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FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

FUGAS DO MEU TINTEIRO

Imagens e palavras de um mundo onde há menos gente

Kalna, na Sérvia

João-Afonso Machado, 21.09.21

Partimos, finalmente, em direcção às altitudes balcanicas. Num Toyota, decerto por milagre, safo das inquietações bélicas do passado recente, mas não ileso...; carregado de sacos de cimento e, no banco de trás, transportando um verdadeiro tesouro - dois portugueses de gema, eu e o meu filho. O resto eram curvas sobre curvas e o curioso costume sérvio de comer pizza e beber coca-cola enquanto se maneja o volante. Umas dezenas de quilómetros assim.

E depois o súbito desvio, junto a uma povoação, para um trilho serrano. O casario cada vez mais esparso, a sensação do abandono, a florestação total... - tinhamos chegado!

Aonde? Ao nosso destino, evidentemente. E o nosso destino consistia numa aldeia esquecida dos pastores, construções de rastos que um grupo de gente nova sérvia, ainda cheia de força, tenta recuperar. Por isso o cimento na mala do estenuado Toyota.

Ali se vive, se criam galinhas e se trata das hortas. Ali se filosofa e sonha, pacificamente, com a "revolução". E ali proliferam cães e gatos, às ninhadas inteiras, na maior anarquia. Como quer que seja, ali gosta de estar o meu filho, e tão amavelmente receberam o seu pai, monárquico e anárquico, mas sempre clássico.

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Ao dia seguinte, dormidas umas horas, tomei um pequeno-almoço de água dos Balcãs, enchi-me dela, e parti em exploração, monte abaixo, cercado de carvalhos, abetos e outras frondosidades.

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À medida que ia caminhando, a vida humana ia despontando em jeito mais organizado.

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Habitações realmente habitáveis; os palheiros feitos de ripas de madeira, melhor ou pior conservados; os canídeos, sempre hospitaleiros; mulheres fumando, de unhas pintadas e forquilha nas mãos, tentando com gestos e monossílabos explicar o percurso para a vilória; surreais aparições, como os restos mortais de uma camioneta dos Fifties, entre o matagal;

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e os inevitáveis rebanhos de cabras e ovelhas.

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Eu estava em Starakalna, traduzindo, qualquer coisa como Kalna-a-Velha. E, no termo de alguns três quartos de hora a pé, avistei a estrada, o desvio do dia anterior, e a beatitude de Kalna, onde se estabelecera o grosso da população.

Tem um posto da Polícia, esta Kalna,

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e tem um hotel que, segundo apurei, se mantem fechado porque falta ao dono pachorra para aturar os hóspedes, algo que o transformou no meu heroi local, a força capaz de enfrentar e vencer os chatos.

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Kalna tem duas fieiras de prédios com três andares e muitas pilhas de lenha encostadas às paredes, para obstar aos rigores da invernia. Mais um esquecido posto de turismo de montanha, fechado a sete chaves, e um - ou uma? - veterinarska, o primordial termo sérvio da minha aprendizagem.

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Conquanto o mutismo do consultório não indiciasse o seu estonteante sucesso...

Por fim, os restaurantes, com as suas esplanadas, e as mercearias de caras viradas para a rodovia. Numa daquelas assentei, almocei e gozei a tarde.

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O repasto consistiu numa excelente, tenrinha, carne de porco com batatas assadas. E cerveja (leve, de baixo teor alcoólico, como a venho bebendo por toda esta região), a bastante. O sol refulgia, o ruído automóvel rareava. Os cães de Kalna vinham até nós, por um pedacito de comida, e voltavam à estrada, onde se estendiam como se na praia fosse.

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Eis, então, surgiu o meu filho, já preocupado, não fosse eu me perder nos altos e dar de caras com algum urso. Sentou-se, conversámos, manifestei-lhe quanto me aprazia um vagar assim. Ao longe, um malhar de motores que me era familiar, os cães enfastiados a erguerem-se,

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e a circulação de algo que já não via desde os meus 18 anos, talvez. Um tractor, um Massey Ferguson, o primeiro que o meu Pai comprou, a viatura de urgência nas minhas escapadelas de juventude. Louvado seja Nosso Senhor, que tanta foi a asneira e nenhuma desgraça brotou, a colorir as páginas dos semanários famalicenses da época!...

Mas na Sérvia, confirmei depois, ainda não há outros modelos disponíveis. Apenas esse Massey Ferguson que eu tanto gostava de ver curvar em três rodas... - Filho, vamos subindo que se faz tarde... - disse, num assomo de saudade.

 

Passeata em Sófia

João-Afonso Machado, 13.09.21

As suas raizes são antiquíssimas, mesmo a avaliar pela bem apresentada estação arqueológica, às voltas com os vestígios de uma cidade trácia. E depois Sófia andou de mão em mão, passou pelos romanos, pelos hunos, pelos turcos, até à definição do reino da Bulgária, pelo meado do século XIX. Enfim, deixando de lado as décadas da sua obediente parceria com a URSS, estamos já na actualidade. Mais precisamente, no seu gerador comercial e turístico, a longa e pedonal Praça Vitosha (frente à montanha identicamente chamada - 1700 metros de altitude!).

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Aqui, de algum modo, poisaram as marcas mundiais de maior relevo e exigência financeira, e a companhia dos pombos também.

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Mas tudo seria mais fácil, não fosse o temível alfabeto cirílico nas placas das ruas, nos dizeres das lojas. É o demónio a gente saber onde está e do que se trata. E muito há de lindíssimo nas redondezas da Praça Vitosha. Vamos abrindo os olhos, então, apontando-os aos múltiplos jardins,

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às venerandas Termas Centrais, no presente o Museu da História,

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ao Teatro Nacional Ivan Vazov

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ou à estátua da mártir Santa Sofia (obrigada a assistir ao assassinato das suas próprias três filhas), a padroeira da cidade.

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Nas costas deste referido monumento, ergue-se a maior igreja católica romana da capital búlgara. Acabamos de penetrar um louvável perímetro ecuménico, porque a sinagoga anda ali perto, bem como a mesquita Banya Bashia.

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Ouve-se então um som lamuriento, prolongado, mesmo insistente. Cântico? Música? Não, somente o modo habitual de o templo islamita, de três em três horas, chamar os seus fieis à oração.

A maioria dos búlgaros, no entanto, é - pelo menos de tradição - ortodoxa. E o culto, no tocante a baptizados e casamentos, acelera muito aos domingos:

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O local previlegiado, a igreja de Saint George, a decana do catolicismo do rito ortodoxo grego,

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tão rica por dentro quão singela no exterior, onde fazem fila, ou se fotografam, os intervenientes e os respectivos convidados. Todos num certo jeito eslavo de caberem mal nos fatos e nos vestidos, decerto ansiosos pela mesa posta, a manga arregaçada e a cerveja pelo gargalo, o fatal bailarico.

Assim não seria nos severos tempos da Praça Nezavisimost, feita de edifícios do Partido Comunista de então.

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Simplesmente, tropeçando o regime nos escombros do Muro de Berlim, os ditos "centros de trabalho" transitaram para outros ofícios, seja o caso de o edifício do Governo ou de museus. Vejam lá o que nunca nos foi contado durante tanto tempo!

 

Sófia - logo arribados lá

João-Afonso Machado, 10.09.21

Essa noite em Sófia carregou-se de beleza e movimento, fez-se inesquecível. Parecia, à chegada, uma noite escura e calada, perdida entre prédios sujos e suspeitos; uma noite trilhando carreiros entre arbustos, de muita terra e pedra solta, luz quase nenhuma e semi-desfeitas bandeiras búlgaras nas janelas de um ou outro edifício. O primeiro restaurante recusou-nos o jantar, eram já desoras. Guiados por Kalina, a amiga do meu filho, alcançámos um segundo, amplo e acolhedor, sonoramente em festa.

Kalina é uma jovem nada em Sófia, guardando consigo o que há de mais bonito e atraente. Em casa dela pernoitámos, e foi ela a nossa guia enquanto na capital búlgara. Kalina podia ser minha filha, e é na maior dedicação de um pai velhote que tudo narro do que se foi passando.

Tratava-se de uma noite de grande comemoração no restaurante. Essa garota, gorduchita e loirinha, muito activa no bailarico, festejava, de uma penada só, o seu aniversário, o casamento que estava quase aí e o bebé também já a caminho.

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No centro de uma das salas da casa, a cantora, - mais madura - os tocadores de orgão e de instrumentos de sopro. - O que é isto? - E Kalina apressou-se a explicar, era o folclore deles, dito o "horo".

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Concentrei-me nas dançarinas. Em roda, de mãos dadas, acompanhavam graciosamente uma música suave de voz firme e serena, tudo decerto com berço mais a oriente, lá para as bandas da Turquia. Não, não eram possíveis quaisquer comparações com os nossos viras e malhões...

Ali não pontificava a exuberância, o garrido, o sôfrego movimentar do corpo e das cordas vocais. Mais o coleante serpentear do grupo que, aliás, ia crescendo.

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Das mesas vizinhas chegava gente, a criançada também queria participar. Pares de sapatos ficavam a uma canto, que tacões altos não ajudam.... Ouviam-se palmas e incentivos. E sempre melodiosamente, num ritmo que se empolgava, as dançarinas dançavam, o restaurante inteiro comia do espectáculo, e muitos (mais eu) disparavam em fotografias.

Ocorreu-me a ausência da balalaica. Já alguns homens se erguiam também e entravam na dança...

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Era total a sintonia dos gestos, o seu enlevo. A menina dos anos, incansável. E até a mim, tão desajeitado, apeteceu dar um pezinho no salsifré.

Eis, porém, que cercada por excelentes batatinhas assadas, muito bem condimentadas, chegou finalmente à mesa a truta que eu escolhera, gorda, de carne rija, alvíssima, sem espinhas. Não a truta dos nossos rios, um outro qualquer salmonídeo dos Balcãs, benza-o o Senhor. O meu filho e a amiga escolheram já não sei que prato regional, onde ainda petisquei uns bons legumes estufados. O pior foi, sem dúvida, o vinho branco indígena, compensado por um copazio de cerveja a rematar.

A viagem, com escala em Genebra, cansara. Os ossos pediam repouso. E essas escapatórias entre prédios que ainda não substituiram as cortinas de ferro foram o nosso regresso e a proximidade do condizente Trabant,

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emergindo do breu, uma relíquia dos tempos em que na Bulgária era obrigatório recolher muito, muito cedo.

 

Por S. Pedro do Sul

João-Afonso Machado, 23.08.21

Proclamou-se a "Capital das Termas". E por estas tudo começei: ali estabeleci o quartel-general, a menina Diana dos mais lindos olhos cinzentos esverdeados atendeu-me, serviu o copo de vinho, mas ignorava em que freguesia estava. Na Várzea - envangelizei. E fui descarregar as trouxas na residêncial.

Depois desci a saber mais destas margens do Vouga. Por onde se lavaram do pó e da tripa os romanos e, ao que se sabe, D. Afonso Henriques também; são, enfim, milénios e milénios de clientela arqueológica e patriota. Os vestígios restam óbvios, na pedra trabalhada, um conservante como outro não há. E no centro das Termas de S. Pedro do Sul, o Largo do Balneário Rainha D. Amélia (!!!), a excelente Senhora pelos portugueses tão injustiçada, ali firme, com o seu nome nesse tal estabelecimento vocacionado para relaxe e massagens.

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Um pouco além, o outro balneário, moderna construção apadrinhada pelo nosso primeiro Rei, onde a especialidade são os tratamentos de fisioterapia.

Calcular-se-á, o sítio das termas é fundamentalmente hoteis, pensões, alojamentos locais... No Largo que não deixa esquecer a nossa D. Amélia, sempre muito concorrido, assombrado pelas esplanadas, circulando de porta em porta nas lojas de artesanato e lembranças, isso mesmo se verifica, aliás com sobeja beleza.

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As Termas de S. Pedro do Sul são essencialmente um território de idosos. Abundam as bengalas, a pacífica gente que ali busca descanso - e, sendo tantos e infindo o convívio, é a caixa das alegrias a abrir-se, o reencontro com as amizades de anteriores temporadas... Mas há gente nova também, famílias com os filhos pequenos, a usual busca de alternativas. Numa das muitas confeitarias pedi um "vouguinha", pastel de ovos e amêndoa típico destas paragens... E dei comigo no maior espanto - o Museu da Rainha D. Amélia, ainda não aberto ao público... O que sairá dali?...

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Tudo era movimento, mesmo o Vouga. A jusante da ponte, o Vouga está para obras! As escavadoras passeiam no seu leito barricado por línguas arenosas, num ar putrefacto de poeira em que a água se ouve distante, invisivel, furiosa do engarrafamento criado. Assim um fotógrafo se vira para o lado oposto a pedir imagens decentes, oriundas da ponte pedonal. E assim capta a gigantesca torneira laranja

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(uma ilusão à Luís de Matos), e o repuxo de tons bem engraxados pelos raios solares.

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A povoação (um termo demasiadamente rural, considerando esta ventania de forasteiros...) trepa a encosta em ruelas desconcertantes, autênticas ameaças à chapa dos carros. Mesmo porque tudo ali é branco, bonito, em multicoloridos de jardim. Como uma menina oitocentista e a sua sombrinha...

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Já noite feita, o jantar na residêncial. No imenso círculo de velhinhos, comeres de hospital - para mim a sopinha, uma posta de salmão, muito obrigado, e uma garrafinha desse branco tão ao jeito da pureza seminarista.

Entrementes: urgia explorar a cidade sede do concelho. Logo ao raiar da manhã seguinte. Cheguei, deixei o carro na primordial hipótese, entrei numa livraria para informações, e - imagine-se! - comprei um livro de Baptista-Bastos! Hei um dia de reflectir sobre estes actos isolados e incompreensíveis, literariamente absurdos. Posto o que marchei, em caminhos de urbe nova, e perguntei, perguntei, até dar com a veneranda S. Pedro do Sul. Encontrei-a no Convento de S. José,

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junto a esconsas ruas por onde dealbei até ao setecentista Palácio Reriz, o mais prestigiado da terra. Ao que apurei, ainda habitado pela família de origem, esse antigo pousio dos Reis de Portugal quando vinham a águas nas Termas.

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O palácio está acabadote, desdentado e meio cego. A seus pés, o antigo centro de S. Pedro do Sul e a Religião a apertá-lo de um lado e do outro. Ou seja: o magnífico edifício espreita, entre a Matriz e a Igreja de Santo António, para o antigo Largo da Rainha D. Amélia (outra vez a excelente Senhora!), hoje Praça da República - e nada mais agora senão um movimentadíssimo cruzamento de ruas onde, certamente, já não subsiste o falatório de outrora, políticos, curiosos, cuscuvilheiros, mensageiros e outros que tais.

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Por mercê do Grandioso, mesmo abaixo do Palácio, o Largo da Matriz. Um tecto de árvores, os anciãos da terra nos seus bancos a jogar ao cavaco de língua, sob a orquestra tocada pela pardalada. Benigno momento de repouso, do meu repouso, refrescado por meio litro de água. O calor não poupava, as forças iam-se...

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E tanto é, de S. Pedro do Sul dei após, somente, com a Fonte dos Namorados, um lugar de amor entre moradias de agora, a marca incontornável do crescimento urbano roubando os lugares onde antes a vida era tão singela quão prometedora, em tardes dominicais que - estou para saber... - galopavam ou se eternizavam.

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Voltei ao carro, no interior em infernais labaredas. Atravessei a ponte do rio Sul, confluenciando com o Vouga umas dezenas de metros à frente, e fui ver as modas. Havia um "vira" que me toldou o espírito - trutas! Sim, trutas neste pequeno curso, bem à vista do freguês, a dois passos da criançada no banho. Claro, em Agosto a sua pesca é proibida e as manhosas decoraram o nosso calendário! Já nem as trutas conseguimos manter no analfabetismo...

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Era um parque bem dimensionado. O sol morava no areal junto ao rio, a frescura sob a frondosidade dos plátanos. Tomei ar, pausei, olhei em redor. Muitos, nas suas mantas na relva, procediam igual. E a ninguém se escapava o húmido aroma das águas, avidamente sorvido. Ali, S. Pedro do Sul dormitava entre troncos de perímetro atlético e altura record...

Ganhei forças. Ainda havia muito combustível para gastar. Rumo à serra de S. Macário, em demanda das aldeias do xisto. Mais precisamente, de Fusaco, ou um percurso levado da breca. 

Por S. Félix, por Sul (que animadora casinha branca, de janelas verdes!),

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por montes e vales, devagarinho não fosse o diabo tecê-las, aspirando os sabores medicinais das folhas de eucalipto, a sua cantilena na brisa.

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Até lá. A Fusaco, cravada na encosta, bem camuflada, a pedra a encobrir a pedra.

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À chegada, o corregozito a morrer de sede, que a temporada das chuvas está longe e há que poupar, represar. Alguém disse já, a ponte é uma miragem...

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Ainda assim, nesse derradeiro reduto, uma cobrinha-de-água de descomunais dimensões. Tentei estabelecer diálogo mas mais não consegui senão, a uns centímetros, a sua lingua bífida, o medo disfarçado, eu a prometer-lhe uma vida melhor...

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Escapuliu-se na primeira oportunidade... Lamentei, seria, pelo seu porte, um troféu de valia guardado no bolso. Vistas as coisas, nada interessou o meu fatal olhar galã defronte ao seu, sempre glacial. E assim desesperançado subi a aldeia, não topando com vivalma.

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Casinhas, havia-as muitas, as de quem desconhece as restantes do mundo cá fora, e as dos habitantes deste mesmo mundo, que vão optando por vidas de eremita com antena parabólica. Ou é de mim ou estamos de regresso ao comunitarismo, com restaurante de luxo à porta...  Mas agora era tempo de mudar de ares...

O próximo poiso - o Poço Azul, na freguesia de Sobrosa, sítio previlegiado da ribeira da Landeira. Com o bólide sempre a subir, cheguei a uma largo com estranhas formas de piscina, dois tanques quase cheios, e uma roullote vendendo comeres. Mais a fatal esplanada. Perguntei, o Poço Azul era em baixo, meio quilómetro íngreme que eu desci, et voilá!

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A rampa dava bem conta do que seria o regresso, na sofrida e esfolada volta de quem tinha estado. Por fim, a piscina natural, a sua limpidez, talvez um convite recusado, tanto se avantajava a multidão, dentro de água, posta em toalhas de praia, berrando, berrando, berrando. Porque perdi as minhas notas, subi e desci três vezes esse calvário em busca do meu caderninho (e de umas canetas predilectas) que jamais reencontrei. Semelhante tristeza, só posso acrescentar, serviu de medição do meu folego para as perdizes. Talvez o velhote ainda participe em outra campanha...

No regresso às termas foi uma caixa de biscoitos e uma botelha de vinho de Lafões - eu estava incomodado, tanto pelos meus perdidos apontamentos quanto pelas canetas com que escreve este coração. Entre os mais desabafos, valeu-me a menina Diana, a sua companhia, senhora de uns olhos como outros não há nesta enorme Beira Alta.

 

Breve volta na Serra da Estrela

João-Afonso Machado, 06.08.21

Trago aquelas assustadoras formas comigo desde os meus 12 anos. E, reforçadamente, depois de ter encavalitado no nariz da bruxa, eram eles criancinhas, os meus dois filhos, num passeio de outras vidas. Eis porque não podia deixar a romagem de lado, a S. Romão, subindo ingremes caminhos de monte na Senhora do Desterro. Muito pó, mais arquejo ainda, e, por fim, a famosa Cabeça da Velha!

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Assim fiquei, perante as suas feições eternamente de cadáver por morrer, um bom pedaço de tempo, contemplativo, rebobinando os meus dias, precisando memórias. E depois fomos. Supondo que a Serra da Estrela se trepa a eito, esperava-nos a aldeia portuguesa dita a mais alta - o Sabugueiro, 1200 metros acima do nível do mar. Os estabelecimentos para os turistas encontraram ali o seu máximo vigor. Há de tudo: peles, samarras, meias e gorros e luvas, aguardentes, licores e queijos, souvenirs diversos e cachorros da raça local. 

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Uma barbaridade! (Quantas vezes uma vigarice...) Mais decente e tranquilizador, o campo onde repousam os serranos para sempre contemplando as altitudes onde pastorearam e se enrijeceram entre os nevões todos das suas existências.

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Prosseguimos esta etapa-rainha da nossa volta. A uma cota assaz mais elevada, já mesmo roçando o sol, a barragem do Vale do Rossim, que eu deixei, ainda estudante, em estado de quase virgindade, com duas ou três casas pré-fabricadas nas imediações. Vão lá vê-la agora, essa beldade falante como se na Côte d'Azur!...

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Ali se navega, se mergulha e se nada ou enala o bronzeado-opiácio nos seus areais. Também se bebe um vinho qualquer, a acompanhar umas fatias de pão entalando um queijo sofrível. Tudo ao som de uma música da pior nota, como nas estridências dos arraiais.

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A Estrela está num dos seus picos, nem de longe dos mais elevados. (Há-os a furar mesmo o sol...) Com um derradeiro adeus ao paredão da barragem, partimos. A corrida prosseguirá, pois.

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Havemos, no entanto, de descer um pouco, com passagem pela praia fluvial da ribeira da Caniça, na Lapa dos Dinheiros.

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Aliás, de bandeira azul. Água cristalina, fundo pedregoso, espaço respirável. Esteve quase o mergulho, mas indo a tarde já a meio, a meta seguinte implicava um motor com força bastante e tempo para pedalar. Era a Lagoa Comprida.

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E nela se faziam sentir os efeitos do estio. A muralha corrida de ponta a ponta, os fundo à vista, em tantos pontos, quieta e calada, anda pouco por ali o turismo. Mais permanecem os vales glaciares formados na Idade dos Gêlo, dou comigo na torreira de agora imaginando mamutes portugueses

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cavados naqueles antigos congeladores, esquartejados, levados ao micro-ondas, suculentos nacos de carne... Muito ao longe, caminhando para cá, uma sinfonia de badalos em crescente: o o rebalho de cabras, dezenas e dezenas delas, chega enfim, guardam-no cinco cães e um pastor, homem de pouca falas.

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Um bocado adiante, o ponto mais alto da Estrela, a Torre. O cerne dos desportos de inverno, nesta época, um teleférico parado, triste e esquecido, a acesa impressão de uma feira já finda, com pedaços de diversão abandonados.

A visão do descomunal Cântaro Magro, depois, indicava já o início da descida.

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Seguiríamos pelas Penhas de Saúde, já cansados, mesmo esfomeados.

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O destino, essa noite, era a Covilhã. Mas só o mapa do concelho de Seia (onde tínhamos passado o dia), revela muito, muitíssimo mais a andar...

 

Pinhel

João-Afonso Machado, 31.07.21

Foi num fim de tarde afogueado a nossa chegada. Deixada a tralha na residencial, a celeridade do passeio impunha logo, dias longos, a inicial visita. Por isso a demanda, fatalmente subindo. Em terras beirãs é assim... E a primeira marca ficou na Igreja de Santa Maria do Castelo,

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sendo óbvio o nosso - acompanhava-me o meu primogénito, rapaz de passada larga, - rumo a tal fortificação.

A raia tem sempre disto: muralhas, alertas, medos, invasões do passado, acolhimentos do presente. A raia é o mais expressivo lugar da sobrevivência...

Pois assim trepámos. No caminho, o muro rijo de uma casa qualquer, de quintal, onde o leonberger sofria o calor, muito abatido, e o centenário perdigueiro lusitano, seguramente mais idoso do que eu, ladrava, ladrava, resmoneava, sob a minha aposta de bicho afável, assim eu lhe contasse a história dos meus comparsas caninos.

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Hei de confessar, demorei o diálogo na busca de algum parentesco com a minha gente das perdizes... Inutilmente. E assim prosseguimos a arribada.

Alcançado, no vagar da idade, o castelo, duas torres no surpreendem, tal a diferença entre ambas. A mais acima, empreitada de D. Dinis, foi depois reformulada por El-Rei D. Manuel, e o resultado, entre janelas e varandios é bem visivel,

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houvesse, ou não guerra, a pedra bem lavrada estava lá, manuelina, corpo inteiro da nossa identidade nos Descobrimentos. A torre mais abaixo (diz a História, seriam outras quatro ainda), supostamente a decana, está muito penteada pela contemporaneidade que a foi buscar à ruína.

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Terras do Portugal antigo que o Rei Lavrador fixou em Alcanizes, ainda assim longe de uma paz que fica por estabelecer, mormente a sul, em Olivença... E toda esta crónica vai confluir na lenda da "Cidade Falcão" em que a ave de rapina, quis Deus, avisasse a proximidade de tropas invasoras. Sem episódios destes, remato, não há o ser das localidades...

Pinhel tem bom vinho. Olivais e amendoeiras. Bocados de muralhas e belas vistas, alguma relativa modernidade

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sempre de cara levantada. Dispõe da sua rua central, limitada ao trânsito, desgraçadamente movimentada, há lá pouco, e eu sempre ficarei rendido a essa imagem,

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de portas trancadas, velha sem dentes, não sabemos desde quando trancada. Sequer sabemos como, e quando, o marisco chegava a terras de Ribacôa, pronto à devora. Pouco sabemos... Apenas imaginamos... uma vida folgazã, dias de alegria, o Interior repleto de movimento (alcanço Espanha da janela do meu quarto...), e um tempo que sobrevirá. Amén!

 

... e Trancoso também!

João-Afonso Machado, 25.07.21

A medievalidade do castelo nesse dia passou despercebida. Cá em baixo, já fora da muralha, D. Dinis impacienta-se e o seu séquito guarda um respeitoso silêncio. Talvez nem mesmo corresse a brisa, e murchavam as flâmulas e o ânimo dos ginetes. A Princesa de Aragão, D. Isabel, demorava-se e as cerimónias do seu casamento com o nosso monarca tinham sido ajustadas aqui para Trancoso. 

Mas ei-La, enfim, chegando, após arrasadora jornada. Os reais noivos, miram-se, apreciam-se reciprocamente e vão-se conhecendo, como ainda agora na pedra que os perpetua.

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Saindo do seu embaraço, D. Dinis apontaria as Portas d'El-Rei e galantemente cederia a primazia da passagem a D. Isabel de Aragão. Fora do seu mando a construção da fortificação que tempo algum demolirá sem que Portugal não caia também.

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Porque tudo Trancoso guardou na sua alma e tudo transmite aos viajantes. Ali sintonizamos a História e experimentamos os trilhos dos mistérios: a quem pertenceria, afinal, o "Paço Ducal" que, uma década atrás, conheci vivinho e sóbrio, muito alumiado à noite, e hoje se desmorona lentamente, barrote após barrote?

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Entaipado, destelhado, porventura foi seu dono o filipino Marquês de Trancoso, que as páginas dos nossos anais desprezaram...  A vila (hoje cidade) fervilhava de actividade nos seus muros, nas suas vielas, e talvez a comunidade judaica levasse vantagem na mercancia. Bem organizada, respeitada à moda das eras, legou-nos partes do seu bairro, da sua sinagoga, entretanto recuperada e oferecida ao culto dos fieis da Tora, mesmo os que vêm de longe. Lindos arruamentos, floridos das muitas cores das hidranjas, cuidados e estreitos como todos os lugares das gentes que se defendem na discrição.

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Assim se compreende, a, dos nossos dias, Casa do Gato Preto integrasse também o recanto dos hebreus e - qual gato! - na sua fachada, em baixo relevo, ostentasse o leão deles, o leão de Javé.

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Nada ou ninguém, todavia, alcança em Trancoso tanta visibilidade como o sapateiro e poeta, profeta inato, o visionário Gonçalo Annes Bandarra, dito o "Nostradamus português". Uma pena, uma voz, que se adivinham com tantos sentidos interpretativos quanto cavadas nas profundezas da alma sua, expressando-se guturalmente, alegoricamente.

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Também a sua casa, lá nos meandros da judiaria, chegou até nós conservada em museu. Homem da segunda metade de Quinhentos, o Bandarra escreveu afincadamente as suas trovas em que augurava toda a grandeza e eternidade de Portugal. A fonte de inspiração seria o Antigo Testamento, circunstância que lhe valeu umas idas a Lisboa e bastantes dissabores com a Inquisição. Mas a essas mesmas suas trovas muito se agarraram os nossos antepassados, quer durante a Dinastia dos Filipes, quer depois, aquando das invasões napoleónicas. E aqui na vila estanciou, neste último aperto, William Carr Beresford, o Marechal Beresford, e Conde de Trancoso por mercê de D. Maria I (1811). Também a sua residência se guardou para a posteridade,

CASA QUARTEL-GENERAL BERESFORD (WILLIAM CARR BERES

simples e acolhedora, palco quase despercebido das mais graves decisões militares de tão desesperançados dias.

Ando de novo em torno das muralhas. Ficou-me no espírito a lojinha que a anciã, sua dona, ao balcão, não me deixou fotografar: caixas e caixas de botões e de carrinhos de linha, livros alfarrabizados, after-shaves contemporâneos do Bandarra (eu não descanso enquanto não reencontrar, nestes mundos perdidos, um Pitralon...), quinquilharias e, dependurada do tecto, uma placa metálica azul, informando - «Agentes Oficiais do Banco Espírito Santo Comercial de Lisboa». Valha-lhe Deus, não entre a polícia por ali dentro com um mandato de busca, a assustar ainda mais a velhinha.

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A despedida processou-se através das Portas de S. Pedro. O distrito da Guarda reserva-me ainda muitas outras surpresas, certamente.

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E, juraria, à minha frente, a dar-me a comer o seu pó, a real comitiva, de abalada também. Para o longo reinado de um dos nossos mais cultos e previdentes estadistas e da nossa Rainha Santa, aragonesa tão nos sentimentos dos portugueses.

 

Sernancelhe, enfim à luz do dia

João-Afonso Machado, 23.07.21

Cheguei de manhã, pronto a batalhar com o indígena e regicida Aquilino. Para lhe roubar a terra, o coração, de todos os portugueses uma alma pretensiosa, apontando-lhe o ricochete do tiro mesmo no coração desta vila antiga, sede de concelho no distrito de Viseu. A minha arma, - somente a caneta, mais a magia da máquina fotográfica. É pouco. Aquilino escreveu as serranias, o vale do Coa, e as minhas palavras não descem além do vilório granítico. Assim o pelourinho duocentista se me plantou firme, na praça principal - Aquilino esquecido, o malandro, - nas eras eternas em que a voz do povo sempre mandou.

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Em seu redor, o casario dos de lá. Vivo, sempre vivo. Pedras que o Tempo nada deve à História; histórias a quem o tempo deve explicações. Valha o caso da Casa da Comenda de Malta!

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E, digam os compêndios, a nascença do nome, por que amargas margens não reside nele um orgulho, qualquer boaventurança do berço do regicída Aquilino.

(Vivemos, hoje ainda, almas que ele quis profanas de maldade engatilhada em pontaria de assassínio.)

Mesmo a ladear a Matriz, velhinha nascida no século XIV. Os sinais românicos apontam para gerações anteriores. Não importa, reside ali uma realidade sobretemporal, santa, sã e sineira.

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Onde? - as marcas dos castigos, da sobranceria dos poderes, das vergastadas nas costas dos mais fracos? Sernancelhe descansa neste cimo e renova-se onde as gentes vão à fonte. E conversam e livremente explicam a sua terra, o seu devir. Toda a sua crença em amanhã.

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Não, em Sernancelhe nada condiz com o mundo macabro de Aquilino.

Há é muito para reconstruir. Ruínas datadas de quando? Tudo o abandono leva, menos os pétreos esqueletos que a pobreza mais recente deixou ao léu. Há sintomas naqueles arruamentos estreitos a que eu chamaria "esperança".

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Ou, talvez, desconfiança... Transmitiu-me o gato local, posto no que terá sido janela rasgada, grandiosa, esse medo medonho. Os animais são os iniciais presságios dos desastres; e serão, decerto, os últimos a compreeender a bonança.

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Assim a calçada me levou ao morro maior e aos vagos dizeres de uma castelania suposta. Subir o escadório foi uma aposta nos pulmões, apenas onde se circunvizinhavam restos esparsos de muros, muralhas e degraus.

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De uma fortificação - que terá defendido os antepassados de Aquilino e passou ao lado do Malhadinhas. Porquê? - porque a jactância do Mestre viajou até ao Minho, a Romarigães, lugar benigno em que se aconchegou em casa nobre. É sempre assim...

E em Sernancelhe ficava a velha vila, inspiração de males essencialmente políticos. Outrora grandiosa com episódios menos claros, fonte de investigações, quais as passeatas dos malteses por ali? Como queiram, a velha vila lá está, muito alargada, subindo nos andares dos prédios de hoje. Mas na sua paz e no seu sossego.

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Antiga, reservada (sem me querer intrometer nem expropriar), talvez mais dos visitantes do que dos seus nativos que vivem cá em baixo, preguiçosos de ir lá ao cimo.

 

Lugo (Galicia)

João-Afonso Machado, 08.07.21

A maior referência celta na Galiza, eis o que Lugo é. E a sua imensa muralha romana, recomposta e imperial, invoca os idos de Lucus Augusti, nos primórdios da primeira centúria pós Cristo, e os cenários das chamadas Guerras Cantábricas.

Com toda a veneração pela História, a minha atenção, centrou-se todavia, de início, num horizonte de actualidade azul e branca, convidativo e cheio de alegria.

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As cores galegas, as da nossa bandeira de sempre e da ansiosa espera de Vicente, o meu primogénito, após mais de um ano sobre o nosso último encontro! Pregado al suelo no parque da estacion de autobuses, sofri esses instantes, que pareciam não findar, e antecederam o enorme abraço trocado com este recém-chegado da Sérvia e da Bretanha, e não sei de onde mais. Num ápice, a sua tralha no hotel, uma espreitadela na Lugo elegante e actual, com meneios engraçados dos passados Anos Quarenta, tudo num saudável equilíbrio,

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e ala, portugueses, à conquista da muralha. Vencemos-la através da puerta de San Pedro o Toledano, uma das onze em que, ao longo das eras, o baluarte se foi abrindo aos de fora.

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E, logo aí, iamos lendo os recortes do adarve, as suas pedras solidamente assentes, a muralha a prolongar-se por um perímetro de mais de dois quilómetros.

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Um adarve largo onde, se os automóveis subissem escadarias, facilmente circulariam. Fazem-no centenas de peões, turistas ou locais em passeio, num alto que os eleva ao topo das maiores construções luguenses.

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Tudo ante o olhar meditativo, cansado do dia, já pousando no sorver do ocaso à varanda dos residentes no interior da muralha. Afinal, nivelados com os passantes...

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E, no miolo da urbe, a catedral. Imensa, grandiosa. Merecendo destaque em cada pormenor das suas alas, das suas entradas laterais, até mais do que da sua fachada. Lugo, uma das quatro grandes cidades da Região da Galiza, orgulhar-se-á, decerto, deste seu templo, um imediato assessor de Compostela.

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Será dispiciendo mencionar a animação de gentes e comércio na cidade dentro da muralha... Ou a multiplicidade dos seus temas de estudo, da estranha coexistência entre o sobrevivo e a ruína, dos sinais dos séculos que ainda se mantém intactos entre madeiros carcomidos...

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Em boa verdade, tal incompletude transmite bem a mensagem de um caminho sempre a correr, de uma realidade que jamais será perfeita. Lugo milenar, fruto generoso de engenharias sucessivas, é o coração de uma cidade grande e de um sem-número de viagens, consultas, estudos e sonhos... e orgulho de galegos e minhotos, dois em um, por serem as histórias destes povos tão irmãs.

 

Mogadouro

João-Afonso Machado, 02.06.21

Vila pequena, no Interior nordestino, já a dois passos da fronteira. Mogadouro é sede de concelho e o berço de um escritor que aprecio particularmente: Trindade Coelho.

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Terra de dias simples, oscilando entre a torreira do sol e os gelos do Inverno no planalto. É no cimo, no seu castelo, meditando nestas fatalidades climáticas, que vamos dando conta de cães e gatos e alguns idosos, afora os turistas da vizinha Espanha.

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Aliás, uma fortificação a impor respeito. Junto a si, mais recente, a "torre do relógio", - desses sempre pontuais, os do sol, - e a Matriz, um nada abaixo. Aqui, na parte antiga do Mogadouro, urgia almoçarmos, num domingo de quase ninguém. Valeu-nos o tasquinho da Sílvia, algo em vias de se tornar inovador, entre as refeições que ainda não serve e os produtos artesanais que já vende. Assim, às costumeiras sandes preferimos uma lata de feijão-frade e uma salada que a Sílvia de pronto preparou. Depois sentou-se connosco à mesa e foi contando da vida. O meu filho declarou-se interessado no dialecto mirandês e ela, num assomo de severidade, logo corrigiu - Não é dialecto, é língua!

- Filho, a Sílvia é de Miranda... - rosnou este velhote. E era. Mas fora para Oxford - Os ingleses de lá? Uns enfatuados!... - (Os londrinos nem tanto...) Sim, a Sílvia não se vestia exactamente à transmontana. Tinha uns bonitos olhos muito azuis e umas feições a adivinharem-se interessantes, por trás da máscara. Conversámos bastante. Explicou os seus planos neste negócio nascido há quinze dias: ia remodelar todo aquele antigo paradouro dos anciães locais, em busca de um copito de vinho... E, a finalizar, quis tirar uma fotografia comigo. - Uma selfie, Sílvia? Mas eu sou monárquico, não posso, isso é para os presidentes da República... - Tudo se resolveu com os préstimos de uma simpática senhora de passagem por ali. E ficamos os dois muito bem. Na despedida, uma oferta sua, as amêndoas da região, às mãos cheias.

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Os fontenários ainda cumprem o seu serviço no Mogadouro. O pelourinho (deverá datar do reinado de D. Afonso III, quem concedeu foral à terra) alberga conversas vagarosas no sotaque melodioso das gentes daqui, já na idade disso mesmo -  de darem uso ao verbo, por todas as benditas horas.

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E mais no fundo, a Praça Trindade Coelho, com uma amplitude digna deste filho do Mogadouro. Arejada, ostentando o bronze da estátua do literato, e a casa onde nasceu, naturalmente hoje um museu.

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São tudo razões para voltar ao Mogadouro: uma visita à Sílvia (como, de resto, recomendaria Trindade Coelho) e outra ao dito museu. A seguir o rasto desse transmontano que foi para Coimbra, casou ainda estudante, teve um filho e muitas, muitas, dificuldades financeiras, foi jornalista, bacharelou-se em Direito, advogou, mudou para a magistratura, não quis ser deputado (!!!), e acabou tragicamente os seus dias.

Os Meus Amores e In Illo Tempore, as suas obras fundamentais. Esta última, memorial da vida académica coimbrã, começa assim: «No tempo em que eu andava em Coimbra, andava lá também a estudar Direito um rapaz chamado Pássaro. Ele não se chamava Pássaro. Pássaro pusemos-lhe nós porque, além de ser alegre como um pintassilgo e vivo como um pardal, usava o cabelo não sei de que modo, que parecia que lhe punha duas asas atrás das orelhas, e que a cabeça lhe ia a voar!».

Escrita despretenciosa, pitoresca, observadora... Uma delícia!