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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 05.12.21

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Acabadinho de chegar de avião, numa dessas viagens em que se vê o mundo pelo canudo da máquina fotográfica. Mas recusando confessar as razões porque decidi aterrar na Portela de Sacavém... Mesmo muito cansado, dei comigo em Alfama, às voltas como os meus perdigueiros, de faro no ar. Ou melhor: de ouvido no zumbido da cidade. E tanto me ensinaram os cães, não demorou topar as eternas pulseiras, em toque de mágoa num laço onde Lisboa me estrangulava. - Olá! - Olá!!! Por cá?! - Pois, pela Capital, já nem recordava sob que pretexto... Isto tudo na Rua dos Remédios, com o Beco do Surra a descer de esguelha. Evidentemente, encontrara as coordenadas do nosso almoço, já ali, num tasco qualquer. E sentámo-nos à mesa, proclamando peixe fresco: robalo para os dois.

Nunca antes o frente-a-frente fora tão doloroso. É certo, a sua cabeleira permanecia dourada, brilhante. Mas o resto... Emagrecera em demasia e achei-a macilenta, triste, deslavada, com as pulseiras a dobrar a finados... E uma máscara a tomar-lhe a bonita, espevitada, expressão. - O covid veio para ficar, somos todos "cadáveres adiados" - definhava ela.

Desculpei-lhe o lugar-comum mensagista-sebastianista. Foi só falsa intuição minha, não se afogou em aguardente. Enfim, a usual arte dos ditos estafados. Com a escolha dos vinhos a meu cargo, chamei uma pinga alentejana de calibre 14º, e a minha querida amiga quase tomou conta da garrafa, como se de uma vacina anti-pandémica. Então palrou.

É óbvio, a conversa travou-se apenas entre nós. Esqueçam, por isso, a volúpia dos pormenores. Agora sei - adianto somente - muito da sua vida, mais da solidão e dos temores que a levaram a um recôndito estúdio sobre Santa Apolónia, em busca da paz, do Tejo-pai e da saúde.

- Mas está doente? - interroguei, alarmado. Não estava, mas podia vir a estar... - Ora, ora... -  Ora nada, o covid... Como se impunha, calei as minhas andanças por países dos milhares de novos casos diários. E o almoço foi isto.

Isto e a conta final, que a minha delícia insistiu a meias, "à moda do Porto". (Comigo, com um Senhor do Minho!...) Olhando o papelucho trazido à mesa, cresceu de indignidade - O robalo era só espinhas, refugo de anteontem, uma porcaria!... - A máscara dorida fugiu-lhe da cara e ainda cuspitou (cuspitaram-se, ela e a patroa, a D. Fulgência), ampla troca de mimos - Oh! filha, para a próxima vez escolhe o Tavares! - Escolho é a DECO! - Anda lá, paga, senão chamo a Polícia! - Vale dizer, uma prolongada troca de mimos e ripostarias, comigo sem voz a acenar o cartão Multibanco, como o simbólico trapo branco dos vencidos.

Afinal despedimo-nos afectuosamente. Percebi, regressava a casa, o seu esconderijo, o sossego da sua quarentena, com mais um teste na primeira farmácia do percurso. Esse mesmo propósito me ocorreu, não fosse a dita chuvada de perdigotos inflamar o Norte inteiro. Mas, verifico tantos dias volvidos, teria sido um desperdício! 

 

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 19.09.21

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Lisboa está diferente. Entre ruas ou avenidas e os passeios tem umas vias estreitas com muitos desenhos de velocípedes. E centenas de bicicletas e trotinetas presas como vacas leiteiras, propriedade da Câmara Municipal, à disposição dos transeuntes. Abismei! Sempre com a noção de que, depois de Cristo ter dado a vida por nós, nada é oferecido, tudo se paga. Mas eu não sabia como era, nem me apetecia pedalar. Assim fui indo, atento às novidades, movido pelas pernas desde o Saldanha até Santa Apolónia. Confesso - tão cedo não tenciono voltar à Capital.

O trânsito automóvel é o mesmo. Raríssimos os ciclistas. Restavam as trotinetas que eu vi a curvarem como o Miguel Oliveira, o joelho dos condutores a rasar o pavimento. E havia também uns trotinetões, tamanho FPB (família pequeno-burguesa), sem embargo do consequente aspecto achinesado da sede do Império, algo a que os cristãos-velhos portucalenses torcem desagradados o nariz.

Depois, as trotinetas, velocíssimas, silenciosas quais raposas, assemelharam-se-me o perigo maior. Deixei as cautelas com os autocarros e os táxis e centrei-me, obsessivamente num hipotético título da primeira página do CM - "Nortenho vem a Lisboa e morre trucidado por uma trotineta"... (Subtítulo - "O óbito foi declarado no local"...)

Não, todo o cuidado era pouco. E tão prevenido seguia, nem dei conta da minha amiga (não fora o tilintar das suas pulseiras) ali pelo Rossio, a calça de ganga elástica, a perna... a perna, meu Deus, iam-me saltando pensamentos que eu enxotava com a mão, como se varejeiras fossem... - Olá!!! - Olá!!! Por aqui???

Por ali, pois, a caminho do comboio. - Mas assim? Porque não de bicicleta? - Em boa verdade, tive vergonha de lhe dizer, ignorava como desencabrestar as máquinas. E alvitrei com a necessidade, esta mania de andar... em último recurso, o táxi...

Tomou-se de fúrias. Foi longa a prelecção sobre o dióxido de carbono e todos os modernos ditames acerca da vida saudável. Tudo ouvi na maior humildade, espreitando de través o relógio. Já só podia apaziguar a sua exaltação prometendo apanhar a primeira trotineta que encontrasse, encostada a uma esquina qualquer. A minha amiga deve-se ter dado por satisfeita, sentou-se no banco de um triciclo e deu as suas ordens. Partiu. Atrás dela, ao volante, esgatanhando-se a pedalar, um asiático baixinho, já a suar em bica. Santo Deus, a minha tilintante amiga, loirissima, combatia o dióxido de carbono a bordo de um riquexó!

 

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 17.06.21

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Agora mesmo me pergunto como fui parar a Lisboa em plena maré dos Santos Populares. Qualquer coisa se me atravessou no espírito, que por cá vou permanecendo sem dar com o caminho de regresso. Enfim, coisas de parolo cosmopolita, guloso de tudo quanto seja novidade, desde a boa mesa do Jockey às maravilhas da Fertagus. Por isso me decidi a uma cristianíssima cruzada na Margem Sul - tomando-a de surpresa a bordo de um comboio.

É claro, dirigia-me, então, para a estação, já nas cercanias do Hotel Roma, quando dou conta da minha amiga, caminhando furiosamente, a parecer falar sozinha. Vinha dos lados da Praça de Londres, em todas as interessantes transparências inerentes a esta acalorada época e, pelo tilintar das pulseiras, muito, muitíssimo, contrariada.

Estaquei, firmei a lança no passeio, como os nossos antepassados guerreiros, e aguardei a arremetida.

Mal me cumprimentou, possessa, a fumegar. Há longos meses preparando a marcha de Roma/Areeiro e, acabavam de lhe confirmar, a besta do Medina este ano proibira o desfile na Avenida da Liberdade. - Por causa dessa estúpida covid inofensiva! - exaltava-se, muito negacionista.

Prudentemente, mantive o silêncio. - Uma marcha de Roma/Areeiro? - pensei - E como seria a coreografia? Eles de blusão negro e capacete, elas de jeans com os joelhos à vista? E as motas rugindo a fazer "cavalinhos"?

Aguardei por mais informações que não chegaram. A minha querida amiga terá pensado que a zona se solidarizava consigo. E vai de ensaiar o seu inédito repertório, desatando a saraquitar, as mãos à cinta, entre as mesas da esplanada mais próxima - «Um craveiro nas águas-furtadas/cheira bem, cheira a Lisboa/Uma rosa a florir na Tapada/cheira bem, cheira a Lisboa», tralará, tralará, lalalá...

E perante a estupefacção dos presentes, este manjerico nortenho, deitou-lhe as mãos aos ombros e, em filinha, gingou e cantou com ela, também, acudindo à sua súbita "branca" - «...A fragata que se ergue na proa/a varina que teima em passar/cheiram bem porque são de Lisboa/Lisboa tem cheiro de flores e de mar».

Após o que, tomando as rédeas ao cavalo do meu destino, montei, desci à gare e embarquei no trem para mais uma epopeia do Barreiro a Almada.

 

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 01.05.21

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A brincar, a brincar, vai lá uma década! Como o tempo corre, parece ter sido ontem a minha estadia em Lisboa no quartinho ao Campo das Cebolas, a sua dona tão amável, soube há pouco, sucumbira à famigerada covid, coitadinha! Que impressão!, nunca a senhora me falara em familiares, como teriam sido os seus últimos dias, onde repousaria agora?, que eu lá iria a uma visita, um pensamento mais perto pensado...

Então, as minhas deslocações diárias à Torre do Tombo, o eléctrico (o bintóito) propositadamente apanhado para me cruzar com ela: sempre arisca, a pequena, sempre cheia de energia e projectos, sempre defensora de causas agitadas pelo tinir das suas pulseiras. Loirinha, de magnífico torneado.

Custou aceitar, não era menina de se lhe deitar a mão. Mas fomos criando essa amizade com o seu quê de áspero, rematada em fugidios beijos de despedida.

Agora mesmo, invariavelmente envolvido em investigações locais sobre a minha terra, que em absoluto dispensa a Torre do Tombo, vou com alguma regularidade a Lisboa, a visitar os amigos e um ou outro conspirador monárquico, conquanto já não vá nessas balelas da sedição dos quarteis. Ah!, esquecia-me: tenho um telemóvel e assim manifesto à minha amiga um Feliz Natal, uma Santa Páscoa (ela o "Santa" chuta para fora), os parabéns, quando faz anos (do meu aniversário, invariavelmente esquece-se...), e a convido para jantar, se estou na Capital.

Isso aconteceu recentemente, já depois do desconfinamento, num restaurante enorme das Docas, quase vazio, uma pequena fortuna a debitar no meu cartão de crédito...

E não pude deixar de sorrir ao recordar o nosso primeiro jantar. Ainda no tempo do quartinho no Campo das Cebolas. A minha amiga muito empenhada em ensinar-me a estar à mesa; eu forçando uma certa boçalidade provinciana, só porque me sabiam bem as suas mãos nas minhas, a quente fragância do seu perfume (também sei dizer estas coisas) a rondar-me o nariz... Enfim, tão completa massagem espiritual.

Mas não deixei, então, de lhe dar a sapatadita com luva branca: muito esticadinho e em tom discretíssimo, chamei o funcionário - que tirasse de cima da mesa a garrafa do, aliás excelente, tinto alentejano e trouxesse um apoio lateral para a mesma; em alternativa, cumprisse a sua missão de vaivém, a cada vez que os copos necessitassem de recarga.

Ele, muito atencioso, aquiesceu com uma vénia quase. Ela apercebeu-se. Eu nada acrescentei. No entanto, aquelas pulseiras não mais tilintaram essa noite, como num silêncio de quem está na ressaca do Santo António.

 

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 13.02.21

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Vai haver gritaria, mas o certo é que fui, pelos mais altos poderes, enviado a Lisboa para avaliar a maluqueira dos lisboetas nesta altura do covid. Missão: trazer ao Norte todas as evidências contra a ordem pública. Empreendimento por demais simples, conquanto arriscado - como se comporta aquela gente em tão profíqua maré pandémica?

Garantido o seguro de vida, parti. Mascarado, previdente, incógnito e desconfiado. Não era caso para menos... E, andando, andando, anotando um rol vasto de tolices, dei comigo na Praça de Alvalade: um espaço amplo mas perigoso, em que parei, desanuviei o nariz e contemplei.

Lembrei o Santo e o santo Amigo, seu estudioso, há muitos anos já no Céu. Muito chorado entre os principais da minha Família, esse grande Senhor. E estava eu em tais pensamentos quando ouvi tilintar.

O meu cabelo, a minha alva barba, não há máscaras que os disfarcem. Sei bem, as pulseiras no inverno ficam esquecidas na gaveta. Elas não se vêem, nem cumprem o seu sonoro dever, entre camisolas e casacões. Ainda assim, havia ali algo de um ritmo próximo, de sempre. Olhámo-nos: a mascara dela estava carregada de sinetas, faces abaixo. E eu já a fazer-me ao beijinho, a tirar o trapo de cima da boca, e Sua Excelência, - Não, não, todas as cautelas e mais algumas, vivemos um perigo iminente!

Obedeci. E nasalmente fomos discorrendo sobre Santo António, o padroeiro de Lisboa, nas decididas e aloiradas palavras da minha Amiga.

- Olhe que o padroeiro é S. Vicente - retorquia este minhoto, aliás muito devoto do santo, que há gerações tem nome nos primogénitos da sua estirpe... - Nada! É Santo António, é só ver pelo nosso feriado municipal...

Lá me tentei explicar. Na minha terra, o feriado é o mesmo, mas o orago é Santo Adrião. E, sem querer, aproximava-me. - Espere aí! Respeite o distanciamento social! Respeite a etiqueta! E ponto final, o nosso padroeiro é Santo António!

S. Vicente é assaz mais milagreiro. Nesta sua imprecaução, a minha Amiga, sempre cintilante, campaínhas em vez de pulseiras, e com tantas cautelas, espirrou caudalosamente, vazando a sua máscara e atingindo-me em cheio nos óculos.

- E agora? - vinguei-me - fico de quarentena? Valha-me Santo Adrião, S. Vicente e o conúbio de Santos Antónios, o famalicense e o alfacinha...

Ainda a minha loiríssima Amiga me quis convidar para almoçar, à laia de perdão. Tão assarapantada estava que esqueceu, o confinamento fechou os restaurantes todos...