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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Javier (em Navarra)

João-Afonso Machado, 28.06.22

Subitamente, tudo acontece muito depressa: Pamplona ficara para trás, sai-se da autopista, entra-se numa carretera normal e topa-se a indicação no desvio para uma subida a sério - Javier. Só quem souber algo mais enveredará por aí.

Porque é do castelo de Javier que nos aproximamos. Fortificação que remontará aos sarracenos do século X, depois tomada no período da Reconquista Cristã e palco de muitos desaguizados entre as Coroas de Navarra e de Aragão.

Como qualquer castelo, o seu lugar é cimeiro. Por isso, a pequena aldeia de 100 habitantes primeiro,

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toda ela de olhos fechados, regalada na sua sesta, quatro bandeiras quietas nos mastros (as do costume: da UE, de Espanha, de Navarra e do Ayuntamento) sem a mínima intenção de me apresentarem o "Consistório", porventura a Junta de freguesia deles, que tanto me apetecia conhecer. Mas o ar fervia... E somente lá em cima, enfim, junto às muralhas parei e bebi um pedaço forte de brisa aquecida como qualquer chávena de chá fumegante para quem já vem a suar - reconfortando, feitas as contas.

O elemento de mais idade é a torre de menagem (dita de San Miguel). O castelo foi deitado ao chão de onde se levantou maior, reconstruido com outros torreões, ponte levadiça e até uma capela, em cujos murais se desenha uma Dança da Morte única em Espanha.

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Tudo não seria muito mais do que isto se, no século XVI, não pertencesse o castelo à Família de Francisco, o santo que daqui partiu, andou por França, embarcou para o Oriente, pisou terras do Japão e só não logrou passar os muros da casmurra China. S. Francisco viria a morrer de exaustão, sendo sepultado em Goa, onde ainda hoje é venerado. E também por estas bandas, em que anualmente se realizam umas concorridas Javieradas.

O castelo, em finais do século XIX,  pertencia à Duquesa de Villahermosa que o doou à Companhia de Jesus. Transformou-se então num museu evocativo de S. Francisco Xavier e é notável o acervo de pintura e peças diversas conexionadas com a sua vida. Mas, essa tarde, a minha atenção ia mais para o lado guerreiro dos Senhores de Xavier e as diversas panóplias de armas na pedra fascinavam-me.

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Porque ali estavam as concepções quinhentistas do combate apeado: as espadas que trocavam as voltas às cimitarras asiáticas, o papel defensivo e surpreendente das adagas, o requinte do elmo árabe e um desses capacetes que os portugueses perderam aos milhares em Alcácer Quibir. Mais um arcabuz, arma de fogo sem pressa que deixava a mecha arder até chegar à pólvora e provocar o disparo (o qual a vítima decerto aguardaria obedientemente no seu posto...).

Ou então a armadura, um pouco mais antiga mas completa,

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à primeira vista adornada com o avental da minha cozinheira, ou com algum vislumbre de Mary Quant, mas não, o saiote era ornamento de valia na indumentária dos cavaleiros da época.

Não longe do castelo, a Parroquia de la Anunciación,

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austero templo onde ainda serve a pia baptismal em que S. Francisco recebeu o seu primeiro sacramento. Visitei-a, apreciei-a, achei-a no lugar devido, ao contrário da Basílica erigida paredes meias com o castelo!

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Não por que seja de esperar qualquer ataque de muçulmanos ou aragoneses... Ou mesmo de portugueses revitalizados e audazes... Mas porque a História é a História e não era assim. 

Ficou o passeio pelas muralhas, um horizonte sem fim entre os dentes das ameias.

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E caindo a tarde, o refresco do costume no hotelzito local, um naco de conversa entre amigos e parceiros de viagem.

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(Conquanto a noite fosse dormida em instalações dos Jesuítas, muito defendidas contra os rigores da invernia mas completamente permeáveis a estas vagas de calor. Horas tremendas de sofrimento e suor, quase de exaustão javierana.)

 

Azpeitia (no País Basco)

João-Afonso Machado, 21.06.22

Comecemos em 1521, durante a invasão francesa de Navarra. Pamplona: o cerco previsivelmente bem sucedido não intimida o combatente Iñigo, basco indomesticável que convence o governador e os demais capitães da guerra a resistirem. Seria ele um dos primeiros a ficar ferido com gravidade em ambas as pernas. Lá à frente, vítima de um tiro de bombarda. Galhardamente, os triunfantes "gauleses" conduzem-no à sua terra - à Torre de Loyola em Azpeitia.

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Assim Iñigo teve pela frente todo o tempo para sofrer, suportar dores e cirurgias inimagináveis... e ler e pensar. Lentamente se lhe vão os ímpetos da espada e nele brota uma vontade de partir e de viver do espírito. Era a concepção da Companhia de Jesus, filha de Inácio, o Santo Inácio de Loyola. O transfigurado Iñigo.

Azpeitia é, por isso, antes de mais, a sua invocação. O Santuário setecentista em memória de Inácio, uma visão que eu quis permanecesse nocturna.

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Talvez como protesto contra uma das suas alas que empareda a reconstruída Torre de Loyola.

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Nunca tal conhecera: séculos de granito e história enjaulados, decerto num estertor claustrofóbico, pilhados de todos os ângulos possíveis de uma fotografia capaz. Sirva de atenuante a tal malfeitoria a grandiosidade da abóbada do Santuário

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e os espaços verdes circundantes que nos esfregaram frescura nesse dia em que o ar rebentava em 40ºC. Para lá - para o parque - se encaminhavam os visitantes - as freirinhas e

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nós - e a população local, um ribeirinho - um nada de água - flutuava nas imediações como qualquer tábua de salvação de náufragos ante as incognitudes oceânicas.

Nesse fundo cercado por serranias a encerrarem o calor todo, Iñigo-Inácio terá alcançado sinais do Céu postos na beleza da paisagem.

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Essa é a minha leitura, mesmo do que possa ser a oração e o conhecimento.

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Tolhido de um pé, todavia, corri através do forno de olhar nos cumes.

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a descobrir o rio, a casa que elegi a minha - a casa do meu sossego - porque sonhar não paga impostos nem taxas de registo predial

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e a correnteza ia gorda de barbos e escalos (Inácio pescaria também?), codornizes e galinhas de água.

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Não, afinal não fora ainda lançado às chamas do inferno...

A noite aproximava-se e Azpeitia convergia para a sua Plaza Central em busca de algum alívio, um fio de brisa deambulando naquele castigo. Também eu, no regresso da incursão pela zona antiga cidade, estafado, já quase sem pé (qual Iñigo...), ofereci-me a dois monumentais mergulhos em outras tantas canecas de cerveja sôfregas, fresquíssimas. Porque, creio, S. Inácio procederia de igual modo.

 

Alhandra, "a toureira"

João-Afonso Machado, 27.05.22

Foi o nunca esquecer esse trecho das Viagens na Minha Terra, de Garret, indo o barco a subir o Tejo - «já passámos Alhandra a toureira»... Como eu mesmo a raspei, quer por cima, na auto-estrada, quer mais junto ao rio, de comboio. Sem outra leitura que não fosse o colosso fabril cimenteiro, talvez o seu pão, inquestionavelmente a sua sombra, o abraço enorme que a abafa.

Mas deu-me para a conhecer nesse sufoco onde, era certo, não encontrei nem toiros nem aficion. A Praça 7 de Maio, a principal, assistiu recentemente ao regresso do pelourinho a recordar os velhos tempos em que Alhandra era concelho e não apenas uma freguesia do de Vila Franca de Xira.

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Escassa é a gente por ali. E agradável e sadio o edifício da Junta, no outro extremo da praça. Eram horas de almoço, a fome bateu-me à porta, mas às segundas-feiras quase todos os restaurantes folgam. Despachei-me com um frango de churrasco e segui pela Avenida Dr. Sousa Martins em direcção ao Tejo. Na quina, a casa onde nasceu este venerado "médico dos pobres", agora museu e vagar de um punhado de idosos.

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Os encómios à pessoa do Dr. Sousa Martins precipitaram-se de enxurro. Farmacêutico, licenciou-se depois em Medicina e dedicou-se ao flagelo da tuberculose, doença que tomou conta dele e o levaria ao suicídio em 1895. Mas toda a sua vida lhe valeu a grande medalha, a maior, - o não esquecimento pelas gentes.

Outro que ali viveu, em Alhandra, e trabalhou e morreu, foi Soeiro Pereira Gomes, um dos progenitores do neo-realismo. Esteiros, a obra que dedicou aos «filhos dos homens que nunca foram meninos», escreveu-a inspirado nos lamaçais do Tejo, no grande mouchão defronte, fértil pasto, traiçoeiro levante das águas. Assim o vi e fotografei, mais o vaivém das embarcações

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com a ponte de Vila Franca de Xira ondeando a montante.

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Não me demorei muito nesta volta por Alhandra. Solidarizei-me com o isolamento da Matriz, toda ao sol num ermo mais alto

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e procurei ângulos onde o demónio da fábrica de cimento não me ferisse a vista.

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Tão dificil empreitada que, desconfio, o comboio me foi buscar mais depressa

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para o retorno através dos mistérios ainda por decifrar da Grande Lisboa. Quão longe estamos de Garrett e de Alhandra «a toureira»!

 

Pampilhosa do Botão

João-Afonso Machado, 21.04.22

Isto é o concelho da Mealhada, o coração da região bairradina em que a História se faz sobretudo do leitão e do espumante. Mais remotamente da bicicleta e, por vezes, do comboio. Assim foi com a Pampilhosa e esse é o seu drama e a sua sempre inconformada saudade.

Vivia mais acima um pouco, a Pampilhosa do Botão, onde permanece a igreja paroquial e uma nobre casa quinhentista, bem restaurada e agora o museu de quanto diga respeito à terra.

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Mas o surgimento da via férrea entre Lisboa e o Porto, a abertura de um ramal à Figueira da Foz (já extinto) e a chegada da Linha da Beira Alta, - obrigatória para quem quisesse dar um pulinho à Europa sem ser a pé ao a cavalo - tudo passando pela Pampilhosa, transformaram por completo o panorama. A freguesia veio para perto dos carris, criou hotel, restaurantes e fábricas de cerâmica debruçadas sobre os vagões, a deixar neles o seu produto. Assim a Pampilhosa chegou a ser considerada a segunda estação do País, tanta a gente que aqui se apeava para trocar de comboio - desde logo, vindos de França, os Príncipes, nossos futuros Reis, D. Carlos e D. Amélia.

O triunfo do automóvel causaria estragos. A Pampilhosa, ido o império da ferrovia, entrou em crise e acumulou ruinas, falências e muita da sua gente demandou outras paragens em busca de futuro. E a freguesia - a vila de Pampilhosa -

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acredita ainda, reza, bate-se pelo prometido reanimamento da Linha da Beira Alta. É do que mais lá se ouve falar, dessa fé na pujante Pampilhosa de outros tempos.

Mas porquê tanta Pampilhosa na minha lapiseira? Somente porque a minha juventude andou sempre nas suas cercanias, e algumas décadas passadas sem notícias da Pampilhosa recomendavam uma visita a saber da sua saúde. Apanhei o Intercidades e desembarquei na sua gare, manifestamente despida de movimento e viajantes de avantajada bagagem. Tirei umas fotografias

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e ainda apreciei a chegada do comboio para a Beira Alta, do lado oposto da estação: uma via quase raquítica, acorcundada, e duas carruagens trôpegas, sem fibra, como que se enfiando numa azinhaga, com mil cuidados a ver onde punham os pés.

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Numa tabacaria por ali comprei (é um hábito meu) uma monografia local e folheei-a enquanto lanchava. Depois subi ao calvário dos escombros pampilhosenses. Momentos de desalento, momentos de esperança também - o Hotel Bergamim,

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a fantasmagoria das chaminés frias no tijolo sobrante da indústria cerâmica,

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os previsiveis romances de que a "Vila Rosa" foi palco...

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Tudo intermediado por mirabolantes surpresas. Desde a arte estatuária romana quase no meio da rua

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à montra esplêndida da boutique cercada de hortas e outras agriculturas.

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Enfim, no topo da freguesia inquiri por algum alojamento local e indicaram-me uma casa, mesmo lá, como sendo uma hipótese que não se confirmou. Mas, estando eu no adro da igreja a matutar teria de dormir no Luso, eis que surge a senhora sua proprietária, aflita, achando-me muito cansado, se não me valeria um cházinho. Agradeci, recusei, conversámos, ela apresentou-se - e disse-lhe então o nome do seu pai, um etnógrafo da Pampilhosa, acabara de ler sobre ele na minha monografia, de que a amável senhora era uma das principais colaboradoras. O mundo é pequeno!

O dia seguinte voltei à estação e, por 1,34€, chegaria ao meu destino - Souselas. Mas antes ainda, por sugestão do chefe, dei uma espreitadela através dos vidros estilhaçados de uma velha recolha onde dorme a veneranda locomotiva BA 61 que eu fotografei como pude,

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em bicos de pés no meio do entulho. Trata-se, tão-só, do orgulho da Pampilhosa, da sua relíquia falante dos ido gloriosos da Linha da Beira Alta que se acredita, um dia ressuscitará.

 

Alturas do Barroso

João-Afonso Machado, 31.03.22

É o cabo dos trabalhos chegar lá a cima, ao povoado. À cabeça desta freguesia - Alturas do Barroso - do concelho de Boticas. Onde se vai por diversos motivos óbvios, um dos quais a fama envolta no mistério sem letreiros do restaurante A Casa do Ferrador.

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Recomenda-se procurem a mais imponente edificação, mesmo no largo do fontenário, o centro cívico, como soe dizer, da aldeia. E encontrarão, então, o santuário que tantos remotos romeiros atrai. Ali trabalha uma família inteira e A Casa do Ferrador só abre mediante o pedido de reserva para um grupo, ocorrência esta quase diária!

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São os devotos da boa comida, da lareira e do fumeiro barrosãos. Das suas carnes. E de um repasto que deixa quem quer a jiboiar a semana adiante.

Residem em Alturas do Barroso, aldeia que não é assim tão pequena, 160 irredutíveis serranos. Crianças - nem uma para amostra... Apreciei, sim, a bravura dos idosos quando uns distraídos estacionaram os carros na entrada do lar local da Misericórdia.

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Esteve quase o motim. Erguendo-se dos bancos onde conferenciavam (muito agasalhados, que a Primavera aqui demora, vem a pé...), agitadíssimos, quase em convulsão, desataram em sonoros protestos. - Não podia ser assim! - Há sempre ambulâncias a chegar e a partir! - Lá no Porto, se lá fossem, respeitariam as regras! - Olha para isto, para este abuso!

E toca a pedir-lhes as maiores desculpas, a levar os carros para outro cubículo, desintupindo o acesso da putativa catadupa de ambulâncias ao lar de dez utentes acamados. As gentes do Barroso nem todos os dias são  tão pacíficas como os seu canídeos, que proliferam à solta vagueando pela urbe.

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Uma urbe onde o que não é granito são remendos, tal o custo da cantaria.

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E onde grassa a ruína, filha da imigração,

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e o modo de vida dos que ficaram é a lavoura e a criação do gado de engorda, a matéria-prima da célebre "posta" barrosã.

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Assim por quelhos e quelhos sempre providos de preciosas partículas de bom gosto,

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de uma significativa presença da ausência. A não ser no largo onde se reunem os denodados defensores do lar da Misericórdia...

 

Minas da Borralha

João-Afonso Machado, 26.03.22

Os horrores da II Guerra Mundial, como sempre acontece, foram a fortuna de uns tantos. A calamidade passou-nos ao lado mas certo é muitos portugueses enriqueceram mineirando e exportando uma pedra densa, negrada, - o volfrâmio - que proficuamente servia à fabricação de munições letais.

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Era a sinistra raiz de algum desprezo que ainda hoje paira sobre os "volframistas" de então. Houve-os por todo o lado, e nas minas da Borralha também.

Estamos na freguesia do Salto, do concelho de Montalegre. Mesmo num cantinho dela, no fundo de um vale onde desliza a ribeira do Amiado, vulgo «rio da Borralha» ou o «Basófias», para alguns. Um curso de água truteiro e convidativo, alheado da História, que os males levam-nos as águas imparáveis, onde irão as de há seis décadas atrás?

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A Guerra é uma reminiscência longínqua. A actividade das minas da Borralha outro tanto. Ficaram as memórias de uma época infrene e os famigerados "centros interpretativos". E ficou mais. Porque naquele recanto da freguesia muito se construiu - até um bairro operário - muito se ergueu em nome de uma exploração razoavelmente passageira.

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Robusto casario. Vidas vividas e quase não substituídas senão pela intransigência da idade. Serviços de primeira necessidade como os correios,

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o telefone,

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e o café onde o pessoal sobrevivente se encontra e joga qualquer batota e se lava em bagaço ou cerveja, consoante a maré do ano.

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(Uma carrinha de funcionários da edilidade procede à limpeza dos arruamentos, fornecendo informes. Ali habitam, presentemente, 196 almas que labutam fora e vão e vêm todos os dias. Mas aquilo é «um paraíso», garante uma senhora de vassoura em punho.)

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A terrinha está abastecida de boas moradias e cada edifício, cada memória. Não longe, sucedendo-se umas às outras, as cascatas da ribeira. Do «Basófias». 

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E o turismo? - perguntei. Pois o turismo vem aí. Até porque as ruínas do velho palacete do Director das minas será transformado, a breve trecho, em pousada ou qualquer coisa parecida.

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O lugar foi comprado por uns canadianos investidores e o resto competir-lhes-á, e à riqueza do ambiente...

Gostei. Cada bocadinho do nosso mundo tem a sua expressão

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e nada melhor para a traduzir do que a atitude dos animais ante este bicho estranho que somos nós.

 

Ponte da Barca

João-Afonso Machado, 19.03.22

A lampreia, basicamente, é uma cobra com uma ventosa na boca e uma carne negra e feia, sabendo a nada parecido com ela. Por isso não é réptil nem peixe, é um ciclóstomo. E há quem enjoe só de olhar para o bicho, jurando ser detestável sem vez alguma lhe ter metido o dente. Quando não: a lampreia come-se muito bem "à bordalesa" e justifica sempre um passeio de amigos, a almoçarada generosamente regada com verde tinto vinhão. Daí a Ponte da Barca, vila sem o pretenciosismo de querer ser cidade, nas margens do Lima onde a lampreia é apanhada quando sobe o rio para desovar (e escapa aos artefactos da vizinha Ponte de Lima, a jusante...).

Na Barca, então... Já há uns tempitos não ia lá.

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E eu gosto do seu recato, gosto dos automóveis, um agora, o outro só daqui a bocado.

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Gosto do comércio arrumadinho, quase de pantufas, muito sonolento; das tasquinhas e dos restaurantes, das esplanadas onde moças minhotas, daquelas lindíssimas, servem mesas vazias de gente e carregadas de um valiosíssimo silêncio.

Gosto da Misericórdia onde jovens e idosas dão, como rezam os Mandamentos, o seu contributo à comunidade.

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E dos becos prenhes de história e da grandeza do granito,

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fascina-me o rio na Barca, de outra timidez, outro choroso olhar, tão mais apelativo do que em Ponte de Lima.

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E o Vade, o seu afluente, despenhando-se em cascata junto do moinho agora restaurante (onde decorreu o repasto)?

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Nem cem metros adiante despejará as suas águas todas nele, Lima. E as margens, passeios claustrais de pescadores absortos na fortuna do tempo todo seu, as trutas a acumularem-se nos bornais...

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Ponte da Barca! Ou como uma lampreia nos espeta a ideia da migração para norte, senhor todo-poderoso do rio, dos petiscos, do fim do ruído e das esplanadas de minhotas belíssimas.

 

O Barreiro

João-Afonso Machado, 19.02.22

É a outra margem. O inóspito lugar de outra imagem: encarnada e impiedosa, sobremaneira politica, barulhenta e povoada de fatos-de-macaco e chaves-de-porcas. A viver nas alturas dos guindastes e das gruas e dos prédios encavalitados. Enfim, sempre assim pensei, quase num medo dos infernos da catequese. Até aos dias de agora, quando me decidi à travessia do Tejo disposto a confrontar a mitologia.

Basta a referida viagem náutica para abrandar a ira dos deuses...

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As águas um modelo de quietude. O ferry absolutamente desprovido de pressas, a gozar também o fim da semana. E o Barreiro a tomar formas mais consistentes, depois da atracagem, ainda assim pouco entusiasmantes. Um parque de estacionamento, a fatal rotunda e uma breve ameaça da tremenda propriedade horizontal.

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Também Gil Eanes se assustou na eminência do Bojador. Mas seguiu em frente... Nós (eu e o meu octogenário amigo) do mesmo modo procedemos, desta feita em marcha de infanteria, inquirindo aqui e ali, sobre o Barreiro primitivo, onde era?, até darmos com a placa «Zona histórica», essa tal que nos levaria aos encantos mais recônditos de antes da cavalgada dos humanos. O percurso não trepava orografias nem sociologias - somente ia andando nas proximidades ribeirinhas. Dando a conhecer, por exemplo, vestígios de moínhos de maré

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e também dos seus parceiros impulsionados pelo vento, recuperados, visões do passado ou regalos do presente.

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Outrossim no Barreiro uma Leticia, rainha da ameijoa ou do berbigão, dormindo sem sobressaltos a sua maré menor,

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algo desmazelada, decerto, o outro lado do esplendor da magestade do Tejo. Eu diria: a sua intimidade. E, nela enfiadas, as omnipresentes damas de honor,

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eternas vítimas da maledicência mas personagens jamais fora dos meus encantos. Gaivotas: ladras, pragas, zaragateiras... mas bonitas e bem postas. No Barreiro a demonstrarem que nem tudo é siderurgia, luta de classes e dormitórios.

O meu octogenário amigo contava os quilómetros corridos e reclamava cansado. A igreja paroquial não lhe podia valer, fechada como um túmulo, matéria somente, quase uma guilhotina fulminante sobre o pescoço do Espírito.

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Foi o que a Magda nos confirmou, com um ar de "ali já ninguém mora, está esquecida"... A Magda, a proprietária do salvífico Moet, o bar onde mendigámos umas bifanas e umas canecas de cerveja, com o meu octogenário amigo assaltado por um súbito desempenho de galã, piropo sobre piropo,

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e o patrão lá dentro a fatiar a carniça, a preparar-nos o comer e, por aquele andar, de faca em punho, sabe-se lá que mais... Enfim tudo correu bem, o meu octogenário amigo saciou-se, acalmou e foi a minha aberta para saber coisas. O Barreiro ali, além de um parque bem arborizado, são todas as ruecas de casinhas de um ou dois pisos. Algumas impecavelmente recuperadas mas estranhamente desabitadas; outras, muito depauperadas mas cheias de gente, roupa a secar na via pública, antenas parabólicas aos montes, carros mal estacionados...; um bom lote delas em completa ruína desaproveitada.

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Outra vez a Magda elucidando, aquilo era o cancro do seu negócio, a vizinhança pouco amistosa e, por isso, a clientela mais arredia à noite. Gabámos-lhe a destemida decoração do bar, as duas cabeças de bovinos na parede, os muitos cartazes antigos publicitando espectáculos de tauromaquia, via-se bem, a política não passava na porta do Moet. E com o meu octogenário amigo protestando veementemente, encetámos a volta de regresso.

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Aqui e ali, os primeiros vagidos desses enormes cogumelos que hoje se estendem por áreas infindas. E os restos mortais do casario que pereceu envenenado por eles... O comboio vem até à beira-rio. Vem de Setúbal, trará gente como nós a apanhar o barco,

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mas não sei se, como nós, tão envolta no espanto desse todo que é o céu e as águas e os pequenos cometas que rompem o cinzento nessa gigantesca abóbada.

 

Burgos

João-Afonso Machado, 15.01.22

Espreito a cidade do cimo da muralha do finado castelo. A catedral é a grande evidência e, mesmo onde estou, sinto os seus pináculos a comicharem as minhas narinas.

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Acrescentaria, sem medo de exagero, esse templo imenso, a Catedral de Santa Maria, um parto do século XIII, quase absorve Burgos, pouco deixa aquém dos montes no horizonte, erguida a festo acima deles no gótico mais exuberante que pela Península possamos encontrar.

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E em maré de comemorações natalícias, a catedral nocturna dá de si o melhor,

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tomada de cores diversas, ângulos infindos, arestas cortantes,

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ora mais quente, ora mais fria; ora menor, ora maior,

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cercada de gente empunhando máquinas fotográficas ou, simplesmente, pasmando e passeando ao longo do seu logradouro, a Plaza de Santa Maria.

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O resto da sua história, que é muita, temos nós, depois, de puxá-la das entranhas. Burgos foi a capital do Franquismo durante a Guerra Civil espanhola. Antes tinha sido o berço do romântico medievo El Cid Campeador,

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crescendo ao longo do rio Arlázon, do qual os nossos Lima, Neiva, Cávado, Ave, etc, etc, se rirão desalmadamente,

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conquanto não dispondo, talvez, de tão bonitas e alegres e bem frequentadas marginais.

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Burgos é, por fatalidade, a noite espanhola também. E variadíssimos outros monumentos, arvoredos e momentos bonitos neles.

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É um passeio sempre no início. É, acima de tudo, uma raça,

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a do Perdigueiro de Burgos, a primeira estátua que topei, logo à chegada, a complacente expressão deste companheiro, uma justa homenagem que lhe fizeram os caçadores locais.

 

León

João-Afonso Machado, 11.01.22

Vale a pena estudar a formação dos reinos ibéricos surgentes após a ocupação sarracena... Leão é um dos primordiais e, dessa história toda, restaram imensas marcas. Entre outras - talvez a principal - a respeitável cidade de León.

Essa fatia não é agora chamada e ficará para os entendidos. Estamos em León presente, justamente numa cidade que encanta, convida e não se quer esquecida. Curiosamente, não distante da nossa fronteira a norte.

León, ou o seu miolo, é a Catedral de Santa Maria de Regla. O gótico que vinca a Região,

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porquê não sei, pensando no românico a sul, o nosso, o português, menos esculpido e mais vetusto e rude. Que se pronunciem os leitores... Mas há imagens que não esquecem,

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interiores que magnetizam

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e, sobretudo, aqui em León, os famosos vitrais, uma viagem densa de espiritualidade, momentos de traves e naves,

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templos sempiternos de culto e vida, este o estro de tantos deixados consigo na arquitectura da pedra embaixadora da imortalidade.

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Depois León é a noite espanhola, a omnipresente Plaza Mayor, foi o Natal e as luzes, é o quotidiano,

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as vielas e os amores, muros da cidade, luzes esparsas a pedir sentinelas

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e, no dia seguinte, o tempêro das praças e ruas,

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a quieta manhã de uma gente que tarda em acordar... Uma gente tão distante, só do lado de lá, despercebidamente do lado de lá de um marco qualquer a partir do qual o mundo é outro hemisfério e não sinto ficar-me bem falar outra língua senão a natal. Porque, apesar de tudo, o entendimento é unânime e, pelo andar da carruagem, um novo dialecto surgirá fatalmente, só não sei se o portunhol ou se o espanholês.

Para ustedes. Por supuesto.