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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Burgos

João-Afonso Machado, 15.01.22

Espreito a cidade do cimo da muralha do finado castelo. A catedral é a grande evidência e, mesmo onde estou, sinto os seus pináculos a comicharem as minhas narinas.

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Acrescentaria, sem medo de exagero, esse templo imenso, a Catedral de Santa Maria, um parto do século XIII, quase absorve Burgos, pouco deixa aquém dos montes no horizonte, erguida a festo acima deles no gótico mais exuberante que pela Península possamos encontrar.

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E em maré de comemorações natalícias, a catedral nocturna dá de si o melhor,

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tomada de cores diversas, ângulos infindos, arestas cortantes,

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ora mais quente, ora mais fria; ora menor, ora maior,

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cercada de gente empunhando máquinas fotográficas ou, simplesmente, pasmando e passeando ao longo do seu logradouro, a Plaza de Santa Maria.

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O resto da sua história, que é muita, temos nós, depois, de puxá-la das entranhas. Burgos foi a capital do Franquismo durante a Guerra Civil espanhola. Antes tinha sido o berço do romântico medievo El Cid Campeador,

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crescendo ao longo do rio Arlázon, do qual os nossos Lima, Neiva, Cávado, Ave, etc, etc, se rirão desalmadamente,

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conquanto não dispondo, talvez, de tão bonitas e alegres e bem frequentadas marginais.

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Burgos é, por fatalidade, a noite espanhola também. E variadíssimos outros monumentos, arvoredos e momentos bonitos neles.

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É um passeio sempre no início. É, acima de tudo, uma raça,

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a do Perdigueiro de Burgos, a primeira estátua que topei, logo à chegada, a complacente expressão deste companheiro, uma justa homenagem que lhe fizeram os caçadores locais.

 

León

João-Afonso Machado, 11.01.22

Vale a pena estudar a formação dos reinos ibéricos surgentes após a ocupação sarracena... Leão é um dos primordiais e, dessa história toda, restaram imensas marcas. Entre outras - talvez a principal - a respeitável cidade de León.

Essa fatia não é agora chamada e ficará para os entendidos. Estamos em León presente, justamente numa cidade que encanta, convida e não se quer esquecida. Curiosamente, não distante da nossa fronteira a norte.

León, ou o seu miolo, é a Catedral de Santa Maria de Regla. O gótico que vinca a Região,

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porquê não sei, pensando no românico a sul, o nosso, o português, menos esculpido e mais vetusto e rude. Que se pronunciem os leitores... Mas há imagens que não esquecem,

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interiores que magnetizam

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e, sobretudo, aqui em León, os famosos vitrais, uma viagem densa de espiritualidade, momentos de traves e naves,

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templos sempiternos de culto e vida, este o estro de tantos deixados consigo na arquitectura da pedra embaixadora da imortalidade.

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Depois León é a noite espanhola, a omnipresente Plaza Mayor, foi o Natal e as luzes, é o quotidiano,

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as vielas e os amores, muros da cidade, luzes esparsas a pedir sentinelas

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e, no dia seguinte, o tempêro das praças e ruas,

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a quieta manhã de uma gente que tarda em acordar... Uma gente tão distante, só do lado de lá, despercebidamente do lado de lá de um marco qualquer a partir do qual o mundo é outro hemisfério e não sinto ficar-me bem falar outra língua senão a natal. Porque, apesar de tudo, o entendimento é unânime e, pelo andar da carruagem, um novo dialecto surgirá fatalmente, só não sei se o portunhol ou se o espanholês.

Para ustedes. Por supuesto.

 

Outeiro Seco

João-Afonso Machado, 06.01.22

Esta é uma história real que eu desenterrei a norte, na raia de Chaves, precisamente na freguesia fronteiriça do Outeiro Seco, tirando com ela, de um buraco qualquer, uma saca toda de moedas de ouro romanas. Foi no curso de uma certa investigação que me interessava e, tão inusitadamente, levou a essas recônditas paragens, onde dei fé de um felizardo topando o dito tesouro nas suas terras sáfaras e mal-agradecidas.

O tempo de uma euforia imensa mas prudente, espreitando de esguelha, desconfiadíssima do temível Erário Público. A aconselhar uma fuga célere a cavalo do ouro todo, com o século XVIII ainda mandrião. Sequer se despedindo do Rev.do Domingos Pinheiro, o Abade, a essa hora dormitando na sua apessoada casa,

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sequer indo pela igreja paroquial em acção de graças,

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ou mesmo pela capelinha da Senhora da Portela que, toda a vida, tantas preces lhe ouviu.

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E onde viveria o "totalista"? É o que não apurei. Talvez em alguma ruína do Presente, de casario menor

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ou mais avantajado

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Talvez em construção condigna que algum parente (a quem também não disse adeus...) conservou e transmitiu à descendência. Seguramente não no solar que então se levantava e agora tomba, posto não pertencer à família em causa.

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Era solteiro, abalou sozinho. Decerto em maré de sementeiras, as Festas já passadas, esquecidas, jamais revisitaria o presépio da sua terra.

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E os vizinhos montes de Ourense,

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a ribeira a traçar em dois a aldeia

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e o granito firme do seu casario.

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Enfim. Fui dar com ele em Estremoz, onde casou e teve geração apontada a Borba. Era gente rica, então, e foram importantes, assentados em cargos administrativos e militares. Chamavam-lhes «os Moedas», donos de toda a irreverência transmontana posta nas horas vagarosas do Alentejo. De tal modo que o metal sonante findou e o poderio também. E eu sei tudo isto porque desse clã irrequieto e mesmo insubordinado apenas herdei a minha Avó materna. Obviamente - uma grande Senhora! O ouro lhes tenha feito bom proveito...

 

Salvaterra do Extremo

João-Afonso Machado, 14.12.21

Corri o povoado já não sei há quantos anos. Nele li bonitos apontamentos mas o seu risco, guardou-mo a memória, era o abandono. O ninguém, a não ser as pedras que escorregavam, tropeçavam, caíam. Desta feita, apanhado por uma tendinite que não me deixa ir no encalço das perdizes, ainda assim acompanhei os parceiros até aos confins da Beira Baixa, às profundezas da Idanha, desviando a manhã para este mágico topónimo. Salvaterra do Extremo! No mais inóspito do mundo nosso, nas vésperas de todos os monstros!

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Em cima de Espanha. Mas - surpresa das surpresas! - agora uma aldeia lavada, penteada, toda galante. A puxar o lustro das suas memórias de sede do concelho que foi até 1855. A apontar-me o dedo à veneranda Matriz,

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na torre sineira um ninho de cegonha, e a gente percebendo, por fim, porque são elas a transportarem os bébés até ao berço, até à pia baptismal. A gente encantada com o granito, gozando o vetusto pelourinho e as suas armas manuelinas, gozando a pontifícia Torre do Relógio, decerto a antiga casa do município e, ao lado, a igreja da Misericórdia - uma virtude que já vamos desconhecendo e nunca praticando.

Era sábado. Um idoso aqui, outro ali, todos eles ávidos de conversa. Os mais novos foram, atravessaram o deserto, chegaram ao litoral. E os que ficaram agarraram-se ao seu derradeiro propósito, Salvaterra do Extremo é nacional, já dispõe de um "alojamento local",

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há por ali muita caça, venham, venham, venham mais vezes...

Vagueei de beco em beco. Gostei de Espanha no horizonte e do colorido das cuecas secando ao sol, demoras de um ermo sem horas nem cerimónias.

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Achei-me em casa (minhota) ao vislumbrar seculares edificações enraizadas nos penedos. E senti, uma vez mais, tudo isto me diz ao coração, sol matinal de sossego e paz, quão rica há de ser a vinda para estas bandas cheias de espaço e liberdade.

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Aqui e além, paredes retardatárias, reconstruções mais preguiçosas, lembrança de há duas décadas, da minha iniciação em Salvaterra do Extremo...

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Mas, no geral, o viço primaveril de uma aldeia renovada. Entre paredes bem esfregadas, pedra barbeada,

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e janelas carpinteiradas de fresco, mantendo a sua "guilhotina" envolta em cantaria e símbolos historiadores.

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Uma seta, finalmente, apontava ao miradouro, perto do cemitério. «Campo da Egualdade-1895», inscrevia-se no frontispício deste. É bem verdade: para além daquele portal acabavam  os bons e os maus, os contrabandistas e os traidores, as paixões e as miscigenações; e ali vai começando, na vez de cada um, a eternidade de todos os que lá ficarem repousando.

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Já o miradouro se espraia sobre o "Inimigo". O monte desce abruptamente, a ocultar o rio Erges, o insignificante diferenciador de nós e eles, espanhóis. Somente nos confrontamos com o penhasco adiante, já não nosso mas dos grifos e dos abutres que nele defendem os seus ninhos. Os quais não conhecem fronteiras, conquanto sejam juridicamente naturais e cidadãos do país vizinho.

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Especificando, do castelo de Peñafiel, outra fantasmagoria. E a vastidão desconhecida nada revela, muda e estática. Como se hoje os de cá não fossem lá, todos os dias, buscar gasolina barata; e os de lá não batessem à porta dos nossos restaurantes, onde se serve muito melhor. Tudo é diferente - tudo... menos o Erges, os seus fundos e um dia com pernas por uma deambulação nos ecos desse passado.

 

Pelos canais de Bruges

João-Afonso Machado, 01.12.21

Assim cada embarcadiço fosse um medievo saco farto de cereal... Mesmo aquele fantástico par azul de olhos ferozes, a cada vez que me levantava para fotografar. (E eu repimpado neles, nos sacos, dono do mundo o trajecto inteiro.) Conduzia a lancha a ganância do ganho, bancos repletos, e uma vozinha fanhosa que o ruído do motor abafava. Restava-me a percepção daqueles meandros, os remos da minha imaginação.

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O canal sobejamente labiríntico. De águas escuras sem remédio, impenetráveis. Agora talvez por efeitos dos óleos, e antes em resultado do que vinha das janelas aos baldes. Buracos negros, como escotilhas rentes à maré, indicavam o refúgio e a idade pétrea dos monstros.

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Corremos os intestinos de Brugge. Por vezes rasando as cabeças no vão das muitas pontes onde expressões vazias nos observavam, como quem olha fardos de farinha vindos da moenda.

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Quase sempre navegámos as traseiras da cidade. Sucediam-se os palácios, forças inquebrantáveis a obrigarem o canal a curvar submisso.

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Quando não, mais floreados, não esqueciam a janela da princesa, curiosa e sempre melancólica.

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(E a jurar a si mesma, certamente, aquele cisne é o seu embruxado cavaleiro a rondar-lhe o pátio, sapateando como um cavalo ferrado o silêncio das maldades mais atrozes.)

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Por isso as tílias, os carvalhos, as heras lançadas dos terraços às águas: amarras, escadas, lianas em selva burguesa, sem bússola nem cronómetro.

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Mas os dias amarelecem outonalmente e o mirante transborda lágrimas tão verdadeiras quão a elegância das suas formas.

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Na margem oposta, o são gargalhar da moçoila visitada pelo aprendiz, vindo na bateira com a encomenda para o senhor paizinho. Só mesmo se ela o desprezasse alguém toparia ali qualquer muralha...

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Enfim, rezam todos pardas orações rogando não desembarquem os piratas, ávidos de riquezas acumuladas. Brugge fecha as janelas e espreita frinchas ao mais pequeno alarme,

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ou envia archeiros dissimulados na frondosidade das amuradas,

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levando sempre as mãos aos céus, tentando erguê-las acima do pináculo da igreja de Notre Dame

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nesta, como em outras histórias, omnipresente, abençoando com as vestes da sua sombra o burgo, nos muitos séculos de vivência levados.

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Se tudo isto é uma peça mal encenada? Reparo agora - não! Mal contada será, mas o que se trata é apenas a realidade mais vera,  essa que se acumula sob águas mortas-vivas, entaipadas como padecentes de outrora, vista cansada da grandiosidade que jamais abdica de si mesma.

 

Luxemburgo

João-Afonso Machado, 26.11.21

É bom ter presente, o Minho - o verdadeiro Minho de sempre, não o Minho administrativo - iguala em área este minúsculo estado soberano, o Grão-Ducado do Luxemburgo: uma monarquia de sucesso, logo um país resolvido, de quem foi mãe a Holanda. Também convirá não esquecer, comprovando, o seu ordenado mínimo ultrapassa largamente os 2.000 euros mensais. Tudo resumido no chamariz que é esta paróquia para milhares de portugueses mais desfavorecidos. Ir ao Luxemburgo é estar com compatriotas. É o que todos gostamos, se todos forem parecidos comigo.

O Luxemburgo é a sua capital (assim chamada - Luxemburgo) e o respectivo logradouro. Sem exageros. Revejo a minha chegada, o breve autocarro desde o aeroporto, e a paragem na Place Emile Hamilius. Era já noite. Defronte, umas cores arroxeadas, do outro lado da Pont Adolphe, um edifício descomunal. Um palácio? Não, simplesmente o Banque et Caisse d'Epagne d'Etat, seja esse o empório que for.

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Tamanhino, o Luxemburgo enreda em si teias fantásticas dos meandros financeiros europeus. Há de ser por isso consegue preservar a sua fachada arquitectónica impoluta, na qual pontifica a Cathédrale de Notre-Dame de Luxembourg de inimagináveis pináculos apontados ao céu.

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Qual seja o lado por onde a espreitemos.

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Desde logo da Pont Adolphe, sob a qual se desenrola a Vallée de la Petrusse, chamativo arvoredo com o seu fio de água, ponto de exploração, de recreio citadino, o fundo mais fundo da Ville.

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E vamos por aí fora. Vamos ao City Museum, estudamos a história do Grão-Ducado, no andar cimeiro gozamos as vistas da varanda-miradouro,

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voltamos abaixo, constatamos o sucesso dos portugueses mais empreendedores

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e um percurso estreito, o da Ville Haute, onde tudo são montras de "mexer com os olhos", - relógios, arte, livros... -  tudo é passeio descontraído, vir às compras ao Luxemburgo talvez na próxima reencarnação...

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Nada que suscite invejas. Nem ambições. A ideia é conhecer. Costumes e instituições. Encostado à la Chambre des Députés, o Palais Grand-Ducal, a residência dos monarcas,

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de resto algo insignificante. Mas a enorme fotografia do Grão-Duque pontifica em qualquer estabelecimento, nota-se, sem sombra de dúvidas, que a sua Pessoa é respeitadíssima neste cantinho reinado, e quem o fornece faz questão de tal proclamar!

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Aliás, é em redor da Família Real luxemburguesa que são anotados os monumentos locais. Valha o exemplo da Grande-Duchesse Charlotte,

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valha o de Guillaume II, no centro da praça com o seu nome.

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Assim andariamos mais. Fiquemos, porém, pelo Monument du Souvenir

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invocando, com ele, a tragédia (que vivemos ao lado) da Guerra Mundial. O mundo é assim. É breve. Como a viagem no "tram" (suponho, a abreviatura de "tramway") que, através da Avenue de la Liberté, nos conduzirá à Gare Central.

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Rumo ao estrangeiro. Rumo a Bélgica...

 

Sistelo (Arcos de Valdevez)

João-Afonso Machado, 29.10.21

A comitiva partiu dos Arcos tendo por horizonte pesadas cargas de montanha. Atravessou o Vez, mais adiante, e encheu os pulmões para a subida. A freguesia de Sistelo exigia ainda uns arfantes vinte quilómetros.

Não houve o debacle dos motores. A estrada passava à ilharga de Sistelo e o estacionamento foi na berma, onde logo se nos deparou, como sempre acontece no Minho, a igreja paroquial e a magnitude da sua torre sineira.

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Depois embrenhámo-nos na aldeia. Estas idas em grupo requerem a ciência de um certo afastamento, os minutos necessários para que a máquina fotográfica consiga operar e uma pessoa sorva as lições dos lugares, o que eles nos contam de si. Muito rapioqueira, Sistelo exulta com o fim da lavoura de subsistência: tem boas carnes, boa cozinha, tudo agora é o turismo... Assim o primeiro edifício que cruzámos disponibilizava artesanato e souvenirs!

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Nunca tal eu vira em povoados perdidos entre os montes da minha Província!

É claro,  não ficaram esquecidos os séculos da Via-Sacra popular. Rezada pelas vielas da aldeia até à estrada, copiosa lamúria, à 11ª estação já só no recolhimento de um gato cinzento da região: o minhoto anda agora menos ocupado em motivos de súplicas... Felizmente!

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Mais zela pelo povoado. Das antigas vendas fez apelativas tasquinhas. Esperto, sabedor, deixou ficar tão bem a melodia das suas águas, o fontenário da comunidade.

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E, outrossim, os espigueiros. Pedra limpa, tábuas novas, a estética pela estética, que são sempre mais os que vêm de fora, e esta cama das espigas (assim o confirmam as datas oitocentistas gravadas nos seus frontespícios) é a marca da casa, genealogia do povo.

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Somente... coexistindo agora com as esplanadas. A do restaurante O Cantinho do Abade de vistas magníficas para a magestade do Soajo, e uma posta de vitela de se lhe tirar o chapéu. Foram mais de 50 esfomeados à mesa e a genica, a simpatia, de uma só minhota a servi-los. Sempre ágil, bem disposta no traz e leva dos pratos e das garrafas. Muito bonita - acrescente-se - a deixar-me fotografá-la sob promessa, que cumpro, de não publicar o retrato. Com pena enorme: as minhotas serranas são diferentes, geniosas, queridas, de uma beleza seca, trigueirinhas, os olhos de azeviche...

E foi ela, essa formosa minhota, que me falou do «castelo». Enfim, uma torre do século XIX, apta a obstaculizar os terrores imaginativos de idos massacres sarracenos. Actualmente (mais) um restaurante, uma varanda régia sobre o vale do Vez.

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Assim o Minho está. De cara levantada, cioso da sua riqueza, hospitaleiro para quem a quiser usufruir. E sempre verde, sempre granítico.

 

Kalna, na Sérvia

João-Afonso Machado, 21.09.21

Partimos, finalmente, em direcção às altitudes balcanicas. Num Toyota, decerto por milagre, safo das inquietações bélicas do passado recente, mas não ileso...; carregado de sacos de cimento e, no banco de trás, transportando um verdadeiro tesouro - dois portugueses de gema, eu e o meu filho. O resto eram curvas sobre curvas e o curioso costume sérvio de comer pizza e beber coca-cola enquanto se maneja o volante. Umas dezenas de quilómetros assim.

E depois o súbito desvio, junto a uma povoação, para um trilho serrano. O casario cada vez mais esparso, a sensação do abandono, a florestação total... - tinhamos chegado!

Aonde? Ao nosso destino, evidentemente. E o nosso destino consistia numa aldeia esquecida dos pastores, construções de rastos que um grupo de gente nova sérvia, ainda cheia de força, tenta recuperar. Por isso o cimento na mala do estenuado Toyota.

Ali se vive, se criam galinhas e se trata das hortas. Ali se filosofa e sonha, pacificamente, com a "revolução". E ali proliferam cães e gatos, às ninhadas inteiras, na maior anarquia. Como quer que seja, ali gosta de estar o meu filho, e tão amavelmente receberam o seu pai, monárquico e anárquico, mas sempre clássico.

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Ao dia seguinte, dormidas umas horas, tomei um pequeno-almoço de água dos Balcãs, enchi-me dela, e parti em exploração, monte abaixo, cercado de carvalhos, abetos e outras frondosidades.

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À medida que ia caminhando, a vida humana ia despontando em jeito mais organizado.

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Habitações realmente habitáveis; os palheiros feitos de ripas de madeira, melhor ou pior conservados; os canídeos, sempre hospitaleiros; mulheres fumando, de unhas pintadas e forquilha nas mãos, tentando com gestos e monossílabos explicar o percurso para a vilória; surreais aparições, como os restos mortais de uma camioneta dos Fifties, entre o matagal;

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e os inevitáveis rebanhos de cabras e ovelhas.

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Eu estava em Starakalna, traduzindo, qualquer coisa como Kalna-a-Velha. E, no termo de alguns três quartos de hora a pé, avistei a estrada, o desvio do dia anterior, e a beatitude de Kalna, onde se estabelecera o grosso da população.

Tem um posto da Polícia, esta Kalna,

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e tem um hotel que, segundo apurei, se mantem fechado porque falta ao dono pachorra para aturar os hóspedes, algo que o transformou no meu heroi local, a força capaz de enfrentar e vencer os chatos.

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Kalna tem duas fieiras de prédios com três andares e muitas pilhas de lenha encostadas às paredes, para obstar aos rigores da invernia. Mais um esquecido posto de turismo de montanha, fechado a sete chaves, e um - ou uma? - veterinarska, o primordial termo sérvio da minha aprendizagem.

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Conquanto o mutismo do consultório não indiciasse o seu estonteante sucesso...

Por fim, os restaurantes, com as suas esplanadas, e as mercearias de caras viradas para a rodovia. Numa daquelas assentei, almocei e gozei a tarde.

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O repasto consistiu numa excelente, tenrinha, carne de porco com batatas assadas. E cerveja (leve, de baixo teor alcoólico, como a venho bebendo por toda esta região), a bastante. O sol refulgia, o ruído automóvel rareava. Os cães de Kalna vinham até nós, por um pedacito de comida, e voltavam à estrada, onde se estendiam como se na praia fosse.

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Eis, então, surgiu o meu filho, já preocupado, não fosse eu me perder nos altos e dar de caras com algum urso. Sentou-se, conversámos, manifestei-lhe quanto me aprazia um vagar assim. Ao longe, um malhar de motores que me era familiar, os cães enfastiados a erguerem-se,

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e a circulação de algo que já não via desde os meus 18 anos, talvez. Um tractor, um Massey Ferguson, o primeiro que o meu Pai comprou, a viatura de urgência nas minhas escapadelas de juventude. Louvado seja Nosso Senhor, que tanta foi a asneira e nenhuma desgraça brotou, a colorir as páginas dos semanários famalicenses da época!...

Mas na Sérvia, confirmei depois, ainda não há outros modelos disponíveis. Apenas esse Massey Ferguson que eu tanto gostava de ver curvar em três rodas... - Filho, vamos subindo que se faz tarde... - disse, num assomo de saudade.

 

Passeata em Sófia

João-Afonso Machado, 13.09.21

As suas raizes são antiquíssimas, mesmo a avaliar pela bem apresentada estação arqueológica, às voltas com os vestígios de uma cidade trácia. E depois Sófia andou de mão em mão, passou pelos romanos, pelos hunos, pelos turcos, até à definição do reino da Bulgária, pelo meado do século XIX. Enfim, deixando de lado as décadas da sua obediente parceria com a URSS, estamos já na actualidade. Mais precisamente, no seu gerador comercial e turístico, a longa e pedonal Praça Vitosha (frente à montanha identicamente chamada - 1700 metros de altitude!).

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Aqui, de algum modo, poisaram as marcas mundiais de maior relevo e exigência financeira, e a companhia dos pombos também.

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Mas tudo seria mais fácil, não fosse o temível alfabeto cirílico nas placas das ruas, nos dizeres das lojas. É o demónio a gente saber onde está e do que se trata. E muito há de lindíssimo nas redondezas da Praça Vitosha. Vamos abrindo os olhos, então, apontando-os aos múltiplos jardins,

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às venerandas Termas Centrais, no presente o Museu da História,

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ao Teatro Nacional Ivan Vazov

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ou à estátua da mártir Santa Sofia (obrigada a assistir ao assassinato das suas próprias três filhas), a padroeira da cidade.

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Nas costas deste referido monumento, ergue-se a maior igreja católica romana da capital búlgara. Acabamos de penetrar um louvável perímetro ecuménico, porque a sinagoga anda ali perto, bem como a mesquita Banya Bashia.

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Ouve-se então um som lamuriento, prolongado, mesmo insistente. Cântico? Música? Não, somente o modo habitual de o templo islamita, de três em três horas, chamar os seus fieis à oração.

A maioria dos búlgaros, no entanto, é - pelo menos de tradição - ortodoxa. E o culto, no tocante a baptizados e casamentos, acelera muito aos domingos:

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O local previlegiado, a igreja de Saint George, a decana do catolicismo do rito ortodoxo grego,

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tão rica por dentro quão singela no exterior, onde fazem fila, ou se fotografam, os intervenientes e os respectivos convidados. Todos num certo jeito eslavo de caberem mal nos fatos e nos vestidos, decerto ansiosos pela mesa posta, a manga arregaçada e a cerveja pelo gargalo, o fatal bailarico.

Assim não seria nos severos tempos da Praça Nezavisimost, feita de edifícios do Partido Comunista de então.

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Simplesmente, tropeçando o regime nos escombros do Muro de Berlim, os ditos "centros de trabalho" transitaram para outros ofícios, seja o caso de o edifício do Governo ou de museus. Vejam lá o que nunca nos foi contado durante tanto tempo!

 

Sófia - logo arribados lá

João-Afonso Machado, 10.09.21

Essa noite em Sófia carregou-se de beleza e movimento, fez-se inesquecível. Parecia, à chegada, uma noite escura e calada, perdida entre prédios sujos e suspeitos; uma noite trilhando carreiros entre arbustos, de muita terra e pedra solta, luz quase nenhuma e semi-desfeitas bandeiras búlgaras nas janelas de um ou outro edifício. O primeiro restaurante recusou-nos o jantar, eram já desoras. Guiados por Kalina, a amiga do meu filho, alcançámos um segundo, amplo e acolhedor, sonoramente em festa.

Kalina é uma jovem nada em Sófia, guardando consigo o que há de mais bonito e atraente. Em casa dela pernoitámos, e foi ela a nossa guia enquanto na capital búlgara. Kalina podia ser minha filha, e é na maior dedicação de um pai velhote que tudo narro do que se foi passando.

Tratava-se de uma noite de grande comemoração no restaurante. Essa garota, gorduchita e loirinha, muito activa no bailarico, festejava, de uma penada só, o seu aniversário, o casamento que estava quase aí e o bebé também já a caminho.

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No centro de uma das salas da casa, a cantora, - mais madura - os tocadores de orgão e de instrumentos de sopro. - O que é isto? - E Kalina apressou-se a explicar, era o folclore deles, dito o "horo".

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Concentrei-me nas dançarinas. Em roda, de mãos dadas, acompanhavam graciosamente uma música suave de voz firme e serena, tudo decerto com berço mais a oriente, lá para as bandas da Turquia. Não, não eram possíveis quaisquer comparações com os nossos viras e malhões...

Ali não pontificava a exuberância, o garrido, o sôfrego movimentar do corpo e das cordas vocais. Mais o coleante serpentear do grupo que, aliás, ia crescendo.

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Das mesas vizinhas chegava gente, a criançada também queria participar. Pares de sapatos ficavam a uma canto, que tacões altos não ajudam.... Ouviam-se palmas e incentivos. E sempre melodiosamente, num ritmo que se empolgava, as dançarinas dançavam, o restaurante inteiro comia do espectáculo, e muitos (mais eu) disparavam em fotografias.

Ocorreu-me a ausência da balalaica. Já alguns homens se erguiam também e entravam na dança...

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Era total a sintonia dos gestos, o seu enlevo. A menina dos anos, incansável. E até a mim, tão desajeitado, apeteceu dar um pezinho no salsifré.

Eis, porém, que cercada por excelentes batatinhas assadas, muito bem condimentadas, chegou finalmente à mesa a truta que eu escolhera, gorda, de carne rija, alvíssima, sem espinhas. Não a truta dos nossos rios, um outro qualquer salmonídeo dos Balcãs, benza-o o Senhor. O meu filho e a amiga escolheram já não sei que prato regional, onde ainda petisquei uns bons legumes estufados. O pior foi, sem dúvida, o vinho branco indígena, compensado por um copazio de cerveja a rematar.

A viagem, com escala em Genebra, cansara. Os ossos pediam repouso. E essas escapatórias entre prédios que ainda não substituiram as cortinas de ferro foram o nosso regresso e a proximidade do condizente Trabant,

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emergindo do breu, uma relíquia dos tempos em que na Bulgária era obrigatório recolher muito, muito cedo.