Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio 52 semanas - 49|A vida passeando em nós

João-Afonso Machado, 05.12.22

CARREIRO.JPG

A vida simplifica-se não a complicando. Mas esta boutade é demasiadamente simples para não ser complicada. Somos nós os autores - em simultâneo os bons e os maus - do filme da nossa existência. Bons se desprendidos; maus se ambiciosos (materialmente ou não), obsessivos de algo - ainda que inofensivo. Porquê o conflito com a vizinha ou a ambição do BMW? Seria isto, apenas, não fora a nossa natureza tendencialmente concorrencial.

Gozar o dia-a-dia; dar uma volta, se possível... O mais difícil - aceitar os revezes. Deixar o tempo passar em nós. Nesta largada de palavras creio agora ter acertado em cheio no alvo - deixar o tempo passear em nós. (O faisão caiu redondo...)

Porque a vida (terrena) será mesmo esse passeio por caminhos ora pedregosos ora aromatizados de bons trechos, não escorregadios, onde o calçado flana e o peito não arqueja. Merecidamente, na dose adequada de sombra e descanso.

Será sempre assim? Não, não é. Objectivamente não é, mas quando subjectivamente for temos ganhadores - nós próprios. E a resposta ao desafio (da nossa vida) fica resolvido, ganho. Nada mais haverá a procurar para encontrar a felicidade.

(O gancho transportará então um número incontável de faisões... - Ah! grande espingarda...)

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 48|Freio a fundo

João-Afonso Machado, 28.11.22

IMG_4966.JPG

Querida Amiga Ana:

Os conselhos dados - só a nós mesmos. Aos outros, é sempre um atrevimento, uma ousadia, a pseudo-sabedoria, com certeza malcriação.

E, por isso, guardo todos os meus doutos pensares aqui para o velhote nascido fadado para a asneira. Porque esta não é a história (fatalmente parcelar) das ditas asneiras nem o caminho é o do aconselhamento que me dou. E eu já antes tinha levantado a pontinha do véu em algumas notas escritas a mim próprio.

Sabe porquê? Porque na escrita, que é a minha vida, quantos mais os compromissos e os prazos, pior o resultado. E, nessa minha vida, além do que ninguém necessita ser aconselhado, falo dum caminho para a arte, tão simples quão complicado: complicado se quisermos publicamente brilhar; simples no recato das nossas horas, sem despertador, somente no vagar de posicionar as palavras no lugar certo.

(O eléctrico desfila nos carris, sem quase ruído, e a gente nem dá pelo historial, por toda a vida que nele viaja...)

Vai daí, a literatura e a solidão são quase irmãs. O mundo é demasiadamente tosco: tão tosco que não raro nem nos deixa entender porque publicamos.

Sendo parte da resposta (que nos damos) um certo exibicionismo nosso a que se há de pôr o freio, não vá ele derribar-nos na sua cavalgança.

Esse freio é bom conselheiro. Ele trava este cavalgante de si mesmo, tendencial cavalgadura.

Um beijinho.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 47|Onde poisa o pensamento?

João-Afonso Machado, 21.11.22

036.JPG

Um cerco (impossível) ao meu pensamento agora! Ao qual só posso responder parafraseando um desses nossos cantautores - Não há Machado que o corte...

É, o Machado não corta, não sabe cortar, o seu pensamento, um vento em fuga por quantas portas e janelas e frinchas afins. O contrário seria a estagnação, a obsessão ou alguma mulher eventualmente desdentada.

Maior é o grande laivo de liberdade. E de imaginação. Do mal num prato, e do bem no outro da balança; da despótica luta entre ambos...

No instante, o meu pensamento ultrapassou a fronteira. Somente... irá o corpo com ele? Estou em crer que sim. E até onde?

O pensamento para, inspira fundo e dá um esticão no cabresto, como quem acorda um burro. É expectativa para não mais de uma semana. A certeza única: de regresso, o pensamento contará até onde realmente chegou.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 46|Amores à primeira vista

João-Afonso Machado, 14.11.22

A4.jpg

A minha imperfeição. E a vontade de me aperfeiçoar. Vejo tudo como um segmento de recta (sim, sou apressado, aqui não há lugar a curvilínearidades) entre a chegada e a partida. Ou como um tempo em que errar e voltar atrás dói muito. Olhando retrospectivamente, penso ter sabido  fazer da tristeza e das dores um motor para dias melhores.

É o que em mim gosto. Poderia falar em falhas ou no que - pura especulação - gostarei. Mas já ultrapassei a metade do dito segmento de recta e ainda não mudei de ideias. Há caminho a percorrer ainda; há a realidade do imprevisível; e espero continue a haver este espírito - por um tempo cada vez mais curto, tão curto quanto o presente texto. Mas empreendido a final.

 

(Desafios da Abelha -  https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 45|Estatura meã

João-Afonso Machado, 07.11.22

PROVAS DIA PRIMEIRO.JPG

Não acredito a vida seja feita de altos e baixos, com excepção dos que jogam na sorte e no azar. Ou considerem o nascimento um acaso na roda da fortuna...

Ora eu vim ao mundo por imensa vontade dos meus Pais. E, gostando de andar por cá, só lhes estou agradecido. Mais agradecido ainda por me explicarem a vida é uma "caixinha de surpresas". (Tive-as as piores, senti-me derribar, mas ergui a vontade e a força e, com todas as sequelas, assim me vou mantendo.)

Os ditos «altos e baixos» são, por isso, uma contigência da vida, em que o canudo académico ou a morte de um ente querido não podem consubstanciar momentos de relevância eufórica ou irreparável do nosso historial.

Creio, antes, a vida caminha para o alto ou para a baixeza. O problema de cada um, que cada um resolverá consigo e com a sua consciência. Sem direito a objecções de quem quer.

Como escritor - que é o que sou - nunca me debati com o menosprezo. Também, é claro, não senti (nem sentirei, decerto) a glória. Vivo e viverei, permaneço e permanecerei, a meio pano, lido por um punhadito de leitores. E o meu momento maior (o mais alto?) é constatar que vou fazendo o que o meu espírito diz para fazer - para escrever; e o menor (o mais baixo?) seria se não dispusesse de lápis e papel para tal.

É um percurso em que este (perdoem a propaganda) já não é o dia primeiro...

 

(Desafios da Abelha -  https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 44|Manifesto anti-elencos

João-Afonso Machado, 31.10.22

COMÉRCIO LOCAL.JPG

Uma das minhas grandes aflições quando enchouriço a mochila consiste em saber de antemão algo virá a mais, ou algo ficará esquecido. Facilmente se imaginará também o drama em que resulta cada ida aos hiper-supermercados. Em suma, não sou homem de listagens, carrego às costas pouca e muito usada roupa e a dona da mercearia é a minha segunda família; a primeira, talvez, se me acompanhar até às prateleiras.

Como tal, elencos disto ou daquilo (depois de tantos que fiz, impostos pela ciência jurídica ao longo da Faculdade toda) considero-os, por junto, uma conspiração altamente lesiva da minha criatividade. A mesma cara, consoante a sua expressão ou o meu estado de espírito, pode ser prosa ou poesia, um mote triste ou alegre, escrita breve ou prolongada. E seja ela a cara de um hominídeo ou de um símio.

Acresce não contactar muitas pessoas. Melhor dizendo, os amigos são bastantes mas o meu refúgio é maior e gosta-se a si mesmo sozinho. (Deixemos, todavia, este assunto para outra altura.) Eu vivo escrevendo. E se alguém com pachorra para me ler se rir, - ao fazê-lo poderá ter por certo que esse seu riso é o eco do meu.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 43|O pé direito (cont.)

João-Afonso Machado, 24.10.22

TAÇA.JPG

Pois continua a mancar. E o pé esquerdo já se queixa também. Ambos formaram um par de muita andança, à caça e à pesca, por caminhos de transcendência ainda. Ao que acrescem cidades todas que deglutiram esfomeados, de manhã à noite, postos nelas a conhecer o mundo. Somente... a última surtida foi um fracasso.

Um fracasso porque o dono dos pés (a culpa toda sua), sofrido de dores, ao fim da tarde não podia mais. O resto do programa decorreu em automóvel, com paragens aqui e ali. Felizmente o destino contabilizou umas centenas de quilómetros que desprezavam a viagem de avião...

Assim o pé direito mastiga o esquerdo e vomita sobre a vontade de ambos e da prospecção do andar cimeiro, o do alto comando, alguém habituado a viajar e buscar imagens da vida (através das janelas dos indígenas) onde está a beleza e a explicação do viver. Coisas pensadas bastante para além do mero imediatismo...

E neste andar de palavras, o pé direito doeu-se agudamente. Conforme as indicações do fisiatra, sendo assim o melhor é quedar-se, estender a perna com gelo em cima e esperar dias benfazejos.

No Polo Sul? - É demasiado longe... Cumpra-se, porém, a prescrição médica!

Porque o pé direito está a dar cabo do seu legítimo proprietário. 

 

(Desafios da Abelha -  https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio 52 semanas - 42|O pé direito

João-Afonso Machado, 17.10.22

BOA PARAGEM.JPG

A área não é grande, calça 40. Mas a caminhada sempre longa e esburacada. Isto a propósito do meu pé direito, segundo as mais recentes notícias vitimado por uma tendinite teimosa e condenado ao triste apoio de uma bengala. Em vésperas de perdizes... Acresce a tenebrosa ameaça no joelho, a infâmia de uma patética artrose. Enfim, a quase imobilidade.

Trata-se de uma questão gravíssima. Como calcorrear os matos e as lavradas? E as margens dos rios? E as ruas do mundo?

Ficarei condenado ao solzinho da varanda conforme os meus precoces cabelo e barba brancos que herdei de Pai rijo?

Valha-me Deus! Eu ainda contava com mais uma década pela frente antes de testamentar as minhas armas, que a caixa toráxica está para aí virada, e o espírito também!

E o que diria a minha inolvidável Tareja, a rainha dos perdigueiros portugueses? Que fosse à merda? Pois como contestaria eu a sua interjeição?

 

(Desafios da Abelha -  https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Desafio Arte e inspiração| A cor faltosa

João-Afonso Machado, 12.10.22

IMG_2616.JPG

A época dos tapetes, como ele lhe chamava, era particularmente agradável. Pelas suas formas e combinações de cores, pela amenidade do tempo e mesmo por toda a agitação que avassalava e rejuvenescia a vida. E não será dificil compreender o entusiasmo do rapazito pastor ao ver ficarem para trás as chuvas do inverno sem ainda estiolar sob o sol ardente de Julho ou Agosto.

O rebanho era o seu ofício. Em maré de cabritos, mais de cem cabeças a seu cargo e do cajado e do canito refilão. Mas a primavera trazia o pasto verde, viçoso. repolhudo. Os animais fixavam-se aos prados, serenavam, não era aquela correria entre a lama e as águas empoçadas. Sobrava-lhe tempo para se esticar no tapete, se lhe aprouvesse, jamais conseguira entender essa história dos ácaros e dos pólens. Não raro ali mesmo tirava uma pestana, que para qualquer imprevisto logo estaria o latir do parceiro.

Ganhara o jeito de andar descalço então. E formigas, saltões, aranhas, abelhas, lagartixas, qualquer cobrita, faziam-lhe impressão nenhuma. Os meandros do seu tapete eram uma metrópole imensa e agitadísssima dessa bicharada.

De papo para o ar, mordiscava um talo de erva e somava as tépidas cores da tarde: o azul do céu, o verde dos pastos e o dos arvoredos pintalgado do branco das flores novas; como as do solo, amarelas, arroxeadas, bravias, a sua santa cama do instante. O quadro era lindíssimo e apenas deu pela falta do vermelho vivo daquela pintura que topara na última ida à feira. Com uns mocitos cheios de roupa (por certo a suarem em bica...) e umas senhora arrastando os vestidos pelo chão pintalgado dessas tais papoilas, como lhe tinham dito chamar-se a flor.

Sabia bem das camélias, das roseiras, até dos arrebenta-bois felizmente escassos, só nas cercanias do ribeiro. E lembrava-se vagamente, a caminho do S. Bento da Porta Aberta, desses copos encarnados soltos ao vento na berma da estrada. Mas nunca em semelhante quantidade.

Era uma falta de peso nos seus quarteis. Iria um dia pelas papoilas e plantá-las-ia entre as cores todas do pasto. Assim se coloriu a tarde inteira. Mal às cabras não fariam essas papoilas, isso estava assente.

MONET.jpg

(https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/e-nesta-semana-562205)

 

Desafio 52 semanas - 41|Grandioso

João-Afonso Machado, 10.10.22

IMG_3398.JPG

Confesso: não fui ao Google, mas sim ao meu registo fotográfico: fechei os olhos, baralhei e tornei a dar e saiu-me a imagem grandiosa de um templo magnífico. O que dizer dele?

Ficam os torreões, um sinal de perpetuidade. Caso não saibam, é essa a tradução destes pináculos - a proximidade dos céus, a sua perpetuidade. E deles, que os fotografei, a simbiose do Além e da vizinhança.  Foi assim, para muitos continua a ser. Quanto mais silenciosos o lugar e a pedra, maior a sua razão de permanecer.

Poderia calhar outro tema mais fácil, um qualquer. Estou em uma imagem alentejana, o sítio preciso do momento parado. Sinto o que sinto, para além das saudades. Caminho ao encontro da Avó que nunca conheci e lamento a ausência dos ninhos de cegonhas. Afeiçouo-me à terra queda quanto levo os olhos ao infinito e escolho o ponto ideal para retratar a minha memória.

Nada mais importa. Apenas sofro a falha das palavras ideais. Desconheço termos de arquitectura mas aprecio as formas (a sua elegância e o seu sentido), o esplendor do seu restauro. O mais é o espírito insatisfeito e contemplativo de quem não é catequista.. Esse dia nas Alcáçovas foi-me grandioso. Querem só uma pensada palavra? - Grandioso.

E é ao encontro da grandiosidade que permaneço viajando por aí. Enquanto não a souber expressar devidamente. Isto é - sempre!

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)