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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Pelos canais de Bruges

João-Afonso Machado, 01.12.21

Assim cada embarcadiço fosse um medievo saco farto de cereal... Mesmo aquele fantástico par azul de olhos ferozes, a cada vez que me levantava para fotografar. (E eu repimpado neles, nos sacos, dono do mundo o trajecto inteiro.) Conduzia a lancha a ganância do ganho, bancos repletos, e uma vozinha fanhosa que o ruído do motor abafava. Restava-me a percepção daqueles meandros, os remos da minha imaginação.

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O canal sobejamente labiríntico. De águas escuras sem remédio, impenetráveis. Agora talvez por efeitos dos óleos, e antes em resultado do que vinha das janelas aos baldes. Buracos negros, como escotilhas rentes à maré, indicavam o refúgio e a idade pétrea dos monstros.

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Corremos os intestinos de Brugge. Por vezes rasando as cabeças no vão das muitas pontes onde expressões vazias nos observavam, como quem olha fardos de farinha vindos da moenda.

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Quase sempre navegámos as traseiras da cidade. Sucediam-se os palácios, forças inquebrantáveis a obrigarem o canal a curvar submisso.

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Quando não, mais floreados, não esqueciam a janela da princesa, curiosa e sempre melancólica.

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(E a jurar a si mesma, certamente, aquele cisne é o seu embruxado cavaleiro a rondar-lhe o pátio, sapateando como um cavalo ferrado o silêncio das maldades mais atrozes.)

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Por isso as tílias, os carvalhos, as heras lançadas dos terraços às águas: amarras, escadas, lianas em selva burguesa, sem bússola nem cronómetro.

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Mas os dias amarelecem outonalmente e o mirante transborda lágrimas tão verdadeiras quão a elegância das suas formas.

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Na margem oposta, o são gargalhar da moçoila visitada pelo aprendiz, vindo na bateira com a encomenda para o senhor paizinho. Só mesmo se ela o desprezasse alguém toparia ali qualquer muralha...

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Enfim, rezam todos pardas orações rogando não desembarquem os piratas, ávidos de riquezas acumuladas. Brugge fecha as janelas e espreita frinchas ao mais pequeno alarme,

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ou envia archeiros dissimulados na frondosidade das amuradas,

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levando sempre as mãos aos céus, tentando erguê-las acima do pináculo da igreja de Notre Dame

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nesta, como em outras histórias, omnipresente, abençoando com as vestes da sua sombra o burgo, nos muitos séculos de vivência levados.

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Se tudo isto é uma peça mal encenada? Reparo agora - não! Mal contada será, mas o que se trata é apenas a realidade mais vera,  essa que se acumula sob águas mortas-vivas, entaipadas como padecentes de outrora, vista cansada da grandiosidade que jamais abdica de si mesma.

 

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