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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Pacotinhos de felicidade

João-Afonso Machado, 16.06.21

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Estou a vê-la entrar naquela lojinha de especialidades siderais, autênticos produtos gourmet dos segredos do Universo. Já de meia-idade e consultório reputado, onde exibia um quadro do Zandinga com dedicatória e falava tu-cá-tu-lá com os astros todos, para sossego dos clientes que saiam dali sempre a cavalo de uma vida nova.

Pois nesse dia fui no seu encalço e entrei, também, com o pretexto de apreçar um buda qualquer. Nunca me encafuara em semelhantes constelações de mezinhas para a felicidade e a realização pessoal, a sós ou em união homo ou heterossexual. Mas o brilho falante das duas - a balconista, magrinha, ela mais cheia, generosamente decotada, - atraiu-me, seriam talvez os magnetes galácticos a bulir com o meu espírito. E também rumava já o rasto de outra vida, alegre, optimista, positiva.

Somente, a conversa, ao lado, entrou a resvalar, a azedar. Cada vez menos transcendente, metafisicando a carestia dos dias, o elevado custo de tantos frasquinhos de pós e aromas. E do círio rechonchudo onde se lia, de alto a baixo - Encontra a felicidade em ti mesmo!

Tarde aziaga. Eu próprio, um ignorante, o pressenti e confirmei, depois, na bola-de-cristal. Em plena pandemia, as freguesas andam mais cépticas e mais unhas-de-fome. Marralhavam os honorários da nossa encartada psicóloga e é sempre um risco augurar a sua imunidade. Havia que inovar, descobrir novos caminhos sistémicos para a paz e o amor. Talvez saquetas de resignação...

A do balcão ofendeu-se. Jamais alguém pusera em causa o bom nome da sua nebulosa de saberes do Infinito. 

Palavra para cá, palavra para lá, as duas ursas, a maior e a menor, engalfinharam-se, já as costelações deitavam as mãos à cabeça e assobiavam a chamar as respectivas estrelas. O círio da felicidade virou meteorito nas mãos da do balcão; e um frasco de pó uma sujidade cósmica que a cegou.

Assim a psicóloga vidente-sensitiva veio de lá com um galo maior do que a Estrela Polar e um baralho de cartas, afanado na confusão, a puxá-la para uma nova ciência a bem dos seus clientes - o Tarot.

 

Caravelas ao seu destino

João-Afonso Machado, 15.06.21

IMG_4533.JPGA vastidão do mar, um horizonte que é mas não se alcança. Ainda assim, uma meta, toda a nossa ambição sofrida no miradouro do Convento dos Capuchos.

Sofrida? Numa breve troca de beijos, ao contrário, acalentada. Na aparente quietude das águas, há incontornavelmente dois caminhos, e um deles é o do medo dos monstros e das tempestades.

O outro rumo extasia-me. Navegar a ondulação, conquistar o inconquistável, não viver para sobreviver. 

Viver os medos, os riscos, as apostas, as derrotas e as vitórias. Nunca apenas sobreviver, ajoelhado ante a prudência. E assim insisti em outro beijo. A caravela foi lançada à sua rota e os Capuchos (que o Tempo escorraçou) hão de a benzer. Deste jeito a pasmaceira saiu sempre perdedora e os corações erguidos.

 

O livro que a Fátima Bento me ofereceu

João-Afonso Machado, 05.06.21

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Foi em pleno confinamento, num desafio lançado pelo blog Porque Eu Posso (https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/) da Fátima Bento, que me calhou esse livro, recebido pelo correio e lido com toda a merecida atenção. Trata-se do Explicação dos Pássaros, e o seu autor, António Lobo Antunes, não é de leitura fácil.

Dele sempre dei primazia às Crónicas, com as quais creio muito ter aprendido. E ainda agora procuro, na complexidade dos seus romances, os vestígios desses olhares cirurgicamente lançados sobre as pessoas, os lugares e as épocas - encontrando-os sempre entre enredos mirabolantes de ironia, dramatismo ou crueza e ternura, de tudo o que, afinal, faz parte a nossa vida.

No Explicação dos Pássaros é o que sucede. Conforme Lobo Antunes prefere, o recital é tocado a várias mãos e cantado em coro. Calcando voluntariamente a disciplina das narrações, conduzindo-nos sem piedade à decifração do quebra-cabeças. Parágrafo a parágrafo.

Mas os personagens estão lá, vivíssimos, iguais a todos nós, com os mesmos defeitos e as mesmas virtudes, idênticas experiências. Procurando algo, numa interrogação constante, como as pequenas aves empoleiradas nos ramos - alerta, quando não namorando.

Os dias de um homem, a montante e a jusante dos seus instantes de solidão, quando lançados de rojo pensamentos, memórias, sentimentos, hão, em síntese, de significar a escolha do título deste livro, dada a sua semelhança com o voo dos pássaros - inconstante, levado pelo clima para mais longe e regressando entretanto, vítima de fatalidades, sempre imprevisível entre a beleza das suas cores e dos seus trinados, infinitamente gracioso, resistentemente frágil. 

Assim é também a nossa existência. Muito obrigado, Fátima!

 

Mesmo sem bússola

João-Afonso Machado, 03.06.21

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- Onde?

Mas é o silêncio que responde. Um silêncio tosquiado, mais forte do que a aragem. E o chaparro ao longe, talvez conseguisse lá chegar, mas as águas amareladas de fatal secura tolhem os passos e os braços, e a vontade petrifica e afoga-se nas vagas imensas a espumar de terra esfarelada.

- Onde?

Assim desde a manhã. Sem qualquer indicação, Nem um sol, sombra alguma, uma ave voando para sul...

- Onde?

Somente um espírito agitado e pressentindo. Sentimentos revoltos e o febril acordar dos presságios. Mas sempre a irresistível vontade de ir.

- Onde?

 

Os "Liques" ameaçam a Galiza

João-Afonso Machado, 30.05.21

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Domingos da Silva Carneiro, um alfaiate famalicense que ingressou no Exército e foi destacado para a África dos tempos de Mouzinho de Albuquerque. Ganhou a Torre Espada na heróica jornada em que o seu Comandante, juntamente com mais alguns temerários, entraram na sanzala do soba Gungunhana e o aprisionaram. Ele - o Liques, assim era conhecido, - foi parte nessa aventura. Como, agora mesmo, os da nossa terra, a caminho de Melgaço, a vila portuguesa mais a norte.

Eu próprio - dizendo-me Cavaleiro da Ordem de Cristo - participei. O apito da partida foi dado muito cedo. Saímos aos pares (ou quase), desarmados de modernices nesse longo caminho de aventura e incognitude, sujeitos aos maiores percalços, dispondo somente do telégrafo ou de mensagens de fumo.

Mas fomos sempre tentando manter a caravana em boa ordem, não acontecesse os nativos atacarem algum isolado e o devorarem.

As milhas iam em crescendo: Braga, Vila Verde, o Pico de Regalados, Aboim da Nóbrega e a Ponte da Barca à ilharga...; e a subida do Soajo, íngreme, arfante... Os cavalos, ninguém sabia se aguentariam. Mas nós, os Liques, prosseguiamos.

Foi como enfrentámos o búfalo desses longes,

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que nem nada nos fez recuar.  Sequer sentimos a vertigem do Lima, tão lá no fundo.

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Este novo mundo enchia-se do amarelo das giestas e do granito descomunal da Peneda. Nos nossos olhos, o extase e o medo, porque a caravana havia de se manter unida. Ai de quem arreasse pelo caminho!

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Sempre firmes, sempre bem dirigidos pelo mais velho da armada, prosseguimos contra tudo e todos. Mesmo contra as pragas rogadas, já para não falar em tentativas de deserção, prontamente disciplinadas.

Assim passámos ao largo de Nossa Senhora da Peneda, sobretudo atentos ao austrolábio, e da entrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Enfim, alcançámos Melgaço e adormecemos os cavalos.

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A tropa - os Liques -  chegara incólume: um Lancia Appia, um Austin Healey, dois MGA e um Alfa 2000. Essa a caravana. Sendo, afinal, a missão de calibre assaz maior: ordens expressas - trucidar, dar total sumiço à lampreia!

 

A sardinha à Portuguesa

João-Afonso Machado, 26.05.21

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Não há peixe mais português! Nem o velho bacalhau, pescado no friorento Mar do Norte e trazido para salgar, previlégio culinário nosso.

Mas com a sardinha tudo é diferente. Dos tempos idos ficou a moda da sua gordura, dela toda, em cima de uma fatia de broa, moda uma bocado sem jeito de a papar, dadas as cautelas com que hoje guardamos as unhas, o seu aroma, os abraços e os beijos às namoradas.

Ouvi dizer por aí, os óleos da sardinha são benéficos à saúde. Acredito. Mal fora, um peixe com quase mil anos de história portuguesa afinal nos maltratasse as entranhas. Porque o seu paladar é todo o memorial das nossas alegrias.

Apanhá-la... somente entre agora e o Verão, dizem-na a falhar no volume dos cardumes. Disso sei pouco, embora me pareça, a nossa costa está a saque... Sei, contudo, a alegria das redes quando a sardinha rabeia lá dentro, e os Santos Populares cavalgam para nós, no bordo das alegrias finais da Primavera.

Serão boas semanas. Assardinhadas quase todos os dias, regadas de pinga a condizer. Uma época festiva, a alegria nos restaurantes - Hoje há sardinha!

Aqui na Portuguesa é assim. Eu conheço os pormenores... O Sr. Martinho, madrugando, ainda o sol se espreguiça, já vai a caminho da lota de Matosinhos, apreça, discute, compra e traz. Pelo almoço, sem se dar por nada, as travessas chegam à mesa. Um regalo!

Somos o que somos e não havemos de esquecer aquele brilho azulado e esbranquiçado desta nossa menina, a rechinar na grelha, embrulhada em pimentos, num andor de batata cozida. Vão escamas, vai tudo! Da sardinha ficam a cabeça, a barbatana caudal e a espinha dorsal no fim do prato. O resto é o nosso ser de muitos séculos. Uma tradição. Em minha casa, do outro lado da rua, assada com todas as honras que lhe são devidas, por quem há muito lida com o peixe fresco - a Portuguesa!

(Os meses cavalgam. Antes que sobrevenha o aroma das rabanadas, é aproveitá-la, velha sardinha, petisco cá da gente, quase um brasão nacional.)

A heróica Portuguesa

João-Afonso Machado, 13.05.21

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Espreito-a da varanda da minha casa e recordo tempos aparentemente idos - os do famigerado confinamento. Porque por aqui falham os entendedores de culinária, o frigorífico somente dispunha de quaisquer coisinhas para as emergências... Mas do outro lado da rua, a emérita Portuguesa, o restaurante vizinho, o risco diário de uma corrida atravessando o asfalto, rajadas de coronas, os regimentos covid de tocaia até ao take-away salvador.

E regressava pelo mesmo caminho, outra vez sob um chuveiro virulento, a máscara agarrada à boca, em ziguezagues no alcatrão, trazendo a vitelinha assada e uma garrafa de vinho.

Assim todos os dias e semanas, sujeito ao fogo cerrado do inimigo, aplacado depois, já na trincheira, pela vitelinha ou por uma coxa de frango.

E a Portuguesa sempre no seu posto. Infelizmente sem argumentos bélicos, como deles dispôs a Padeira de Aljubarrota, mas audaciosa, dotada de resistência, e da perspicácia de uma Deuladeu Martins face aos sitiantes.

Sobreveio a paz (ou tréguas somente?). O inimigo retirou das ruas e houve estralejar de foguetes. (Conquanto recomendassem prudência por causa dos sempre traiçoeiros snipers...) A Portuguesa escancarou as portas triunfalmente. Tudo, ou quase tudo, voltara aos velhos tempos, sobretudo o peixe grelhado, o arroz de polvo, sempre muito quentinhos no prato à nossa frente.

A D. Alexandrina, o Sr. Martinho e o seu estado-maior tinham resistido. E libertado, enfim, o bolo de bolacha, os bolarecos e os bolaricos, o salmão, o besugo e os verdinhos, mais o combustivel, o alavanca da última colheita.

A Pátria estava salva! Obrigado Portuguesa

 

O sabotador fugitivo e os males de uma pena

João-Afonso Machado, 11.05.21

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A situação é gravíssima e o tinteiro impõe-me uma escrita vagarosa, pensada, e a pena hirta, meditando a cada mergulho na tinta. Hoje utilizar a esferográfica seria um ultraje à moral da minha castelania.

E foi ele, mafarrico, o vilão. Ele e as suas tropelias no tapete do hall da entrada, a água derramada para as limpar e os tacos todos levantados pela humidade. Ele é esse gato insuportável que me acorda às seis da manhã para o acompanhar ao prato da comida.

Chegou, entretanto, o artista da arte, com os mais pessimistas prognósticos sobre o desfecho da obra. O gato na cozinha, incomunicável, o dia todo na solitária. Aliás, aterrado com o barulho da rebarbadora.

Categoricamente expliquei: trata-se apenas de recolocar os tacos: empenados, desenvernizados, assim fiquem colados ao cimento e o escondam. Um tapete por cima encarregar-se-á do restante. Mas a empreitada reclamou já o aspirador, a pá e a vassoura,  até um secador de cabelo que anda para aí.

Devo ter para o dia inteiro... (A pena, quase afogada no tinteiro, regressa ao papel, onde se arrasta pesarosa, eu diria moribunda...) Trespassam-me sonhos de um belo peixe grelhado ao almoço, quando a realidade será um passeio ao Multibanco para pagar o serviço. Tremenda sexta-feira! (A pena chora sobre o escrito e o domingo promete chuva.)

Assim o infernal gato vai gozando uns raiozitos de sol deitado em cima da máquina de lavar roupa. Ou não!!! - vêm agora dizer-me que se evadiu audaciosamente para baixo da cama.

(A pena exala o último suspiro. Foram chamados os bombeiros para procurar o seu bico - o seu cadáver - na negrura sem fundo da tinta. O gato killer matara outra vez...)

 

Que surpresa!

João-Afonso Machado, 06.05.21

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Quando a topei, já nem lembro onde, custou a acreditar! Mas era verdade, verdadinha, a matrícula confirmava-o. A minha velha Opel, vendida na sucata, que eu definitivamente julgava esprimida, torcida, reciclada, transformada em centenas de latas de salsichas, circulava ainda, toda loira e muito cromada.

Vi-me em rapaz solteiro a fazer as terras do meu Pai. Com o meu irmão, três anos mais novo, já destinado a doutor médico, mas dando ainda uma mãozita a ajudar. Sobretudo em dias de feira, de muita hortaliça a levar à vila, que a horta era rica e farta - tanto que o velhote lá acabou comprando a carrinha, até fui com ele ao stander, assarapantado com as duzias de notas de mil que ele desenrolou de um elástico no bolso. A carta de condução, tirara-a eu na tropa em África...

Até na maré de comprar a leitoa na feira! A ser criada, engordada com lavadura e emprenhada, como qualquer outra marrã. Vendida a ninhada, que ainda rendia uns bons centos de mil reis, lá vinha a faca, goelas acima, arte do Se'Lino, e aquele berreiro de condenada a acordar a vizinhança toda. Chamuscada, pendurada num gancho do tecto da adega, cortada em pedaços... Dia de festa, vinham os compadres do meu Pai a dar uma mão, aquilo era fartura - a lavar tripas para o fumeiro, salgar presuntos e assar lombo e rojões, com muita rega do garrafão ao jantar. Até o néscio do meu irmão não dizia não, e se lambuzava de boas carnes.

(Um panão! Parecia sempre com medo de segurar a leitoa e enfiá-la na mala da carrinha - Ó Zeca, meu murcon, agarra-a pelas patas, firme, isso mesmo, junto aos presunhos, olha que a reca não te morde!...) 

E a minha Opel foi ajuntando cheiros e riscos na chapa, a poeira toda dos campos dentro dela. Desgraçada suspensão, nos buracos dos caminhos, quanto chiava já da coluna e do reumático! Chegou a sua horinha, com muitos anos de serviço às costas; eu casado e a vida a correr bem, sempre comprei uma das modernas, a gasoil.

Agora revejo-a fina, pintadinha, a bater no olho de quem passa. Isto é carro de andar em exposições e desfiles, saiu-lhe a sorte grande, deve dormir bem acamada numa garagem, está melhor do que quem a ensinou a andar!

 

Dias desmascarados

João-Afonso Machado, 04.05.21

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Agora é o auge da mansidão do sol; e do tempêro das chuvas, apenas uns pingos, uns breves instantes de rega. Onde não esteja a verde monotonia dos prados, esperando a guilhotina breve, reina o multicolorido sem vasos nem dono. Por quantas leiras fora, as tréguas primaveris, tons e flores obedecendo somente à Criação. É a sua vez: que a gozem rebrilhando sempre....enquanto o céu não esquenta, as nuvens emigram e os solos torram sem defesa.

Descemos o vale, fomos ao topo da colina de lá, e regressámos no silêncio granítico da aldeia do monte. Os cães, esquecidos das codornizes, dobravam a pata dianteira ao zumbido dos abelhões, ou cheiricavam as borboletas jamais quietas, mas indiferentes, muito caladinhas a esvoaçarem os seus véus.

O supremo congresso floral está aí. Já chegaram quase todos os congressistas: restam alguns arroxeados a emparceirar com os amarelos. E os convidados especiais - as lagartixas, os magnos sardões de boca abrindo e fechando em banho-maria solar - foram tomando o seu assento nas pedras dos muros.

Os dias estão em paz. Neles passeio de mão dada, embalados pela magistral orquestra dos grilos e das rãs, lá longe.