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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

O fogo tripeiro e joanino

João-Afonso Machado, 01.07.22

Já lá vão os Santos Populares na pedalada de um dos mais velozes meses do calendário, este Junho de sardinhas e manjericos. E especialista em morteiros, um oficial superior de artilharia. Numa certa jantarada à beira-rio no Porto, absolutamente temerária, os obuses não se calaram durante uma meia-noite quase eterna.

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Ninguém sabe como o cordeiro se mantém quieto nos braços de S. João. A cidade em polvorosa, parecendo uma embalagem de gente a rebentar pelas costuras e, um nada à margem, minhotos, transmontanos e durienses atónitos e sorrateiros apreciavam o cagarim dos tripeiros. Santo Deus!

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Águas tintas, assombradas decerto pelo fantasma do desastre da ponte das barcas. No lugar dela, a de S. Luís, onde a guerra se incendiou. E na Arrábida o trânsito parara, indiferente às pressas de quem fosse, e gozava de cotovelos na amurada os efeitos todos do foguetório. Na margem de Gaia a mesma eufórica paralisia.

Assim não se ouviram os canhões, somente o colorido das detonações apontadas à escuridão. Os da Afurada encheram os depósitos dos motores dos seus barquitos e subiram e desceram o rio em fila indiana, sem perder pitada desta beligerância.

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Um delírio circense de palmas sucedeu ao tremor sísmico da girândola final. Os minhotos, transmontanos e durienses tinham antevisto o apocalipse... Talvez agora conseguissem regressar ao vagar dos seus lares.

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E depois do canhoneio, os meios aéreos. as muitas dezenas de balões levados pela chama, como um paraquedas que sobe em vez de cair. Consta ser este armamento proibido por qualquer convenção. Mas é S. João e não há legislador que tenha mão nos tripeiros então. Como os minhotos, transmontanos e durienses bem constataram.

 

Um mundo de quase faz-de-conta

João-Afonso Machado, 24.06.22

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Nada mais confrangedor do que as nossas fronteiras terrestres, cá para a gente uma linha imaginária, apenas, para quem chega ou sai de casa. Nem sequer o saltinho de um murete...

Para os camionistas de longo curso, vastíssimos parques de estacionamento e pernoita nesses monumentais TIR's autênticos moteis com cama e água lavada e mulheres (não, nada estou a insinuar, são certamente as suas legítimas e amantíssimas esposas e companheiras de uma vida na estrada) descendo os degraus para um clima de fuel pingante e óleos escorregadios, jardins recém-chegados onde se instalam calções garridos e celulites várias, praia de ares navegantes na ondulação do calor.

Enfim, para as excursões as fronteiras são a explosão contida durante horas, a euforia dos caramelos, chocolates e jamons, os supermercados virados do avesso; para os portugueses da raia, o combustível a preços humanamente acessíveis; e para o espanholito, a petiscada, a vinhaça, tudo baratinho mas reclamado na sua porfiada tagarelice.

Em outros tempos, guardas mal encarados, severos e armados revistavam-nos os carros nas fronteiras. E a gente jogava ao gato e ao rato com eles. Era mais divertido e um pouco menos barulhento.

 

Fui eu

João-Afonso Machado, 09.06.22

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Não houve qualquer tipo de violência: agressões, arrombamentos, escalamentos ou estragos de outra natureza. Por isso não foi roubo, antes um furto. Mas sim, fui eu. Encantado com aquela peça de bronze esverdeando ao sol e as sacratíssimas armas reais bem gravadas no seu bojo. Isto vão lá uns anos e aqueles pategos só agora deram pela marosca...

Se não me engano, enfiei a peça na mala do carro, subi à Corunha e regressei e tudo como se nada fosse. Bom, mas parece que agora choram a sua falta. Assim o devolvo então, o velho canhão da muralha de Valença apontado a Tui. Claramente entendido, restituo-o ao povo da raia, minhotos e galegos, amigos de há muito e apreciadores destes vestígios da História. Às autoridades públicas jamais, de tão negligentes, até parece dentro da fortaleza não se arranjar sequer um cão de guarda.

 

Unforgettable

João-Afonso Machado, 08.06.22

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Alguém se me antecipara com o ramo de flores que seria o meu gesto instantâneo logo quando do nosso encontro, Maria Teresa, - Teresinha, se não levar a mal, que nós já eramos antes de os britânicos serem, e a mimosearem com o seu "Tessie" posto entre aspas, como quem perpetua uma alcunha só.

Mas conte, Teresinha, conte. Nasceu nos mesmos dia e mês de uma minha irmã e no ano da Rainha, ambas Isabeis. Tudo são malhas de uma rede qualquer que me conduziu aos repousos de Canterbury essa vez, Teresinha, para a conhecer e trazer comigo. Mas qual o destino da sua viagem em 1999, em pleno inverno, ainda tão nova?! E como lhe fico grato, Teresinha, por neste incomensurável formigueiro que é a vida ter adivinhado a minha chegada e esperado! Sim, só mesmo na pacatez de Canterbury, entre o esvoaçar das gralhas e as alucinantes corridinhas dos esquilos - só mesmo junto ao silêncio das suas pedras, memoriais gravados de tantos combatentes de outrora.

Conte mais, Teresinha, conte. Ask your loving memory. Fixou-se em Inglaterra já depois da Guerra Mundial, não foi? Querida Teresinha, sei, tenho a certeza, não casou. Sei também, tenho igual certeza, foi amada e acarinhada, jamais esquecida. Mas por quem? E em estes cinco anos depois (o que são cinco anos na eternidade do espaço e do tempo?...) continuo em Portugal tentando saber de si, dos seus dias e das suas cores, dos seus afazeres. Está a Teresinha a ver como por toda a parte é apetecida? Como todos ansiamos a presença dos seus 73 anos passados nesta migalha algures no Universo, sem história alguma além dos sentimentos de cada um? 

 

A minha grã-duquesa

João-Afonso Machado, 04.06.22

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Aquele pé de roseira preocupava-me verdadeiramente. Robusto, muito peludo de folhagem, mas a florir bastante inapto. Foi o que falei com o nosso Eduardo, um velho amigo que já por aqui andava antes de eu nascer. - Eduardo, a planta há de precisar de depilação!... - E o Eduardo concordou e deu-lhe uma boa poda, utilizando um português menos bricolage, mais campestre.

E riu feliz da sua façanha, o Eduardo, ao contemplarmos a multiplicação das rosas, de um rosado clarinho a encher de alegria este pobre proprietário de dois pés delas, apenas, o outro rasteirinho e não tão prolífero.

Nada percebo de jardins. Sei somente quais as minhas roseiras, que poderiam ser quatro se não oferecesse as restantes a um meu irmão, esse sim, um especialista na matéria. E não lhe estava a dar umas couves quaisquer, o conjunto viera expressamente para mim por amabilidade e generosidade do Grão-Ducado do Luxemburgo. Retribuindo uma ajuda que lá prestei. Não, rosas com tal carimbo têm de se perpetuar, tem a geração abaixo de olhar por elas e as venerar também.

 

Para quê?

João-Afonso Machado, 15.05.22

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Saibam todos, eu estaria mudo e quedo não fora essa escorregadela de olhar pel'O Enforcado de O'Neill - «Um gesto suspensivo de um sobreiro,/o enforcado./ Badalo que ninguém ouve,/espantalho que ninguém vê,/suas botas recusam o chão que o rejeitou./Dele sobrou o cajado.».

Era toda a crueza posta em destaque e não há nomes nem identidades, como determina o respeito pelos que padeceram. Há somente a perplexidade ante o fenómeno Patino ou Quinta da Marinha e o gigantismo de fortunas suspeitas que jamais irão connosco na viagem final.

São milhões de "porquês" num insolucionável engarrafamento de pontos de interrogação. Sobretudo quando a outra face de nós, gente, nem sequer goza o beijo da praxe e pede vida, oferece generosidade entre o ladrar dos cachorros e o salutar ruído das carripanas a subir a ladeira.

Um sobreiro nos confins do outro hemisfério porquê? Onde ficou o cajado?

 

Caravanserai

João-Afonso Machado, 14.05.22

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São as mil e uma noites no andar navegado e resignado dos dromedários no deserto. Um oriente de sons que Carlos Santana trouxe dos domínios dos emires com os seus quarenta ladrões da grande acústica.

Caravanserai, o álbum de 1973, perdido e recuperado pelo meu filho num velho mercador tessalonicense. Ligou-me e contou - Pai descobri o CD do Caravanserai; o pai quer que lho leve?

Claro que quero. Trouxe, ofereceu-mo, estou a ouvi-lo tantas tempestades de areia depois. Agora é noite entre as dunas, uma especial percussão de mistério, em breve o Song of de wind, Santana já não toca guitarra, dedilha a sua cimitarra.

Congas e timbales. Será o início do repasto e dos umbigos femininos voando sobre as almofadas. Cada vez mais frenéticos, o batimento aumenta. O abrigo torna-se populoso, expectante. Véus, albornozes, as estrelas cintilando no céu, vozes audíveis finalmente. Magnífico keyboard! Sempre a percursão e os lânguidos corpos das bailarinas, day by day terá dito algum britânico infiltrado, escondido na sua Stone Flower. Mais descontraídos os latinos, à La Fuente del Ritmo.

Contam-se longos, milhentos, passos do percurso. Enfim o descanso e os ecos neste abrigo das memórias de há tantos anos, no regresso do deserto com Carlos Santana.

 

No peitoril da janela

João-Afonso Machado, 12.05.22

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Estava fechada mas dei-lhe ar novo em tempo das andorinhas, cumprindo a vontade dela e minha de encorpar o mundo, onde o mundo ainda tem respiro. E rendi-me ao seu parapeito numa tontice de bifocalidade.

Ora para dentro, ora para o exterior.

E dessa janela, uma perna cá, outra lá, fui lendo a vida desde a secularidade convergida até ao ponto negro da ignorância e dos ecos entre paredes, num rápido trejeito contraluz; e visualizando o infinito dos amanhãs ao sol que se escapuliam no acaso dos ventos contraditórios.

Afinal não desacertara. O Passado tem escoras; o devir, pontos de interrogação e o atemorizante horizonte. O que foi, foi; o que será não espera por nós. Apenas é - e é uma forma perigosa do verbo ser, tão vastamente quanto todas as aberturas das janelas, impossíveis de cerrar, mesmo se aparentemente fechadas na pequena terreóla onde esbarram nas vizinhas.

Assim apreendi Rainer Maria Rilke - «Não és tu uma nossa geometria/janela, tão simples forma/que sem esforço circunscreves/a nossa vida enorme?», - enfim alguém soube traduzir sentimentos por mim carregados no respeito de um antes e na fé do depois a eternizar-nos a alma. Bifocalmente, claro, insisto eu, - no rio das gerações que, se secassem, secariam os oceanos também, como um silêncio lunar.  

 

Sábado

João-Afonso Machado, 07.05.22

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Mais hora, menos hora, aí está sábado a abrir os olhos ao dia. Conforme o hábito que vem fazendo seu, espreguiçar-se-á na cama e ficará a pensar neste Maio que, meio tonto, já anda aí.

Precavidamente o sábado matinal não ligará a televisão onde se ouvem apenas os canhões da moda primaveril das 24 horas sob fogo de guerra no leste europeu. (Essa moda global que triunfou em pleno, e reduziu a cinzas o monopólio noticioso da antecessora, a pandémica.)

E o inverno sem chuva, o Março um pouco mais choroso, a compensar, e esta meteorologia nem para trás, nem para a frente?

Sábado dará outra volta na cama sem descobrir respostas. Desapetecer-lhe-á a praia, talvez já no seu corridinho burguês, e sentirá nos ares o cheiro do estrume, o campo vai para as sementeiras. Maio. Mas um Maio invulgarmente triste e desamparado. Fátima? Mas Maio e Fátima são a multidão e o sábado prefere um meditar recolhido...

Dar-se-á conta sábado que é o primogénito deste Maio. O mais velho da série e talvez os sequentes tenham melhor sorte, se poupem à poeira na faina rural ou ainda viajem por lugares de dignidade e novidade. Quanto a ele, velhote pioneiro, restará a leitura, uma ida ao parque, que se o movimento for pouco ainda lhe cairá na câmara algum passarito ou a elegância em passos de ginástica... Ah! - e um futebolzito importante ao fim da tarde.

Sábado coça a barriga e ir-se-á então convencendo a levantar.

 

O requiem venatório

João-Afonso Machado, 28.04.22

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Sem dúvida, as urgências dos hospitais requerem a sua dose de sangue-frio. Talvez uma imaginação muito treinada em adivinhar o que está por baixo das batas das médicas e enfermeiras, há-as tão giras! Ou então capaz de improvisar um estudo das hierarquias conforme a indumentária - amarela, verde, azul, branca, de antemão se sabendo que o estetoscópio ao pescoço é sinal de doutor.

Vi-me agora na contigência de uma tarde toda na urgência, por causa de um joelho agonizante, já mesma sem forças para responder à bengala. Sucata. E, estranhamente, o tempo evaporava-se. Passeei de cadeira de rodas através de um circuito todo de corredores, encontrei um antigo colega do liceu, funcionário prestabilíssimo que, em menos de um fósforo, me desenrascou a radiografia, as análises e o soro analgésico. Nesta altura alarmei-me. - Vai dar-me uma facada?  - perguntei à enfermeira que me picava as costas da mão e a enfaixava depois. Ela viu um cagarola onde só existia a fobia da imobilidade, do aperto. E três senhoras ao lado desviaram o olhar com um suspiro que dizia - Valha-nos Deus!...

A enfermeira parecia engraçadota, centrei na sua proximidade todo o meu esforço mental depois ziguezagueando entre mil conversas circundantes, gente permanentemente a chegar, a Júlia Pinheiro no seu mudo disparate televisivo. Só me faltava o ângulo de visão para a maca onde jazia uma idosa, assustada e chorosa, durante horas a clamar - Cristo, valei-me! Cristo valei-me! - com uma tal gana pulmonar que a sua energia vital tranquilizava.

Uma tarde inteira. O número de utentes entrou a decrescer, eramos já poucos. Em Ortopedia fui mesmo o último, premiado com a tremenda nova: o joelho já não presta, roído pela artrose. Foram muitas quedas, muitos esforços, muitos quilómetros. É preciso meter uns ferros lá dentro.

Qualquer dia hei de pensar nisso. Não sei, não. Não vou para o monte de espingarda na mão e ferros no joelho. Assim ouvi, placidamente, friamente, o meu requiem venatório, decerto angustiado com a orfandade dos perdigueiros, esses pobres catraios.