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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Por aí...

João-Afonso Machado, 31.12.21

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Não sei explicar onde estou ou se já voltei no roldão das neblinas. Descendo os cumes pelo corrimão da humidade e do frio. Ainda assim não recordo haja nevado no corropio da montanha.

Mas se nevou... então ainda não cheguei, prendem-me lá esparsas passadas brancas de todas as lendas envoltas em pele de urso.

Quiçá para o ano...

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 24.12.21

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Saio hoje quando a cidadezinha, alma minha, já recolheu a casa. Na hora precisa do silêncio em direcção um nada a norte, onde o meu sangue nasceu e ainda verte. Lá no fim da floresta e dos prados, na quietude das torres do granito no tempo. Vou porque não quis ficar, haverá sempre a presença de um Pai e de uma Mãe descendo do Céu agora mesmo. E há crianças, a nossa turbulência trespassada. (As crianças são sempre um espelho do Passado.) Vou, já disse, na esperança de beijos verdadeiros. E de abraços felizes.

Sigo o rumo de uma mensagem na rotunda de tantas vias. Se for certeiro, poderei dizer que em espírito aperto - no tal abraço feliz - esse mundo inteiro.

Porque só me comovem os santos com quem convivi. E a eles, e aos mais, a todos desejo o gozo de um feliz - santo... - Natal!

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 17.11.21

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Tenciono decifrar o enigma dos canais. Já não, porém, a opacidade das suas águas. Ficar-me-ei pelos humanos à janela, ou vagueando distraídos nas margens. As gralhas marcarão presença e as pedras ribeirinhas acoitarão ratazanas imundas e negras, gigantescas. Mas os insondáveis fundos lodosos... será ali o palácio da imperadora de todas as enguias?

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 16.10.21

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Disseram-no ornamento de jardins milionários, contaram histórias antigas e cavalheirescas e gentis damas cavalgaram ginetes de chapéus dourados pelas suas penas. Ficou na memória das gerações pela sua beleza - quão desantentas e pouco imaginativas são as gerações, incapazes de medirem a ameaça felina de um fixo olhar galináceo!

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 11.08.21

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Fatalmente armado, carnivoramente esfomeado... Rondando lugares conhecidos na solidão de um animal velho, em savanas tão distantes da realidade.

Assim a apanhei desprevenida, castanha como uma gazela. Porém ainda criança. Restou-me digerir a insuficiência da vítima. Carnivoro contrariado, armado e inconformado, lá parti coxeando, em busca de uma nova presa, fosse ela as cores todas da passarada num baobá qualquer.

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 20.07.21

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Quando lá chegar, a neve há muito terá ido embora e a vegetação respirará enxuta, após ter mergulhado e nadado no degelo. Restarão urzes e estevais, calhaus soltos. Talvez ainda algum amarelo das giestas, e antevejo cobras e coelhos, águias flanando em círculo. E a gélida limpidez das lagoas.

É sempre assim, onde o mundo é de mais estatura.

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 03.07.21

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Mesmo nas costas do mundo, entre verdes, as intemporais arestas do granito. Como se penduradas nos cedros, em pináculo silencioso a somar o umbricado equilibrio dos séculos. As telhas colados no musgo, elas próprias já viram nascer e morrer muita gente que a cruz da cumeada a todos deitou a sua benção.

E o mutismo prossegue. O arvoredo também, volta e meia visitado por qualquer passarito, por uma brisa. Nada mais. Há ornamentos apenas da alma, não será na velocidade dos olhares que se lhes chega. As heras, como abraços, protegem-nos.

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 21.06.21

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Naveguei águas caladas sem fim nem outros sinais, além dos fundos imensuráveis do destino. Sempre na idealização dos monstros amansados no frio, um modo de dizer negrura, o resultado de qualquer imprevisto.

Conheci lugares de silêncio e almas ribeirinhas no seu eterno repouso. E gente ausente, um absolvido resguardo fisico.

Afoguei em abetos. Num mundo de peles contra o gelo, escudos de madeira chapeada, com muitas barbas brancas e metal cornudo nas cabeças, machados na mão, de olhar hostil. Mas sobrevivi, certamente por não ser diferente, um machado como se impõe brilha na distância do tempo inteiro.

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 12.06.21

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Estou onde não sou. Sei saber não saber onde sou. Mas já não sei se estou. Estarei. Há um longo apeadeiro de permeio entre corpos decerto impenetráveis.

Essa a certeza, a única, chamada dúvida. Além dos pontos de interrogação, persiste a vontade enorme de algo que não será.

Impossível fugir. Manda a alma, cumpra-se o destino.

(Cheguei de outrora. Só ainda não consigo contar os anos restantes...)

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 03.05.21

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Entre videiras prenhas, como um cão abandonado, os restos mortais do granito e alguns ossitos seus segurando cacos de telhas. Apenas a porta do jazigo era sumptuosa, em chapa de zinco. 

Ouvi-a ranger, só poderia ser um fantasma. Fugi. Talvez regressasse com cereal de viva cor e outras ladaínhas, para de uma vez o afastar.