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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Desafio 52 semanas -1|Pacotinhos de eu

João-Afonso Machado, 03.01.22

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Vão lá dez anos e eu não entrei em Gijón pelo mar. Era um congresso de literatura ibérica em que intervim apresentando um livro meu. A comitiva portuguesa incluía o fado e houve espectáculo no Teatro Jovellanos, uma espécie de viagem no tempo alumiada por candeeiros de latão e lâmpadas amarelecidas nesse retrocesso. Mas o que mais alto falava, o que tudo dizia dos Anos 20 ou 30 em que paráramos, eram os vestidos das damas asturienses, os seus penteados e batons. Um espantoso cenário em que, nos intervalos, se fumava de boquilha, e muito palrava, ao longo de circulares corredores bordeaux.

Nada quis me escapasse nesta incursão pelo Principado das Astúrias, onde principescamente fomos inundados em cidra e iguarias regionais, apaparicados com a melhor disposição e levados em visitas guiadas, uma embarcação ao largo do Cantábrico com o azul das águas e da cidade, da bandeira deles, a crescer-me no espírito, a anunciar-se a cor da vida e dos ideais, um  alvo grito cá dentro de liberdade e independência.

Há dez anos. Quase desaparecia então um advogado, por troca com um homem com tempo ainda para conhecer e interpretar o mundo. Para escrever, mas não já nos jornais, o seu ganha-pão da época estudantil. Não, o aperfeiçoamento da palavra riscada no papel seria o seu caminho, e a pequena cidade minhota das suas origens o seu descanso.

Já lá me esperava a, de todas, mais encantadora Mulher. Com ela viajei e tomei nota do seu apreço por me ler. Desenhava maravilhosamente e fazia-me surpresas... Levou-a a doença, conquanto ainda esteja comigo, sempre comigo, em gratidão e amor. Transmitindo força, determinação, perseverança. Permanentemente ao meu lado, a cada novo livro...

Porque a vida é isto - é ser livre e é viver tentando descobrir porquê e o que vai no eterno azul do branco Além. E conseguir expô-lo, na mais feliz composição de fórmulas literárias.

 

(Desafios da Abelha - https://rainyday.blogs.sapo.pt/52-semanas-de-2022-introducao-392169)

 

Pacotinhos de ruído

João-Afonso Machado, 03.12.21

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«Por cima as gaivotas grasnavam impropérios contra o cagaçal dos homens» assim escreveu José Manuel Palma no seu romance histórico Balada do Remexido, tocada esta nos idos da Guerra Civil, e nos prédios da gente de agora também. Foi o que me ocorreu, na minha predilecção por estas aves que são apenas o que são, cada vez mais intemeratas a distanciarem-se do Litoral. Cá para as minhas bandas, as gaivotas trazem sempre consigo o tumulto inquietante das ondas na invernia.

Gosto do seu voo. As lixeiras onde vão almoçar, quem lhes põe a mesa somos nós. De resto, as gaivotas são pontos esbranquiçados flanando o azul, ou estonteantes velocidades na cinzenta ventania tempestuosa. Dizem coisas roucas na borda dos lagos dos jardins públicos. Correm esticadinhas a bicar as pombas que lhes disputam as migalhas mas, como vizinhas, já conheci muito maior sopeiragem. Essa mesma, a do «cagaçal dos homens». O sururu no verde da praceta, ou as teorias da paz depenadas em práticas de beligerância. Tudo é causalidade e a agitação das gaivotas advém sempre do nosso desconcerto. Sejamos, ao menos, conscientes...

Passa um chá de caridade pelo ar/a ver que asilo há-de ajudar/e a D. Pepa espanhola quase nua/que não passa de moda mas muda de rua.

Passa D. Alda de Carvalho e Castro/Tudela da Fonseca (ó respiração!)/Lopes e Silva e ainda Bastos/entre-parênteses Bramão.

Passa depressa ó João»  - Cortejo, de Alexandre O'Neill).

 

Pacotinhos de incoerência

João-Afonso Machado, 23.10.21

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A "fábula" foi-me contada assim: ela desconhecia a minha amiga mas logrou arranjar o contacto. Convidou-a para um encontro n'A Brasileira. Por qual motivo? Marcou hora e surgiu, a madame, empoleirada nuns saltos stiletto (penso que assim se diz), pouco faltando para o trambolhão e para se fracturar toda; vinha embrulhada em peles de raposa e com um penteado saído há minutos do cabeleireiro. (Não, não trazia boquilha somente pela inoportuna razão de não fumar.)

Sentou-se, pediu um chá, descarregou a bílis e foi-se, tão misteriosamente quanto tinha chegado, sempre vai não vai para se estatelar na calçada húmida.

Isto ocorreu há uma duzia de anos. Ao jantar, a minha amiga, ainda embasbacada, a tentar descrever a figura e eu a rir, a rir, a rir. Como se a estivesse a ver e a ouvir, - meia boca pregando a paz, a outra meia rogando pragas vicentinas.

Que não se afligisse a minha amiga. A história de cada um está repleta disto mesmo. Eu sou tudo menos apologeta e, sinceramente, entendo nada ter a pregar aos meus semelhantes. Roubem-se, matem-se, esfolem-se... Mas algo exijo, e sem isso vamos a parte nenhuma, - coerência. Uma afirmação feita pode ser retratada; mas jamais modelada ao sabor da argumentação.

Por tudo, penara a madame o piparotezinho que se impunha. Era dessas que querem curar todas as angústias do mundo, mas vivendo em conflito aceso com ele e consigo mesmas. Mais uma senhora da guerra, «sempre com o desembaraço de proprietária do destino», como escreveu Vergílio Ferreira.

 

Pacotinhos de projectos

João-Afonso Machado, 01.10.21

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Repugna-me a conversa fiada, a mesa à qual se senta a retórica. Em suma, não nasci para a inacção.

Homem de projectos, então? Jamais. Onde há projectos há a minha inabilidade para o desenho. Compassos, réguas e esquadros são rigores que tropeçam uns nos outros e deles nada sai. Um estirador que não faz nem deixa fazer.... Ignoro como se manejam tais instrumentos e geralmente almoço sozinho. Isto é - comigo apenas, no tempo necessário para sonhar.

Sonho a dormir, sonho acordado, num manancial onde o mau perde para o agradável e o mundo assim opta pelo alcançável. De mochila feita ou de caneta em punho, eis - felizmente - os sonhos a ganharem corpo e o tiro de partida para a viagem de um pobre, ou para a escrita de um de menor valia. Explorando o pouco de que sou dotado, - mas realizando.

Realizando: abrindo as portas, aceitando em mim visões e limitações. O próximo sonho será mais amplo, porventura mais expressivas as imagens e a sua descrição. É um caminho, o da perfeição, sei bem, nunca com meta à vista.

Quedo - nem pelo preço mais elevado! O almoço seguinte será outro campo de visão.

Por isso, senhores projectistas ruminando mapas - "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Assim Pessoa deu forte no atavismo, destronou o espírito burguês e proclamou o império da alma (perdida).

 

Pacotinhos sem vento

João-Afonso Machado, 30.08.21

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Há quem lhes chame também "pacotinhos de escorbuto", invocando as desesperantes vagas de calmaria oceânica, as caravelas estagnando ao sol. E o tempo dos alimentos a sumir, os citrinos ignorados no sossego das suas ramagens. Bocas em chaga, incapazes de deglutir e a marinhagem de antemão condenada.

É, o suminho de laranja quantas vezes substitui com vantagem a cerveja e o tabaco, a conversa pastosa. Não raro, o chorrilho imenso de disparates proclamados em gestos, e na eloquência dos grandes obreiros, simplesmente atiça caminhos ínvios de tempestade e morte...

As semanas passam, passam os meses e, sem ventos, os pacotinhos desfalecem como bigodinhos descuidados. E dormem um sono enganador, letal, que lhes rouba a percepção: afinal os ares tornaram a agitar-se, as velas enfunaram-se e a embarcação renascida chegou já ao destino.

 

Pacotinhos de silêncio

João-Afonso Machado, 03.08.21

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Nada será pior do que a voz alta, caminhando na rua ao nosso lado, a partilhar com o mundo um conversa supostamente dos dois apenas.

Ou talvez só dela. Pensando bem, a voz alta fala muito de si mesma e das suas proezas. Enaltece-se, gosta de se ouvir. Serpenteando entre as gentes, a voz alta tem passada larga e arfa já, quando sintoniza o andar entusiasmado com o volume do som. Será o momento em que conta apaixonadamente um qualquer episódio onde alguém lhe gabou - comovido e agradecido - os seus méritos e a sua caridade.

Tenho constatado isso. Até no mercado, onde a serenidade dos vendedores é o mais palpável indício da qualidade dos seus produtos. Quem muito gesticula, quem muito apregoa... 

E depois a voz alta é sempre critica. Não é exactamente a momentânea voz exaltada. Antes o silêncio proclamado, ensinado, imposto, - enfim, anunciado - aos gritos, como a suprema virtude, a riqueza para nós outros inalcançável.

Não existe mais formidável paradoxo: a voz alta, temível palradora, narrando os seus momentos de recolhimento e meditação. Mais não espantaria o monge tibetano, em levitação magoando os pobres pés descalços dos seus congéneres.

Somente o mutismo saberá defender-se da voz alta. E decerto, também, um sorriso interior, do nosso escondido espírito, desde que ela começa a dizer-se tão dada, tão boazinha.

 

Pacotinhos de psicologia

João-Afonso Machado, 07.07.21

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Foi tarde fustigada por fortíssimas bátegas de asneira. Tal o negro nublado, um livro de nascença americana imbuído de filosofia oriental. Na sua enésima edição... E tal o vento, deixando nas suas páginas a preguiçosa ideia do «sucesso» alcançado sem esforço, apenas pela «aplicação das leis naturais que regem o universo». Só, mais nada.

Ganha-se sempre com estas leituras: a lição de que qualquer um pode mastigar a primeira patranha que lhe vier à ideia, há sempre a quem aproveite; e o real poder imaginativo destes pregadores outrora combustivel inquisitorial. Pois sempre fiquei sabendo que Kafka foi um enorme «filósofo e poeta»; e que o «Eu» é mais do que o «Ego», este reduzido à mesquinha dimensão da «nossa máscara social» («o campo da potencialidade pura é o nosso próprio Eu. E quanto mais possuirmos a experiência da nossa verdadeira natureza, mais próximos nos encontramos do campo a potencialidade pura» - algo decerto evidente...).

Abismado de tanta ignorância, a minha, aprendi outrossim que a «prosperidade provém da afluência, palavra cuja raíz significa "fluir para". O termo "afluência" significa "fluir com abundância"» - para algum lado, provavelmente.

Com os habituais «karmas» e outras leis cósmicas, a parlenga «fluiu» para o dinheiro (recordemos, o guru é americano, professor na California...). Não admira, a sua douta teorização sobre os meios de obter riqueza, ou outros anseios, seguindo à risca as «sete leis especiais do sucesso». Sendo a arguta obra, afinal, o seu enunciado.

Que mais dizer? O dinheiro, a felicidade, a «vida nova», são neste manual devotamente espalhados para milhões de carentes. Mas, por amor de Deus (a entidade criadora do «plexo solar»...), o «imenso campo quântico - o universo -» não «constitui uma extensão do nosso corpo». Não, isso não, eu quero caber nas minhas camisas!

Porque, em suma, o tal livro é somente um universo imaginativo de ideias desencontradas e sequências inconsequentes. Uma marotice. Um direito também, sem dúvida, mas com lugar reservado em prateleira própria e o devido rotuluzinho: Tontices.... Há gente que ainda se deixa enganar, que acredita e depois desespera, que sofre a sério e é permeável à banha-da-cobra..

E nesses deviam atentar a Ética, a Moral, a defesa dos consumidores e a Direcção-Geral de Saúde, vacinando-os. Já nós outros, bem podemos com esses mananciais de espertalhonice, picando em cada parágrafo as incongruências com seus antecedentes.

 

Pacotinhos de felicidade

João-Afonso Machado, 16.06.21

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Estou a vê-la entrar naquela lojinha de especialidades siderais, autênticos produtos gourmet dos segredos do Universo. Já de meia-idade e consultório reputado, onde exibia um quadro do Zandinga com dedicatória e falava tu-cá-tu-lá com os astros todos, para sossego dos clientes que saiam dali sempre a cavalo de uma vida nova.

Pois nesse dia fui no seu encalço e entrei, também, com o pretexto de apreçar um buda qualquer. Nunca me encafuara em semelhantes constelações de mezinhas para a felicidade e a realização pessoal, a sós ou em união homo ou heterossexual. Mas o brilho falante das duas - a balconista, magrinha, ela mais cheia, generosamente decotada, - atraiu-me, seriam talvez os magnetes galácticos a bulir com o meu espírito. E também rumava já o rasto de outra vida, alegre, optimista, positiva.

Somente, a conversa, ao lado, entrou a resvalar, a azedar. Cada vez menos transcendente, metafisicando a carestia dos dias, o elevado custo de tantos frasquinhos de pós e aromas. E do círio rechonchudo onde se lia, de alto a baixo - Encontra a felicidade em ti mesmo!

Tarde aziaga. Eu próprio, um ignorante, o pressenti e confirmei, depois, na bola-de-cristal. Em plena pandemia, as freguesas andam mais cépticas e mais unhas-de-fome. Marralhavam os honorários da nossa encartada psicóloga e é sempre um risco augurar a sua imunidade. Havia que inovar, descobrir novos caminhos sistémicos para a paz e o amor. Talvez saquetas de resignação...

A do balcão ofendeu-se. Jamais alguém pusera em causa o bom nome da sua nebulosa de saberes do Infinito. 

Palavra para cá, palavra para lá, as duas ursas, a maior e a menor, engalfinharam-se, já as costelações deitavam as mãos à cabeça e assobiavam a chamar as respectivas estrelas. O círio da felicidade virou meteorito nas mãos da do balcão; e um frasco de pó uma sujidade cósmica que a cegou.

Assim a psicóloga vidente-sensitiva veio de lá com um galo maior do que a Estrela Polar e um baralho de cartas, afanado na confusão, a puxá-la para uma nova ciência a bem dos seus clientes - o Tarot.