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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Salvaterra do Extremo

João-Afonso Machado, 14.12.21

Corri o povoado já não sei há quantos anos. Nele li bonitos apontamentos mas o seu risco, guardou-mo a memória, era o abandono. O ninguém, a não ser as pedras que escorregavam, tropeçavam, caíam. Desta feita, apanhado por uma tendinite que não me deixa ir no encalço das perdizes, ainda assim acompanhei os parceiros até aos confins da Beira Baixa, às profundezas da Idanha, desviando a manhã para este mágico topónimo. Salvaterra do Extremo! No mais inóspito do mundo nosso, nas vésperas de todos os monstros!

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Em cima de Espanha. Mas - surpresa das surpresas! - agora uma aldeia lavada, penteada, toda galante. A puxar o lustro das suas memórias de sede do concelho que foi até 1855. A apontar-me o dedo à veneranda Matriz,

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na torre sineira um ninho de cegonha, e a gente percebendo, por fim, porque são elas a transportarem os bébés até ao berço, até à pia baptismal. A gente encantada com o granito, gozando o vetusto pelourinho e as suas armas manuelinas, gozando a pontifícia Torre do Relógio, decerto a antiga casa do município e, ao lado, a igreja da Misericórdia - uma virtude que já vamos desconhecendo e nunca praticando.

Era sábado. Um idoso aqui, outro ali, todos eles ávidos de conversa. Os mais novos foram, atravessaram o deserto, chegaram ao litoral. E os que ficaram agarraram-se ao seu derradeiro propósito, Salvaterra do Extremo é nacional, já dispõe de um "alojamento local",

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há por ali muita caça, venham, venham, venham mais vezes...

Vagueei de beco em beco. Gostei de Espanha no horizonte e do colorido das cuecas secando ao sol, demoras de um ermo sem horas nem cerimónias.

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Achei-me em casa (minhota) ao vislumbrar seculares edificações enraizadas nos penedos. E senti, uma vez mais, tudo isto me diz ao coração, sol matinal de sossego e paz, quão rica há de ser a vinda para estas bandas cheias de espaço e liberdade.

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Aqui e além, paredes retardatárias, reconstruções mais preguiçosas, lembrança de há duas décadas, da minha iniciação em Salvaterra do Extremo...

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Mas, no geral, o viço primaveril de uma aldeia renovada. Entre paredes bem esfregadas, pedra barbeada,

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e janelas carpinteiradas de fresco, mantendo a sua "guilhotina" envolta em cantaria e símbolos historiadores.

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Uma seta, finalmente, apontava ao miradouro, perto do cemitério. «Campo da Egualdade-1895», inscrevia-se no frontispício deste. É bem verdade: para além daquele portal acabavam  os bons e os maus, os contrabandistas e os traidores, as paixões e as miscigenações; e ali vai começando, na vez de cada um, a eternidade de todos os que lá ficarem repousando.

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Já o miradouro se espraia sobre o "Inimigo". O monte desce abruptamente, a ocultar o rio Erges, o insignificante diferenciador de nós e eles, espanhóis. Somente nos confrontamos com o penhasco adiante, já não nosso mas dos grifos e dos abutres que nele defendem os seus ninhos. Os quais não conhecem fronteiras, conquanto sejam juridicamente naturais e cidadãos do país vizinho.

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Especificando, do castelo de Peñafiel, outra fantasmagoria. E a vastidão desconhecida nada revela, muda e estática. Como se hoje os de cá não fossem lá, todos os dias, buscar gasolina barata; e os de lá não batessem à porta dos nossos restaurantes, onde se serve muito melhor. Tudo é diferente - tudo... menos o Erges, os seus fundos e um dia com pernas por uma deambulação nos ecos desse passado.

 

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