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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

"Soneto a Kalina"

João-Afonso Machado, 11.09.21

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Onde te descobri, perfil de outrora

Jamais esquecido, sei-o de cor,

Onde lembrei anos de mundo maior

Afinal pequeno, que o grande é fora.

 

Esse nariz, o olhar, pedra de agora,

O corpo, a túnica, tudo uma flor,

E o canto, a fala, mais outro amor

Apelando – vamos, vamos embora…

 

Kalina, Kali te chamam os teus,

Vieste de longe, tempo trirreme,

Por esses sacros mares de Zeus

 

Como alva vestal que jamais treme,

Kali, acima nós hoje vera fada

Dos nómadas, e a mim, Kali, – nada!

 

 

Desafio Trinta Dias de Escrita|"Cem palavras de poema"

João-Afonso Machado, 07.09.21

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E nem mais um ai! – eu pobre poema

espartilhado entre cem palavras cumpridas a rigor

reprimido ou alargado o tema, botão colarinho dor.

 

Adjectivo – sai, frase vã sai também

eu sou tão cativo como ninguém.

 

Com o mundo privo pelo postigo da cela,

asfixiante visão, mar e planície, azul e trigo,

triste ilusão, o vento embalando uma vela…

 

Onde iria, onde meu espírito vai além

das cem palavras e nem um ai,

alguém imaginará?

 

(Mãos às grades torcendo dias de asas que não há,

horas jamais a esvoaçar

e a maré a secar

em cem palavras sem mais um ai.)

 

 

(Publicado no Desafio 30 Dias de escrita - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/desafio30diasdeescrita)

 

 

 

"Soneto do xisto"

João-Afonso Machado, 27.08.21

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Regam o mapa tantos filamentos

Perdidos e soltos, traços escuros

Sem voz nem letras, para além dos muros

Cravados nos montes lisos dos ventos.

 

Uma árvore, alguém, um só pensamento…

O verde vegetal, frutos maduros,

Ínfimas gotas de córregos puros,

Um cão, os gatos, um acontecimento…

 

Mas nada. Nada senão um vão ninguém

Entre lajes semelhando defuntos

Jazendo de almas em ignoto Além.

 

Foi assim, aldeia despida de untos

E fumeiro, o teu acolher imprevisto

De pedra e arestas - aldeia de xisto.

 

 

"Agosto"

João-Afonso Machado, 01.08.21

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No tempo de ocultas palavras só minhas

procuro dias de ninguém mais,

o momento das grutas

ou o grito das luas

minguando quartos e tecendo linhas

 

no vagar das agulhas, comboios dormindo

em acalorados ramais.

 

Longe o mudo eco de dissolutas areias

de vozes pulhas, feias, nuas.

 

Sol, sol, as gentes são tuas,

leva-as que eu ficarei

em semanas opostas a onde vais.

 

(Tempo de palavras minhas,

grutas e gritos repousando

como ensonados ramais.)

 

 

 

"Getsmani"

João-Afonso Machado, 09.07.21

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Durou tão pouco a ensolarada visão

subida a serrania, tão pouco durou

o sorrir da fantasia.

 

Logo foi partir. Logo foi

o brado da corda, o alçapão

derradeiro estremecer do olhar

na hora do vazio.

 

Demora no frio desse altar

(subida a serrania)

um adeus sem horizonte nem sorte

gemido a sós

(o brado da corda)

 

e ao cimo do monte a incerta voz

de um dia a morte.

 

 

"Trafaria"

João-Afonso Machado, 20.06.21

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Água sussurrante de cor sem raça,

brilhante

e a sobrevoar de asa caída a fome

durante mil gaivotas de ameaça,

um beijo um só desejo

 

(vida, vida, 

come, come),

 

rouba-me o ar e o ensejo

de me abismar em maresia

 

entre botes, casinhas, essa pose fria andante,

cargueiros de aço devasso,

o areal uma fantasia,

 

tudo nada era real

nesse dia, hoje, doravante.

 

 

"Soneto do sul"

João-Afonso Machado, 09.06.21

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Diz-la longínqua sempre indo mais além,

Ilusão cardeal envolta em tule,

Falsa transparência, pulsão de azul,

Céu a mentir, está e não está também.

 

Ou no fim do horizonte grita – vem!

E eu parto. Sem temor qualquer que anule

Este querer partir, chegar a sul

A abraçar-te, abraçar-te vezes cem.

 

Vem nas horas da minha alma e desejo

Livre, na liberdade que almejo

Como desenhei grave fundo risco

 

No mundo apeadeiro ignoto, tão arisco,

Onde chegarei, sul, sul, no Verão

Nada querendo menos solidão.

 

 

"Uma só rosa"

João-Afonso Machado, 01.06.21

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Pensei em todo o canteiro,

pensei-o tão colorido, inteiro

de rosas a oferecer-te.

 

Mas havia uma só, tom do dia

em que não irei perder-te.

 

E foi essa. Foi na alegria

de a encontrar macia

no teu pescoço, em teus cabelos,

casando perfumes

e o imenso alvoroço de um sorriso

assim conciso ao sabê-los

 

(sorriso terno, envergonhado…)

 

o sinal de um dia, um dia a chegar,

sinal de calmaria e o dia a cavalgar

 

(sorriso terno, envergonhado ao sabê-los

em nosso trespassado olhar).

 

 

"Instantes sem tempo"

João-Afonso Machado, 15.05.21

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Longos passos de um cristal limpo.

Espera e ansiedade, o coração no limite

da impureza do sangue transparente e rasgado na dor

dos elos alados esvoaçantes.

 

Três poluentes dias.

Em bocados caindo de horas doridas

de espadas entre o pó e os precipícios onde morrem ilusões

e se erguem fantasmas vingadores de toda a incredulidade

(mesmo arrependida).

 

Uma tarde engasgada de sol e chuva.

No insensível pavimento das ideias

pequenos derradeiros afazeres em lugar meu, vislumbre de terra fértil,

e lápis que é carvão e vontade e arauto-eco

dos modos exactos de uma emoção.

 

 

"Soneto da giesta"

João-Afonso Machado, 08.05.21

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Vamos primavera, vamos em festa,

Encanto do sol nosso, meu nascente,

E vivamos de alma sempre presente,

Mil pés e outros mil, de tanta giesta.

 

Abre-te primavera, anda, sê lesta,

Sol a crescer, estrela e luz dolente,

Deixa vincos, deixa vida – mas sente

A tua marca neste mundo, a tua gesta.

 

Sorri, por fim, primavera descansa:

Virão tempos, tempestades, desgraças,

E depois a vida que vem e avança

 

Em ruas e vilas, na nudez das praças,

Flores do campo, amarelos em trança,

Giesta aos molhos as portas abraças.