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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

"Soneto do sul"

João-Afonso Machado, 09.06.21

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Diz-la longínqua sempre indo mais além,

Ilusão cardeal envolta em tule,

Falsa transparência, pulsão de azul,

Céu a mentir, está e não está também.

 

Ou no fim do horizonte grita – vem!

E eu parto. Sem temor qualquer que anule

Este querer partir, chegar a sul

A abraçar-te, abraçar-te vezes cem.

 

Vem nas horas da minha alma e desejo

Livre, na liberdade que almejo

Como desenhei grave fundo risco

 

No mundo apeadeiro ignoto, tão arisco,

Onde chegarei, sul, sul, no Verão

Nada querendo menos solidão.

 

 

"Uma só rosa"

João-Afonso Machado, 01.06.21

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Pensei em todo o canteiro,

pensei-o tão colorido, inteiro

de rosas a oferecer-te.

 

Mas havia uma só, tom do dia

em que não irei perder-te.

 

E foi essa. Foi na alegria

de a encontrar macia

no teu pescoço, em teus cabelos,

casando perfumes

e o imenso alvoroço de um sorriso

assim conciso ao sabê-los

 

(sorriso terno, envergonhado…)

 

o sinal de um dia, um dia a chegar,

sinal de calmaria e o dia a cavalgar

 

(sorriso terno, envergonhado ao sabê-los

em nosso trespassado olhar).

 

 

"Instantes sem tempo"

João-Afonso Machado, 15.05.21

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Longos passos de um cristal limpo.

Espera e ansiedade, o coração no limite

da impureza do sangue transparente e rasgado na dor

dos elos alados esvoaçantes.

 

Três poluentes dias.

Em bocados caindo de horas doridas

de espadas entre o pó e os precipícios onde morrem ilusões

e se erguem fantasmas vingadores de toda a incredulidade

(mesmo arrependida).

 

Uma tarde engasgada de sol e chuva.

No insensível pavimento das ideias

pequenos derradeiros afazeres em lugar meu, vislumbre de terra fértil,

e lápis que é carvão e vontade e arauto-eco

dos modos exactos de uma emoção.

 

 

"Soneto da giesta"

João-Afonso Machado, 08.05.21

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Vamos primavera, vamos em festa,

Encanto do sol nosso, meu nascente,

E vivamos de alma sempre presente,

Mil pés e outros mil, de tanta giesta.

 

Abre-te primavera, anda, sê lesta,

Sol a crescer, estrela e luz dolente,

Deixa vincos, deixa vida – mas sente

A tua marca neste mundo, a tua gesta.

 

Sorri, por fim, primavera descansa:

Virão tempos, tempestades, desgraças,

E depois a vida que vem e avança

 

Em ruas e vilas, na nudez das praças,

Flores do campo, amarelos em trança,

Giesta aos molhos as portas abraças.

 

 

 

"O cântico da borboleta"

João-Afonso Machado, 28.04.21

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O teu nome borboleta,

hei de o saber e há de rimar com liberdade

e calor,

 

com verdade e amor,

vagas de cabelo primaveris

ou todas as razões de uma tarde feliz

 

mulher alada, braços que esvoaçam e sem som

se esgaçam,

borboleta em riscas poisada

num instante indolor,

apenas traços

 

que voam assim,

violeta de cor,

 

em imenso jardim, borboleta,

o teu toque de flor.

 

 

"Enigmas de uma sexta-feira"

João-Afonso Machado, 02.04.21

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Se amanhã, Primavera, der contigo

levar-te-ei as cores e os cachos de glicínias, as dores

de quem espera, Primavera,

por uma tarde além,

as três horas que aí vem

 

nesta sexta-feira

 

sem camélias nem verdes nem rosas,

toutinegras, piscos, felosas,

somente com tal bandeira,

 

a da morte que só matou

nesta sexta-feira.

 

 

 

"Ave do rio"

João-Afonso Machado, 28.02.21

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Foi muito além.

Num voo inesperado ergueu-se a ave

e debandou e planou,

riu chorou piou

mas já não vem.

 

Disseram-ma ingrata.

Talvez.

A ave voou, riu e chorou piou,

assim se fez e foi na cata

de outro poiso em que poisou.

 

Vai então ave, te oiçam as gentes e digam

- riu e chorou piou,

enfim acalmou

 

que alguém na outra margem,

já finda a viagem,

lhe deu a comer o gosto de ficar e viver.

 

 

 

"Jorrando sem virgular"

João-Afonso Machado, 07.02.21

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Ouve o sol não visível

abrindo em janela o pensar onde é possível

um olhar dele a sonhar

 

até contigo… velho amigo

sempre a lamuriar o dia da morte

ainda não a tua sorte

e por isso ergue o porte

e continua a alma e o ténue dizer dos dias

 

que hás de viver

onde continuarão sem antes sintas a hora

de ires embora

 

não te adiantes e sê paciente

 

que há vozes de podridão

e uma mente de agora

amigo 

 

querendo-te fora esquecido num mar

assim comigo também

 

esses que sonham matar

indo e indo sempre além.

 

 

"Penitente"

João-Afonso Machado, 23.01.21

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Ajoelhou as ideias na clausura ao centro

e chorou bagos de água dura,

 de si as trazia dentro.

 

Acreditara em um dia enfim

a levara nem sabendo quem era

- apenas não mais sofrendo assim

a grilheta que arrastava,

bola preta, dentes a ferrá-lo de espera.

 

Mas tudo foi nada, uma miragem somente,

mar mudo, águas sem margem,

e lodo lodo, mágoas de lodo,

tão porca imagem demente

por ele todo.

 

 

"Xadrez"

João-Afonso Machado, 06.01.21

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Eu joguei com o melro xadrez em manhã de geada

e ele saltitava perdido a cada vez

em que jogava.

 

Não sabia das peças, dessas mais valiosas,

o bispo, a torre, o cavalo,

a Rainha, Senhora minha.

 

O melro desconhecia meças,

ou quem morre, quem levá-lo,

jogadas morosas ficam-lhe além

 

porque o melro não sabe antever o sol

e por isso, sem cores,

deu o Rei a perder

rendido a amores,

 

alma mole sem compromisso,

sempre saltitante

o melro pintado das dores

de um amante.