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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio 52 semanas -4|Loch Ness

João-Afonso Machado, 25.01.22

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Visitar lugares é um cheiro tonto, mesmo vazio. Porque o andar não come ruas ou monumentos, menos ainda a hóstia do prospecto turístico. Haja saúde e pernas e mente para vasculhar aqui e acolá, mais perto ou mais longe. Com o devido pontapé na ânsia da abrangência, uma entorse do miolo que tolhe tudo, mesmo as montras e as janelas dos indígenas, esses que vivem onde gostamos de saber como é a vida lá.

Em boa verdade, o planeta não é desbravável. Nunca iremos além da nossa paróquia, o complexo lugar dos imensos e inatingíveis comparoquianos de mil e uma surpresas... Mas a tentação de galgar o mapa, espetar neles alfinetes de cabeça larga é comum, é um palmarés. Assim perdi o medo aos aviões com imensos projectos e o centro do mundo fixado na Escócia. Onde um dia desembarquei.

A Escócia seria (e é) povoada de castelos, de fantasmas, de gado lanzudo e de prolongadas cachimbadas. De rios: ou truteiros ou nascidos no pipo, a transbordar de whisky desaguando em bares acolhedores. E de, cobrindo toda a parada, o Loch Ness e a minha querida, fabulosa, Nessie, essa paixão.

Coisinha amorosa, a Nessie. Uma palpitação constante neste fraco coração. Foi então, em Aberdeen, ameaçado pela síncope,  que entre os mais turistas me impus: passarinhar na Escócia sim, mas esqueçam as destilarias, as almas penadas e vamos ao que importa: a minha Nessie, o seu Loch. O roteiro assim o mapeamos, iriamos para norte - até Inverness, até ao Mar do Norte - apreciámos o nativo a queimar o leite epidérmico e nós de pullover nesse Agosto quase polar, e alcançámos, finalmente, ruinas castelãs junto do abençoado lago. Só faltava o principal...

Pois corremos o perímetro todo!!! Circundámos Loch Ness comigo de mãos em concha à volta da boca - Nessie! Nessie! Where are you? Please, come here! Nessie! Nessie!... 

Debalde. Nessie prima pela timidez. Dizem os beberrões locais, a vê-la, só em madrugadas de lua cheia. Ainda alvitrei, umas horitas, mais logo..., mas a revolta na Bounty ameaçou-se num motim vomitado de sangue e retaliações de pescoço pendurado nos seus mastros. Diplomaticamente acatei.

E assim, mesmo lá, não realizei a minha mais ambicionada visita. A não ser sorvendo nevoeiros tão líquidos quão a mais cristalina água. Tencionando regressar, fotografar Nessie desnuda a banhar-se, beijá-la na boca e poemizá-la, acarinhá-la, numa intimidade só nossa e jamais revelada. 

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas -3|Memorial do Mix

João-Afonso Machado, 17.01.22

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Quantos anos terão passado desde essa manhã de geada em que o Alberto, o pastor, me chamou a sua casa?, entre o solene e o agitado, era assunto urgente e do meu interesse.  Não recordo, sei que segui na sua peugada miudinha e veloz, enquanto me explicava atabalhoadamente tinha para mim algo muito especial, um gatinho chinês.

Demorei a perceber que o Alberto se referia a um siamês. Ainda assim não acertando, coitado, tratava-se de um gato pardo, pelagem belíssima de tigre de jardim. E, logo topei, um mariola, arisco mas a gostar do colo em que viajou comigo e com todas as pulgas da sua colecção.

- Obrigado, Alberto! Era mesmo um bichano assim que eu queria. Fico a dever-lhe um cachorro...

Coisa rara, foi familiarmente bem recebido. Um brincalhão com graça e um grande sentido de independência e mando. A varanda ficou por sua conta, não temia os cães e banqueteava-se com lagartixas, uma chatice que lhe prejudicava o lustro do pêlo. Abordá-lo com meiguice era uma coisa; outra provocá-lo - lá vinha unhada certa e afiada. Até o Pai, pouco amigo dos felinos, apreciava as suas proezas, ria-se e exclamava - Eh gato fadista!

Tinha as suas pendulares e assíduas ausências. Por causa do femeaço das vizinhanças, obviamente. Era um galã corpulento, felpudo e autoritário. Por isso alguém o baptizou com o nome temido de um mafioso cá da terra, o Mix.

E o Mix ganhou uma fama inexcedível por toda a quinta. Uma égua, a cozinheira, deram à luz tardiamente? Pois fora obra do Mix, o gatarrão... Quando, de regresso, se alapava na varanda, indiferente a comentários, gozando os seus (eróticos) sonhos e o solzinho abençoado, já ninguém se atrevia a pedir licença ao Mix para se sentar naquela cadeira!

Um atleta, um d. juan, um espadachim. Vaticinava-se-lhe uma longa vida de romance e aventura... Mas eis que, num sopro, o Mix se apagou, morreu. Geral consternação! E não foi necessária a autopsia: lá em casa, declarado o óbito, a causa para todos só podia ser uma... O HIV, pois claro!

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas -2|A minha felicidade

João-Afonso Machado, 10.01.22

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A desnecessidade de listar os dias, como quem acrescenta notas sucessivas ao seu curriculo, e fica enredado nos prazos do sucesso, transmite-me uma agilidade de espírito libertadora. É quando se abrem as gavetas à procura de outras palavras, escondidas no bico desta ou daquela caneta. Elas são muitas, herdadas, oferecidas, compradas... Às vezes esquecidas, semimortas de sede num deserto de inacção, pejadas de crostas escuras a lascarem-se do corpo e eu com mil cuidados, a lavar-lhes as chagas, dando-lhes o tinteiro a beber. Uma troca de olhares, gratos e enternecidos, possivelmente uma escrita mais nostálgica... Ofereceu-me o meu irmão uma carteirinha de cabedal com quatro esferográficas Parker do nosso Avô - Toma, tu é que escreves! - e eu, comovido, tacteando aquele estojo que de repente me voltou à memória, saído do bolso interior do casaco do Avô, eu revendo o Avô na sua grafia miudinha, corri a tentar fazer melhor do que aquilo que sei, sentei à banca e fui de instante em instante atrás do Avô, sempre o Avô, as suas colecções, os seus livros, a fotografia e os slides do Avô, lugares do Avô, o Avô é vivo e eu gosto do meu Avô. Agora mesmo estou com o Avô na sua quinta na Bairrada, a cana de pesca furando silvados ribeirinhos, todas as manhãs, e o peixe, no regresso, enfiado pela guelra num caule de planta brava.

É o meu mundo, vale dizer, o meu presente: feito de memórias redivivas e de sonhos atirados para a frente. A espremer, sempre a espremer, as sensações, as emoções, sempre em busca do melhor caminho literário. Eis aí muitíssimo da minha felicidade.

Não me desloco desarmado, que "eles" andam por toda a parte. Comigo, a espingarda ou a Canon. Ou ambas. E seria o extase a presença mais assídua dos meus filhos...

(Pronto, a caneta tomou o freio nos dentes, perdi a mão nela, já lá vai em Beja, com o meu primogénito e eu próprio, é o seu baptismo cinegético, ofereci-lhe uma cal. 20, em anos de ouro do Jardel, que perdigueiro! Lado a lado, pai e filho, o Jardel adiante, num baixo, parado, uma estátua. - Atenção! - E as armas prontas, a pata dele dobrada, a cauda abanando, para que dúvidas não ficassem. E foi a restolhada das asas, uma perdiz para a esquerda, outra para a direita, dois tiros, cada um tombara a sua! Um abraço, o entusiasmo do rapaz, o seu desembaraço, o cobro do Jardel, depositando as peças na minha mão... Eia, eia, caneta, já chega, já te falta o folego!...)

Os anos, no seu trote, vão-se saciando das nossas próprias forças, depois recicladas em energia dos que ainda fazem a curva ascendente da vida. São noções, são livros, são conhecimentos - tudo é a aceitação das suas leis imutáveis, creio que tendencialmente um sofá onde a vamos estudando, apreendendo, sempre mais disponíveis de idade para aceitar os ensinamentos de outrém. Para, com essa muleta, solidificarmos os nossos dias numa busca que se prolongará até ao pote no fim do arco-íris... (Mas porque quer agora a caneta divagar sobre as baleias dos Açores? Gaita!, está quieta!... Pronto, açaimei-a que são horas de ir almoçando.)

Enfim, não faço elencos, fartei-me deles, cansei de tanto arrolar testemunhas em processos judiciais. A felicidade está na nossa liberdade, na independência que alcançámos e em toda a anarquia em que possamos viver. (O estafermo da caneta soltou-se e aqui mesmo fez as suas necessidades de teorização!...)

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas -1|Pacotinhos de eu

João-Afonso Machado, 03.01.22

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Vão lá dez anos e eu não entrei em Gijón pelo mar. Era um congresso de literatura ibérica em que intervim apresentando um livro meu. A comitiva portuguesa incluía o fado e houve espectáculo no Teatro Jovellanos, uma espécie de viagem no tempo alumiada por candeeiros de latão e lâmpadas amarelecidas nesse retrocesso. Mas o que mais alto falava, o que tudo dizia dos Anos 20 ou 30 em que paráramos, eram os vestidos das damas asturienses, os seus penteados e batons. Um espantoso cenário em que, nos intervalos, se fumava de boquilha, e muito palrava, ao longo de circulares corredores bordeaux.

Nada quis me escapasse nesta incursão pelo Principado das Astúrias, onde principescamente fomos inundados em cidra e iguarias regionais, apaparicados com a melhor disposição e levados em visitas guiadas, uma embarcação ao largo do Cantábrico com o azul das águas e da cidade, da bandeira deles, a crescer-me no espírito, a anunciar-se a cor da vida e dos ideais, um  alvo grito cá dentro de liberdade e independência.

Há dez anos. Quase desaparecia então um advogado, por troca com um homem com tempo ainda para conhecer e interpretar o mundo. Para escrever, mas não já nos jornais, o seu ganha-pão da época estudantil. Não, o aperfeiçoamento da palavra riscada no papel seria o seu caminho, e a pequena cidade minhota das suas origens o seu descanso.

Já lá me esperava a, de todas, mais encantadora Mulher. Com ela viajei e tomei nota do seu apreço por me ler. Desenhava maravilhosamente e fazia-me surpresas... Levou-a a doença, conquanto ainda esteja comigo, sempre comigo, em gratidão e amor. Transmitindo força, determinação, perseverança. Permanentemente ao meu lado, a cada novo livro...

Porque a vida é isto - é ser livre e é viver tentando descobrir porquê e o que vai no eterno azul do branco Além. E conseguir expô-lo, na mais feliz composição de fórmulas literárias.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Os Desafios da Abelha|O grande detective

João-Afonso Machado, 15.12.21

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Era, definitivamente, o sonho único de Duncan - a investigação criminal, a vida de detective. E assim se intitulava, com escritório em Aberdeen e o kilt que a Escócia já reservava para os grandes festejos apenas, e Duncan para as suas idas diárias ao pub, onde lia os jornais e vaticinava sobre os espantosos casos locais e mundiais (- This portuguese Rendeiro, I'm shure he is in South Africa! -) enquanto emborcava espevitantes pints.

Ontem mesmo, indo já o terceiro aviado, surgiu Ian esbaforido, pálido, leitosamente aterrorizado, a cabeleira ruiva toda em pé, as sardas parecendo latejar. - What happened my friend? - Pois dera com a Anne prostrada na sala, inanimada, - probably dead - ia já a caminho da esquadra.

Num instante Duncan ordenou-lhe ficasse - Stop! Wait a minute! - e com ele ficasse também a sua grande oportunidade, o seu passaporte para a Scotland Yard. Que lhe contasse Ian, rapidamente, o que vira, o que sucedera.

Sucedera uma visita a casa da Anne, nos arredores - To whish a Merry Christmas, with a tea box and some cookies for her... - E ei-la inconsciente - in the floor - o pratinho com os biscoitos do lanche esquecido a um canto, livros abertos, papelada espalhada por toda a parte, mesmo espetada na parede...

Mas quem faria mal a Anne - little poor Anne! - E até o seu gato - run away - reforçava Ian, logo apontando suspeições ao intratável Sir Archibald, o dono do tenebroso - neighboring castle.

- Everyone know he has a special appreciation for Anne...

E Anne fugia dele a sete pés, reconheceu Duncan. Mas era tudo demasiado óbvio e Ian relatava desarrumo, não evidências de violência. O gato desaparecido... Ora! O bichano adorava o jardim da dona, sempre colorido de tantas flores e mais borboletas, Anne vivia para ele e para as noites estreladas. A sua biblioteca dedicada à astronomia era imensa e a sua crença em fenómenos druídicos, rituais iniciáticos, também.

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Pois... e... sim, - the last night was the great's comet night! - Tudo se esclarecia. Anne nem se deitara, na ânsia da sua visão: simplesmente adormecera - so tired! - no chão, depois de devorar biscoitos e literatura à janela, de olhos postos no firmamento.

- Ian, please, come back to Anne´s house and tell her I'm waiting to talk about the comet. Go, go now, if you don´t mind! - disse, autoritário e seguro. E, como se aspirasse uma profunda cachimbada, mirou Douglas, o barman, e sorriu - resolvera o seu primeiro caso.

 

(Desafio da Ana de Deus https://rainyday.blogs.sapo.pt/os-desafios-da-abelha-cria-um-texto-475060)

 

 

Desafio Conto de Natal de 2021|Sonhos (e rabanadas)

João-Afonso Machado, 28.11.21

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Foi nesse amanhã que será sempre amanhã. Repleto de neve, não apenas no cume do Kilimanjaro, mas também nas nossas terras, nas ruas que ainda se lembravam dela. Um amanhã que até se podia chamar Liberdade, tanto o seu desprendimento e arejo e a dilecta neve, acumulada sobre as obsoletas viaturas do hoje parado no tempo.

Em suma, regressara o frio, a brancura que se pisava na altura própria de ficar mais por casa e em família: no Natal. E o mundo deslizava sobre plainas, as lareiras acendiam e as chaminés tinham ressuscitado. Ia-se às compras e circulava-se em trenós magníficos, dotados de poderosos motores a quatro patas - as renas, sempre nataliciamente galhudas e ágeis.

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Por isso mesmo há muito se desconheciam os problemas de trânsito. Voando como as gazelas, mas robustas, as renas elevavam-se com os seus reboques sobre os trenós estacionados em segunda fila, no frenesim de qualquer entrega nas chaminés domiciliárias.

E o Natal construia-se em tal movimentação. Os que não optassem por um contacto directo com a magia do Menino Jesus, comunicavam pelas chaminés das suas casas, que as portas não as deixava a neve abrir. Fosse para receber uma pizza, fosse para os ansiados presentes no sapatinho.

De resto, era um amanhã que então esquecia o fitness. Criava barriga, lambuzava-se em bacalhau, rabanadas e bolo-rei; repetia e voltava a repetir o cálice de Porto - da marca Velhotes (nostálgico Natal!) de longas barbas alvíssimas. O pessoal das entregas e os limpa-chaminés eram mais facilmente identificáveis do que os polícias, todos fardados de vermelho, com felpudos carapuços a protegê-los do frio e o o seu tradicional pregão "ho-ho-ho".

Porque cá fora, a temperatura queimava de modo tal que era impossível alguém aquietar-se. (As renas pernoitavam nas garagens, mastigando paulatinamente o seu feno.) Daí a neve derreter e não se acumular nas ruas e nos passeios, somente escondendo, levando para o passado, sobre o seu manto, os terríveis veículos poluentes. Amanhã - quando as estrelas reconquistaram o firmamento e os cânticos, outra vez audíveis, o coração de cada um.

 

(No desafio da Ana de Deus - https://rainyday.blogs.sapo.pt/)

Desafio Arte e inspiração| Da alma para as mãos

João-Afonso Machado, 10.11.21

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Foi, enfim, decifrado o mistério. Uma adivinha, se quiserem, deixada à posteridade. Porque não? - se aos nossos olhos assiste todo o direito de verem apenas o que a alma lhes relata! E desenhar a bordo fornece todos os motivos da imprecisão, conquanto a Medicina garanta é um bom remédio para o enjoo...

Estaríamos em final de manhã de um sol mal definido, indeciso, gaguejando há horas com a actividade portuária. Incrivelmente quase no continente africano; inacreditavelmente rodeado de gruas e contentores, um fartote de aço que ridicularizava Hércules e parecia reivindicar o Atlântico para si, para volumosas quantidades de mundo.

O ferry-boat repleto de gente desinteressante, rotineiramente palradora. Perturbou-o a súbita visão do estuário do Sado, como se fosse o próprio, ali mesmo. E logo se quis envolto em conflitos cósmicos e com lugar no sem fim. O viajante, Joan Miró de sua graça, rodeado de ninharias, disse-lhe a sua alma ordenasse aos olhos topassem uma loira belíssima - especímen raro naquelas paragens - e, não sem alguma maldade, centrasse em tal prodígio a cobiça dos andaluzes e dos magrebinos.

Joan Miró, os dentes quase traçando a língua, arranjou-se conforme pode, mesmo porque a ondulação crescera, o vento levava agora consigo todo o ouro capilar da sua modelo - aliás, os tentáculos das gruas oscilando sobre a paciente espera do cargueiro.

Água, ferro e pedra, o firmamento e mercadoria, tudo se lhe amarelou e esverdeou nas mãos incapazes de disciplinarem os pinceis. Em seu torno, olhares às dezenas, curiosos, decerto críticos, tão absurda lhes surgiu a situação.

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E Joan Miró, agora ciente de que a sua única companheira de travessia era a esplêndida cabeleira de um corpo que nem o chamava, limitou-se a esboçar a realidade -  a sua realidade, Ceuta à vista, onde as órbitas de África e da Europa são quase tangenciais. Já saciado, algo arfante, transmitiu à sua alma - Eis aqui O cabelo perseguido por dois planetas que ordenaste os meus olhos detectassem na monotonia destes dias sempre iguais. Mas duvido os andaluzes e os magrebinos tenham dado conta do drama...

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

Desafio Arte e inspiração|Ma belle époque

João-Afonso Machado, 03.11.21

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Sou malquistamente do Porto, confesso. Dos quatro costados portuense, mas nunca cidadão da capital portuguesa de la bourgeoisie. E sou muito rico, podre de rico, não porque haja mercanciado (uma sardinha que fosse...), simplesmente porque herdei. Assim a tripeira Invicta me enfada e me obriga a viajar, um acto, para mim, tão elementar quanto o da respiração. Além do mais, adquiri gostos caros, luxuosos, e foi em Paris que topei o meu Talbot - confesso já não sei exactamente quando; lembro, somente, regressei com ele e com Madame Bovary, que eu conhecera, entretanto, no Cafe de la Paix, aux Boulevard des Capucines,  em tarde quase outonal, com muitos predicados literários.

(Porque, é lógico, nas artes das Letras, e outras, é Paris, jamais o Porto...)

Ela, encantadora. Très insinuant. La Guerre etait fini, alors c'etait la diversion... Tocavam-se ritmos ainda desconhecidos nesta nossa Republicazinha, era o charlston, et Madame (ou Mademoiselle...) Bovary, de cabelo à garçonne, saia subida, saltaricando, rodopiando os colares ao pescoço, de uma energia que não se compadecia com tardes ao piano... Ajeitei a fatiota, compús o laço do colarinho e o chapéu que se colava à brilhantina, e investi que nem Nun'Álvres, esse desperdiçador. Eu não era peco em tais torneios... Fui-me chegando, - Ça va bien?, c'est mon plaisir... - Madame Bovary (assim se apresentou, entrementes), inspirou a boquilha, e, mais dolente, dirigiu o seu requebro para mim...

Safei-me como soube. Aliás, sobremaneira menti. Dei-me como refugiado au Portugal, ressonei o estrondo dos canhões, os horrores das trincheiras nas Flandres e... trouxe-a comigo.

Julgo, na realidade era casada. Mas sobre isso nunca falámos.

O Porto burguês recebeu-nos mal. As portas conhecidas fecharam-se-nos. E a humidade era imensa. Madame resguardou-se, envergou o vison et son chapeau. Eu, mais aclimatado, somente lhe oferecia o braço. Et cigarrettes, très dificilles cigarrettes, celles-la que ma chérie aimait, seulement achetés en Lisbonne... Vivemos na nossa "Toca", a Nevogilde, um bom par de anos. Um quotidiano modernista que, de surpresa, o meu amigo Almada Negreiros, parceiro de infindos serões de Arte, apanhou em flagrante.

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Ainda hei de lhe perguntar com autorização de quem. E quem lhe permitiu ilustrar a minha vida de então. É que, sinceramente, não me recordo!

E num atavio tripeiro, tomando conta desta publicidade, expandi-me verbalmente - coza-se, carago!!!

 

Publicado no Desafio Arte e inspiração do blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/).

 

 

Desafio Arte e inspiração|A torre mágica

João-Afonso Machado, 27.10.21

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O mundo anda complicado, meio torto, sem a noção do equilíbrio. Pode dar para deixar cair aos retalhos uma boa casa capaz de albergar umas poucas de famílias necessitadas; ou pode pegar nessas, e em muitas mais famílias, e encaixotá-las num tipo de construções Lego, umas coladas às outras, quase sem respiro.

Por isso a arte de recurso, os desenhos a colorirem as portas e janelas entaipadas, ou no exterior das muitas camadas de Lego que impelem ao céu essas torres verticalíssimas.

Assim as pessoas se movimentam na cidade, já muito alheadas destas contradições. Mais as chamam os cantares do mar, mais as atraem a falésia, o fundo imenso no bordo no qual alguém plantou o derradeiro edifício.

É este sobejamente alto, esguio, de estranhos contornos humanos. Está ali há décadas e foram aos milhares os que vaticinaram a catástrofe, o seu mergulho iminente nas rochas e na braveza das ondas que se chocavam e ecoavam. Mas não, aquele volume descomunal, a dobrar-se sobre si, parece preso por raízes ao centro da terra. E os mais atentos, que são os mais noctívagos, juram essa torre tem vida própria, a de um casal eterno, sempre enamorado, ela de pés firmados no precipício, ele abraçando-a com tentáculos de polvo escapulindo-se pelas aberturas da construção - num beijo infinito (frisam), resistente aos ventos, às chuvas, a todos os caprichos da erosão.

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Tal beijo simbolizaria o compromisso de duas vidas, por assaz dificeis fossem os seus trilhos. Nunca a plasticina quebraria uma extensão, ténue que fosse, para desmembrar um amor verdadeiro e sem medo de se mostrar. Um amor tão rijo quão versátil que um dia (ou uma noite...) terá apanhado em pleno Gustave Klimt, e o levou a desenhar O beijo a cimentá-lo. Hei-de ir em romagem a essa magia, se não me falha a memória assim entusiasticamente apresentada pela Olga Cardoso Pinto.

Não será mais um desenho colorido: serão antes os momentos de dor, formas nunca rígidas, do melhor humanamente alcançável, a perenitude, um cântico que só o luar repercute.

 

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Desafio Arte e inspiração|O Sobreiro Grande

João-Afonso Machado, 20.10.21

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Nunca tive outro ofício. Nasci entre sobreiros e entre sobreiros vivi e casei, que a família da Mulher também andou sempre nestas lides. E ambas - a minha e a dela - trabalhando para o mesmo patrão, o mais rico de muitas terras em redor. Porque isto, todos os anos, são carroças e carroças a saír daqui, carregadinhas de pranchas de cortiça, consta que a caminho do norte, onde estão as fábricas das rolhas.

O patrão é muito rico, mas conhece bem o que tem e sabe governar as suas propriedades. Nós lá as vamos vigiando, com vagar para as nossas hortas e uns biscates, até Agosto, quando é de pegar no machado e começar a descortiçar. Diz o patrão, não há mais habilidosas mãos do que as minhas, conforme as herdei dos meus avós, "machados" de alcunha posta e apelido firmado por esse jeito vindo tão de trás.

Pois em toda esta extensão um sobreiro restava que se plantou no coração do patrão. Diziam-no com mais de 300 anos, e consta ali se enforcassem, antigamente, os criminosos e se deixassem as suas cabeças espetadas nos galhos. Era o pai do sobral inteiro! Dele já não se extraía cortiça, apenas a sombra a refrescar o mundo todo! O Sobreiro Grande dera até o nome a um tasquito na berma da estrada que passava perto. E, certo era (o patrão nem queria tocássemos no assunto), os seus ossos - o nervo dessa árvore com o berço esquecido -  andavam já a fraquejar.

Mas no final do inverno, uma noite de tempestade das bravas, o Sobreiro Grosso rachou dois metros acima do solo e tombou para sempre.

Ia dando uma coisa ruim ao patrão. Retirou para a cidade, deixando ordens para encastoar em pedra e cal o pé que ficara hirto. Veio o povo todo testemunhar o desastre, o jornal falou dele e dos "medonhos matos" da herdade. Que procissão! Parecia mesmo os filhos, netos e bisnetos da velha árvore a aproximarem-se para a velar. Duas sobreirinhas novas, descortiçadas por mim a primeira vez ("depiladas", diz o Manel Barbeiro, a rir), choravam ante a falta de remédio para um cadáver a perder cores. (Que aquilo só era lenha para as lareiras.) E a mãe delas, muito entrada nos anos, coxa larga e meio empenada pela vida, apanhou-a o José Malhoa também sucumbida, - as mangas arregaçadas, já familiarizada com a morte - e assim a retratou.

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Não sei porquê, zanguei-me e ainda lhe atirei - Ó compadre Malhoa, vossemecê não tem mais que fazer? Deixe lá as maleitas, vossemecê que se gaba de ir tanto à cidade, ocupe-se com uns fados e o mar, dê trato a mulheres bonitas, não seja o pacóvio que anda aqui em tais artes de tristeza! Diz-me assim o compadre - Compadre Machado, não venha cá com lérias que isto não é obra minha mas do Senhor Rei D. Carlos!

E eu calei muito caladinho. Afinal de contas, Sua Magestade era o dono desse sobral sem fim.

 

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