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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

"A preto e branco"

João-Afonso Machado, 12.06.22

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Provera se cruzassem um dia

a gasta viela tão já corrida

com o sol dessa nova via

fresca presença de vida.

 

Mas nunca porém

os rigores antigos da escrita

hão de trazer alguém,

 

severos castigos de hirta

gramática

 

onde te cansas coração

de errática silhueta estrada além

descalça, sem pontuação,

branca?, preta?

 

Outros o descobrirão.

Eu não.

 

"O conto"

João-Afonso Machado, 22.05.22

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Vai em lágrimas neste ideário

algemado o biltre sob custódia

firme da lei por um lado,

 

no outro seu dicionário

aberto em par de paródia.

 

Triste maestro apeado de batuta partida,

outra vez o dito por não dito, instante rapsódia,

diária luta, aflito calvário…

 

- E agora vamos embora!,

(algemado o biltre sob custódia)

findo é o conto do vigário!

 

"O dia calado das glicínias"

João-Afonso Machado, 16.04.22

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Nada dirão hoje silenciosas

ante olhos em cantochão

cobiçando suas campainhas

 

nas longas vestes majestosas

dos seus lilases de rainhas.

 

E aos molhos despertarão

amanhãs e as gentes

as glicínias esparsas no chão

como sinos frementes, arremetidas

ígneas cores ecos, afinal flores

 

de vozes acreditando perdidas

no novo rei dos seus amores.

 

"Montarias"

João-Afonso Machado, 07.04.22

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Hei pois de subir à serrania

o tempo a arfar para trás esquecido

pela matilha dos sonhos a ladrar.

 

Já no cimo gesticula desvanecido,

chama, grita, assobia

um disparo de alma nova

pela matilha dos sonhos a uivar.

 

Ergo triunfal a jovem trova,

o seu alar em traço ferido

pela matilha dos sonhos a rondar,

 

ergo-a  bem alto e volto  à cova,

ela comigo pendurada,

rima ensanguentada

 

(a matilha dos sonhos sem sossegar)

para mais logo a cantar.

 

"Intervalo"

João-Afonso Machado, 01.04.22

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Regresso enfim à pequenez das horas

onde acordam os sonhos

dorido pranto

entre giestas em flor

e o devir das amoras.

 

Contido recanto

de uivares medonhos,

 

águas no vale corredor

por ventos picados com esporas

 

sem limite dos montes

plantios eternos as penedias

cascata de estrelas e fontes,

fossem tantos todos os dias.

 

"Socalcos"

João-Afonso Machado, 17.02.22

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Trepando o tempo já muito alto

socalcos balcões da vida

tão no fundo

inaudíveis palcos em distante mundo

 

- ósseos socalcos!

da carne de bicho do monte

que amareleceu bravia

e seca de ócios secou a fonte.

 

Tudo se foi um dia,

ecos e as perdizes

horizonte xistos felizes

após a vindima

 

socalco a socalco nessa via

acima o destino calco,

 

- talvez feroz, o destino

de todos nós.

 

"O vitelo"

João-Afonso Machado, 23.12.21

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Ouvi o adeus de uma voz sem som

como os olhos de um rótulo enganoso

no corpo sem ossos e casca de bom,

 

- bonzinho, repleto de beijos que há de receber

dengoso

 

a mamar na teta lamurienta

já despojada de haver

de uma vaca ferrugenta,

 

senhor e escravo dos seus desejos,

caprichos

 

- estes, outros, sangue, percevejos,

carne, peixe, mais bichos,

uma novilha um dia,

sorri, tenta

mas não a avia

 

e argumenta qualquer fantasia na morte lenta,

de tão torpe vida – o rumo final

o seu mal, fim e fumo, abrevia.

 

"Chove"

João-Afonso Machado, 11.12.21

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A tarde espirrou sem limpar o nariz,

transida de frio, aborrecida, transporte

ido  num triz

 

e o salmodiar baixinho – leve-me o Pai, leve-me a morte –

a tarde a quebrar, o autocarro distraído,

outra vez o lenço de assoar,

céu, nariz, tudo a pingar…

 

Tudo entupido,

bueiros, calçadas, ribeiros,

a tarde prenha de maçadas

assim fossem castanhas assadas…

 

(Transida de frio, aborrecida,

para quando o transporte?)

 

Mas nem bicicleta ou nova camioneta,

sequer alguém, uma voz, não sabia quem

 

(levem-me rápido, dizia, à morte).