Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Outra partida

João-Afonso Machado, 11.03.21

S. SEBASTIÃO.JPG

Gostei do burriquito e da sua tranquila atitude de cadeira na esplanada. Gostei das bilhas de leite, mesmo em alumínio, como tantas que me passaram pelas mãos. Não é que estivesse perto de casa, mas ambos falávamos português e o meu interlocutor, se não era o próprio, aparentava-se muito com o Ti Manel Porreiraço. Na verdade, já não consigo separar as águas, entre tantas cornucópias de dizeres.

Foi há tempos, essa conversa bem disposta e deixada em suspenso. - S. Sebastião! Você está em S. Sebastião, amigo! - proclamava o patriarcal Porreiraço.

Existem imensos altares com os seus S. Sebastiões. Este talvez, não obstante o flagelo dos virotões, um bom nadador. Um leiteiro-pescador, quiçá.

E eu parto a retomar a cavaqueira. Terei até já entrado no avião, nesse infernal charuto. Que o trajecto me seja leve. Não sendo, sempre o suplício virá retratado no Fugas do Meu Tinteiro, em aterrorizante caminhada para o fim.

Entretanto, um grande abraço, amigos!

 

O fim de um monólogo caminhado

João-Afonso Machado, 06.03.21

MERENDA.JPG

Esses anos todos de cidade são a dor do fim ignoto de tantos personagens desaparecidos no lambuzar do Tempo. A sua visão, uma constante geralmente terminando de modo abrupto, mas tão clara, tão presente, irmanada a uma interrogação que não se apaga - quem eram, para além do seu anonimato, em que desconhecido lugar foram depositar os derradeiros vestígios da sua identidade?!

Talvez um dia guarde um capítulo todo para cada um dessa multidão de mão estendida a esmolar. Gente por cuja perpetuação nos devemos bater.

Como a tal solitária, alta e magra, todo o seu património enfiado em inseparável sacola. Vagueando, de ponta a ponta, a grande cidade, eu recordo-a nos lugares mais inesperados. A indumentária, sempre a mesma. E, também, aquele modo de, permanentemente, andar falando consigo mesma, em voz alta.

Entrava nos cafés e nas petisqueiras, por mais um copo, um gesto de piedade, mas do lado de lá do balcão, dedos imperativos apontavam-lhe a rua, a sua residência. Em boa verdade, tresandava sempre a álcool.

De onde viera, o que fora a sua vida? Não havia quem fornecesse respostas. Estas talvez se encontrassem somente no seu falar desconexo, se devidamente interpretado.

Mas ali na zona da Boavista, uma semana de ausência sua causava apreensão. Comerciantes e moradores interrogavam-se, comentavam, receavam o pior desfecho.

Ela, entretanto, reaparecia. E era como se a rotação do planeta não sofresse, então, qualquer sobresssalto: estavam vivas as suas lamúrias, as suas imprecauções, o contínuo resmonear. Ao jeito de, vendo-a ao longe, as pessoas se interrogarem: o que lhe irá na cabeça hoje?

No presente, é certa a seu irrecuperável falta. No fundo, a cronologia tem regras fatais, inescapáveis, dessas que não consentem qualquer surpresa. Dez anos depois, bem pode acontecer, um lápis, apenas, recorde a sua estadia diária na vida de tanta gente...

 

Da arte xávega

João-Afonso Machado, 01.03.21

022.JPG

PRELÚDIO - Passei, na minha adolescência, alguns verões de praia na Leirosa, Figueira da Foz. Tempos inesquecíveis em que pesquei muitos peixes-aranha e, entre outros, um dos ainda agora meus melhores amigos. Foi também na Leirosa que convivi, diariamente, com aquela estranha forma de arrasto, praticada em mar e areais onde nos tirava o sossego de banhistas, como nunca antes vira pelas praias minhas conhecidas

Era tudo muito simples: a embarcação, pela força braçal, ia empurrada para a rebentação das ondas vencida pelo remar da tripulação. Momento quantas vezes assustador, assim o mar andasse mais picado. A proa levantava, levantava, subia a pique, o mulherio, em terra, berrava, apelava a Nossa Senhora e arrepanhava o cabelo, entre o negro trajar de tantas viúvas...

Ao largo, a "canoa" lançava as redes e regressava. O mais era com as parelhas de bois, horas a fio puxando por elas à força de paulada. Décadas volvidas, já homem feito, cheio de saudades, regressei a esses poisos - a Leirosa, a Costa de Lavos, a Tocha. Muito era diferente, tudo mais prático. Como todas as outras, a minha máquina fotográfica só soube captar a actualidade.

002.JPG

A FAINA - Atente-se nas formas dos barcos, e como elas se dispõem a vencer o primeiro e grande obstáculo: a rebentação das ondas, sempre muito forte nestas praias sem rochas e de águas traiçoeiras. É assistir ao seu descer do areal, prontos a furá-las.

019.JPG

Já o disse, a umas centenas de metros da costa, ainda à vista da praia, as redes são lançadas. Vai começar o arrasto. As embarcações, agora já equipadas com motor, a tripulação mais escassa, regressam a terra.

XÁVEGA.JPG

Vêm à boleia das ondas e os tractores rebocam-nas para lugar seguro. Serão também eles a puxar as redes. 

CHEGADA.JPG

Onde ontem a máquina eram os bovídeos, e o combustivel a porrada, andam hoje os motores e o gasóleo. Tudo é muito mais rápido.

018.JPG

Ainda assim, a mão humana não é dispensável, para o necessário jeito de que as redes não prescindem.

017.JPG

O CLAMOR - O bolo aproxima-se. Feito de quê? - sardinha?, cavala?, carapau?, robalo? com algum brinde especial? Há um agigantar de vozes à medida que se vai percebendo, já nas imediações da rebentação, o produto da faina. A companha está em picos...

035.JPG

Há dias magros... e há dias de abastança. Sintomaticamente, estes cada vez menos do que aqueles. Mas, enfim, em essas tardes, uma sempre rendeu uma corvina de 20 quilos...

ABERTURA REDES (2).JPG

Parecia uma baleia, já não havia memória de tal, aquilo, ós pois, foi decerto noite muito embagaçada e embaciada...

CORVINA.JPG

EPÍLOGO - Segue-se de imediato a lota. O peixe é colocado em cabazes e leiloado. Na minha juventude, o carapau chegava a casa ainda vivo, direitinho para o escabeche. Mas, afora casos assim, de pequenas quantidades, os senhores da manobra são sempre os big bosses dos mercados das cidades próximas.

Nunca será modo de enriquecer. A xávega só é praticável nos meses de verão, mas aqueles extensos areais, de Cortegaça ao Pedrógão Grande, em tempo não, revelavam-se o ideal para o contrabando do tabaco, vai lá quase meio século... Depois vieram as fábricas (a celusose...), outros ofícios, e eu de hoje não falo do que não sei.

Mas era e, em muito, continua a ser assim mesmo.

 

As estradas sem fim de um Mercedes

João-Afonso Machado, 23.02.21

AGO.019 - XINOCA.JPG

Era de herança, o monumental Mercedes 300, e o Tio, não alto, magrinho, às vezes irritava-se... Guiava com umas luvas que nunca mais acabavam, indo só até ao nó dos dedos. A viagem levar-nos-ia da Casa da nossa gente, perto de Coimbra, até às delícias balneares da Ericeira.

Contas feitas, o Mercedes carregava onze pessoas: O Tio e a Tia, as duas criadas e sete crianças (eu, sobrinho, era o sétimo). Durante umas tantas horas de um percurso que infelizmente esqueci. Somente lembro o arejo da chegada, esse alívio, e alguns momentos de transe rodoviário em que o Tio, - homem dos toiros e dos fados - furioso com a manobra de alguém, abria a sua janela e explodia: - Ó coiro, vai para a recauchutagem!!!

De pronto a Tia lhe pedia calma. Que não esquecesse os miúdos... Lá atrás, as criadas caladas como ratos; nós - os miúdos - maravilhados.

As férias que se seguiam são volumes de recordações. Salta-me à cabeça aquela vez em que dei cabo de um joelho ao cair da bicicleta: horas a fio de espera pelo médico, para me suturar, rótula à vista... Já cheio de dores, muito puto, os Pais longe... Mas tinha ao meu lado o meu querido Tio, orgulhoso - é que estava mesmo! - por eu não chorar, e um Diário de Notícias, para entreter, que, pelo meio, me foi comprar ao Jogo da Bola!

(Os meus onze anos, onde eles vão!... De então para cá, fui cosido do cimo da cabeça aos pés e, felizmente, nunca dei parte de fraco...)

Décadas depois, parte substancial da tripulação do Mercedes já também debandou. Vive a sua vida eterna e os outros vivem-na cá em baixo com eles. Com as suas memórias. Também por isso escrevo: porque quero que os netos dos netos dos meus filhos, quando forem esquiar para Marte, se lembrem dos meus queridos Tios e do seu Mercedes, aliás interplanetário. Do mesmíssimo modo em que os tenho presentes, especialmente nesta altura, como o Tio bem saberá...

 

No epicentro da desgraça

João-Afonso Machado, 11.02.21

IMG_1308.JPG

Não há muito, relendo a Obra Poética do Ary dos Santos, fui dar com um extenso poema - um «rimance» - dedicado a Fernanda de Castro, do qual anotei a seguinte passagem:

«chamou oragos e magos/ anões  duendes  profetas/adivinhos e jograis/ sagas  videntes  poetas/que decifrassem os ais/que descobrissem a cura/daquela princesa triste/que morria de loucura».

Tanta gente vinda numa correria para volta de uma só! «Princesa»... lhe chamou Ary... E talvez o entenda: escasseiam as rainhas e as infantas, mas pululam as princesas, princesinhas... Em outras alturas, nós viamo-las sentadas sobre camas acolchoadas de cetins inverosímeis, vestidas de transparente disfarçado de translúcido, as pernas e os braços abertos num equilíbrio de kama sutra e o sorriso, parado e possidónio, de uma boneca de grande calibre.

Depois, de todo este folclore se apossaram as próprias donas, a realçarem a exposição do capricho em gestos pretensiosos e exigências de atenção. - Que eu sou muito vaidosa.. - ouvimos frequentemente na placidez de quem se acha tão-só generosa, eventualmente caridosa.

É claro, este manancial de princesinhas, quando contrariado, ou pressentindo menor cortejo, - simplesmente adoece. Adorna. O Destino fê-las assim frágeis, morrendo de «lonjura», numa polidez de palavras com o rabo de fora e, de uma vez por todas, sofrendo os seus dias neste mundo-cão e antecipadamente culpado de todos os males advindos da sua bondade. Isto é, afundando, anos e anos sem, definitivamente... irem ao fundo.

 

Como chegámos à "ética republicana"

João-Afonso Machado, 01.02.21

IMG_3297.JPG

Precisemos: 112 anos não desculpam um morticínio. Eu falo, obviamente, da tragédia da Família Real portuguesa e da única forma da "ética republicana", exterminando-a, dar vantagem à sua cavalgada. Mas tanto já foi dito e escrito sobre o tema que mais não me ocorre senão narrar os factos na perspectiva dos maiores defensores da vida humana. Aborto e eutanásia à parte, é claro. Ouçamos então, hipoteticamente, a nossa humanista Catarina Martins que sobre o Regicídio diria (ou diz, com certeza):

- Nessa meia-tarde, uma família portuguesa desembarcou no Cais das Colunas e, após cerimónias protocolares, subiu a uma traquitana (- os tuk-tuc's da época -), rumo ao palácio onde residia;

- Ainda no Terreiro do Paço, viajando a descoberto (lá está: os tuk-tuk's...), um bandido carbonário, de seu nome Buíça, munido de uma carabina, alvejou e matou o chefe da família, por acaso, o Rei de Portugal;

- Seguiram-se momentos confusos em que o filho mais velho, pora acaso também, o Princípe Real, puxou do seu revólver e tentou defender os Seus. Azar: havia mais banditagem nas cercanias e um deles, o Costa, baleou-o: morreu em caminho, quando o postilhão fustigava os cavalos para fugir ao atentado;

- Neste comenos, o filho mais novo, à época menor, o Infante (depois Rei) D. Manuel foi atingido num braço e a Mãe (a Rainha Senhora Dona Amélia), à falta de outro meio batia nos assassinos... com um ramo de flores;

Após a narrativa, a História. E a historiadora Catarina prosseguirá: assim nasceu a República,  filha de carabina assassina, com as assinaladas mortes a que acrescem a de um transeunte cuja convicção política se desconhece.

Foi deste modo, sem retorno das vidas supliciadas.

No mais, ficou nos fastos a corajosa intervenção do Tenente de Cavalaria Francisco Figueira Freire, da guarda do séquito real. Espadeirou (e limpou) um dos regicídas e, logo após, pelo sim, pelo não, - criada a inefável "comissão de inquérito" - foi recambiado para Macau.

Afirma Catarina Martins, categoricamente, o Sr. Tenente em breve regressará. Queira Deus!

 

Passeando com a minha Amiga

João-Afonso Machado, 30.01.21

A minha mão na da minha Amiga e o necessário impulso para a elevar do estribo da victória ao seu assento... Iríamos os dois no banco dianteiro porque a história é real e o postilhão já não faz parte dela.

IMG_9349.JPG

Inoportuno dia de feira, a roubar-lhe o brilho azul dos olhos, tímido e celestial como nos enredos bem narrados. No seu desentusiasmo, cri somente a percepção da minha triste expressão - o velho Camilo, lido a noite anterior (os Serões de S. Miguel de Ceide), considerava-nos, pobres portugueses, um povo de «três indústrias: agricultura, burocracia e brasileirismo». E quando Camilo fala ou escreve, a gente encolhe, escuta e dá por assente. Assim resignado, macambúzio, recebi a Senhora vinda de longe.

Dei ordens conversadas ao equídeo e partimos na direcção do Litoral. Não aparafusava na minha mente entristecida o Minho serrano, tal a melancolia, deixando vislumbres de paisagens agrestes para outro dia qualquer. Fomos, estrada fora, comigo a digerir a maldição. Agricultores, pois então, olhássemo-nos ao espelho, a topar os tractores lavrando a terra. Ou essa terra escalavrada pelas chuvas, à espera que as ditas máquinas não se afundassem nela, de ossadas à vista.

SULCOS.JPG

Trotámos com arreganho. O tempo é agora das vacas mamudas a verterem leite pelas orelhas. Exigências das autoridades cooperativas, com outros apêndices - os vitelos, a carne, a abundância nos supermercados. O lavrador faz o que lhe ordenam e o milho cresce como floresta virgem, amazonicamente verde e depois, a modos que látex, trucidado para alimento do gado, dopado, desamarelado no corte final. Mas ainda há velhos que perguntam pelo milho-rei, os pobres coitados pré-burocratas...

E tudo agoniava a minha Amiga, já tolhida do frio, embrulhada em xailes e mantas, de garruço de lã na cabeça. De uma era à margem das samarras... Prosseguimos em bom andar, que eu do alto da victória nem precisava usar a chibata de marmeleiro. (Há-os por aí que é na linguagem da tranca...) Palavras poucas, semi-ditas, e o Pégaso, sem mais, a transportar-nos no tempo, o espaço proporcionado ao fim da jornada.

Aí por Touguinhó atravessámos o Este.

ESTE.JPG

Sua Ex.cia, a Senhora minha Amiga, gabou tanto peixe sob a ponte. - Tantos! - Faltaram-me, porém as forças para contabilizar os baldes vindos de França, a falar francês, de gardons e ablettes, recreio dos nossos pescadores de concurso e saco cheio. Nenhumas velhas trutas de outrora, afogadas na poluição e na sanha dos morteiros! Não soltei comentários, e nem sei mesmo se não chibatei, raiva transporta, o Pégaso em tal lance.  Pela Junqueira, conveniente com Camilo, um chalé

DO BRASIL.JPG

se não me falha esta memória tosca, enflorado por uns ais! de espanto e de susto, devidamente repartidos e mais ou menos doridos.

Íamos chegando a Vila do Conde. Ao que se lhe lia no olhar, a minha Amiga, entretanto, deixava-se embalar feliz. Passeara, repousara, mudara os ares. Conhecera lugares novos. Agora, percebia eu, se começasse pelo melhor... isto é como o vinho, quando a medida ao jantar tem de ser repartida. Fora só um anúncio, por acaso em terras onde, com o meu querido Pai, andara ultimamente às codornizes e Ele, já idoso, ensinava a juventude o que nunca precisou ser ensinado. Coisas da vida que, em geral, o Minho conhece. Velha arreata ensombrada pelo Mestre Camilo! Enfiado na burocracia da nomenclatura das freguesias, já chegando a Vila do Conde, aos arcos do aqueduto de Santa Clara e o stop simplex: mais adiante, não!

017.JPG

Além, não! E era toda a autoridade do Senhor meu Pai. Porque eu descambaria ante o encontro com o imenso Antero, um eremita daqueles areais onde ganhou um viço que, por uma palavra, eu poderia deitar ao chão e escangalhar-lhe as «vozes do mar, das árvores, do vento». E por Régio - minha memória de infância - a passear na orla das águas salgadas - «Vila do Conde, espraiada/Entre pinhais, rio e mar!/- Lembra-me Vila do Conde,/Já me ponho a suspirar».

Aí sim! Chibatei o ar e bradei -  Pégaso, de volta embora!

Olhos azuis me olharam. Mais agrícolas do que burocratas, com nada de brasileirismo à vista. Apenas, no silêncio em que me respeitaram, um niquinho mais de coragem e encostariam a sua cabeça ao meu ombro.

 

Acantonado junto ao Sado

João-Afonso Machado, 27.01.21

107.JPG

Telefonava-me ontem um amigo, que ando eu fazendo? - perguntava ele - a estas horas e nestes complicados tempos, tão longe de casa...

Ri e fui a outra lasquinha de presunto, porque descobri, enfim, uma loja de ferragens cristã, onde comprei uma navalha de bom fio, e com ela petisco e corto e aguço canas, não se dê o caso de fazerem falta.

Fácil não seria transmitir ao meu amigo certas noções dos vagares em que, quando não, se arrastam os nossos viveres. Ocorreu-me até Virgílio Ferreira e aquela sua portentosa apreciação - «A luz um dia explicou-me. Não me explicou bem com as palavras de explicar, mas com a intensidade da explicação para eu pôr as palavras que faltavam»!... Até porque o amigo já adivinhava rabos de saia e eu atrás deles...

Sim, faltava, nos meus alvitres, desde logo a expressão nua e descarada de umas "pernas boas"; mas havia mais falhas e mais suaves - a mansidão de um olhar, a maciez de umas mãos, o ror imenso de notas do meu bloco, mesmo alguma lágrima que o humidificasse. A catástrofe do encontro com uma tribo belicosa, canibal, impiedosa. O fracasso, a retirada... Um silêncio veementemente mortal. Fome e sede, a longa caminhada a pé até ao comboio da salvação.

Com o primeiro e o segundo e toda a noite de beijos deixada de rastos entre telhados e pombos e outros desencantos.

Por sorte tinha abrigo de gente boa em Alcácer, e o Sado enche-me as medidas, saboreado cá de cima. Até a marginal, as suas ruazinhas sempre à espera de alguém que as encoraje, tudo me é um consolo. E por isso - concluia eu o telefonema com o meu amigo - aqui estou, petiscando enguias fritas umas atrás das outras, sem dar sossego ao meu caderninho e dono de uma nova companhia, uma galga velha que nunca vi bicho tão chegado à gente.

- Em Alcácer? Mas o que é que um gajo faz em Alcácer??? - (Pois... haviam-me falhado as tais palavras mães da intensidade da explicação...) - Eh pá!, quando voltar para cima, conto com mais calma. Mas olha que arrisco ficar aqui um bom pedaço de tempo, o bastante para trazer comigo as aves todas, dentro de uma máquina fotográfica... Se calhar, só depois da colheita do arroz!

 

Hoje, 24 de Janeiro

João-Afonso Machado, 24.01.21

ANDORINHAS.JPG

Querida Mãe, li há dias um poema espantoso de Pedro Homem de Mello: chama-se Canção Derradeira e é simplesmente só isto - «Minha Mãe deitou-se.../É noite!»

É, já tardote a Mãe adormeceu, mas não nos esquecemos dos seus 92, hoje feitos na contagem do Tempo para além do qual a Mãe está connosco.

Tivesse eu vagar, Mãe, ia aí num instante dar-lhe um beijo de parabéns. Receba-o daqui, está bem? A rede é boa e o telemóvel muito audível... Percebo-a na perfeição, diz-me que  passa lindamente. Que bom!  Outro beijo e até amanhã, querida Mãe!

 

Paisagem quase lunar

João-Afonso Machado, 20.01.21

IMG_2017.JPG

Lá longe, num fundo, o lugar estranho de quase um cárcere gigantesco. Um ghetto - pensei - aparentemente sem voltas de arame farpado, nem holofotes ou vigias de soldados armados. Como também não ouvi o latir dos cães-polícia, - avanço ou não avanço? E a interrogação demorou-se-me largos minutos, até que me levantei e segui em frente. Afinal, eu era um veterano de Moscavide...

Foi o tempo de descer o vale - agora prevenido com um cantil - e esquecer o calor que se sobrepunha, indiferente, ao negrume das nuvens. E, dando entrada naquela conventualidade, engoliram-me as ruas e avenidas multiplicando-se entre edificações mais altas ou mais baixas. Por paradoxo, todas diferentes e todas iguais, uma mescla de roupas a secar nas varandas e antenas parabólicas - satélites prestes a serem fogueteados para o cosmos, pensei.

Estranha gente! Ninguém conhecendo alguém, estabelecimentos comerciais obedientes ao verbo aviar, e o que fosse vizinhança um significado impróprio. Deprimente sensação! Era o normativo das gaiolas, os transeuntes canários de folga oferecida por gatos inexistentes... E mais os atropelos do que as palavras. Mas anotei transportes públicos, topei o silêncio do passe social exibido. Sobre o todo, o cheiro intenso do anonimato. Morbidamente imaginei o que seria - como seria - morrer nestas andanças.

Cidade? Vila? Urbe sem nome? Nem cheguei a apurar, tal a percepção de que qualquer averiguação seria em resposta grunhida imperceptivelmente. 

Nem mesmo a velhinha disposta a atravessar a passadeira aceitou o meu auxílio... Enfim descobrira o mundo do cada um por si. Carnalmente, espiritualmente... Escusado seria perguntar onde tocaria o sino da igreja - igrejas havia-as muitas, com nomes imaginativos de seitas várias, nos rés-do-chão dos prédios.

Por tudo, debandei. Para sul, só por curiosidade, para lugares meus conhecidos de gente de vilórias, localidades onde todos sabem quem são todos.

Ali... foi uma experiência. Um homem há de ir do alto das serras ao baixo da desumanidade, circulando etereamente entre os autómatos. E depois vir e contar ao que assistiu.