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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Um dia, quiçá, depois de muito...

João-Afonso Machado, 28.01.22

 

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Da escrita cada um sabe de si. Perdoar-me-ão se disser que opto pela escrita literária; e aceitarão quando digo ainda estou longe, muito longe, da razoável literatura.

Estes meus joelhos assentes no confessionário têm todas as chagas resultantes do último volume de crónicas publicado por António Lobo Antunes, coisa vasta povoada de imensos pequenos episódios dos seus dias e dos personagens em que se transforma. O mesmo é constatar o seu olhar atento, minuncioso, sobre o mundo. Eu creio em Lobo Antunes a crença em Deus e uma vida a interpretar a existência. Acredito na sua Guerra Colonial de dolorosa memória, na medicina que abandonou e no jeito singular em que o seu sentir aterra nele mesmo e comanda a sua escrita. Por isso percebi que eu falo da "ditadura" da caneta tanto quanto esse Mestre.

(Não, não o copiei. Foi, no maior rigor, a verificação de que as palavras eram as mesmas.)

Fica a noção clara da escalada de cada um e a resignação perante a genica de quem vai mais além. Também publico livros... Mas o blog dá-me o alívio do dia-a-dia. Se escrevo para os outros lerem? - alguma vez pensarei nisso.

Lobo Antunes, herói, conta as suas origens em Nelas. Beirão... Deixo-lhe, então, por homenagem, as maias de Santar. Ele deve conhecê-las, são de ali ao lado. Eu, a custo, vou-o conhecendo mais porque não ser tanto doi.

 

A 24 de Janeiro

João-Afonso Machado, 24.01.22

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Abri ao calhas um livro do Cardeal Tolentino de Mendonça como se soltasse uma rolha da garrafa de espumante: certo de que acertaria na mouche. E foi deste jeito - «(...) há um dia reservado para o chamado "tempo do deserto". Estamos habituados a pensar no deserto como um lugar, mas pode bem ser um tempo».

E deixei-me por aí. Por esse deserto de compreensão e estímulo e afecto. Onde pára a minha Mãe? Os seus 93 anos seriam hoje, em instantes vagos, carecidos de palavras suas, um dito antigo e controverso, talvez uma discussão nossa - a Mãe sempre dogmática, eu de todo mais pragmático - tanta certeza versus tanta maluquice...

Ficará para a altura devida o instante da leitura de T. de Mendonça, desse livro que aguarda a finalização de outros que leio. Mas é o «deserto do tempo» que me tolhe quando chamo em mente a Mãe, e a Mãe responde-me aos neurónios, na memória, numa pouco suportável ausência fisica. Resta-me o hábito e a aceitação. E uma forçada, mas fiel, comemoração dos seus anos no «deserto do lugar» porque ao outro volto as costas e piso, faço por pisar, o inferior destino do tempo, o relógio e o contra-relógio da vida.

(A Mãe gostaria: numa página aberta simplesmente assim, a Verdade estava lá toda explicada, obra e querer de Deus!...)

 

Hotel Ruína*****

João-Afonso Machado, 14.01.22

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Venho de parte nenhuma mas já descansava os pés e as costas tão enferrujadas da chuva. O dia hoje é de sol, decerto de boa colheita no estacionamento dos carros, a verdade, porém, é que aproveitei o frio nocturno para viajar... Até tomei o pequeno-almoço num self-service de berma do passeio, estabelecimento verde acaixotado, umas excelentes fatias de pão de anteontem.

Agora, o repouso. Ena!, ena!, grandes inovações no jardim aqui do hotel... Podaram os cactos, os picos, podaram as silveiras, desenharam arte junto da entrada principal! Isto presta-se a uma bela sorna na varanda do meu quarto!

(Gosto destes hoteis modernos, sem check-in nem check-out, sem recepção nem horários.)

E o meu quarto habitual livre, sorte a minha, não fizera reserva. Naquele cantinho, cama baixa e colchão de cartão, o espaço todo para a minha sacola e os andrajos que carrego comigo. Houvesse alguém por aí, - mas a esta hora... - sempre lhe pediria lume, a minha provisão de piriscas é farta. E talvez mesmo uma voltinha no picadeiro, meia dose fiada de cavalo a dançar-me os sentidos... Deve ser deste maldito covid, a clientela do hotel baixou para menos de metade. Oh turistas da vida, por onde vos refugiais?

(Gosto deste hoteis modernos, cultivando o ambiente, enxameados de latas de conserva abertas e vazias...)

Os medos, esses fantasmas, onde estais?, decerto sem lareira, sem uns pauzitos apanhados cá fora, o fogo colorido e as paredes mantidas negras do fumo, como no charme das aldeias.

Bom, vamos mas é ao descanso. De caminho dá-me a fome da ressaca, arranco cedo amanhã. Uma só passagem antes pelo toillete...

(Gosto destes hoteis modernos com toilletes comunitários: mais acessíveis e facilmente localizáveis, basta seguir a correnteza do cheiro.)

 

Um pint à Portuguesa

João-Afonso Machado, 08.01.22

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Um pint pode ser uma tarde toda, ou o regresso do trabalho a prolongar-se por um serão sem obrigações no dia seguinte. O pint envolve ainda a amizade com quem está do outro lado do balcão, ou a conversa fiada com os desta banda ou os parceiros de mesa. Porque só assim o pint escorre bem e alcança as transcendências do futebol, enquanto os nossos dedos desembaciam a caneca com cubicagem para meio litro de cerveja - tirada de pressão, bem entendido, sugada de longos pescoços com um manípulo de velocidades oscilantes.

Não duvido das origens saxónicas ou germânicas do pint. Nem discuto onde reside - se nos pubs, se nos botequins.

Pessoalmente falando, fomos apresentados há uns anos em Canterbury. Dessa formalidade se encarregou o meu filho mais novo - Pai, mister pint! - Nice to meet you! - Nice to meet you too, I'm the pint! - E logo uma firme amizade brotou, acompanhada de um rosbife esplêndido e The Old Weavers por anfitreão.

No regresso a casa, despedi-me do pint com um vigoroso shake-hands e já muitas saudades. Correram os anos e a cada passo o encontrava, aqui e ali, mas fugaz, mortiço, quase sem chama nem humor...

Espanto dos espantos, revi-o recentemente mesmo defronte ao meu esconderijo. Na Portuguesa, onde frequentemente almoço. Chegara da Alemanha numa maçaneta verde, por ora a única, o reinício da sua vida em terras lusitanas. Levezinho, fresco, um apetite de ser bebido. Quem diria?! - o pint por cá! Dei-lhe um abraço, emborquei-lhe duas copázias. E os mais tranquilos fins de tarde são agora com ele, em redor de todos os dramas existênciais do F. C. de Famalicão. O pint sabe da bola mais do que todos, é um gosto, uma lição, ouvi-lo. E a gente quando se despede - See you later! - vai mais sossegado e crente, a gente volta a acreditar, diz-nos a fé em breve o pint ganhará mais torneiras, uma bela policromia, e o Famalicão um lugar na Europa.

 

Um ano de tinta

João-Afonso Machado, 01.01.22

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Faz hoje precisamente um ano, logo depois de a idade ter levado,  com mais de 10 anos, o antigo patrão desta pena, o respeitável MACHADO, JA, o tinteiro respectivo vertia as primeiras lágrimas aqui, esguichadas deste ou daquele modo, entretanto.

Foram os tempos do confinamento e de uma intensa, febril, actividade da bloogosfera. Fiz amigos novos, iniciei-me nas lides dos "desafios" e a caneta lá se teve de ajeitar a novas escritas.

Enquanto isso, a lapiseira viajava no bolso, ao lado do bloco-notas, e ambos, combinadamente se encarregavam de apontamentos sobre vários mas não muito remotos recantos do planeta. Mais o resto, enfim, conforme o estado de espírito, a ligeireza da mão, a leitura em curso ou as vicissitudes meteorológicas.

A  croniqueta tornou-se um hábito corrente, sem grande pudor roubando o tempo dos contos e de outras publicações de maior folgo. Mas sempre com uma expressão tão divertida que não há como lhe ralhar, castigá-la.

Assim o tinteiro encara o ano agora nascido: com mais tinta derramada, mais rabiscos do momento em volta dos cromos da minha infinda caderneta. Defende ele, ainda há muito caminho a percorrer, a perfeição está na linha do horizonte, mas esta fica em lado nenhum.

Talvez tenha razão, o meu tinteiro. É o que veremos este Ano Novo que a todos desejo - excelente!

 

Pânico na capoeira

João-Afonso Machado, 28.12.21

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Correram bastante os meus vagares de catraio entre o jardim e a capoeira, o espaço de eleição da minha Avó sempre que se achava prescindível na cozinha e no seu fogão a lenha. A mais meiga Senhora campesina (a Avó) que me foi dado conhecer, uma vida de dificuldades e a autora dos melhores pudins e rabanadas do velho Império português de então.

Estava tudo muito ligado e o Luís, felizmente, sabia de roseiras e de cameleiras, porque os cozinhados eram uma responsabilidade que dificilmente a Avó delegava no seu categorizado pelotão de funcionárias, não obstante a tormentosa prévia recruta. Mas isto dos refogados jamais dispensava o comando em chefe e, por isso, sobrava para a octogenária Maria segar as couves e ralar o milho das galinhas, e para mim caçar os caracois e insectos, seus aliados, - os inimigos dos canteiros - e andar de olho nos patos, nas poedeiras, nos perus, nas coelheiras. Vigilantemente, de espada e escudo de madeira, às vezes cavalgando em brados de vitória o desgraçado pavão apanhado pela cauda, outras repelindo os ferozes ataques dos gansos, traiçoeiros como cascaveis.

E comigo sempre uma escolta: dois fox terriers, o Bi (meu, só meu, até no LOP era meu, como o meu Pai o inscreveu) e a Bisca, e a Fara, a caniche da Avó, que a tosquiava assiduamente e com o seu pêlo negro, depois de bem lavado, enchia almofadas. Não podia ser de outro modo, porque o jardim era viveiro de gatos como o jangal dos seus primos igualmente perigosos, os tigres. Isto para não falar nos sardões, nas lagartixas, em quanta mais bicharada tão frequente nessa Antiguidade em que nós, homens, combatíamos em calções e sandálias. Ora, a minha matilha pautava-se pela sanguinolência, pela impiedade, pela avidez do saque. Quando não, sem que o general, aqui, conseguisse suster os seus ímpetos. (- Veja lá menino, olhe que o diacho dos cães dão cabo da galinha e depois a Avózinha diz-lhas - avisava a prudente e sábia Maria, no regresso com o alguidar das couves e do milho...)

É que entrando no casinhoto onde elas se abrigavam, os ovos eram às dúzias diárias. Alguns já arrefecidos na palha do ninho, outros ainda debaixo da que os pôs e refilava muito ameaçadora, nada disposta a erguer-se. E com as patas a mesma coisa, reinava a insubordinação na capoeira. E como repor a minha autoridade, sim, como lhes fazer ver, os meus calções eram, ainda assim, mais do que a tanga espartana? Manifestamente, açulando ordens de massacre ao Bi e à Bisca, à Fara. - Css, css! - Os livros contam o que são as hordas inebriadas pelo sangue... A matança prosseguia, incontrolável e dificilmente explicável à minha Avó.

Enfim o grande cabo de guerra, aqui, valia-se, então, de um ar compungido, do cestinho bem composto de ovos, a espada e o escudo esquecidos atrás da buganvília e os joelhos todos sujos, arranhados, - Oh Avó fartei-me de apanhar caracóis... - boas-novas recebidas na metrópole que era o coração da minha Avó com um sorriso de ternura e uma enorme beijoca neste seu neto, o mais velho e o seu afilhado.

 

Renascimento

João-Afonso Machado, 22.12.21

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É noite fechada e, qual um rato, já dá uma corridinha o dia seguinte, trouxe-o caladamente o solstício do inverno. Vagidos de um recém-nascido dado à luz pela estação dos anciães. Cornucópias do Tempo: nós caminhando para o fim dele, os dias roubando minutos às noites, crescendo no frio, cá fora, é inverno mas já não há hibernação. E assim até à robustez do sol, até a um novo declínio dos dias residente, por norma, no auge da nossa expansividade, no momento dos sonhos maiores.

Embalemo-nos na ilusão... Adormeçamos com a neve no topo dos nossos desejos e a luz que agora cresce, cresce - cresce devagarinho mas cresce - a dilatar o tempo de todos os olhos. Hoje, dia um do inverno, é o primeiro dia de um novo ciclo de nós com o nosso mundo.

Já a mochila se impacienta no armário...

 

O regresso da máquina analógica

João-Afonso Machado, 18.12.21

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Afinal há ainda quem revele fotografias, notícia recebida com o maior júbilo pela minha velha Canon analógica. É tudo muito simples: compra-se o rolo (o filme, como lhe chamam) e vai-se por aí em tiros ao que calhar. Esgotadas as munições, apanha-se o comboio para o Porto, até à estação de S. Bento: sobe-se a Rua Sá da Bandeira e a loja é lá, a seguir ao Bolhão. Depois almoça-se com um amigo, sabem-se as novidades e, levantados da mesa, o CD está pronto e o comboio do regresso prestes a partir.

Só para desempoeirar essa minha desempregada parceira, passeei com ela aqui por perto do meu palácio em propriedade horizontal, a modos de quem vai aos pardais com fisga. Mas sempre acompanhado da minha senhora, a Dona Mécia. E assim nos entretivemos com as ruínas do outro lado da estrada, agora descabeladas, antes de farto silvado a cobri-las, e aos fossilizados restos mortais de um R4 que tanto nos punha a pensar sobre a vida ali vivida.

(As silvas têm quase sempre segredos. Cobras, coelhos, passarada no ninho, o ratito do campo... Sei até de umas que são a jazida de um Morris já sexagenário! Além disso, são os picos que não deixam esquecer, algum dia tudo será menos triste, ou menos abandonado...)

Pois dessas ruínas, tirei a ideia, ali houve fabriqueta. E ou muito me engano, ou não tardam quaisquer quatro ou cinco andares sobre as suas cinzas. A fotografia terá então cumprido exemplarmente o seu múnus de documento histórico. Mesmo fracota como saíu...

Porque esse rolo do seu rejuvenescimento pouco produziu. É necessário retomar conhecimentos antigos e afinar a pontaria -  o resultado do tiro somente será conhecido em nova viagem ferroviária ao Porto, à Rua Sá da Bandeira, ao almocinho a fazer horas para o retorno.

 

Cavalgando o Dezembro

João-Afonso Machado, 12.12.21

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E vamos nós trotando o Dezembro, já quase a meio da viagem. Levado a rédea curta, ainda assim Dezembro só tem na ideia os manjedouras do Presépio, o Natal. O Natal-al-al-al a ecoar-lhe no espírito, aliás natalício. Está frio, sem luvas as mãos são dormentes, destituidas de forças, mesmo de unhas. Até a samarra saíu do armário acorrendo às alvas manhãs de geada, facas de gume afiado rentes aos corpos, Dezembro cavalgado.

Vamos trotando a refrear Dezembro que resfolega de impaciência. E deste modo envelhece na sua vaidade de macho inteiro. Dezembro, o garanhão... Como se o potro Janeiro não andasse crescendo... Mais novo, claro, mas sereno e igualmente branco. Um cavalo ainda não desbastado e já a deixar-se montar: o grande cavalo esperto, fito nos dias grandes trazidos pelo sol, quando o suor vier, e todos nos enchermos dele. Um eia! a Dezembro, se ele quiser viver entre luzes, gozando a ribalta do aconchego, alarguem-lhe o freio, esporins a picá-lo, o pingalim em riste. Mas Dezembro borregará, o cavaleiro caído, Dezembro indomável, e outro a vir célere, mais novo, de rédea frouxa até... ao filho deste Dezembro, um enésimo Dezembro...

 

Hoje, dia da nossa Padroeira

João-Afonso Machado, 08.12.21

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Acabou de passar, atravessou a cidade, vinda de cima, da românica igreja de Antas. Assim há muitos anos, a solene procissão da Imaculada Conceição.

Antes do seu andor, que os bombeiros carregam, a história toda de Cristo, a Senhora das Dores sofrendo a sua morte com Ele entre os braços, o Crucificado, S. Tiago, S. José... Troam os foguetes, os escuteiros desfilam em toque marcial, ao longe o pálio com as dignidades da Igreja e o povo enchendo bermas e passeios. Nos quarteis dos "soldados da paz" é um infindo uivar de sirenes. E o cortejo abre com a resplandescente N. S. de Fátima.

Coisas - tradições, atavismos, - da Provincia, dirão. O Cardeal José Tolentino de Mendonça (in Uma Beleza que nos pertence) responderá - Não!; «porque a Fé quer-nos assim, o crente é assim: um peregrino com as mãos pobres e os olhos cheios».

Peregrinos na transitoriedade desta vida. Rumo ao Nada? Estaríamos condenados ao absoluto sem-sentido. Antes o mistério («os olhos cheios» dele), do qual é Mãe a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Sendo sempre de não esquecer, séculos antes da definição do dogma já a Coroa nacional ficara na sua imagem em Vila Viçosa, Rainha de Portugal, Padroeira dos portugueses. Salvé!

O mais seria absurdo: porque nada tão real como a emoção a erguer-se nos nossos corações à vista da Senhora da Conceição, mesmo pela maternidade que dela emana urbi et orbis. Porque, enfim, é a Mãe que jamais perderemos, a quem sempre recorremos em momentos de aflição verdadeira, quando cientes da justeza da prece e do mérito da finalidade. Assim me criei, assim a Senhora da Conceição está sempre no meu peito. De resto, assim os meus Pais me consagraram à Senhora nossa Padroeira, aos seus pés, no dia do meu baptizado, na capela da Casa - a Capela de Nossa Senhora da Conceição, necessariamente.