se em mais de 700 mortos!!!

O Regime da II República, incomodado com este números, deu ordens à Censura e o cômputo oficial das vítimas fixou-se em cerca de um terço da realidade. Ajudas? Qualquer coisa igual à da calamidade dos incêndios de 2017. Valeu então o empenhamento da Igreja Católica, dos bombeiros, da mobilização estudantil, da boa vontade cívica dos particulares.

Muito mais havia a dizer. Muito já li sobre o tema. Ultimamente descobri - e "devorei" - um livro de Joana Amaral Dias, o Dilúvio sem Deus.  Subtítulo - As Grandes Cheias de 1967, a tragédia escondida pela Ditadura e esquecida pela Democracia. Apreciei devidamente. Muitíssimo. É a narração da verdade dos factos, repleta de testemunhos de sobreviventes e de intervenientes de auxílio. Com imagens arrepiantes e um discurso altamente emotivo, mas nem por isso menos credível. Ao que tudo acresce a análise psicológica da situação e a crítica à criminosa inacção do Poder.

Resta a pergunta: porquê a menção a este quadro de terror, logo no dealbar de Setembro? Talvez porque todos sentimos a imprevisibilidade climática do nosso mundo. Talvez porque eu esteja de partida, ainda não sei para onde, mas seguramente em bom barco. E um bom barco foi o que faltou a esses tantos milhares de desgraçados.

 

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