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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio lápis de cor| O rododendro

João-Afonso Machado, 10.03.21

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Desta feita, descobri-me a pensar na Pantera Cor de Rosa, do Friz Freleng, ou em sonhos que já rareiam, os sonhos da meninice... Talvez em alguma sobrinha minha, ainda bebé de berço... Tudo coisas muito do interior (mais não seja, do velho aparelho televisivo), e a vida faz-se de olhos cá fora, como a escrita só excepcionalmente há de ser confessional.

(O tema musical da Pink Panther era hipnotizante...)

Estavam as coisas neste pé, eu em agradável conversa com uma amiga, por acaso concentrados no azul celeste fim-de-semanal, com este rosáceo problema em suspensão, - estava tudo assim embrulhado quando, atentei finalmente, diante de mim, o rododendro!

O rododendro é uma árvore prestabilíssima. Ainda os jardins se pintam de nada, ainda as cameleiras, sonolentas, semi-abrem os olhos e a grande nogueira é um tronco com a barba por desfazer, ainda o inverno vai a meio e já o rododendro floresce de rosa. Tentando cantar ao desafio com o sempre reservado granito, a puxar pela vizinhança, que a hibernação caminha para o fim.

O óbvio, quantas vezes!, passa-nos estupidamente ao lado. O redodendro nunca saiu dali, ao que ele assistiu não assistimos nós, mas nele há ecos de dedicação e meiguice, de chefia e de maternidade. Há ciclos sobre ciclos, uma colecção inteira de décadas vindas de tão longe! Há muitas histórias de dor e saudade. Mas na cinzenta, musguenta, humidade dos invernos, o redodendro é sempre presente. A querer chamar o sol, quaisquer raiozitos de alegria que nos aqueçam a alma.

 

(Respondendo ao desafio da Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/tag/desafio+caixa+de+l%C3%A1pis+de+cor)

 

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 04.03.21

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Porque eu posso - porque eu ainda posso - escolhi o mundo para vadiar um pouco por aí. Um mundo que começa à porta de minha casa e acabará (quem sabe?) no último dos meus dias. Entretanto, como se trouxesse uma ratoeira escondida, vou-o encaixotando na minha máquina fotográfica, por vezes em francês ou inglês muito frouxos, que eu nasci cego de línguas estrangeiras.

Mas lá tenho podido ir. Mochila às costas, uma ou outra noite dormida nos bancos de um aeroporto, em geral deslocando-me - havendo companhia - no conforto do automóvel. Porquê? Creio porque a vida se inventou para ser compreendida: trazida de fora para dentro, meditada e escrita. Talvez eu ainda possa um dia descobrir as palavras ideais para a sentir e descrever e explicar.

 

(Um desafio de Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/porque-eu-posso-3-texto-do-471689 - Obrigado, Fátima, pela sua simpatia e amizade!)

 

 

Desafios lápis de cor|o azul pool

João-Afonso Machado, 03.03.21

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O feitio rezingão do Minho é por demais evidente ao longo do ano. Sobretudo para quem olha o céu: carregado, a faiscar dos olhos e fazendo ecoar as suas crises de fúria; silvando nas árvores, chorando convulsivamente no meio de tantos brados e cores do seu bem-estar. Mas tem dias em que acorda entusiasmado e, todo ele, abóboda celeste, é azul, azul e azul, como Portugal nasceu sobre a beatitude do branco imaculado.

Então o Minho espevita, acalora-se e desafia as longitudes magrebianas. Estamos no Verão, e os minhotos sentem-se ressequir.

Sempre foi isto. Os mais jovens buscavam a sua salvação nos rios e ribeiros, nas poças e nos lagos e tanques. Depois, em menos de um fósforo, as boas cores celestiais viram-se espelhadas no solo. Era a nova vaga das piscinas.

Porque não há cereal que valha uma farta estadia de turistas, carregados de libras, coroas, ou mesmo vergados ao peso dos muitos euros que cá podem descarregar.

Assim nasceu o turismo rural. Nunca prescindindo das piscinas de fundo bem azul, límpido como o céu que os turistas buscam neste paraíso, a quererem, também, um pouco para si.

Mais a mais, se alguma cobra distraída - uma dessas enormes rateiras - nas suas deambulações nocturnas escorrega e cai lá dentro, não tem por onde se esconder. Tudo estará em colocar a botija de oxigénio, empunhar o arpão e mergulhar, como se de uma reles moreia se tratasse...

E com os cães? Assunto por estudar. A Ciência não diz ainda porque há-os que só aceitam o verde vegetal, nas águas paradas das poças (voltamos nós ao lápis que se segue...), e os há, também, exímios no mergulho e natação nas piscinas. Falo de perdigueiros e da minha Dona Mécia, por exemplo, sempre a par comigo, bracejando, bracejando, aí de mim não fosse mais extenso de corpo! A subir depois as escadinhas, sem auxílio, gozando burguesmente o azul-claro da piscina onde entrou de cabeça, e vindo para a minha toalha - blue forever - a secar-se, talvez na indecência de uma nudez que aconselharia o maillot... azul-menina.

 

(Um desafio da Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/olho-azul-claro-465161)

 

 

Desafio lápis de cor|Os citrinos

João-Afonso Machado, 24.02.21

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Em tempos que (há muito) já lá vão, as nossas caçadas às perdizes eram em Carrazeda de Ansiães, Trás-os-Montes, nos socalcos sobre o rio Douro. Jornadas dificílimas, iniciadas no alvor do dia e concluindo em almoços tardios em que toda a magresa ganha era compensada por uma feijoada de arromba e uns quilos mais... Anos e anos assim, um percurso de fome já sobejamente conhecido e, a páginas tantas, o lugar almejado de uma laranjeira quase estéril, às vezes oferecendo uma, duas, laranjas. Em bulha repartidas pelo grupo... A seu lado, uma poça de água onde cães e caçadores - estes de mãos em concha - sorviam ávidamente a pouca água para tantos sedentos.

(Lembro, uma vez, quase ter bebido uma rã; mas isso ficará para o episódio dos lápis verde-claros...)

Era assim a vida nesses lugares quentes de fruta doce.

Já no meu Minho, húmido, frio, sempre verde, as modas eram outras. Árvores citrinas não faltavam. Infelizmente, acrescento, porque a laranja, na sua época, era sobremesa das perigosas - a laranja, quem não a saiba lidar, expele um líquido venenosíssimo que (por exemplo) atingindo um olho, pode provocar a cegueira. Além disso, defende-se numa casca inexpugnável, mais a sua sobrepele, e uns gomos ácidos, corrosivos... Quando tal, até tem umbigo! Uma trabalheira que não paga o efeito. Sabedora desses meus temores, a minha querida Avó transformava as laranjas numa compota agridoce - aquilo ia casca, ia tudo, - no Inverno, em torradas com manteiga, o primor dos requintes. Mas isso era a Avó para o seu neto e afilhado. Antes de uma terrível revolução, o depois de a Avó me ter faltado, em que as laranjas se alaranjavam às refeições e a diplomacia aconselhava pretextos - a Mãe dá licença, ai, ai, ai? (as mãos aflitas, agarradas ao ventre...) -  para me levantar mais cedo, assim dispensando a sobremesa...

Ainda na mesma coloração, as tangerinas, outra música. De casca leve, pesando, e vergando ao seu peso, as tangerineiras, doces, sempre doces, bolinhas doces que iam de um trago só, sumarentas, sem peles, sem espicharem..

(Santo Deus, quando a laranja da sobremesa dava para ser seca, iliquida!!!)

E finalmente as toranjas. Enormes, quase melões em tamanho. A gente nova do campo contorcia-se filosofando sobre para que serviam as intragáveis toranjas. E foi uma tia de tanta saudade, alemã de nascimento (suprema gente germânica!) que, então, explicou: a toranja, cortada a meio, embebida em vinho do Porto, devidamente açucarada e comida com colher de chá, até raspar a casca, era um manjar. E era! O meio termo entre a acidez e o doce, vitamina C com força,  e as outras vitaminas todas, nem sei quais, assaz mais saudáveis, contidas na sacarose.

Depois... Uma égua engasgou-se com uma laranja abocanhada na laranjeira, Ia asfixiando. Veio o veterinário que somente sabia de vacas, porcos e vacinas dos cães... Foi o cabo dos trabalhos! Valeu a árvore ir rente, e ainda bem - a Avó há já tanto tempo não fazia a sua compota, e aquelas laranjas eram uma ameaça constante de semanas e semanas de mais do mesmo...

 

(Um desafio da Fátima Bento - https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/olha-cor-da-semana-459998)

 

 

A princesa renascida

João-Afonso Machado, 19.02.21

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Era uma vez uma Princesa tão gorda que só ocupava espaço. E não um espaço qualquer, nunca caberia na varanda do palácio onde a Família Real era aclamada pela multidão em baixo.

Acabrunhada, a coitadinha ocupou a torre de menagem toda, onde se guardava o tesouro do Reino. O povo andava descontentíssimo, o monarca desolado.

Sucedera, a Corte fora infiltrada por um pérfido espião que viciara a princesinha em chocolates. De tal modo, os seus Augustos Pais compravam todo o leite nacional e derretiam o tesouro Real importando cacau e a remunerar mestres chocolateiros suíços. Claro, pretendentes à Princesa – nem vê-los. Ela era um rombo financeiro em qualquer nação.

Constou, entretanto, ocorreria uma revolução e esse tesouro seria roubado. Sua Majestade rejubilou e ordenou ao Regimento de Lanceiros da Rainha fossem todos desatolar a princesa à torre e a levassem a um passeio.

Os revoltosos… convencidos que sacavam lingotes de ouro, surripiavam apenas chocolates – de leite, carregados de avelãs, nozes, amêndoas…

Regressando a Princesa… houve pranto e… saladas. Muitas saladas. Custou, mas… lá sobreveio o emagrecimento, a dança (que real umbiguinho!) e, belíssima, a Princesa dirige agora, também, a associação de protecção mundial de baleias e cachalotes. 

 

https://anadedeus.blogs.sapo.pt/era-uma-vez-uma-princesa-tao-gorda-que-26499?thread=86403#t86403

 

 

Desafio lápis de cor| O azul cobalto galináceo

João-Afonso Machado, 17.02.21

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Ela era indiscutivelmente gira. Tinha as pernas muito bem lançadas, um rabo perfeitinho e o peito roliço e branco; a que tudo acrescia a virginal expressão, logo acima da sua habitual gargantilha verde. Conhecia-a das suas passagens diárias no parque, seríam porventura vizinhos, e daí o costumeiro e circunspecto cumprimento, sempre retribuído. Mas, no rolar das semanas, aquela elegância, a beatitude da menina, entraram a tomar conta dele todo. E já não comia nem dormia, de tanto pensar nela. O resultado: tornou-se atrevidote.

Curioso, simpático ou atencioso em excesso, mesmo brejeiro. E ela, a menina, nada! Sentiu-se descoroçoado. Durante toda a vida ouvira gabarem-lhe os seus cabelos loiros, os olhos verdes. Desde sempre fora olhado num misto de admiração e temor, era o seu cabedal, o tórax e o pescoço, todo ele azul cobalto das veias salientes e vibrantes, sempre encarrapitado nas árvores mais altas, os bíceps contraídos, prontos para a próxima.

Fora isso que a menina, imbuída no seu santificado recolhimento, nem se apercebera. Pois num instante se pôs na barbearia, a encaracolar um pouco mais as madeixas, arriscando mesmo uma tattoo peitoral, o azul cobalto era a sua imagem de marca. Depois passou no ginásio uns dias a fio. E numa bela tarde primaveril surgiu no jardim, em tronco nu, a cabeleira igualzinha à do Rei da Selva. Num longo e muito macho grito, que quase o atirava da liana abaixo.

Mas a menina olhou, desviou-se e prosseguiu sem uma palavra. Deu consigo azulando, azulando, porque a cena não passara despercebida a uns tantos transeuntes. Vestiu então, rapidamente, uma t-shirt e enrabichou o cabelo com um elástico, enquanto desdenhosamente concluía - assim vestida de castanho, só pode ser de algum carmelo...

 

(Um desafio da Fátima Bento https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/e-ca-estamos-nos-outra-vez-456098)

 

 

Os sete anos do Porque Eu Posso

João-Afonso Machado, 16.02.21

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Em bom rigor, eu não conheço o blog da Fátima Bento, o Porque Eu Posso. Outrossim, troquei comentários com a Fátima Bento uma recente meia dúzia de vezes, como bloggers que ambos somos. Sei, no entanto, as suas «ondas radiofónicas» sobem ao éter algures nas cercanias de Setúbal... No resto, eu bastante mais metido comigo próprio, a Fátima voltada para o mundo, como logo se evidencia por esta sua iniciativa. O Porque Eu Posso, festejando agora o seu sétimo aniversário, há de ter barbas brancas, como as minhas, e umas entradas através das quais a blogosfera penetra e se humaniza. Explico, porque me parece importante.

Este é o espaço de todas as possibilidades, entre elas a triste realidade da mentira. Em regra, ninguém conhece alguém e vale somente o que se escreve e é impalpável. Onde  está a identidade das pessoas? Onde acaba a verdade e começa a fantasia?

Mediante o seu Porque Eu Posso, temos um ser humano - a Fátima Bento - temos confrontos, desafios, despiques, um contínuo trocar de ideias que nos aproxima, aplaina desconfianças e medos e, em definitivo, nos faz acreditar, a todos, que somos e que só por estarmos longe não nos vemos diariamente, mas quem sabe, alguma vez?...

... Alguma vez ganharei um sorteio, talvez seja desta. Talvez me saia um dos sete livros sorteados pela Fátima Bento.

O que desde já fica é o meu agradecimento por estas suas programações. E prometo-lhe: da próxima que me puser nas botas e der uma voltinha por aí - mania minha... - trago-lhe uma lembrança. Pode seu um queijinho de S. Jorge, Fátima?

Quem me lê, vá lá ao Porque Eu Posso e espreite e observe (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/quem-quer-ganhar-livros-giveaway-458408).

 

Desafio lápis de cor| O verde escuro das florestas

João-Afonso Machado, 10.02.21

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No verde escuro da Natureza venho aqui defender a minha identidade de João-Afonso, o nome que herdei do meu venerando Avô, homem fiel dos arvoredos, que tantos plantou a esverdear a provincia. E isto porque a Fátima Bento (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/good-morning-pipol-451031), por distracção, me chamou «José Afonso».

Nada de grave, é óbvio. Gosto muito desse meu semi-homónimo. Bandeiras à parte (que a minha tem uma coroa em cima), sempre teremos partido de um ponto comum mas, a alturas tantas, o José Afonso, com a sua fabulosa Balada de Outono...

«Águas das fontes calai/ Ó ribeiras chorai/Que eu não volto a cantar./Rios que correm para o mar/Deixem meus olhos secar»

... veio seguindo os cursos aquosos até ao Litoral onde, a lacrimejar, diz ter deixado as suas baladas.

Eu, um Afonso (João) de muito menor alcance, fui ficando pelas nascentes que nunca acreditei se calassem. Sem sílabas agudas, comedidamente tónicas, mesmo segredadas. (Em clamando José!, logo os gaios - Ué, ué, ué! - se levantariam num berreiro de debandada.) À moda dos matos verdes, enegrecidos pelas sombras, assim calcorriei, anos fora, florestas inteiras. O ambiente onde cresci e vivi. Sob pinheiros, sobreiros, cedros e carvalheiras, e no som imparável das águas desniveladas orquestradas em penedias. Entre todos os musgos arreigados à vida nas rochas. Uma música ora acelerada nos córregos, ora suave em vagares cristalinos, com os godos nús a servirem de fundo e compasso. Se me estou a esquecer do verde? Pois bastava topar aqueles foguetes de barbatanas, fugidios, armar-lhes o aparelho à linha, e esperar debaixo de tão escura, esverdeada, frondosidade... Mesmo mais a jusante, onde nas águas, já em correntezas planas, - essas águas sempre claras, de fundo arenoso, e os limos como cabeleiras ao sabor dos remoínhos - assim lá mais em baixo, o peixe vem também ao chamariz... E não há peixe que não esverdeie de negro brilhante nas escamas do seu dorso...

João-Afonso: um nome que é um sussurro. Talvez uma reminiscência sueva de quando tudo, afora qualquer povoado, era floresta em tons de trajes de pele já antigos, verdeteados, no jeito de andar (ouvindo o grunhido dos javalis e o balir dos veados), na quietude de todos os dias do ano. Buscando mezinhas nas raízes depois a ganhar cor dentro das botelhas, colhendo verdes folhas de cidreira e outras artes de infusão... Robin Hood o seu fiel Litlle John! De arpão em riste, equilibrados na verdura dos calhaus marginais. Sherwood! O mundo arborizado, sob a folhagem perene, de que nunca me afastei. Escuro, sombrio e denso, benfajezo ou traiçoeiro, troncos inacessíveis, incontornavelmente verde essa vida inteira.

 

Desafio lápis de cor| De casaca na noite de Matosinhos

João-Afonso Machado, 03.02.21

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Não valerá a pena referir há quanto tempo... Éramos estudantes universitários, um coeso grupo de amigos provenientes de Faculdades diversas e, quase todos, ávidos leitores de Eça. Conhecedores de passagens e episódios inteiros, deliciados com as ceias no Bragança, as idas a Sintra, o frou-frou das saias das senhoras, as suas «carnações ebúrneas» e a sua atracção pelos amores ilícitos... E pelos calafrios causados na sociedade da época por João da Ega, ou mesmo por Tomás d'Alencar.

Foi nessa altura, já quase todos finalistas, um de nós, o mais velho, resolveu... casar! Havia que planear essa primeira despedida daquele grupo de estarolas. E a coisa não seria feita por menos.

Estávamos num Fevereiro escuro e frio, como então os Fevereiros eram, regularmente. Seria à noite, no Fagundes, um velho restaurante de Matosinhos que pereceu incendiado. Com um gabinete todo por nossa conta e um belo bife no prato. Traje obrigatório: a casaca.

Já não recordo onde as desencantámos. Negras, até ao joelho, a calça no mesmo tecido. A contrastar, apenas a alvura dos coletes e das camisa de colarinhos erguidos, bem engomados. Assim entrámos, em fila indiana no Fagundes, ante a admiração e o silêncio gerais.

Mas não era tudo. O nosso amigo casadoiro dispensava o bailarico em lugares menos narráveis. Daí as duas ou três garrafas de espumante, as flutes, e já não sei quantos galfarros, passava da meia-noite, encarrapitados nas rochas do mar de Leça da Palmeira, fazendo saúdes à rainha-Lua, essa noite a meio-pano. Muitos os braços erguidos, a berraria intensa e a apreciável colecção de blasfémias proferidas.

O breu nocturno ainda nos presentearia com uma cena final. Há retratos dessa «pilhéria», já não sei quem os guarda. Mas trazíamos um fotógrafo profissional, primo de alguém, para registar a ocorrência. Qual fosse ela, postarmo-nos no mercado de Matosinhos, aguardando a partida do derradeiro 19 (eléctrico) para o Porto - aí desataríamos a correr atrás dele, a bengala (cada qual arranjara a sua) na mão, gesticulando, «ainda o apanhamos!, ainda o apanhamos!» O mestre da fotografia se encarregaria de eternizar esse remake queirosiano, na negritude dessa hora última.

Foi complicado. O guarda-freio, coitado, cheio de boa vontade, compadecido daquele grupo de rapazes sem outro transporte para o Porto, parava o eléctrico e ficava a aguardar. Ele não sabia quem era Eça de Queiroz nem alcançava o sentido da nossa encenação...

 

Um retrato

João-Afonso Machado, 02.02.21

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Antes de mais, o meu pedido de desculpa porque mexi num desenho que não é meu: reduzi-lhe as dimensões e acrescentei sépia, apenas por assim melhor me sair com os meus dizeres. Fique, então, a noção precisa de que esta é a primeira ilustração não da minha autoria que entra no FUGAS DO MEU TINTEIRO. Apenas porque ele revela uma face lindíssima de alguém despreocupada com toillettes, muito bela. Antes de começar, sempre explico, este é um desafio da Ana de Deus em post cujo link sugeriram aqui deixásse também (https://anadedeus.blogs.sapo.pt/).

Deste modo:

«Não é de todos os dias um nariz assim, tão divinamente proporcionado. Sem de mais e sem de menos, nem por sombras adunco, nunca comprido em excesso ou curtinho, amedrontado, E por isso os olhares no autocarro nele convergiam, uma multidão a espreitá-lo na simplicidade com que a sua dona se agarrava em pé a um varão qualquer. Quase obrigando os passageiros a darem-lhe um lugar sentado, a essa jovem ignota, vista mais de perto senhora ainda de um olhar enorme, como ovos azulados, pestanudo, que deixava para lá as obsessões das damas com o tamanho das sobrancelhas.

Iria no seu dia-a-dia, o cabelo caía-lhe no pescoço despretensiosamente. Castanho, sem tinta, ainda e sempre despretensiosamente. E as faces, sem "auxiliares" de juventude, mantinham a maciez, uma pele limpa, nem excessivamente queimada do sol, nem leitosa como nunca apetece. Simplesmente a sua pele esplendia naturalidade, limpinha como um godo nas águas correntes. O mais vinha por aí baixo ao mesmo ritmo chamativo.

Porque a sua boca era perfeita e continuava sem acessórios. Quem a visse movimentá-la, em dizeres simpáticos e lhanos, notaria os dentes, alvos e certeiros, marfim imaculado com nada que repelisse os interlocutores. E depois o queixo, com uma covinha carinhosa, um todo em que tudo era equilíbrio até ao pescoço, bem erguido, alto, sem que alguém se lembrasse de falar em girafas...

O conjunto era notável. Uma viagem, dessas longas, no autocarro, proporcionaria sofismada discussão de um observador consigo mesmo. Entre a testa, a configuração da cabeça, o nariz, a boca e os olhos, vivia o equilíbrio dos céus. E de atarracada, nada, bem suportada sobre os seus ombros vergados à beleza das suas feições.

Os homens não apreciam especialmente as bochechudas, que era o que ela também não era. Apetecia perguntar sobre a sua dieta, mas topava-se, a sua figura negligé - no capítulo dos penteados, desde logo, - corresponderia à sua normal atitude perante a vida. Aliada a uma inexistente exuberância, que lhe acrescentava mistério e a tal vontade de lhe oferecer um lugar sentado. Num vago menear da mão arrumou um resto de madeixa em orelha linda, digna de ser vista e admirada. Sem brincos, só a orelha (e a outra, sua irmã), um sorriso o mais simples a um dito de alguém, a carteira ao ombro e uma vestimenta a pautar-se pelo despercebido. Nem de outro modo teria de ser.

A sua imagem ficou-me, aquando do meu desgosto ao vê-la descer do autocarro. A cidade é demasiado grande... Haverá outro dia?

Haverá outro dia para aquela boca tão singela quão sensual? Para um queixo de futura (sim, presente não seria...) boa mãe. Para tão saudáveis feições, onde todas as medidas de peso e tamanho ocupavam o lugar da mais perfeita estátua do classicismo antigo?

Nos meus escassos assomos de fé na reencarnação, acredito-me com a sua idade, frente a frente numa qualquer esplanada. Tudo correria bem: e os meus dedos deslizariam, escorregariam entre os meandros da sua face, prometendo-lhe - ainda novo - o mundo inteiro do ser feliz só para nós os dois.»

Dixit.