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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

"O vitelo"

João-Afonso Machado, 23.12.21

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Ouvi o adeus de uma voz sem som

como os olhos de um rótulo enganoso

no corpo sem ossos e casca de bom,

 

- bonzinho, repleto de beijos que há de receber

dengoso

 

a mamar na teta lamurienta

já despojada de haver

de uma vaca ferrugenta,

 

senhor e escravo dos seus desejos,

caprichos

 

- estes, outros, sangue, percevejos,

carne, peixe, mais bichos,

uma novilha um dia,

sorri, tenta

mas não a avia

 

e argumenta qualquer fantasia na morte lenta,

de tão torpe vida – o rumo final

o seu mal, fim e fumo, abrevia.

 

"Chove"

João-Afonso Machado, 11.12.21

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A tarde espirrou sem limpar o nariz,

transida de frio, aborrecida, transporte

ido  num triz

 

e o salmodiar baixinho – leve-me o Pai, leve-me a morte –

a tarde a quebrar, o autocarro distraído,

outra vez o lenço de assoar,

céu, nariz, tudo a pingar…

 

Tudo entupido,

bueiros, calçadas, ribeiros,

a tarde prenha de maçadas

assim fossem castanhas assadas…

 

(Transida de frio, aborrecida,

para quando o transporte?)

 

Mas nem bicicleta ou nova camioneta,

sequer alguém, uma voz, não sabia quem

 

(levem-me rápido, dizia, à morte).

 

"Tournée"

João-Afonso Machado, 21.11.21

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Talvez tenha chegado ao previsto destino

ou já venha a caminho

se entretanto não parado

sozinho

tocando inusitado hino,

 

deixando correr torrentes de amanhãs

em lento esquecer histórias malsãs.

 

Talvez tenha chegado…

e sequer haja parado…

 

nem até pago o preço do transporte.

Talvez…

seja o tudo, o começo,

todos os dias outro fim da morte.

 

"Silêncio!"

João-Afonso Machado, 24.10.21

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É hora do poema,

a hora da concentração,

 

- Ó Ema, ó Ema,

atende o telefonema

e diz-lhes que não!

 

- Que não estou nem sei de mim,

é a hora do poema

e tu conheces, Ema, velha servente,

eu fico doente,

nunca anjo, santo ou querubim,

 

diz-lhes Ema,

não sei de mim nesta escuridão

Dás-lhe toda a razão, Ema,

sim, sim, sim,

e não! enfim,

 

nada de recados Ema,

olha-me pelo poema

não vás em rapapés,

(anoiteceu, o patrão faleceu…).

 

Silêncio! – impõe-te assim Ema,

por quem és!

 

 

"Os dois um dia"

João-Afonso Machado, 07.10.21

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Numa vinha matinal quase de nevoeiro

ambos, as armas

e o meu perdigueiro.

 

Foram muitas perdizes levantadas,

os tiros, penas poisando entre os bardos

na queda e, sempre arteiro, peças cobradas

pelo meu perdigueiro.

 

Sol alto de cartucheira vazia.

Um andar mais vagaroso de horas de salto

e a derradeira paragem,

a moita, esta menos afoita não fugiria

ao empenho garboso, tão prazenteiro,

do meu perdigueiro.

 

Três disparos, o último fatal,

mai-lo bom sorriso conhecedor

de quem sabe e muito pode…

- Filho dei-lhe um bigode, mas para quê essa dor

se vivemos o sem-tempo imortal?

Pois eu ainda inconformado (duas só e um coelho enganchado),

- Pai, Pai, isto foi trabalho inteiro do meu perdigueiro!

 

 

Desafio Trinta Dias de Escrita|"A minha tília"

João-Afonso Machado, 03.10.21

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Esfacelada em gumes morreu

e sua ossada o granito por respeito poupou.

(Morta viva, o muro hirto…)

Antepassada! Teu madeiro pereceu no vento

que o tombou, corpo roído de podridão,

 

sustento de uma e outra geração.

Ser partido no tempo frondoso

aos tantos netos sombroso.

 

Anos sem conta esquecido na escuridão

até ao dia de tempestade, velho tronco

de musgo por enquanto

poisado na pedra, musgo que já não medra,

 

velho tronco, Deus há de te guardar em memória

da imensa vastidão

 

de todos os mortos em glória,

dos mais vindouros de quem é a história

e de mim, árvore, musgo, tília

dos meus tesouros

eterna mobília.

 

 

(Publicado no Desafio 30 Dias de escrita - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/desafio30diasdeescrita)

"Soneto a Kalina"

João-Afonso Machado, 11.09.21

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Onde te descobri, perfil de outrora

Jamais esquecido, sei-o de cor,

Onde lembrei anos de mundo maior

Afinal pequeno, que o grande é fora.

 

Esse nariz, o olhar, pedra de agora,

O corpo, a túnica, tudo uma flor,

E o canto, a fala, mais outro amor

Apelando – vamos, vamos embora…

 

Kalina, Kali te chamam os teus,

Vieste de longe, tempo trirreme,

Por esses sacros mares de Zeus

 

Como alva vestal que jamais treme,

Kali, acima nós hoje vera fada

Dos nómadas, e a mim, Kali, – nada!

 

 

Desafio Trinta Dias de Escrita|"Cem palavras de poema"

João-Afonso Machado, 07.09.21

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E nem mais um ai! – eu pobre poema

espartilhado entre cem palavras cumpridas a rigor

reprimido ou alargado o tema, botão colarinho dor.

 

Adjectivo – sai, frase vã sai também

eu sou tão cativo como ninguém.

 

Com o mundo privo pelo postigo da cela,

asfixiante visão, mar e planície, azul e trigo,

triste ilusão, o vento embalando uma vela…

 

Onde iria, onde meu espírito vai além

das cem palavras e nem um ai,

alguém imaginará?

 

(Mãos às grades torcendo dias de asas que não há,

horas jamais a esvoaçar

e a maré a secar

em cem palavras sem mais um ai.)

 

 

(Publicado no Desafio 30 Dias de escrita - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/desafio30diasdeescrita)

 

 

 

"Soneto do xisto"

João-Afonso Machado, 27.08.21

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Regam o mapa tantos filamentos

Perdidos e soltos, traços escuros

Sem voz nem letras, para além dos muros

Cravados nos montes lisos dos ventos.

 

Uma árvore, alguém, um só pensamento…

O verde vegetal, frutos maduros,

Ínfimas gotas de córregos puros,

Um cão, os gatos, um acontecimento…

 

Mas nada. Nada senão um vão ninguém

Entre lajes semelhando defuntos

Jazendo de almas em ignoto Além.

 

Foi assim, aldeia despida de untos

E fumeiro, o teu acolher imprevisto

De pedra e arestas - aldeia de xisto.