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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio 52 semanas - 26|O futuro

João-Afonso Machado, 27.06.22

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Se repararem, estamos precisamente a meio deste longo "desafio" (que vale, enfim, a nossa vida), ou seja, a meio do corrente ano da Graça do Senhor de 2022. E muitos, na sua existência, não chegaram ainda a metade do seu similar percurso, enquanto outros já saltaram a fasquia e correm adiante rumo à grande meta de todas as interrogações. Como é o meu caso.

Que futuro?, que objectivos?

Há trinta anos eu temia os meus sessenta e dois. Hoje, contabilizados os tais sessenta e dois anos, vivo tranquilamente longe de aritméticas. A gente compreende e aceita, a ciência tudo poderá transformar menos a sincronia do Tempo. Se é certo os planos encurtarem no prazo agora, mais verdade constatamos na consolidação dos nossos ideais. Sobrevêm salutares dúvidas, a dar-lhes condimento e convicção - «É um império aquela luz que se apaga ou é um vagalume?» (Jorge Luís Borges).

E o grande objectivo consistirá, então ("fernandopessoamente"), em não nos possuirmos de objectivo algum. Ficando-nos pela inofensiva empresa de decifrarmos os lugares do mundo e das suas gentes. Até ao limite que Deus e o Destino nos proporcionarem.

Seja tudo depois muito rápido e indolor...

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 25|Pacotinhos de inspiração

João-Afonso Machado, 20.06.22

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Digamos simplesmente a única fonte minha de inspiração sou eu próprio. Isto no monte às perdizes, como toda a gente entendeu: nesses amanheceres às vezes precedidos de jantares excessivos e noites mal dormidas, levantares contrariados, disparos vesgos e sermões aos cães; ou nos empolgantes nasceres do sol, com pernas rijas e andarilhas, as mãos a correrem a arma, o tiro, o cobro pelo canídeo auxiliar... - instantes de plenitude, diante nós o mais vasto e agradável horizonte e a máquina fotográfica (espingarda ao ombro), quando o cinto estiver já bonito, bem composto. Caçar é um estado de espírito, - sempre sentenciei aos meus amigos e parceiros que mediam as minhas oscilações de resultados em tais lides.

E, vendo bem, todos os nossos actos consubstanciam também o estado em que se nos revolve o espírito. Como, por exemplo, aquele que me impele da cama às seis matinais e jorrar páginas de escrita no silêncio circundante, até voltar a adormecer em contramão nos horários corriqueiros.

Por isso, em geral, eu sou o que sinto, e uma bonita senhora essa mesma impressão que me causou. Quem diz a bonita senhora, diz esta ou aquela incursão por aí, a forma peculiar como captei as minhas imagens porventura em dia atento e inspirado - em dia sim.

Só eu interfiro comigo, para o bem ou para o mal. O meu trato com as palavras faz-se decorrentemente. A lembrar-me Heine - «Le coeur du poéte est le point central du monde» - dando-se o caso de não ser pretensiosa a insinuação de nesta casa se passearem alguns laivos de poesia.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 24|O Pai

João-Afonso Machado, 13.06.22

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O primeiro de uma prole de seis filhos, tal me valeu alguma atenção inicial a esvanecer-se à medida que a ninhada aumentava... Não gostei (detestei) o fim desse primado. E o meu mundo  circulando no espaço das Letras, perdia para o dos meus irmãos,  todos das Agronomias, tal qual o Pai. Assim o desacerto entre nós, pese embora o gosto mútuo (e só nosso) pela caça.

De uma saúde férrea, gabado por rebentar com os guias durienses mesmo que os seus pés já chorassem sangue, o Pai - atirador exímio - deixou as perdizes muito cedo. Sem jamais explicar porquê, conquanto eu conheça o motivo, o seu sacrifício. Enfim, caçámos juntos uma vez apenas...

Já as nossas discussões ocorriam com frequência, versando sobretudo questões de gestão familiar. Porque no restante... o meu curriculo venatório, contas feitas, sequer se aproximava do do Pai. Que, na sua juventude, nem necessitava de cães, quando muito valiam-lhe os dos condutores das caçadas. Entretanto, vindo nós para a actualidade, sem perdigueiro a coisa mancava, já a quantidade não era a dos bons tempos.

(- Então quantas não matou? - perguntava no gozo o Pai, na minha volta de cada fim de semana...)

Tornei-me criador de perdigueiros nacionais, aprendi a treiná-los, tive-os de primeira água. Com o Pai sempre a deitar abaixo, a menosprezá-los, descobrindo-lhes defeitos.

Um dia, o Pai, já muito velhinho e doente, deixou-nos, foi descansar desta vida. Ao lado da Mãe, então me compenetrei do embuçado gosto do Pai pelos meus cães e pelas minhas andanças no Alentejo, entre perdizes, lebres e javalis. Ou pelas poucas galinholas saídas a tiro e tombadas. E pela minha escrita, "arte" vinda de trás que o Pai não praticara. Não, o Pai orgulhava-se deste seu filho.

Nada foi tardio, pois. Tudo aconteceu no momento oportuno. Mas, para não esquecer os imediatismos, aludo a duas ou três vezes em que o Pai chorou no meu ombro... Era, e é, a minha referência, o Pai. Como ele, o Pai, bem sabe e eternamente se lembrará.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 23|Académico

João-Afonso Machado, 06.06.22

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Em 1978 fui admitido na Universidade Católica de Lisboa que então se gabava do seu grau de exigência. E com razão, havia que marrar com força, para mim restava ainda a empresa de reaprender a estudar. Mas safei-me muito razoavelmente.

Somente, aquele mundo de engravatados precoces colidia com as minhas Levis gastas e remendadas, e eu não tinha qualquer anseio a figura pública na política ou fosse onde fosse. Tudo ali era uma linguagem que me causava repulsa. Quantas frequências preparei em demoradas viagens de comboio entre Lisboa e o Norte! Porque deixara de ir às aulas, lambendo a sebenta, afogando-a na cabeça e emergindo com notas muito regulares... Ao fim de dois anos pedi aos Pais - deixem-me transferir para o Porto!

Licença obtida. E no Porto logo dei conta, na maior felicidade, - estudava menos e tirava melhores notas. Foi esse o início da minha vida académica, uma "Queima das Fitas" que principiava em Fevereiro e só acalmava em Junho.

As serenatas nocturnas eram constantes, nos escolhidos lares de meninas ferreamente controladas por freirinhas. Os nossos fados eram agradecidos com cestos de víveres (comes e bebes) descidos à corda até ao imenso grupo de estudantes de todas as Faculdades. E, escasseando o reportório, mas não esse abastecimento, a mim competia esgalhar umas quadras que os cantantes adaptavam ao musical nascido em Coimbra.

Aquelas janelas fervilhavam de pequenas! Ainda hoje guardo mensagens escritas para o «loirinho»... E a palração prosseguia, quantas vezes, combinadamente, à luz do dia pelo tempo que houvesse de ser... Volta e meia, os pirilampos do carro da polícia cintilavam de azul no início da rua. Fora alguma freirinha mal-humorada a telefonar para a esquadra e impunha-se então dar à perna, na próxima concluiriamos o cantorio e as declamações...

Vivi em casa de uma tia-avô, uma senhora inigualável, infelizmente com a mania de não gostar de me ver chegar para dormir à hora a que ela se levantava para o dia. Depois partilhei um quarto barato com um colega, o mais compreensivo, jamais lhe ouvi um lamento pelo nosso quotidiano desencontro de horas.

Enfim, no derradeiro ano decidi levar a sério o curso. Atirei-me aos books, consegui notas que subiram a média final. Fiquei "Dr." em 8 de Outubro de 1984, mas senti-me desasado, quase deprimido. Bebi uns copos valentes com a minha tropa e dormi essa noite em casa de um grande amigo com quem fiz depois o estágio. Seguiu-se o primeiro escritório, num prédio a ameaçar ruína... E num repente chegámos a hoje... Da sobrevivência até à escrita, isso mesmo o que mais gosto.  

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas -22|A questão das batas

João-Afonso Machado, 30.05.22

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Aqui na terra foi, finalmente, a inauguração de um colégio para a Infantil e a Primária. O Ninho dos Pequeninos de sua (escassa) graça. Com a minha saudosa Mãe, uma entendida na matéria, logo convidada para conselheira. O facto é que eu e a longa fieira dos meus irmãos, abaixo de mim, ali iniciamos a nossa vida escolar, e dos Directores nos tornámos grandes amigos até que a morte os levou também.

Houve somente um tremendo problema inicial a resolver: o Ninho escolhera para os meninos uma bata azul-clara com um lacinho vermelho no pescoço e, no bolso do peito e nas algibeiras, uns bonecos quaisquer bordados ao gosto do freguês - um cãozinho, um coelhinho...; para as meninas, a mesma dose em cor-de-rosa e umas fitinhas todas pipocas como gargantilhas...

Ora isto nada ia connosco. Após longas negociações a Mãe conseguiu-nos um estatuto próprio sem laços nem fitinhas nem os tão queridos bordados, substituídos pelas iniciais dos nossos nomes. E foram então (para mim) quatro proveitosos anos de estudo - que eu não me saía mal nessas lides - e de amizades ainda agora em dia.

Sucedeu o tempo da Telescola e do Liceu. A trágica mudança do bom aluno para o magano dos bilhares e das bombas de sódio nos lavatórios dos balneários. Em plena Revolução, a comandita optara pela contra-revolução, pela anarquia... E os rigores de um colégio, na visão dos meus Pais, seria (foi) para um pouco mais de tino e a salvaguarda da minha vida de estudante. E, realmente, aconteceu depois o passo seguinte da Faculdade.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas -21|O conselho

João-Afonso Machado, 23.05.22

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Era uma boa amiga, desinteressadamente amiga, um nada mais nova, cheia de vida e pessoa sensivel, observadora. Uma bela companhia que, às vezes, se espraiava em excesso na fala - comigo, a soturnidade em pessoa. Por isso um dia a aconselhei:

- Nunca aconselhes!

E privei-me de explicar porquê, ela que descobrisse, se quisesse, o desagradável doutoral e a riqueza da mais calada sabedoria. Que se revoltasse contra a evangelização intromissa, zelasse pelo seu mundo e respeitasse o dos outros. Sempre em conversa consigo mesma, eventualmente escrevendo, escrevendo, assim discorrendo em silêncio de voz altíssima apenas ouvida por quem lhe apetecer ler. Ou então, a persistir no conselhos, fosse inscrever-se num partido político e vestisse definitivamente a roupagem das araras.

Deste jeito penso, no meu mundo "onde há menos gente". E se calhar de um modo não sovina, porque uma opinião a gente sempre dá, a troco de nada, prazenteiramente, - quando alguém a pede, é claro.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas -20|A minha imagem

João-Afonso Machado, 16.05.22

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Confesso, sei utilizar o meu telemóvel para quase nada. Não evolui, nem quis, continuei agarrado à minha máquina fotográfica, se é que de fotografias falamos neste desafio. A 11ª imagem do meu telemóvel... se existe alguém, não eu, se existe, outrém a deixou lá, não consigo descobrir quem. E assim para dar à caneta fui buscar a 11ª fotografia da minha última série, ainda no cartão da Canon. 

A nada responderei senão na presença do meu advogado, eu próprio que me autorizo invocar gerações mais velhas que conheci - a dos meus Avós e dos meus Pais, já desaparecidas, - e as mais novas, as dos meus filhos e sobrinhos e sobrinhos-netos. Nessa tarde da outra semana, agora que as rosas dão cor ao jardim com toda a pujança.

E mais não presenciei, embora possa acrescentar a convicção num granito tão longo quanto o sangue ontem, hoje e amanhã. Neste recanto de vida de onde se parte à descoberta do mundo, e de nós próprios, e ao qual se regressa como crianças em busca do colo materno.

«E mais não disse», dactilografou o escrivão a fechar o auto de declarações.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas -19|Carta ao Nando Virtual

João-Afonso Machado, 09.05.22

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Meu velho Amigo!

Escrevo a saber que é feito de ti, há tantos meses sem dares notícias, sem uma palavra, um comentário. Passei pelo teu blogue e confirmei a tua repetida ausência neste nosso café computadorizado - ausência, como digo longa, a avaliar pela triste desacomulação de correio na tua caixa, eco do inexistir, da fuga, do esquecimento, da volatização de uma vida afinal a modos que apenas radiofónica.

E é pena. Bem apreciava as tuas crónicas. Tinham oportunidade, humor e faziam crer que tu, Nando Virtual, eras mesmo o Nando Virtual alentejano ou ribatejano, benfiquista ou sportinguista (já me baralho), antigo forcado amador, o genuíno Nando Virtual e não a medida tomada por tu mesmo. Não serias uma Fernandinha qualquer, feita espertalhona, a espraiar a sua capacidade criativa, Ofélia perfumada no improviso de um personagem. Ou a rir-se à custa da rapaziada.

De resto, caro e ignoto Amigo, também as senhoras apreciavam, e muito, a tua prosa, as tuas façanhas, a avaliar pelos ais! que lançavam na nossa mesa teclada em que às vezes talvez exagerasses no consumo do pirulito, quando repetias até à exaustão - Merda!, sou lúcido!

Por isso, prezado Nando Virtual, faço votos reapareças breve e te manifestes do Alentejo ou do Ribatejo, ou mesmo do outro lado aqui da minha rua.  

Dá-nos esse gosto e recebe um enorme e cego e tacteante abraço deste teu admirador

J-AM (que, juro pela minha saúde, sou eu mesmo sem heterónimos nem pseudónimos).

 

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Desafio 52 semanas -18|Um diário a não ler

João-Afonso Machado, 02.05.22

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Já não recordo a que horas adormeci, intervalando a leitura com lascas televisivas. Agora a manhã vai adiantada, eu ainda na cama a esfregar gelo no joelho, encarando de mau humor as tarefas gigantescas que tenho pela frente: tomar banho, o pequeno-almoço... Entretanto, toca a campainha da rua, é a minha cuidadora - Dona Mécia, a parceira de um dia inteiro enfiado na toca.

(Recordo aviões e navios, planos frustrados de baleias açoreanas, o queijo das ilhas e a minha máquina fotográfica sob o véu inapetecido das teias de aranha...)

Assim decorrerão as horas todas. As canadianas emprestadas substituiram com vantagem a bengala e sobra tempo para uns trabalhos escritos encomendados e, por vezes, maçadores. O sol é uma bola lá fora e o meu intimo encolhe mais negro do que a mais feia invernia.

Evito pensar no que se seguirá. O telefone toca com frequência, os amigos apercebem-se do tremendo significado da reclusão. Dona Mécia, indo a tarde para a noite, despede-se e sai manifestamente contrariada. Uma bucha ligeira e o repouso estendido na cama, a desbobinar memórias. Em frente ao meu refúgio há uma horta e eu agradeço aos melros a serenata que, do alto do seu diospireiro, me dedicam...

 

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Desafio 52 semanas -17|Valência

João-Afonso Machado, 25.04.22

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Vão lá precisamente cinco anos a doença vencia-te por fim. Foi muito duro, duríssimo, não obstante o alívio de te saber não sofrendo já. E porque tudo o mais é coisa nossa, sempre poderei repisar apenas exterioridades, passeios. Valência, em 2014, na Ryanair com o meu cartão de cidadão caducado e a aquisição dos bilhetes, o check in, tudo aldrabado na sua data. Faltava só o embarque e o teu pânico era absoluto. - Deixa estar, filha, a gente não falha a viagem. Sossega!

E não falhámos. A menina do aeroporto não deu conta, não leu o CC. Estávamos (entalados) dentro do avião e já quase em Valência, sem mais peias.

Cidade magnífica. Cheia de Passado, repleta de criatividade e vida. Foi um dia para lá e para cá no leito seco do rio Turia. Doze quilómetros a pé naquela animação de sábado primaveril. E o Bioparque, o Oceanário, gerações de pontes das vetustas às mais vanguardistas, os sucessivos espaços temáticos...

Admiraste principalmente o Palau de les Arts, a sua impensável arquitectura, tão inéditas formas, náutica elevação em pino, em cambalhota, onde o extinto rio Turia só a podia deixar encalhada. Pois, era uma predilecção que bem te conhecia, o teu trajecto para a pintura que primorosamente executavas.

E eu fiquei à vontade brincando aos fotógrafos. Sem uma palavra, diziamos tudo um ao outro.

No regresso a Portugal, a mesma ansiedade com a data do meu CC. Realmente, desta feita, apanharam-me... Mas para que me queriam lá os valencianos? Fui devolvido à Pátria, que embarcasse e tratasse da minha vida.

Corremos, antes e depois, outros bocados do mundo. Tenho-os todos no meu coração, mesmo ao lado da enorme presença que és (e sempre serás) tu.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)