Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

... e Trancoso também!

João-Afonso Machado, 25.07.21

A medievalidade do castelo nesse dia passou despercebida. Cá em baixo, já fora da muralha, D. Dinis impacienta-se e o seu séquito guarda um respeitoso silêncio. Talvez nem mesmo corresse a brisa, a murchar as flâmulas e o ânimo dos ginetes. A Princesa de Aragão, D. Isabel, demorava-se e as cerimónias do seu casamento com o nosso monarca tinham sido ajustadas aqui para Trancoso. 

Mas ei-La, enfim, chegando, após arrasadora jornada. Os reais noivos, miram-se, apreciam-se reciprocamente e vão-se conhecendo, como ainda agora na pedra que os perpetua.

OS REIS.JPG

Saindo do seu embaraço, D. Dinis apontaria as Portas d'El-Rei e galantemente cederia a primazia da passagem a D. Isabel de Aragão. Fora do seu mando a construção da fortificação que tempo algum demolirá sem que Portugal não caia também.

PORTAS D'EL REI.JPG

Porque tudo Trancoso guardou na sua alma e tudo transmite aos viajantes. Ali sintonizamos a História e experimentamos os trilhos dos mistérios: a quem pertenceria, afinal, o Paço Ducal que, uma década atrás, conheci vivinho e sóbrio, muito alumiado à noite, e hoje se desmorona lentamente, barrote após barrote?

PALÁCIO DUCAL.JPG

Entaipado, destelhado, porventura foi seu dono o filipino Marquês de Trancoso, que as páginas dos nossos anais desprezaram...  A vila (hoje cidade) fervilhava de actividade nos seus muros, nas suas vielas, e talvez a comunidade judaica levasse vantagem na mercancia. Bem organizada, respeitada à moda das eras, legou-nos partes do seu bairro, da sua sinagoga, entretanto recuperada e oferecida ao culto dos fieis da Tora, mesmo os que vem de longe. Lindos arruamentos, floridos das muitas cores das hidranjas, cuidados e estreitos como todos os lugares das gentes que se defendem na discrição.

RUA DO JUDEU.JPG

Assim se compreende, a, dos nossos dias, Casa do Gato Preto integrasse também o recanto dos hebreus e - qual gato! - na sua fechada, em baixo relevo, ostentasse o leão deles, o leão de Javé.

LEÃO DE JAVÉ (CASA DO GATO PRETO).JPG

Nada ou ninguém, todavia, alcança em Trancoso tanta visibilidade como o sapateiro e poeta, profeta inato, o visionário Gonçalo Annes Bandarra, dito o "Nostradamus português". Uma pena, uma voz, que se adivinham com tantos sentidos interpretativos quanto cavadas nas profundezas da alma sua, expressando-se guturalmente, alegoricamente.

BANDARRA.JPG

Também a sua casa, lá nos meandros da judiaria, chegou até nós conservada em museu. Homem da segunda metade de Quinhentos, o Bandarra escreveu afincadamente as suas trovas em que augurava toda a grandeza e eternidade de Portugal. A fonte de inspiração seria o Antigo Testamento, circunstância que lhe valeu umas idas a Lisboa e bastantes dissabores com a Inquisição. Mas a essas mesmas suas trovas muito se agarraram os nossos antepassados, quer durante a Dinastia dos Filipes, quer depois, aquando das invasões napoleónicas. E aqui na vila estanciou, neste último aperto, William Carr Beresford, o Marechal Beresford, e Conde de Trancoso por mercê de D. Maria I (1811). Também a sua residência se guardou para a posteridade,

CASA QUARTEL-GENERAL BERESFORD (WILLIAM CARR BERES

simples e acolhedora, palco quase despercebido das mais graves decisões militares de tão desesperançados dias.

Ando de novo em torno das muralhas. Ficou-me no espírito a lojinha que a anciã, sua dona, ao balcão, não me deixou fotografar: caixas e caixas de botões e de carrinhos de linha, livros alfarrabizados, after-shaves contemporâneos do Bandarra (eu não descanso enquanto não reencontrar, nestes mundos perdidos, um Pitralon...), quinquilharias e, dependurada do tecto, uma placa metálica azul, informando - «Agentes Oficiais do Banco Espírito Santo Comercial de Lisboa». Valha-lhe Deus, não entre a polícia por ali dentro com um mandato de busca, a assustar ainda mais a velhinha.

IMG_4653.JPG

A despedida processou-se através das Portas de S. Pedro. O distrito da Guarda reserva-me ainda muitas outras surpresas, certamente.

PORTAS DE S. PEDRO.JPG

E, juraria, à minha frente, a dar-me a comer o seu pó, a real comitiva, de abalada também. Para o longo reinado de um dos nossos mais cultos e previdentes estadistas e da nossa Rainha Santa, aragonesa tão nos sentimentos dos portugueses.

 

Sernancelhe, enfim à luz do dia

João-Afonso Machado, 23.07.21

Cheguei de manhã, pronto a batalhar com o indígena e regicida Aquilino. Para lhe roubar a terra, o coração, de todos os portugueses uma alma pretensiosa, apontando-lhe o ricochete do tiro mesmo no coração desta vila antiga, sede de concelho no distrito de Viseu. A minha arma, - somente a caneta, mais a magia da máquina fotográfica. É pouco. Aquilino escreveu as serranias, o vale do Coa, e as minhas palavras não descem além do vilório granítico. Assim o pelourinho duocentista se me plantou firme, na praça principal - Aquilino esquecido, o malandro, - nas eras eternas em que a voz do povo sempre mandou.

PELOURINHO.JPG

Em seu redor, o casario dos de lá. Vivo, sempre vivo. Pedras que o Tempo nada deve à História; histórias a quem o tempo deve explicações. Valha o caso da Casa da Comenda de Malta!

CASA DA COMENDA DE MALTA.JPG

E, digam os compêndios, a nascença do nome, por que amargas margens não reside nele um orgulho, qualquer boaventurança do berço do regicída Aquilino.

(Vivemos, hoje ainda, almas que ele quis profanas de maldade engatilhada em pontaria de assassínio.)

Mesmo a ladear a Matriz, velhinha nascida no século XIV. Os sinais românicos apontam para gerações anteriores. Não importa, reside ali uma realidade sobretemporal, santa, sã e sineira.

IGREJA MATRIZ.JPG

Onde? - as marcas dos castigos, da sobranceria dos poderes, das vergastadas nas costas dos mais fracos? Sernancelhe descansa neste cimo e renova-se onde as gentes vão à fonte. E conversam e livremente explicam a sua terra, o seu devir. Toda a sua crença em amanhã.

TRABALHADOR NA FONTE.JPG

Não, em Sernancelhe nada condiz com o mundo macabro de Aquilino.

Há é muito para reconstruir. Ruínas datadas de quando? Tudo o abandono leva, menos os pétreos esqueletos que a pobreza mais recente deixou ao léu. Há sintomas naqueles arruamentos estreitos a que eu chamaria "esperança".

RUINA.JPG

Ou, talvez, desconfiança... Transmitiu-me o gato local, posto no que terá sido janela rasgada, grandiosa, esse medo medonho. Os animais são os iniciais presságios dos desastres; e serão, decerto, os últimos a compreeender a bonança.

GATO.JPG

Assim a calçada me levou ao morro maior e aos vagos dizeres de uma castelania suposta. Subir o escadório foi uma aposta nos pulmões, apenas onde se circunvizinhavam restos esparsos de muros, muralhas e degraus.

ESCADÓRIO PARA CASTELO.JPG

De uma fortificação - que terá defendido os antepassados de Aquilino e passou ao lado do Malhadinhas. Porquê? - porque a jactância do Mestre viajou até ao Minho, a Romarigães, lugar benigno em que se aconchegou em casa nobre. É sempre assim...

E em Sernancelhe ficava a velha vila, inspiração de males essencialmente políticos. Outrora grandiosa com episódios menos claros, fonte de investigações, quais as passeatas dos malteses por ali? Como queiram, a velha vila lá está, muito alargada, subindo nos andares dos prédios de hoje. Mas na sua paz e no seu sossego.

VISTA DO TOPO.JPG

Antiga, reservada (sem me querer intrometer nem expropriar), talvez mais dos visitantes do que dos seus nativos que vivem cá em baixo, preguiçosos de ir lá ao cimo.

 

Lugo (Galicia)

João-Afonso Machado, 08.07.21

A maior referência celta na Galiza, eis o que Lugo é. E a sua imensa muralha romana, recomposta e imperial, invoca os idos de Lucus Augusti, nos primórdios da primeira centúria pós Cristo, e os cenários das chamadas Guerras Cantábricas.

Com toda a veneração pela História, a minha atenção, centrou-se todavia, de início, num horizonte de actualidade azul e branca, convidativo e cheio de alegria.

IMG_4587.JPG

As cores galegas, as da nossa bandeira de sempre e da ansiosa espera de Vicente, o meu primogénito, após mais de um ano sobre o nosso último encontro! Pregado al suelo no parque da estacion de autobuses, sofri esses instantes, que pareciam não findar, e antecederam o enorme abraço trocado com este recém-chegado da Sérvia e da Bretanha, e não sei de onde mais. Num ápice, a sua tralha no hotel, uma espreitadela na Lugo elegante e actual, com meneios engraçados dos passados Anos Quarenta, tudo num saudável equilíbrio,

IMG_4588.JPG

e ala, portugueses, à conquista da muralha. Vencemos-la através da puerta de San Pedro o Toledano, uma das onze em que, ao longo das eras, o baluarte se foi abrindo aos de fora.

PUERTA DE SAN PEDRO O TOLEDANA.JPG

E, logo aí, iamos lendo os recortes do adarve, as suas pedras solidamente assentes, a muralha a prolongar-se por um perímetro de mais de dois quilómetros.

IMG_4590.JPG

Um adarve largo onde, se os automóveis subissem escadarias, facilmente circulariam. Fazem-no centenas de peões, turistas ou locais em passeio, num alto que os eleva ao topo das maiores construções luguenses.

IMG_4599.JPG

Tudo ante o olhar meditativo, cansado do dia, já pousando no sorver do ocaso à varanda dos residentes no interior da muralha. Afinal, nivelados com os passantes...

IMG_4596.JPG

E, no miolo da urbe, a catedral. Imensa, grandiosa. Merecendo destaque em cada pormenor das suas alas, das suas entradas laterais, até mais do que da sua fachada. Lugo, uma das quatro grandes cidades da Região da Galiza, orgulhar-se-á, decerto, deste seu templo, um imediato assessor de Compostela.

CATEDRAL.JPG

Será dispiciendo mencionar a animação de gentes e comércio na cidade dentro da muralha... Ou a multiplicidade dos seus temas de estudo, da estranha coexistência entre o sobrevivo e a ruína, dos sinais dos séculos que ainda se mantém intactos entre madeiros carcomidos...

IMG_4597.JPG

Em boa verdade, tal incompletude transmite bem a mensagem de um caminho sempre a correr, de uma realidade que jamais será perfeita. Lugo milenar, fruto generoso de engenharias sucessivas, é o coração de uma cidade grande e de um sem-número de viagens, consultas, estudos e sonhos... e orgulho de galegos e minhotos, dois em um, por serem as histórias destes povos tão irmãs.

 

Mogadouro

João-Afonso Machado, 02.06.21

Vila pequena, no Interior nordestino, já a dois passos da fronteira. Mogadouro é sede de concelho e o berço de um escritor que aprecio particularmente: Trindade Coelho.

VISTAS.JPG

Terra de dias simples, oscilando entre a torreira do sol e os gelos do Inverno no planalto. É no cimo, no seu castelo, meditando nestas fatalidades climáticas, que vamos dando conta de cães e gatos e alguns idosos, afora os turistas da vizinha Espanha.

CASTELO.JPG

Aliás, uma fortificação a impor respeito. Junto a si, mais recente, a "torre do relógio", - desses sempre pontuais, os do sol, - e a Matriz, um nada abaixo. Aqui, na parte antiga do Mogadouro, urgia almoçarmos, num domingo de quase ninguém. Valeu-nos o tasquinho da Sílvia, algo em vias de se tornar inovador, entre as refeições que ainda não serve e os produtos artesanais que já vende. Assim, às costumeiras sandes preferimos uma lata de feijão-frade e uma salada que a Sílvia de pronto preparou. Depois sentou-se connosco à mesa e foi contando da vida. O meu filho declarou-se interessado no dialecto mirandês e ela, num assomo de severidade, logo corrigiu - Não é dialecto, é língua!

- Filho, a Sílvia é de Miranda... - rosnou este velhote. E era. Mas fora para Oxford - Os ingleses de lá? Uns enfatuados!... - (Os londrinos nem tanto...) Sim, a Sílvia não se vestia exactamente à transmontana. Tinha uns bonitos olhos muito azuis e umas feições a adivinharem-se interessantes, por trás da máscara. Conversámos bastante. Explicou os seus planos neste negócio nascido há quinze dias: ia remodelar todo aquele antigo paradouro dos anciães locais, em busca de um copito de vinho... E, a finalizar, quis tirar uma fotografia comigo. - Uma selfie, Sílvia? Mas eu sou monárquico, não posso, isso é para os presidentes da República... - Tudo se resolveu com os préstimos de uma simpática senhora de passagem por ali. E ficamos os dois muito bem. Na despedida, uma oferta sua, as amêndoas da região, às mãos cheias.

FONTENÁRIO.JPG

Os fontenários ainda cumprem o seu serviço no Mogadouro. O pelourinho (deverá datar do reinado de D. Afonso III, quem concedeu foral à terra) alberga conversas vagarosas no sotaque melodioso das gentes daqui, já na idade disso mesmo -  de darem uso ao verbo, por todas as benditas horas.

PELOURINHO.JPG

E mais no fundo, a Praça Trindade Coelho, com uma amplitude digna deste filho do Mogadouro. Arejada, ostentando o bronze da estátua do literato, e a casa onde nasceu, naturalmente hoje um museu.

PRAÇA TRINDADE COELHO.JPG

São tudo razões para voltar ao Mogadouro: uma visita à Sílvia (como, de resto, recomendaria Trindade Coelho) e outra ao dito museu. A seguir o rasto desse transmontano que foi para Coimbra, casou ainda estudante, teve um filho e muitas, muitas, dificuldades financeiras, foi jornalista, bacharelou-se em Direito, advogou, mudou para a magistratura, não quis ser deputado (!!!), e acabou tragicamente os seus dias.

Os Meus Amores e In Illo Tempore, as suas obras fundamentais. Esta última, memorial da vida académica coimbrã, começa assim: «No tempo em que eu andava em Coimbra, andava lá também a estudar Direito um rapaz chamado Pássaro. Ele não se chamava Pássaro. Pássaro pusemos-lhe nós porque, além de ser alegre como um pintassilgo e vivo como um pardal, usava o cabelo não sei de que modo, que parecia que lhe punha duas asas atrás das orelhas, e que a cabeça lhe ia a voar!».

Escrita despretenciosa, pitoresca, observadora... Uma delícia!

 

Zamora

João-Afonso Machado, 29.05.21

Entrámos, eu e o meu filho Bernardo, num cerco de avenidas indistinguiveis e de edifícios tijolados, numa típico modo de bandeira espanhola, sempre uma imagem de marca. Parámos no Turismo local, serviço prestimoso, que nos forneceu um mapa e muito amáveis instruções.O meu Bernardo perorando em castelhano, eu em português de boa lavra, que eles, vindo cá, ao nosso Portugal, também não se esforçam...

Entendemos-nos. E da Plaza La Farola seguimos para a zona histórica, com passagem por alguma parasitação na Plaza Alemania, onde ainda sobrevive a Ermida del Carmen del Camino, coitadinha, enforcada nas cordas da modernidade.

ERMIDA DEL CARMEN DEL CAMINO.JPG

Um mau começo. Mas lá nos entendemos a caminho da Zamora livre, ora pela Calle Santa Clara, ora pela Calle San Torcuato, ambas pedonais.

É um tempo de olhares cheios de edifícios quinhentistas.

QUINHENTISTA.JPG

E de bom comércio e múltiplas plazas, cada uma com a sua crónica e monumentos a encher-nos a alma, sejam eles religiosos ou civis. Nos quais, nesta cidade já de tamanho adiantado, as cegonhas continuam a nidificar nos lugares mais altos.

IMG_4379.JPG

De pé firme, passámos a Plaza de Santiago,

ECLESIA DE SANTIAGO.JPG

a Plaza de la Constitución,

IMG_4381.JPG

e a Plaza Mayor,

NA PLAZA MAYOR.JPG

finalmente atingindo a Plaza Viriato, um designativo de todos nós, peninsulares.

PLAZA VIRIATO.JPG

Sempre subindo a História. A Plaza de San Ildefonso, o templo que a marca, também nos fala ao coração, - a Eclesia de San Pedro y San Ildefonso - a vir lembrar a freguesia do meu nascimento, com a vida a crescer (como eu me tornei velho) até às proximidades da culminância da urbe onde, se calhar contristadamente, Afonso VII de Castela reconheceu, mediante o célebre Tratado de Zamora, Portugal um país independente. Em consequência das façanhas do nosso primeiro Rei e dos seus guerreiros. - Nós somos livres e o nosso Povo é livre! - assim proclamou D. Afonso Henriques, o Fundador.

Tinha havido muita liça de permeio. Zamora é um ermo de palavras sobre tão capital assunto. Mas não deixa de trepar às suas barbacãs, onde provavelmente Castela se terá rendido a todas as evidências. E este é o único 5 de Outubro que Portugal há de celebrar.

Ficaram mais peugadas até lá: a Catedral de San Salvador e os "mil" sinos da sua torre mestra

IMG_4389.JPG

cujo início de construção remonta a pouco antes do Tratado, nata em idos das antigas invasões muçulmanas, velhinha, medalhada, quiçá a anfitreã das hostes do nosso primordial monarca. Se não ela, o castelo arriba,

IMG_4392.JPG

de qualquer jeito explicando aos castelhanos que nós eramos nós, e eles os outros. Foi como alcançámos, invadimos a fortaleza. E no seu cimo, comendo talhadas de melância, como os Ramires piratas seiscentistas (conta-nos Eça de Queiroz), gozámos el Duero, já mais próximo da Nação, tropeçando em açudes onde as cegonhas poisam e bicam o peixe.

IMG_4395.JPG

A vida nestas paragens é saúde. Quero dizer, é a paz (despida de tolices pseudo-filosóficas), quietude e remansos; é a beleza das águas, da sua limpidez e da sua força eterna.

 

Tordesilhas

João-Afonso Machado, 28.05.21

Os espanhois são desbragados. Poem nas paredes o que o pecado nos leva ao confessionário. Sem pudores, na calmaria das suas vozes castelhanas que ignoram o nosso imaculado português.

CALLE SAN ANTON.JPG

Mas a gente sempre se vingou, com outro saber (esqueço agora Olivença...) e, ao menos, durante o nosso Reino, lá iamos papando esses malandros. Aliás, eles mesmo dão conta dessa comezaina.

IMG_4367.JPG

Tordesilhas, estive lá como se estivesse então...

 E dizia-me El-Rei - Machado, chegai aí o pergaminho, que eu assino já! - Ei-lo aqui, meu Senhor...

(Assim à pressa, não fossem os castelhanos dar conta, queríamos mais 370 léguas para ocidente de Cabo Verde, a fanar-lhes o bojo brasileiro, de mui grande proveito.)

O palácio em que os soberanos firmaram o tratado, partindo o planeta em dois, uma parte para Castela, outra para Portugal, ainda hoje o recordo, de caras para el Duero, vasto monumento de dimensões e memórias históricas

IMG_4366.JPG

Porém, Tordesillas és um pequeño pueblo. As suas noites são pacíficas

IMG_4361.JPG

e as nossas quinas - as quinas da bandeira nacional - ainda nela assomam sem cores garridas a roubar-lhes a solenidade.

IMG_4357.JPG

Vagueando por ali, damos ainda conta do célebre Tratado em que as duas potências negociavam terras e mares, talvez ao jeito pintado por alguém que fez ninho nos idos do imperialismo americano-soviético

IMG_4354.JPG

IMG_4355.JPG

porque a vida também se faz das maiores imbecilidades, que hão de ser temperadas com o magnífico Real Mosteiro de Santa Clara, comemorativo da vitória do Salado, na qual os exércitos lusos de D. Afonso IV tiveram uma intervenção decisiva,

REAL MOSTEIRO DE SANTA CLARA.JPG

sendo considerado um exemplar único da arquitectura mudejar em Castilla-Leon. (Fica já agendada uma próxima visita ao seu interior...) E mesmo com o falatório da Plaza Mayor, em maré de almoço, a mais propícia,

IMG_4342.JPG

senão mesmo com as vistas de el Duero, da sua grandiosa ponte românica, 

IMG_4374.JPG

já a dois dias de se transfigurar no nosso Douro, vinhateiro, electricista, barqueiro, rio de mil ofícios até se deixar entrar na sua foz, Portugal avante.

 

O Penedo Durão

João-Afonso Machado, 22.05.21

Poiares, freguesia do concelho de Freixo de Espada à Cinta. Deixando a aldeia por caminhos complicados e amarelos das giestas. Sempre a subir até à grandiosidade dos penedos e à enorme varanda sobre o Douro Internacional.

A viagem remata-se num parque de merendas e em carreirinhos para o topo, um bloco granítico que os milénios de ventos e chuvas aguçaram como navalhas.

IMG_4323.JPG

São lâminas sobrepostas e apontadas ao céu. Muito ao fundo, o rio correndo do norte, de barriga cheia e luzídia e, decerto, alguma vaidade, tal a opulência das suas formas. Como se os cumes dos montes estivessem ao alcance da sua vontade, das suas águas dominadoras.

Mera ilusão! Diversão de quem espreita cá de cima: o Douro vai enganado, um pedaço adiante cancela-o a barragem (la presa) de Saucelle, aconteceu os espanhois deixarem-no engordar para lhe sugar energia hidroeléctrica e - somos todos testemunhas - do paredão o rio esguicha apenas, e num fiozinho se vai tentando recompor.

(Os rios são assim, nascem e renascem, jamais baqueiam - como as palavras dos homens - senão no lugar natural da sua morte, a foz: para onde, contra tudo e contra todos, deslizam sem desistir ou hesitar.)

Mas é um extraordinário momento de rocha e vegetação selvagem, somente com o incontável valor da monumentalidade e das formas cruzadas e coloridas! Distante da vida humana, cantorio de aves, suposição de feras de bom porte. Rapinagem de grifos, asas de envergadura que assusta, esbranquiçadas, voando muito abaixo do nosso poiso até ninhos inacessíveis, verdadeiros altares de necrofagia.

Na margem de lá, o vislumbre do povoado de Saucelle. Num face-a-face que o Douro vai eternizando.

VISTA DE PENEDO DURÃO, FREIXO.JPG

Portugal e Espanha. Dois universos?

Nesse dia, ambos o meu mundo. Quedo, coleante à moda dos cursos de água, amaldiçoando o betão entre a Natureza e de olhar consolado no planar dos grifos. Acalorado pela inevitabilidade das correntes que hão de chegar ao mar longínquo e sorrindo, em toda essa vastidão, ao dar com Nossa Senhora.

IMG_4326.JPG

A alva Nossa Senhora - aqui - do Douro. Como o é de tantos outros reinos onde o meu coração assenta e esquece tudo quanto o quotidiano tem de feio.

 

Freixo de Espada à Cinta

João-Afonso Machado, 21.05.21

O nome, parece, vem de um fidalgo - não se sabe quem, nem quando - que por ali adormeceu, certa vez, à sombra de um freixo enorme onde encostou a sua espada embainhada e cintada. E essa simbologia é bem evidente nos altos da vila, entre a torre do relógio e a igreja matriz.

O FREIXO.JPG

Freixo de Espada à Cinta é uma vila tanina. É a sede do concelho mais a sul do distrito de Bragança. Do lado de lá do Douro estamos em Espanha. E a torre do relógio (de marca Jerónimo e fabrico bracarense) é, supostamente, a do castelo cujas muralhas os arqueólogos intentam desenterrar com uma bravura medieval.

TORRE RELÓGIO.JPG

Mas, a seus pés, o silêncio dos que por cá passaram e já partiram, montes fora, na infinitude do horizonte que cada um interpretará a seu gosto.

CEMITÉRIO.JPG

Não obstante, Freixo de Espada à Cinta foi, ao longo da História, berço - imagine-se! - de mareantes e marinheiros grados. E, sobretudo, do poeta Guerra Junqueiro. A casa dos seus pais, comerciantes dali, é hoje ponto de atracção turística e cultural e memória da sua infância, talvez da sua maturidade também.

CASA G. JUNQUEIRO.JPG

De quando, já reconciliado consigo e com o mundo, cantava a sua Oração ao Pão:

«(...) Homem!/Vive por Deus!/Sofre por Deus/Morre por Deus!

E bendito serás na eterna paz,/Porque ao fechar os olhos teus,/Trigo de Deus, absorto em Deus descansarás!...»

Chegam entretanto, - profanamente, pecaminosamente - a estas paragens nacos suculentos da boa posta mirandesa, contrastando com tanta pureza e transcendência... Poisos para dormir é que são menos, quase nenhuns. A não ser, talvez, a vizinhança do pelourinho manuelino

PELOURINHO.JPG

onde repousam os decanos da vila, em bancada de muitas notícias e um solzinho quente, o melhor bálsamo para o reumático.

 

Carrazeda de Ansiães

João-Afonso Machado, 19.05.21

Na casa dos trinta anos, as pernas lidavam de igual para igual com os socalcos e as maiores infestações de "sujo", as vinhas abandonadas nas margens íngremes e imensas do Douro. Não lhes tolhiam o passo os "mortórios" carregados de aramagem rasteira, em desuso e esquecida, tal a imparável ânsia das perdizes...

E era nas cercanias de Carrazeda de Ansiães, sempre, a abertura da caça, com longa e sinuosa viagem, de véspera, por Vila Real, Alto do Pópulo, Riba-Tua... Naquela idade a jantarada era de arromba, no restaurante do Sr. Paulo, e a dormida na única, tímida, casa que disponibilizava quartos, a 500$00 a noite, um monopólio do Sr. Pereira.

(Com o andar do tempo, os trilhos da caça levariam o secular grupo de parceiros e amigos para terras muito diferentes, as do Alentejo...)

Assim agora voltei a Carrazeda. Sede de concelho, mas vila muito simplória e despretensiosa, onde as éguas entram de tarde em trabalhos de parto, aguardando tranquilamente quem as auxilie, mesmo junto ao casario.

ÉGUA.JPG

E, enquanto almoçava umas pataniscas, fui inquirindo sobre essas antigas eras, em que em Carrazeda não havia pizzarias, apenas uma «Pisseteria»...

Do Sr. Pereira, as notícias, sinistras, tinham chegado ao Litoral. Idoso, sozinho, não obstante a abastança, um dia a tristeza, o desespero, o poço dos seus quintais... Enfim, tinham dado com ele em tais águas, sem vida já.

O Sr. Paulo ainda está entre nós. Numa cadeirinha de rodas, após tremendo acidente rodoviário. Mas o seu estabelecimento continua de portas abertas ao público!

PAULO.JPG

(Entrementes, aproximou-se um velho caçador local, sentou à minha mesa e a conversa demorou-se em saudosas recordações sobre os idos em que não faltavam perdizes e coelhos a enfeitar os ganchos das cartucheiras...)

Carrazeda de Ansiães cresceu, como não podia deixar de ser. Eu diria dela uma vila em reconstrução, a não desperdiçar antigas edificações que o destino deixou cair na ruína.

IMG_4304.JPG

É a mesma a pacata Matriz onde iamos à missa, talvez sem grande entusiasmo, mas acompanhando o decano do grupo, escrupuloso cumpridor do preceito dominical.

MATRIZ.JPG

Assim também com o seu jardim público, fresco momento entre a secura transmontana.

REPUXO.JPG

Ou com a misteriosa casa na curva do adeus, - hoje o Café Curva - a história por descobrir de alguém mais afoito que um dia se bandeou para o Brasil e voltou com uma mansarda das gordas e macróbias.

CAFÉ CURVA.JPG

Como não era a, de curta duração, garrafa que o Sr. Paulo nos apresentava na mesa, após o jantar, proclamando - Srs. Drs. está aqui o verdadeiro scotch! - E a famigerada ia toda, na voracidade dos nossos trinta anos, madrugada fora, três horas de sono para uma maratona alvorecendo a sonhar e a correr socalcos e socalcos e socalcos.

 

A vaguear pelos Açores (X) - A Praia da Vitória (Terceira)

João-Afonso Machado, 24.04.21

Foi um voo simpático, do Pico à Terceira. Era já o regresso ao Cont'nente, com esta escala de meio dia, o bastante para revisitar a Praia da Vitória. Passe a cacafonia, a sua história. 

E uma desordem de ideias. Dali partiu a esquadra chefiada pelo Senhor D. Pedro IV, que havia de desembarcar na praia de Pampelido. Mas eu por quem? Os meus, nessa contemporaneidade, por El-Rei D. Miguel; duas gerações depois, jurando a Carta Constitucional, juramento esse que me cumpre não negar... A Guerra Civil foi o que foi, e imagino D. Pedro IV, na sua fragata, acompanhado dos seus estrategas militares, - Terceira, Saldanha, Sá da Bandeira, Sartorius... - afinal os grandes oficiais que venceram um povo quase inteiro pela sua audácia, pela sua ousadia e saber militar. Posto em frente da baía da Praia da Vitória, vou tentando resolver equações de partido jamais solucionadas...

BAÍA.JPG

Mas talvez a matemática da História dê o tema por ultrapassado. Sobre todos os dilemas partidários resultou a nossa eterna Coroa. Foi assim que despeguei os olhos daquelas águas sem parelha, e andei por lá, até que, já esfomeado, abanquei e comi um inigualável bife de espadarte.

IMG_4238.JPG

Não é tosca esta cidade da Praia da Vitória. E vive sobremaneira dos seus monumentos, por regra assinalados com três datas: as do construção, destruição e restauro. É o caso da Igreja da Misericórdia.

IMG_4230.JPG

Defronte, o busto de Vitorino Nemésio e a casa das suas Tias, famosa pela sua sacada de dez janelas, um magnífico edifício com a sua lápide, as suas memórias (à dita faz o Autor referência no seu romance Paço do Milhafre)...

CASA DAS TIAS DE NEMÉSIO.JPG

E o passeio prosseguia, em riscas de cor - amarelas e azuis - pela cidade fora,

IMG_4229.JPG

realidade arquitectónica impossivel de não aliar às vilas alentejanas, tal qual a emoção dos toiros, um exclusivo ilhéu da Terceira,

IMG_4249.JPG

conforme bem está descrito no derradeiro capítulo do Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio).

IMG_4251.JPG

Com tudo entre vegetação exótica, jardins de silêncio e sombra, copas de árvores que são mães de filhos agoirados pelo calor.

A finalizar, o retorno ao Cont'nente, ainda por Ponta Delgada, lugar proibido pelo Covid, abriu-se numa longa chama de saudade, que os Açores valem muito. Mesmo muito. Muíssimo.