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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

"A preto e branco"

João-Afonso Machado, 12.06.22

RUA REPÚBLICA.JPG

Provera se cruzassem um dia

a gasta viela tão já corrida

com o sol dessa nova via

fresca presença de vida.

 

Mas nunca porém

os rigores antigos da escrita

hão de trazer alguém,

 

severos castigos de hirta

gramática

 

onde te cansas coração

de errática silhueta estrada além

descalça, sem pontuação,

branca?, preta?

 

Outros o descobrirão.

Eu não.

 

A preto e branco

João-Afonso Machado, 03.06.22

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O calor era excessivo mas tinha assuntos a tratar na Baixa. Assim saiu de casa com uma ligeira, inexplicável, indisposição. A duzentos metros da paragem do eléctrico, que anteviu já próximo, acelerou o passo. Era o 6, se o perdesse suaria mais uma hora de espera. Não, não o deixaria ir...

E já atingido o alvo, onde duas utentes também aguardavam, não soube decifrar, não quis saber dos suores frios que o tomavam, sequer aliviou o corpanzil, o fato a estrafegá-lo, o chapéu como um chafariz a pingar... E o 6 chegou e estacou. Na última paragem de Monte dos Burgos antes do cruzamento do Carvalhido.

Entraram as senhoras primeiro. Ao deitar as mãos aos apoios dos degraus, sentiu não soube o quê, o corpo não obedecia, a vista turvava-se e a respiração sumia. Caiu redondo no pavimento.

Alarme geral!  O cavalheiro arroxeava, nada dizia, entrara em inconsciência. No auge da ansiedade, abanaram-no, falaram-lhe, pediam por si - se estava mal disposto... Pois sim! Ora avermelhado, ora pálido como cêra, cada vez mais pálido, respondia apenas com borbulhares salivosos, prostrado no chão.

À distância, o sinaleiro no cruzamento percepcionou o drama. Mas não podia abandonar o seu posto. Muito menos se queria a elaborar um relatório na esquadra da PSP, tremenda peripécia fora da sua rotina...

Um moço mais expedicto saiu do eléctrico e largou a correr até um tasco próximo. Pediu o telefone, ligou aos Sapadores Bombeiros - É urgente, muito urgente, o homem está ruim! Deu-lhe qualquer coisa!

E a ambulância demorou alguns vinte minutos. Caladamente parou cheia de sapiência e caladamente enfiou o corpo inerte na lona entre duas talas metálicas, partindo então para o Hospital de Santo António.

Ao outro dia, um comensal do Guarany, lidando com as enormes páginas de letra miúdinha do Comércio do Porto, na sua predilecta secção Os Casos do Dia, lia mais uma "Doença súbita e mortal" ocorrida no Carvalhido - fora o fim inesperado, instantâneo, de um "indivíduo de sexo masculino" aparentando 60 anos. "Prontamente socorrido, revelaram-se inúteis todos os meios para o salvar" -  mas quem?

Um ser humano como nós, indubitavelmente. E, tantos anos depois, alguém o lembrará? Os seus netos e bisnetos? Que é feito da sua eternidade cá em baixo?

 

A preto e branco

João-Afonso Machado, 19.05.22

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A passagem-de-nível era o derradeiro momento animado da avenida que se estendia sozinha até perder de vista. Tinham levantado as barreiras, o comboio já na estação, e a locomotiva resfolegava, enchia o ar de fumo quente e fogueteava apitadelas anunciando o rumo do norte.

Aliviou o pescoço com um abanão da gravata às cornucópias e atirou o chapéu um pouco para a nuca. Diante de si quase apenas o domingo esbraseado, a marcha solitária avenida fora.

Era pouco mais do que um descampado, davam os primeiros passos algumas moradias caladas dessas abastadas famílias de verão nas praias, por isso de janelas cerradas numa triste novidade de jazigo. Ainda sequer houvera tempo do arvoredo nas bermas do passeio crescer e criar sombra. Mais além, o "espada" estacionado, em sentido, muito negro, como se também participando no velório.

Decidiu-se: o casaco às costas, pendurado no dedo, e os suspensórios bem à vista. Num esforço enorme para esquecer os pés apertados nos sapatos de atacadores.

E foi a avenida toda, só ele, parecia o dono do domingo inteiro, nem uma bicicleta em trânsito. Por fim, talvez, os ecos de algum eléctrico ronceiro lá para as bandas do Carvalhido. Caramba! Quarenta anos de vida para cultivar um próspero abdómen, nada mais, e a paixão pelo futebol. Puxou do lenço, limpou a testa e mediu os passos restantes do calvário, Constituição a riba até ao campo do Lima. Ainda compraria uma bandeirinha azul-branca e uma fita a enfiar na palha do chapéu. Arre pernas!, mexei-vos e eu pago-vos uma cerveja antes do jogo...